
Foto by YU
A Mão que indica o Pólo Sul
Como qualquer forma de acrimónia que anda de mãos dadas com o magnetismo, o sexo gera muitos subtemas, que em bom rigor, servirão em muitos casos para extrapolar a discussão para os (des) entendimentos. E entre géneros, eles são fartos.
A propósito de uma conversa em corrente de mail, a qual, lamentavelmente, até deu pouco feedback para o que se estaria à espera, falava-se do empurrão """"subtil"""" do homem à cabeça mais ou menos arisca da moça que partilhe nudez e fluidos com eles em dada ocasião.
Falava-se, como já se falou tantas vezes, da relutância em sentir a mão "condutora", e a lógica de escolha e à-vontade que daí advém.
Bem, até aí, é pacífico. A malta faz o que quer, como quer, e a consensualidade lá vai ditando os compassos ritmados do tango. No entanto, a verdade é que há uma lógica neste tipo de observação que faz alguma espécie. E faz espécie porque parece direccionada ao homem, ao ser masculino que supostamente parece querer exercer alguma pressão pouco sofisticada neste momento. Os comentários que se suguem caminham no trilho da generalização supostamente divertida dos pensamentos com a "cabeça de baixo" e a pouca sofisticação da sexualidade masculina, e blá, blá, blá.
Esta lógica não só é uma treta generalizante, e como tal, torta à nascença, como acaba por ter dois gumes. A verdade é que as queixas acerca da falta de iniciativa oral por parte dos homens reverberam por todo o lado, mas raras são as corajosas (na minha experiência pessoal) que relatam qualquer episódio de "condução da cabeça" do parceiro, optando por queixas silenciosas ou testemunhos que ficam bem em talk-shows acerca da adaptabilidade no seio de uma troca, seja ela mais ou menos plena de envolvência emocional.
Qual é o problema aqui?
Simples.
Em primeiro lugar, qualquer movimento condicionador da iniciativa leva a perguntas desconfortáveis. Se nos primeiros passos de descobrimento do outro isso se pode justificar, (se bem que a iniciativa na lógica do vale tudo menos tirar olhos pode aniquilar essa coisa do cuidado...) quando está estabelecido, e por sorte, conjugada uma série de vontades e rituais, a chatice da falta de iniciativa só é superada pelos gestos condicionadores dessa mesma inércia. E atenção que não estou a falar de gestos rituais onde as pessoas gostam de brincar mais a bruta, fingindo que são obrigadas a fazer alguma coisa. Falo do gesto porque a pessoa que supostamente deveria receber essa dádiva já entendeu, de alguma forma, que a coisa não vai lá sem lembrete. E pior que isso, só emitir mesmo o lembrete, seja por palavra ou trejeito.
Em segundo lugar, a verdade é que se a queixa feminina existe quanto a inércia idêntica, é porque se reconhece que a falta de iniciativa chateia, talvez até mais do que o toque do sino a lembrar que é hora de descer uns quantos meridianos no corpo. E se há esse reconhecimento, então o que será pior? A mão na cabeça, ou o queixume silencioso quanto à ausência daquilo que deveria surgir sem ter de se pedir? Aliás, a iniciativa é tão importante, que um dos gozos magistrais é precisamente a competição divertida e saudável, expressa no "agora sou eu.. não não, sou eu, não desculpa, mas sou eu..." e por aí fora.
Isto leva também a reflectir sobre aquela dualidade entre a suposta e constante predisposição masculina, que é o Matusalém das falácias, face à má reacção feminina perante a ausência de tal apetite ininterrupto, quando as moças estão dispostas. A verdade é que a ideia de sofisticação no sexo prende-se com os mecanismos que criam a ansiedade e vontade associada, a vulga "pica", e não nos actos propriamente ditos. Achar que duas pessoas podem foder como se bailassem no palco do São Carlos é, em meu ver, uma visão distorcida da perda de controlo que tanta falta faz à saúde intrínseca de qualquer relação sexual. Parece performance e concentração, quando o que se quer é escorregar sem conseguir reganhar equilíbrio.
Claro está, e salvo melhor opinião, cada um gostará do que gosta, o que leva a concluir algo muito simples. São as empatias que marcam o passo. E se a coisa necessita recorrentemente da mão na nuca ou do queixume da inércia feito piada sexista, então a empatia padece de um grave estado de saúde. A mão na cabeça ou a sugestão verbal, se recorrente, significa algo mais que a simples condenação de um gesto. Sinceramente, até acho que aquilo que chateará muitas mulheres que o sintam talvez seja o facto de terem de ser lembradas, e não o gesto em si. É talvez no facto de ser exposto o seu "esquecimento" que reside o desagrado. Ninguém gosta de lembranças acerca dos seus esquecimentos intencionais. Especialmente na comunicação não verbal deste calibre, que salvo novidades absolutas, deveria ser precedida de todas as pistas.
E na cama, julgo eu, quanto mais acções, melhor. Quer na descoberta, quer na alternância, quando a primeira está mais ou menos feita.
Mas isto digo eu, claro...