ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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quinta-feira, março 12, 2009


O altruísmo deve ser dos conceitos mais mal tratados pelo chamado realismo, e mesmo pela análise psicológica, pelo menos na minha parca experiência. A verdade é que das coisas que leio, das conversas que tenho com as pessoas acerca disso, da experiência que as pessoas têm com a ideia, surgem as mais variadas explicações e reacções.
No entanto há uma que sobressai, e que assenta numa espécie de descrédito pela pureza do conceito.
Em primeiro lugar, o que raio vem a ser a pureza dos conceitos? Julgo que na inevitável interpenetração das ideias, talvez em momento algum se possa falar em pureza de conceitos.
Certo.
Mas tenho dificuldades em entender a razão pela qual toda a gente procura motivos obscuros para o facto de alguém simplesmente ter uma atitude decente ou bondosa para com alguém. Parece que há uma sede qualquer em desmontar a natureza humana e encontrar qualquer espécie de mecanismo de auto-satisfação para explicar qualquer acção tendente a fazer bem ao outro, como se tudo fosse feito com uma espécie de objectivo, ou fossemos todos saídos de uma qualquer cena do "Dubliners".
Não quero com isto dizer que o altruismo não possa ter objectivos. Que diabo, se for para que a pessoa se sinta bem, ou numa linha da perseguição de afectos, há que analisar caso a caso até que ponto é que o conceito é desajustado. Se eu sou altruista para alguém no sentido de que talvez venha a gostar de mim é porque gosto dessa pessoa, e a não ser que alguma esquizofrenia me faça tratá-la ao pontapé depois de "ganho" o afecto, então a conclusão é que me limitei a ser altruista para com alguém de quem gosto. O que me parece, sei lá... normal?
Parece-me mais normal que ser altruista porque há lá alguém em cima a olhar-me com uma espada para ver se me comporto como um bom menino para os outros. Parece-me mais uma clausula contratual. Eu cá prefiro que nasça de um juízo interno, bem pelo bem de fazer bem, e não porque faz parte do pacote da salvação...
Sendo agnóstico, creio que o altruismo existe e é uma criação interna. É um juízo de afecto que nos leva a sairmos de dentro de nós para favorecer ou beneficiar outros. E não é preciso ser missionário em África para se ser altruísta. É algo que pode estar nos mais corriqueiros gestos do dia a dia, na forma como tratamos os outros numa base regular, naquilo que somos capazes de fazer por iniciativa própria só para que alguém passe um bocadinho melhor. Sendo agnóstico, e tendo fé apenas nas partes menos más da natureza humana (com algumas dúvidas acerca de qualquer formato de transcendência, ok...), creio, porque já o experimentei, que há pessoas que simplesmente conseguem não ser, ainda que a espaços, os centros dos seus próprios universos. Que há nos impulsos da sua conduta e pensamento, a capacidade para fazer algo, por mais simples que seja, por alguém. Desde provocar um sorriso sincero a salvar uma vida, há de facto quem sinta esse impulso. O impulso de que há algo mais importante que o próprio, e que o juízo intelectual encontra racionalidade em sair da auto-preservação é a grande fundamentação de esperança como eu a entendo.
Para mim o altruismo existe.
Pura e simplesmente.
Felizmente, digo eu.


quarta-feira, dezembro 17, 2008

Por vezes pede-se às pessoas que tentem definir-se numa palavra. Entre muitas formas parcelares e incompletas (não por culpa delas mas minhas), tenho (também) esta.

AUTODEFINIÇÃO:


