ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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quinta-feira, julho 10, 2008


Uma história em dez partes, dez mentes, dez visões.
Este é o link para o regulamento, - http://vitaminay.blogspot.com/2008/05/desafio.html - e conforme o estipulado, eis a minha contribuição, com muitos agradecimentos pelo voto de confiança dado pela excelsa Helena. :)
Aquela manhã de nevoeiro disperso estava a acordar aos poucos. Tal como aqueles olhos que iam abrindo de mansinho, a medo, e ficaram focados na janela gigante que dava para a praceta onde permanecia uma estátua de um qualquer marquês. Pôs-se de joelhos, com as mãos amarradas atrás das costas, e levantou um pouco a cabeça. Torceu todo o corpo para a esquerda e só então conseguiu lembrar-se do que tinha acontecido. (ÿpslon, vitaminaY)
A memória chegava-lhe em imagens difusas, ele sabia que situação onde se encontrava era mais do que uma manhã embaraçosa depois de uma noite que não quis passar sozinho. a cada expiração, a dor lembra-lhe da posição do seu corpo contorcido... os olhos a custo procuravam alguma familiaridade naquele quarto-jaula, param no preciso instante em que o pé toca em algo, foca uma mulher, Leonor, uma imagem difusa da noite anterior, também atada, contorcida, de olhos fechados, a começar a murmurar repetidamente…- “como fomos capazes…como fomos capazes…”(indigente andrajoso, indigente andrajoso)
As lágrimas não demoraram a jorrar-lhe dos olhos. a disposição de todos os objectos naquele quarto fazia prova do caos da noite anterior: o cinzeiro que não chegava para tantas beatas, as lâminas de barbear usadas e dispostas numa fila metodicamente organizada, os restos do sangue debaixo do abajour carcomido pelo cortejo de lâmpadas acesas nos últimos dias. Ele tentava aligeirar o nó que feria os seus pulsos em vão e as cordas marcavam cada vez mais as veias onde o sangue corria descontroladamente. Cheio de culpa e náuseas, ele não conseguia parar de imaginar como seria possuí-la neste cenário desolador. Uma e mais outra vez.(M., borboletas na barriga)
Foi a última imagem nítida que teve. Se à nitidez, como ao branco para os esquimós, se podem atribuir inúmeras tonalidades, aquela com que se via a tomar de assalto o corpo quase sem vida que se punha a jeito pela proximidade serviu perfeitamente de passagem para o espaço onde nos entretemos enquanto estamos no vai não vai para ir fazer companhia a morfeu. Esse espaço em que o inconsciente começa a tomar conta da vida regrada e, durante umas horas, nos permite o voo livre, foi onde tudo começou a ficar mais claro. O zapping mental que o assolou, os fotogramas em flashes acelerados temperados com a sensação típica da maceração dos vapores alcoólicos e químicos que ainda lhe inundavam a maior parte do cérebro, conduziu-o a uma inesperada epifania. "preciso de sair já daqui"- pensou. não teve tempo de equacionar a fuga. Com um som estridente de grilhões, abriu-se a porta do quarto...(jc, numb)
..., e conseguiu vislumbrar uma sombra. Parecia tenebrosa. Por outro lado, medonhamente familiar. Conseguindo ultrapassar a dificuldade de focar em contraluz, apercebe-se e grita arregalando os olhos em pedido de auxílio e susto:- Pai! - gritou ele, visivelmente assustado e esmagado com o tráfico de flashbacks que estavam a vir à memória, sentido ter cometido o erro fatal, sem se lembrar concretamente a razão de estar ali no meio daquele turbilhão de recordações rápidas.- Pai, as correntes não! Por favor, pai! Não, pai! - entre gritos casados com expulsão trágica de cuspo descontrolado no discurso de misericórdia de quem sente o maior aperto da vida - Pai, eu não queria ter estado com a Leonor, pai - justifica-se ele, num tom de claro desespero, acompanhado de início de choro, a decorrer para a compulsividade.- Eu não sei o que fazer mais de ti, meu filho..., filho?! - suspirando o homem forte e alto, demonstrando uma calvíce digna dos 54 anos - nem isso te posso chamar. Por isso trago-te aqui alguém que não sabes quem é, mas que te conhece muito bem.(Amélia, Bichísses em Sério)
