ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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quinta-feira, março 27, 2008

A propósito de algo que vi no outro dia, há uma perplexidade que nunca consegui afastar do meu reservatório de dúvidas existenciais onde ocasionalmente, por alturas de auto-análises menos benevolentes (que são muitas), acabo por ir beber.
Porque raio têm tantas mulheres a mania da queca de despedida, a última troca, o adeus carnal, whatever?
Sinceramente parece-me algo saído de uma outra coisa que também me faz confusão, como os velórios de caixão aberto. E antes que a ala moderada me lance calhaus lá do alto, a verdade é que aquilo que pode ser entendido perfeitamente como um último adeus ou uma relutância religiosamente direccionada em deixar alguém ir pareceu-me sempre um prolongamento excruciante de uma dor que já suficientemente grande e infelizmente, de certa maneira, sempiterna.
A queca de despedida, (e peço desculpa pelos termos menos próprios quando se fala de algo que para muitas mulheres me parece uma tentativa de dar algum sentido ao que já o perdeu ou colocar um laçarote cor-de-rosa em cima de algo que definitvamente já não disfarça o cheiro a podre), está nessa linha. É o prolongamento do que por vezes são agonias intensas de separação, de dúvidas acerca de decisões que a frio parecem claras como água mas no turbilhão da água a ferver mais parece o ataque de mil piranhas com fatos térmicos.
A queca de despedida é uma espécie de ilusão moribunda à qual se dá uma carrada de medicamentos paliativos, desenhando em papel que arde uma espécie de diagrama tosco do que antes era matéria e substancia e não um rabisco de destino que acabou por ir às urtigas.
A queca de despedida surge como uma tentativa de ir com uma boa recordação no saco, mas o que se leva é uma espécie de ataque da manada (será este o substantivo) de porcos espinhos com um caso sério de raiva. A intenção surge como o desejo de que o último momento se pareça com algo que define os contornos do que ficou afinal para trás, mas sinceramente, sempre me pareceu a glorificação de uma fraqueza perfeitamente natural, porque humana, mas à qual se dá uma dimensão supostamente decente e especial, quando afinal não passa de uma brincadeira, por vezes cruel, com carvão já quase ardido de umj lado, e não raras vezes incandescente do outro.
A queca de despedida pode ser, no fundo, profundamente injusta, porque pode assentar num pedido que uma das partes não está em estado de recusar, o que muitas vezes é o que deveria fazer.
De todo em todo parece-me algo de uma natureza cruel, inútil, e sinceramente, não entendo essa psicose na qual tudo tem de ficar num suposto bom termo, quando afinal de contas o que fica é a tristeza do pós sexo e para alguns a irrecuperabilidade de um amor que já morreu, ou que simplesmente não voltará. Parece-me um espancamento adicional ao invisual, para ser um bocadito menos clichê.
Seja como for, não entendo.

quarta-feira, junho 06, 2007

Quando os ciclos se completam e a linha curva que os fecha irrompe como uma bolha se sabão, criando novas realidades, a mudança do status quo aparece como uma inevitabilidade sempre com algo de dor à mistura.
Não será, na maioria dos casos, uma dor grave, mas mais um sentido de proximidade e relativa pertença que se perde, ou esboroa, perante a criação da distância pragmática necessária.
Ao longo do tempo, algumas das pessoas que fazem parte do nosso quotidiano afastam-se. Levadas pelo trabalho ou por mudanças de vida estruturais, deixam-nos sem a recorrência da sua voz, do seu contributo, dos pequenos mundos criados pela sua presença. São eventos naturais, até comuns, mas que descobrem sempre o lado menos luminoso das necessárias mudanças de qualquer percurso de vida.
Felizmente, em muitos casos, as mudanças são para melhor, o que nos deixa mais aliviados relativamente a essas pessoas. Rigozijamo-nos porque a alteração traz algo mais, algo melhor, algo de sentido de evolução.
Mas fica sempre esta ideia. A ideia de um lugar mais vazio pela ausência daqueles que o fizeram reconhecível e pertencente a algo partilhado.
Bonne chance!


sexta-feira, março 23, 2007



"Walk away

Oh no
Here comes that sun again
That means another day
Without you my friend

And it hurts me
To look into the mirror at myself
And it hurts even more
To have to be with somebody else

And its so hard to do
And so easy to say
But sometimes
Sometimes you just have to walk away
Walk away

With so many people
To love in my life
Why do I worry
About one
But you put the happy
In my ness
You put the good times
Into my fun
And its so hard to do
And so easy to say
But sometimes
Sometimes you just have to walk away
Walk away
And head for the door

Weve tried the goodbye
So many days
We walk in the same direction
So that we could never stray
They say if you love somebody
Than you have got to set them free
But I would rather be locked to you
Than live in this pain and misery
They say time will
Make all this go away
But its time that has taken my tomorrows
And turned them into yesterdays
And once again that rising sun
Is dropping on down
And once again you my friend
Are nowhere to be found
And its so hard to do
And so easy to say
But sometimes
Sometimes you just have to walk away
Walk away
And head for the door
You just walk away
Walk away"