quinta-feira, setembro 18, 2008

O ciume é velha questão.
É também vexata quaestio. Desde sempre, acho eu.
Diz a sabedoria popular que, quem são se sente não é filho de boa gente. E que de alguma forma, sermos ciosos do que é '''''''''''''nosso''''''''''''' é sinal de inteligência e até de uma forma diferida de valorar o outro.
Bem, eu cá tenho um ou dois ossos a roer no que diz respeito a essa opinião.
Não é que nunca tenha sentido tal coisa. Há uma espécie de ressentimento perante o estado de coisas, onde a intersecção da pessoa com uma suposta realidade concorrencial(??), normalmente outro indivíduo, causa desconforto. E, como me dizem por vezes, há uma irracionalidade que gerou um sentimento de desgosto, de insegurança perante aquilo que parecia a entrada numa realidade por parte da pessoa, que ao fazê-lo, me excluia de alguma forma.
Mas a verdade é que era mais novo. As coisas surgiam-me um bocadito em bruto, associadas a todo um crescimento assente no que era vox populi relativamente a estas realidades.
No entanto, sempre foi fenómeno raro, e irrita-me supinamente (eheh) que as pessoas qualifiquem a ausência deste instinto, (o ciume associado à posse, a mais das vezes, não parece afastar-se muito de uma espécie de marca no gado), com uma ausência de afeição. Como se a irracionalidade que pode tomar conta de nós relativamente a alguém tivesse de manifestar-se num ressentimento raivoso acerca de uma suposta invasão de espaço.
A verdade é que o sentimento de exclusão em função de um outro alguém gera tristeza, é verdade, mas que diabo, não é a manifestação de um desagrado de proprietário que vai impedir o que quer que seja. Se a pessoa estiver auto-determinada a fazê-lo, fá-lo-á. Além disso, a partir do momento em que tivermos de avisar alguém para se portar bem e ter juizínho, a batalha já está perdida mesmo antes de começar. O condicionamento comportamental do outro não substitui nunca a real percepção de que aquilo que é forçado assemelha-se a um bypass, no qual o coração só bate com ajuda.
Nós somos seres gregários. A panóplia de estímulos é gigantesca, e a determinação do ser passa por uma multiplicidade de interacções, de vivências estreitamente conectas com aquilo que alguém vem fazer à nossa porta, e em que medida ou não acaba por entrar. E se algo nos liga a alguém, é essa ligação que transparece e desmistifica o monstro dos olhos verdes. Se ela se quebrar de alguma forma, não é o sentir que pode estar em causa, mas sim a forma como agimos perante isso. Pessoalmente, creio que a melhor coisa a fazer é deixar a pessoa emersa na sua liberdade. As escolhas que possa fazer terão efeitos, mas assentam na lógica, em meu ver sacra, de que a naturalidade de alguns comportamentos revelará o recorte da pessoa. Daí em diante, surge ou não um mecanismo de aceitação, e esse também deve tudo ao livre-arbítrio.
O ciúme pode ser tão inevitável como o sentimento que supostamente lhe dá origem. Mas a exteriorização, quando se aproxima minimamente da reclamação de posse, ou de um dever-ser, cria duas surpresas, e ambas desagradáveis. A primeira gerada pelo auto-reconhecimento de que o que se deseja que seja ultrapassa o que realmente é, e a segunda que agimos como condicionadores, afogando aquilo que supostamente nos atraiu, enamorou ou encantou na naturalidade da pessoa.
Não é com vinagre que se apanham moscas, lá diz a minha mãe, e neste caso, o ciume sente-se, e de forma inevitável, é um facto, mas pode agir-se relativamente a ele como perante uma amante egoísta e exigente. Ao rendermo-nos, somos devorados e perdemo-nos no primitivo do senso da posse. Ao combatermos, simplesmente aceitando a tristeza que advém, mas sem tentação de "repor o estado de coisas" à força, sabemos que o ciúme se esboroa num desejo que se gostaria que fosse, e na persistência dessa desconexão entre desejo e realidade, embala-se a morte da tal fundamentação do afecto.
O ciúme sempre me surgiu como uma espécie de correctivo diferido.
E posso mostrá-lo, mas nunca, nunca, sob a forma de uma mimetização da minha vontade onde deverá reinar a da outra pessoa.
Se me querem, sabem onde estou. Se tenho de fazer sinal, de corrigir, já não estou lá, porque afinal, não me viam...



