Reflexão acerca da tendência política
(Mais um post um bocado grande e secante. Siga por sua própria conta e risco ou ouça a música que por aqui anda espalhada noutros sítios. De qualquer forma grato pela visita.)
Se formos a pensar que na lógica de conforto em que alguns conseguem viver, pelo simples facto de não terem de lutar por beber um copo de água e poderem até escrever umas linhas num blog, é complicado concluir por críticas directas a um estado de coisas como o nosso.
Mas a verdade é que a indignação e o esforço de contestação intelectual e cívica não pode nunca ser considerado uma manutenção na zona de conforto, até porque, relatividade à parte, cada dia parece tornar-se mais complicado para a manutenção da sociedade equilibrada. E é aqui que ressaltam as tendências políticas, que não partidárias, onde o conforto nos permite pensar e teorizar e sobretudo, identificar sentidos.
O meu problema com alguma da malta de direita, já que sou apartidário mas de coração, argumentos e convicções puxados a uma esquerda moderada, é a sua pretensa superioridade moral e argumentativa e a forma sobranceira como apresentam as sus discordâncias. Em última instância fazem lembrar os críticos de cinema do Público e do Expresso, que enrolados no seu hermetismo discursivo, qualificam indirectamente de idiotas todos aqueles que discordam das suas análises. E posturas de direita não são personalidades, são atitudes perante um contexto concreto. José Sócrates é tudo menos socialista, e isso é inegável, que diabo...
Vejamos alguns exemplos que a direita (e conservadores) tem apresentando no plano de visibilidade internacional:
O que anda a fazer o presidente do banco mundial, "indigitado" por Bush, que acabou com a festa de Natal dos funcionários da instituição, provavelmente por critérios de poupança, mas colocou a namorada a receber um salário de 150 mil euros, mais 5 mil que a Condoleezza Rice? E abstenho-me de comentar mais esta vergonha associada ao principal arquitecto da mais ilegítima invasão dos últimos tempos da história mundial.
O que anda a direita nacional a fazer, onde o presidente do seu partido mais representativo é um pobre pateta, achincalhado por todos e mais alguns dentro do seu próprio partido (veja-se a ultima de Meneses relativamente ao escândalo da CML), e onde a sua ala política mais radical é liderada por um populista sem qualquer senso de vergonha, que volta quando a tempestade já amainou e o seu fracasso eleitoral já repousa na curta memória pública?
Que dizer da câmara Municipal de Lisboa? Como dizia o meu querido irmão, uma coisa é fazer esquemas com órgãos camarários, mas colocar o próprio nome em acordos insidiosos? Se já não há desculpa para ser corrupto, muito menos há para ser parvo, porque já lá dizia um amigo meu brasileiro, feio é roubar e não poder carregar.
Que andou a direita a fazer em Itália, onde os escândalos com corrupção são tão notórios que o deposto Berlusconi já parece uma daquelas caricaturas "orwellianas" que fazem rir e assustam ao mesmo tempo?
Mas a verdade é que os comentadores de direita que leio e conheço olham para estas situações com o distanciamento sobranceiro de quem tem um quintal limpo mesmo que ao lado haja ervas daninhas do tamanho de árvores. Vasco Rato ou Pacheco Pereira nunca mais alardearam em praça pública a existência das ADM no médio oriente, e este é somente um exemplo. Mas como diria o segundo, "essa já não é a questão essencial".
E apenas a título de exemplo, a vergonha que nos manchou a todos aquando do genocídio no Rwanda, pode voltar a marcar-nos com o que se passa em Darfur, e para variar, o mundo assobia, olha para o outro lado, e espera que os miúdos que brincam com facas acabem a briga e retornem as suas casas descansadamente. E gostaria de saber o que pensam os homens e mulheres de direita que acharam necessária a intervenção no Iraque por questões de segurança e direitos humanos relativamente a esta situação. Bem sei que não há petróleo ou qualquer outro recurso natural, mas qual a desculpa para a inércia da comunidade internacional, em especial para os polícias do mundo? Não devem tomar conta da ocorrência de tudo?
A razão pela qual sou moderadamente de esquerda acaba por ser espelhada em convicção e noção do que deve ser o papel da sociedade para com os seus membros. Uma sociedade de progressão, integração, de melhoria e conhecimento, e nunca de sectarização entre uns e outros, nunca por castas que ao contrário do reconhecimento pelo mérito (tivemos a Celeste Cardona na justiça e o Santana Lopes como PM, e em termos de mérito não se pode descer muito mais que isso...) verificam esse sectarismo por recurso a critérios de competição a todo o custo, quando deveria existir educação a todo o custo. ~
Sim, sou partidário da oferenda da cana de pesca e não do peixe, mas se a única coisa que me proporcionarem for um rio sem cardumes, o oroboro demonstra-se. Sou a favor da obtenção de resultados, mas sempre com a criação de oportunidades para os atingir, e o livre arbítrio para os poder seguir ou não, com uma educação que conduza a essa capacidade de obtenção. Sou completamente contra a lógica dos melhores e dos piores sem que estes possam alguma vez ter a a oportunidade de lançar a linha ao rio com peixe, e se lhes exija que capturem a refeição num lago de água estagnada.
É por isso que sou de esquerda.
Porque afinal de contas, somos sempre, e primeiro que tudo, pessoas. E se não for isso que perseguimos como teleologia apriorística do contrato social, então para que serve? Acaba apenas por ser uma refinada forma de selvajaria que alguns defendem até que finalmente lhes bata à porta. E isto não é demagogia. É apenas consciência de que as regras são para cumprir e que a razoabilidade na defesa dos direitos e dignidades é insofismável.
Só isso.
P.S. - Antecipando os comentários que teria se este fosse um blog visível, obviamente que este tipo de situações também acontece no outro lado da barricada. Veja-se a palhaçada da licenciatura do PM, a consequente tentativa de saneamento de conteúdos jornalísticos, a pessimamente explicada situação do novo aeroporto da Ota, entre outras coisas. A tristeza não conhece facções, infelizmente....