Queria não olhar para aquela figura que tinha assomado à porta. Não queria crer que o meu pai a tinha trazido até ali.- Não! Ela não! – murmurava entre soluços sentidos e sofridos, fruto da agonia ímpar que estava a sentir .-Ela nunca me quis! Porquê agora?- Sussurava segurando a cabeça com as mãos.Os dedos crispados arrancavam pequenos fios de cabelo, de onde escorriam gotas de um suor inundado pelo sofrimento.Tudo era irreal à sua volta, a insanidade tomava conta do seu ser. Contorcia-se na tentativa de se libertar daquele estado de impotência máxima, em que os seus movimentos eram tolhidos pela cordas que o aprisionavam violentamente.-Leonor! Não me deixes aqui sozinho! – balbuciava enquanto olhava para o corpo inerte que jazia ao seu lado.De repente um som estridente chamou-o à realidade, e um grito saíu-lhe da garganta, seca e dilacerada pela dor:- Cobardes! (Ju, ascoisasqueuacho)
… Sempre foste um cobardolas! Olha para mim! Olha-me nos olhos, meu cabrão de merda! Foi para isto? Responde-me, foi para isto?, vociferava Luís, cujos olhos raiados de revolta enfrentavam, agora, os de seu pai. Este, impávido, fechou silenciosamente a porta deixando quem houvera trazido dentro daquele quarto… (M&M, A Amante do Sr. Eng.º)
Nao era a sua mae. Ela havia morrido ha muitos anos, quando ele ainda era pequeno. Esteve muito tempo doente. Sem nunca se saber o porque. Seria da falta de amor? Seria da pancada que levava daquele com quem se casara? Seria profunda tristeza? Quem o pai trouxera era a avo. Aquela de quem Luis tanto gostara mas que preferira sempre olhar para o lado. De certa forma, ela abandonara-o e Luis nunca se sentira confortavel com isso. - Leva-a daqui! Ela e nojenta! - gritava Luis com uma forca vinda das entranhas. - Eu disse-te que ele nao me ia querer aqui - disse aquela mulher alta, pintada, de cabelo grisalho longo, apanhado - Vamos embora daqui. Eu nao mereco isto.(Angelo, Angelo no pais das maravilhas)
Acordou lavado num suor que lhe colava o corpo aos lençóis brancos, e percebeu que tudo não passara de um pesadelo. Um pesadelo ridículo e sem fundamento como tantos que tinha tido quando era criança.Olhou-se ao espelho, e ali na penumbra, podia jurar que tinha visto o rapaz do espelho esticar o braço, tocar-lhe no ombro e dizer em tom condescendente – “és sempre o mesmo!”Se o contasse, iam julgá-lo louco!Definitivamente não era um assunto a falar com a Leonor.A Leonor?Lembrou-se de repente do papel que tinha encontrado na tarde anterior, que era amarelo e tinha anotações escritas à pressa pela letra dela. Anotações com horários de partidas e chegadas, e até com alguns preços.Agora que caía em si pensava que realmente Leonor tinha partido, e que não tinha havido sequer oportunidade para uma despedida.Para onde teria ela ido? (Helena - http://rosa-rosae-rosarum.blogspot.com/2008_06_01_archive.html )
A Leonor era uma combinação de morte. Morte de medos, de cautelas, de bom senso, de tudo quanto significasse equilíbrio para o objecto de desejo que ela escolhesse. A Leonor tinha dentes, eles mordiam e as chagas resultantes eram explicadas com uma sinceridade tão desarmante quanto afiada. A Leonor não queria saber, ou queria saber quando queria. Falava de liberdade e exalava esse perfume mesmo quando os abraços eram nus. Era como tocar no num cheiro trazido pelo vento. E foi assim que ela desapareceu. Envolta na mesma lógica de sonho desconfortável, simplesmente foi. Foi na naturalidade que a caracterizava, como o sabor a excitação depois de um sonho vívido, quase como que deixando saudades de algo que provavelmente nunca existiu. (Stephen King - http://estacoesdiferentes.blogspot.com )
E assim finda a experiência "decapartida".
Obrigado pela oportunidade!
E uma vez que me foi pedido, dou-lhe o seguinte Título - "Despertares..."