quinta-feira, agosto 21, 2008

A pedido de uma amiga repito aqui o seguinte texto.
E a verdade é que não lhe retiro uma vírgula. Creio nele como um religioso comungará, e de alguma forma, aceito que as incompreensões sobre a bestialidade de que sou ocasionalmente feito não colocam de todo a ideia em cheque.
E e será o que me parece.
Como tudo, não passa de uma tentativa.
Porque o melhor que podemos fazer, é o melhor que podemos fazer...
Obrigado, A...
"Sempre achei extremamente difícil contar uma boa história de amor. Talvez porque a natureza contraditória do fenómeno faça com que a sua materialização se deva revestir de especiais cuidados, sob pena de ficar soterrado pelos constrangimentos, e não elevado pela intensidade daquilo que o torna (perigosamente) único.
Também considero que o amor é um “transmorfo” subjectivo. Cada hóspede da sua influência cria um universo próprio para o poder vivenciar, e as manifestações alteram-se consoante a capacidade do seu portador. É como um vírus (a maior parte das vezes benigno, mas nem sempre) cujas mutações correm pelo contorno do seu portador, chegando mesmo a transformá-lo.

Recordo aquele texto que andou a circular na internet, do MEC (A Causa das Coisas continua a ser, para mim, a referência. A crónica "Almoços" é a melhor e mais hilariante crónica que alguma vez li na vida), a propósito do chamado "Elogio do Amor Puro". Entendendo a posição do senhor (e o texto é de facto belo), mas não posso deixar de discordar com algumas coisas, que foram defendidas e assumidas como máxima de vida por uma carrada de gente, começando logo pela designação "Amor puro".
Não sei o que significa. Que vem a ser amor puro? Pureza num conceito tão contraditório, violento e caótico como este parece-me quase como colocar uma tiara de fada na cabeça da MAE WEST. Não joga. Quanto muito existe um destilar da capacidade de querer, a qual torna o sentimento tão afiado e intenso que corta tudo à sua passagem, mas não há nada de puro, nada de cândido ou limpinho. Amor é sangue e pele debaixo das unhas, e transmuta-se como uma segunda pele, adaptando-se ao tamanho e ritmo dos corações. Quando estes se partem, a tal pele estala, e como diz o outro, o vento acaba por levar tudo. O amor é sim o mais contaminado de todos os sentimentos, julgo eu.
Depois elogiar o amor sem razão alguma, aleatório, estúpido, cego e doente, mais parece uma ronda de tiro aos patos. Mas que merda de mania esta de achar que os mais elevados e poderosos sentimentos humanos se caracterizam por uma total ausência de relação "causa-efeito", ainda que seja parcial! Será assim tão nobre e bonito olhar para alguém e, assim do nada, deixar de ter capacidade de “empatizar” seja com o que for porque a suposta rajada aleatória do amor varre tudo à sua passagem? Será que a ideia do valor intrínseco da pessoa, daquilo que nos encanta na sua capacidade de comunicar, de ser, de se mexer, de problematizar, de fazer rir, de deixar sair as contradições que a fazem humana, são meros detalhes despiciendos, perante a tal grandeza da estupidez linda do suposto amor de origem desconhecida? A mim parece-me terrível que algo tão importante como o amor possa ser definido como uma indeterminação arbitrária, onde aquilo que sou como pessoa é simplesmente dispensável, perante o grande mistério totalitarista do amor que não se sabe de onde vem.

Tenham paciência...

Existe, obviamente, mistério no Amor. Porque entre dezenas ou centenas de pessoas que conhecemos, muitas delas com charme, encanto, inteligência, beleza, só muito poucas nos fazem suar com a antecipação do toque. É esta espécie de triagem que constitui o mistério, por uma combinação de coisas cuja matriz desconhecemos, e que nos retira o peso do corpo ao descobri-la. Mas que diabo, o substrato está lá. Há algo que reconhecemos como fundamento parcial daquele ser humano que nos encanta. Olhamo-lo, ouvimo-lo, cheiramo-lo e sabemos que lá está algo que tem coincidência com os nossos pontos de aceitação, com juízos estéticos, éticos, emocionais, e mesmo aquilo que nos irrita compõe o ramalhete. Aceitar a total falta de fundamentação, é, em meu modesto ver, reduzir a pessoa e o próprio amor a uma espécie de esoterismo dogmático, e o amor tem para mim muito pouco de religioso ou de "é assim porque é e o que é que a malta há-de fazer." (E sou tão sensível ao maravilhoso final do "The Dead" do Joyce como qualquer romântico inveterado.)

