Julgo que há uma grande diferença, que eu próprio nem sempre consigo discernir, entre o reconhecimento das empatias e os efeitos dos seus supostos desencontros.
A verdade é que a empatia é, em meu ver, uma espécie de desejo abstracto, um local bem escondido, com mapas pouco precisos, mas que no fundo nunca é estático, e passeia-se bem perto dos seus supostos destinatários, ou melhor dizendo, descobridores.
E não se julgue que a inexistência de empatias gera pensamentos muito clarificados na mente de quem as anseia. A verdade é que é complicado fazer com que até mesmo amigos se importem com aquilo que é importante para nós. É uma solidão terrível não conseguir passar essa ideia, ou não conseguir contaminar outrem com aquele gosto ou emotividade dos juízos perante certas coisas. Mais complicado ainda é perceber quanado nem sequer passa a importancia que tais coisas podem ter para o sujeito que as encarna, ou as tenta passar a alguém, como uma espécie de percurso pontilhado para aquilo que é o conhecimento de si mesmo.
Mas ainda assim, o que deve ressaltar é que por vezes não fica muito claro que aquilo que desgosta é precisamente o que digo acima, e não que as pessoas não partilhem gostos ou ideias. O que desgosta é uma certa incapacidade de abarcar parcelas de universos que não os seus, num ecletismo que se calhar é apenas aquilo que de mais precioso temos para dar. E custa, não gera acusação, porque uma coisa é desejar que numa mesma nuvem, diferentes olhos vejam pelo menos efígies semelhantes, e outra é acusar o formato de entendimento diferenciado como cegueira. E sei bem que nem sempre consigo ter este raciocínio, talvez porque como em tantos outros casos, o desejo de universalizar a experiência da Beleza ou Bem supremos sejam tão velhas como qualquer experiência de qualquer forma de amor por qualquer coisa que seja.
Não, não quero de forma alguma que vejam como eu. Que num Rorcharsh vejam as mesmas formas, ou que as mesmas notas causem os mesmos arrepios de pele. Claro que num plano de linguagem e interacção humana, desejo por vezes que pelo menos sintam algo parecido quando contemplam as coisas que me tiram a fala ou geram um sentimento de simples contemplação por algo tão grande, belo ou perfeito. Mas não acho que tenham de ver.
E sim, nem sempre tenho esta ideia tão clara. Por vezes sim, tendo a pensar que muitas pessoas se limitam não porque não vejam o brilho nos objectos das minhas paixões, mas porque sinceramente acho que muita gente não vê brilho em coisa alguma, nem abre o que tenha de si para que tal aconteça. Mas ainda assim, é uma postura que não é facilmente defensável, e tenho uma clara consciência disso. E é então que me calo, silencio, e opto por sair da sala quando esta está em alvoroço. É nessa altura que deixo simplesmente que se discutam outras rotas, e guardo o mapa esfarrapado dos meus tesouros, como qualquer folheto esquecido em cima de uma mesa, porque honesta e realmente, não passará muito disso. E nem tem de passar, como é evidente.
No fundo, trata-se apenas de ir pregar a outra freguesia, e como em qualquer clube, partilhar aquela unanimidade de que falava o Dickens por algumas razões que se explicam, e outras que nem tanto. A empatia é, em certa medida, a simpatia inata e progressiva assente nos juízos estéticos ou éticos que geram paixões que em alguns casos se seguem durante uma vida inteira. É concordar com motivos, e não conseguir explicar todos.
A discórdia é solidão conceptual, e perante essa, fica o silêncio, a educação e apenas água rasa.
E nada mais se pode pedir, ainda que muito se deseje.