Ben Harper







Temos de ser justos e concluir que a memória nem sempre é madrasta.
Volta e meia faz-nos pensar, (isto na sequência de uma conversa que tive com uma pessoa amiga há já algum tempo) acerca de despedidas, das feridas pós-guerra, dos armistícios, e principalmente dos despojos do dia (que me desculpe o Ivory e o Ishiguro ).
Quando a serenidade regressa, quando a mente e a memória conseguem colocar as coisas nos seus devidos lugares, quando a objectividade nos dá a perspectiva, alguns fenómenos tornam-se mais fáceis de entender, e outros permanecem no domínio da perplexidade.
Existem vários fenómenos no âmbito da separação entre pessoas que nunca entendi. Comportamentos que as pessoas designam de normais, de consequenciais, e que a mim me dão uma urticária do cacete. São, a mais das vezes, conveniências sociais, defendidas entre dentes quando o discurso do politicamente correcto cessa, como um código subterrâneo de conveniência e propriedade.
Vejamos um a um:
a) A impossibilidade do contacto ou da amizade por:
  • Razões de ciumeira da (nova) contraparte. Acho que o bom senso ditará que talvez não seja muito recomendável que as pessoas se aproximem muito quando os fumos da empatia ainda não se desvaneceram. É procurar sarilho, porque não é num mês ou dois que o cheiro da pele e o som da voz são varridos do quartel general emocional. Mas que diabo, passado algum tempo, evitar ou simplesmente não ter uma amizade com quem partilhou tantas coisas da nossa vida é absurdo e inexplicável. Se é imposição da outra cara metade, é insegurança, e como tal, ronda o desrespeito porque é colocar uma suspeição em cima da pessoa. Se é pelo próprio, é ainda menos explicável, porque, lá está, uma vez esquecidos os despojos desses dias, a pessoa que nos tocou é a mesma, e as qualidades que nela estimávamos não se esfumaram. Isso não é virar uma página, mas sim envolver de escuridão algo que, a bem ou a mal, nunca deve ser esquecido. (Claro que estou a falar de situações em que a separação não é demasiado acintosa ou mesmo violenta, situações nas quais ao amor que existia se substituiu um ódio ou desprezo mútuo, but that goes without saying, i guess).
  • Razões que se prendem com orgulho. Com questões ligadas a um qualquer receio idiota de subjugação perante o outro. Mas não podemos ser amigos dos que outrora foram amores? Onde raios é que vem escrita essa porra dessa regra? Deve ser no mesmo manual que diz que os enamorados têm de ter palas nos olhos e não ver o mundo à volta, ou que quem já nos viu nus, continua a ver, não obstante o que se passe. Lamento, é uma opinião, e vale o que vale, mas não encontro sentido em coisas que tais.
b) Há quem julgue que a manutenção da distância é manutenção do status quo de alternância necessária e drástica. Ou fodemos, ou nem nos vemos, ou beijo-te na boca ou não te beijo de forma alguma, ou és meu, ou não existes. É uma lógica que me ultrapassa, porque a unidimensionalidade sempre foi coisa que me fez confusão. É quase como reduzir uma pessoa a uma função, e isso roça perigosamente a instrumentalidade e a falta de respeito pela integralidade da pessoa. Por vezes, como diz a canção, temos de ir. Não há outra forma, outra solução, outra saída. Esta música tem o ferrete da memória, e significa muito daquilo que é designado como a aceitação da capacidade de mudança. Nenhum destes fenómenos deixa alguma vez de ser marcante, mas se a mágoa passa, e se não há razão para extinguir todo e qualquer contacto, haverá razão para desaparecimento?
Na minha forma de ver, não.
As despedidas definitivas só se eternizam se a mutualidade dos sentimentos não existir. Aceitam-se se ainda houver algo que só queime de um lado, porque como disse aqui há uns meses, também não entendo o masoquismo. Mas se nada disso ocorre, se não há desejo pelo meio, tudo o resto não pode ser apagado, seja por imposição externa ou interna. Pelo menos não devia ser assim.
Também já me separei de pessoas que nunca mais vi, mas é uma raridade. E a separação foi feita em meio a incompatibilidade e animosidade considerável. O que via nessas pessoas deixei de ver, e quando a máscara caiu, revelou-se uma aversão mesmo conceptual, e a pessoa deixou de interessar no seu todo, e não apenas na parte da convergência amorosa/sexual.
Para mim as pessoas sempre foram um todo.
E talvez por isso se explique que nunca as quis realmente possuir.
Porque aquelas que foram continuam a ser com certeza aquilo que eram, mais ou menos evoluidas, ainda que a paixão ou amor de outrora seja como um daguerreótipo. Datado doutro tempo, mas ainda assim belo e importante no que é um caminho que nos leva até onde estamos.
E se alguém alguma vez conseguiu chegar a um amante ou amor sem passar pelo amigo, que me conte como é.
Como nunca o fiz, não consigo atender como o caminho inverso se torna impossível.
Por vezes é mesmo preciso ir.
Mas talvez o mais enquadrável seja mudar de perspectiva, de posição.
Só desaparece completamente quem nunca existiu de facto.
Parece-me.
Mas isso sou eu.