Se a beleza do amor é a falta de comunicação, a casmurrice, a ansiedade, os gritos, a falta de um mínimo de lógica e senso, as tragédias gregas, e se só isto significa esse algo que entra por nós a dentro e nos desequilibra, nos faz melhores, mais completos e mais vivos, então eu estou mesmo morto e não recebi o aviso lá em casa. Escandaleira, possessividade paranóica e drama não é amor, mas apenas uma forma de exercer poder sobre alguém.

Amor real, para mim, traduz-se em sentirmos que, por causa de alguém, somos muito melhores do que éramos, mais capazes, mais completos, e sobretudo, diferentes. Diferentes porque maiores, porque algo transforma as realidades, que parecem sempre iguais, em algo para o qual existem fundamentos, mas raramente uma explicação cabal.
Amor é perdermo-nos no que somos, e no que alguém é. É perceber que o coração pode partir-se e esse risco pode transformar-se num abandono à realidade que se vê sem cores ou formatos. Amor não é um tom pardacento ou misturado no completo desconhecimento. É passar do cinzento ao vermelho, e viver as gradações como se caíssemos de uma falésia, mas nunca em total desconhecimento.

Amor não é puro.

É justamente o contrário.
O amor é a mais notável forma de contaminação.

As boas histórias (acerca dele) são feitas de perguntas, de descobertas e sobretudo, de reconhecimentos inauditos, braço dado com as novidades de quem levou aquilo que era um pouco mais longe no nosso reconhecimento.

(E, claro está, é também um aroma corporal de fazer dobrar os joelhos e transpirar sem calor...)"

segunda-feira, abril 07, 2008

I tend to be a "whatever-makes-you-happy-kind-of-a-guy"...

Hank Moody - "Californicaton"

quarta-feira, março 26, 2008

As escolhas em torno do amor e da auto-identificação não são nem bonitas, nem fáceis. Não são epifanias, nem colares de flores conceptuais que fariam qualquer flatulência desaparecer num aroma mítico capaz de colocar costureiros famosos em guerra aberta pela fórmula. Não são instantes em que o mundo pára, ou nos quais os contornos da nossa personalidade se abrem como um mapa perfeitamente claro à prova de perguntas idiotas a autóctones que, como eu, nunca sabem a merda dos nomes das ruas dos locais onde moram. Não são flashes de sorte milenar assim qualficados por uma capacidade aturdida de julgar que o mundo parou ali para nos dar uma visão da simplicidade de todas as explicações de encaixe.
São apenas verdades, plenas de tudo o que as caracteriza, com a força de algo cuja identificação conceptual é impassível de debate subjectivo. São o que são, com a puta da dimensão que possuem, e levam tudo à frente.
O amor é muitas vezes é uma guerra fraticida entre aparentes siameses fundidos numa só esquizofrenia feita de tempo, vivência e confusão que tempo algum parece mascarar.
E no entanto, lá vamos nós. Vivos. Temos de ver e ouvir, pelo menos, e viva o velho, que sorte teremos se for só isso que a laranja mecânica em forma de coração nos permitir ver.
Mas que merda esta da beleza real da pureza de alguns conceitos.
Porra.

quinta-feira, março 13, 2008

"Aqueles" Amigos não são sobrevivência. São vida, e daí a sua raridade.
Constância ou não, omnipresença ou ausência frequente, são o sustentáculo de uma escolha que tem de se fazer. Alguma dedicação às pessoas é difícil, exige trabalho e uma grande capacidade e persistência. Exige uma crença simples, um gosto por gostar e é muitas vezes esta a particularidade mais difícil de manter verificável ou operacional. O desejo talvez se mantenha, mas a paciência morre e com ela a capacidade de agir. O marasmo é uma espécie de fatiota semi-colorida de normalidade, e cedo ou tarde, insuportável.

Essas pessoas, de quem nós gostamos, às quais temos alguma capacidade de dizer isso mesmo, (e cuja cortesia nos é efectivamente retribuída), são afinal o produto de uma escolha extremamente simples. Existem quando os temos e quando sentimos a sua falta. Não nos dão escolha e só os podemos ignorar até um certo ponto. São perigosos. São inconstantes. São necessários. São vida. Quando desaparecem, prenunciam algumas mortes emocionais enquanto metafóricas. Quando estão, são quase tudo o que resta.