A história de Pedro e o Lobo tem uma sabedoria realmente ímpar. Há algo nos velhos contos, nas velhas morais que, devidamente adaptadas, acabam por ter alguma lógica quase imbatível, porque existem poucas coisas irrefutáveis, se é que existe alguma.
Nos dias que correm a medida da tristeza dos outros, e dos efeitos da solidão inter-pares parece-me, com demasiada frequência, mal avaliada. E isso porque talvez vivamos numa era em que se grita demasiadas vezes pelo Lobo.
Os anti-depressivos são os smarties fashion de uma lógica em espiral, onde vejo pessoas assentarem em escoras externas e não reforo de alicerces. Não faltasse o dinheiro, e já muitíssima gente tería importado os gurus ou os terapeutas para cada semana em que as coisas corressem menos bem. Os lobos que aparecem assemelham-se a cães, mas da pradaria, pequenitos, felpudos e com dentes fortes, é um facto, mas para roer oleaginosas.
Qualquer merdita parece motivo para encharcamento em andas químicas, e com isso estraçalham-se muito boas tentativas de furar lógicas de solidão. As pessoas que realmente sentem na pele os efeitos de uma tristeza ou impacto sensível, encolhem-se, em medo, em vergonha, porque muitos deles simplesmente não sabem definir o que os come internamente, de forma a poderem parecer "complexos" e não correrem o risco de não passar de "malucos".
E depois surgem os problemas.
Os problemas sérios. Aqueles que efectivamente podem encurralar a pessoa dentro de si mesma até que a roda do hamster finalmente lhe rebente o coração em esforço. Surgem as questões acerca das invisibilidades, dos ecos, das excentricidades que não passam de genuínas formas de ansiar empatia. Grita-se lobo. E morre-se. Em carne ou pior, no resto.
cada um quebrará o condicionamento da forma que melhor sabe. Alguns deles inclusive fá-lo-ão, lamentavelmente, pela violência sobre si ou sobre outros.
Talvez, sei lá eu, baste criar uma linguagem. Uma espécie de molde para laços que se desejam fortes, e perguntas suficientes para que sejam vários a querer responder como quem aprende. Mas julgo que urge olhar. Ver um bocadinho. Trautear uma mesma música e olhar nos olhos como quem, se ainda não vê, está à espera de o fazer.
Grite-se Lobo. Se for real, nem é necessário fazê-lo a plenos pulmões.
Acho eu.