ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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quinta-feira, janeiro 24, 2008

As dependências são, como qualquer outra idiossincrasia, uma característica que se evidencia pelo automatismo e facilidade com que toma conta do seu portador. E bem sei que a mais das vezes, e recordo sempre o Marquês de Valmont nisto, a ideia de controlo assenta na perspectiva mais ou menos realista da capacidade que se tem ou não de acalmar a consciência. No entanto, em meu ver, das dependências mais perniciosas que verifico hoje em dia, prende-se com a dependência de conforto. O conforto que assenta no plano, e o plano que por vezes leva um amante de Ferraris a fazer-se valer dos préstimos de um SAAB porque, afinal de contas, há que ir chgando a qualquer lado.
O conforto vicia porque em cada manifestação de vida exterior ao mesmo está um teste. O teste da ida, da finalidade, e sobretudo, do regresso.
Muitas pessoas verificam que existe um caminho, balizado pela sua convicção, ou pela noção de que há qualquer coisa a fazer, um patamar sequencial e repetitivo a seguir. O conforto é a gordura articular que permite esses movimentos que parecem inexoráveis, os quais criam o senso de objectivo atingido. Que diabo, em certos momentos, entrar em casa é a noção mais apaziguadora e segura que existe, e quando chove lá fora, o toque do calor é em si aparente missão de vida. O problema surge quando o sol aparece, quando as sombras que eram dúvidas são afinal objectos que de noite e promessa de respostas nada têm, e as decisões assemelham-se ao estrondo encarcerador deixado por uma ponte que acaba de ruir após a travessia.
A cantada do conforto é tão convincente que sugere a criação de coisas no vazio, faladas ao espelho como confissões rendidas à mais pura e material das verdades.
O conforto condiciona relacionamentos, escolhas, e a desejável inibição de uma úlcera. O conforto é uma dose maciça de Voltaren, bem vistas as coisas, e gera uma dependência selectiva, mas pavloviana. E diga-se em abono da justiça das coisas, que o status quo não trouxe vida fácil ás vacinas para todas estas coisas. O medo é debilitante, mas nem por isso é ilusório ou injustificado, e "as far as arguments go", é convincente ao ponto de instilar uma dúvida. E a dúvida é como uma coceira. A certa altura torna-se insuportável, e o conforto das unhas parece ser tudo.
O resto depois é de fácil implementação, e por isso mesmo, perigoso. Afinal, a mudez forçada das vozes internas é uma forma de apodrecimento da personalidade. Exactamente como uma dependência fará, ao fim de algum tempo. A morte não pressupõe necessariamente o fim de funções orgânicas, mas apenas o fim da percepção da alternâcia entre estados de consciência.
Lili, estás enganada!
No conforto, estar vivo pode é ser o mesmo que estar morto.