A natureza dos diários pessoais, sejam eles de que espécie forem, resume-se sempre a um encontro com coisas que desejamos externalizar, mas num monólogo recoberto com o anonimato possível.
Como qualquer outra forma de expressão, um blog, como o meu, e perante a idade que já tem, torna-se um receptáculo da própria pessoa, que ao ler-se, relembra as coisas mais ou menos certas que disse sobre alguma coisa, em certo dia.
Tenho andado afastado do meu diário porque a sua natureza esgotou-me, e porque farto da minha narrativa própria, lancei-me na imaginação de outras. Nestas sinto-me mais à vontade, enquanto inventor mentiroso, de boas ou más intenções, lançando pessoas que não existem de encontro a vivências que nem sei de onde vêm, deixando assim o meu diário ao sabor das suas ausências.
Mas seria ainda mais mentiroso, pelo menos mentiroso da má espécie (se é que existe uma boa), se dissesse que a exteriorização do meu quotidiano, (das coisas que afinal de contas estão apenas reduzidas à insignificancia da minha própria vida), não me estivesse a fazer falta.
Talvez porque escreva na lúcida perspectiva de que não tenho outra escolha. Talvez porque, como qualquer pulsão, ela possa surgir acerca de coisa alguma, ou ser afinal o produto de muitas coisas que nunca conseguirei explicar devidamente.
Mas é também o encontro com as pessoas que provoca o desabar da porta ou o estilhaçar da fechadura do diário.
E é por causa delas que a pulsão da escrita não obedece a critério algum de exactidão nos seus fundamentos, mas de escrita porque sim.
Acho que estão (re)abertas as hostilidades.
Acho...