Aumento de emigração. Ausência de futuro. Medo e expectativas baixas.
No nosso país, demasiados dias são demasiado parecidos como este para demasiadas pessoas...
"O André deambulavava de um lado para o outro, com o fato um pouco salpicado apesar do chapéu. Apesar de tudo parecia composto, à excepção dos olhos avermelhados e a palidez da pele. As mãos apertavam a mala de pele já um pouco coçada com nervosismo. Faltavam cerca de cinco minutos para a entrevista. A porta do prédio pareciam enorme, como uma bocarra falsamente convidativa. Uma planta carnívora de betão, espelhando o cinzento da cidade como um fatalismo surdo e pictórico. O som da água nas poças parecia mais convidativo que o silêncio abafado que André ouviu depois de cruzar as portas.
Perto das escadas ouviu uma voz polida e educada, mas pouco empática. A menina que controlava a recepção perguntava-lhe o seu destino, e ele respondeu de forma ausente, mostrando uma carta. Ela pediu que se aproximasse, retirou-lhe a carta da mão com toda a delicadeza e pediu-lhe que se sentasse num dos cinco sofás que ladeavam o balcão da recepção. No meio uma mesa com revistas desactualizadas e cupões para cursos à distância.
Ela falou ao telefone e mandou-o subir.
André subiu pelo elevador até ao sétimo andar. Quando as portas se abriram, deparou-se com um corredor revestido a mármore, com longos tapetes de motivos árabes no espalhados pelo chão. Uma mulher de óculos na ponta do nariz e uma saia deliciosamente curta cruzou-se com ele e sorriu. Deixou cair um pouco do aroma de um perfume que André não sabia qual era. O desespero e o anseio tocaram uma vez à porta, mas ele consegui correr com eles. Não queria comprar nada. Naquele momento queria era vender-se. Esperava que a mercadoria pudesse de alguma forma interessar.
Na sala estavam quatro homens. Envergavam fatos escuros e dispensavam olhares inexpressivos mas que fitavam com firmeza. André sabia que estava a ser analisado desde o momento em que entrara. Queria pôr os pés para dentro mas não conseguia. Tentou sentar-se com segurança, mas deixou os ombros caírem um pouco para a frente. O cansaço era agora tão visível como o desespero e por mais que soubesse que tudo o que havia a fazer era engolir mais uma dose de desprezo antecipado e mostrar-se brilhante e fresco, deu consigo a ser incapaz de o fazer. Recordava o sono constante que tinha, aliada à dificuldade em dormir. Como uma espécie de picada constante que impedia o descanso de fazer aquilo para que servia.
No entanto, o instinto de preservação, moribundo mas incrivelmente teimoso, lançou um único alerta, fazendo com que André abrisse a mala e mostrasse o curriculum impecavelmente impresso, inserido em capas de plástico tornando o manuseamento mais simples e agradável.
Os olhares dos supostos entrevistadores amenizaram um pouco. O silêncio era feito de pedaços de realidade palpável e invisível, e ele viu-se forçado a baixar os olhos muito mais vezes do que seria aconselhável. Viu uma nódoa na lapela que o azul escuro tornara invisível. Ou assim ele esperava. As mãos tremiam. O mundo lá fora era um estômago torcido em forma de nó de marinheiro. Podia ser o atum ou a pressão.
A conversa começou como tantas outras. Discorrer sobre o passado, extirpar os supostos anseios e projectos de futuro. Percorrer os detalhes, ver uma espécie de anseio de vitória nos olhos, perceber os gestos. André estava em estado para tudo menos isso. Tinha uma dor de cabeça extrema, produto de uma descrença forçada pelo tempo e inadequação.
Acabou por saltitar com a máxima confiança que lhe era permitida entre as questões, as verificações de coerência, a suposta fluência do discurso, os variados registos em determinados cenários propostos. A entrevista correu mal, mas não tão mal como ele esperaria. talvez fosse chamado dali a três meses, mas ele não sabia, nem sequer poderia supor que algo passasse da normalidade da negação. Nada lhe fora adiantado. Tudo era um registo de faces cordiais mas duras, de retorno a um nada, do passar dos minutos sem fim ausentes do vislumbre de uma bandeira branca que dançasse como as tréguas da realidade.
Às três da tarde daquele dia, as mãos estavam vazias, o corpo perdido e transpirado dentro do fato, e as ideias fixadas numa ausência de soluções. Pressão na cabeça, fadiga constante, ideias mais ou menos trágicas ululando uma mensagem incoerente.
Perto das escadas ouviu uma voz polida e educada, mas pouco empática. A menina que controlava a recepção perguntava-lhe o seu destino, e ele respondeu de forma ausente, mostrando uma carta. Ela pediu que se aproximasse, retirou-lhe a carta da mão com toda a delicadeza e pediu-lhe que se sentasse num dos cinco sofás que ladeavam o balcão da recepção. No meio uma mesa com revistas desactualizadas e cupões para cursos à distância.
Ela falou ao telefone e mandou-o subir.
André subiu pelo elevador até ao sétimo andar. Quando as portas se abriram, deparou-se com um corredor revestido a mármore, com longos tapetes de motivos árabes no espalhados pelo chão. Uma mulher de óculos na ponta do nariz e uma saia deliciosamente curta cruzou-se com ele e sorriu. Deixou cair um pouco do aroma de um perfume que André não sabia qual era. O desespero e o anseio tocaram uma vez à porta, mas ele consegui correr com eles. Não queria comprar nada. Naquele momento queria era vender-se. Esperava que a mercadoria pudesse de alguma forma interessar.
Na sala estavam quatro homens. Envergavam fatos escuros e dispensavam olhares inexpressivos mas que fitavam com firmeza. André sabia que estava a ser analisado desde o momento em que entrara. Queria pôr os pés para dentro mas não conseguia. Tentou sentar-se com segurança, mas deixou os ombros caírem um pouco para a frente. O cansaço era agora tão visível como o desespero e por mais que soubesse que tudo o que havia a fazer era engolir mais uma dose de desprezo antecipado e mostrar-se brilhante e fresco, deu consigo a ser incapaz de o fazer. Recordava o sono constante que tinha, aliada à dificuldade em dormir. Como uma espécie de picada constante que impedia o descanso de fazer aquilo para que servia.
No entanto, o instinto de preservação, moribundo mas incrivelmente teimoso, lançou um único alerta, fazendo com que André abrisse a mala e mostrasse o curriculum impecavelmente impresso, inserido em capas de plástico tornando o manuseamento mais simples e agradável.
Os olhares dos supostos entrevistadores amenizaram um pouco. O silêncio era feito de pedaços de realidade palpável e invisível, e ele viu-se forçado a baixar os olhos muito mais vezes do que seria aconselhável. Viu uma nódoa na lapela que o azul escuro tornara invisível. Ou assim ele esperava. As mãos tremiam. O mundo lá fora era um estômago torcido em forma de nó de marinheiro. Podia ser o atum ou a pressão.
A conversa começou como tantas outras. Discorrer sobre o passado, extirpar os supostos anseios e projectos de futuro. Percorrer os detalhes, ver uma espécie de anseio de vitória nos olhos, perceber os gestos. André estava em estado para tudo menos isso. Tinha uma dor de cabeça extrema, produto de uma descrença forçada pelo tempo e inadequação.
Acabou por saltitar com a máxima confiança que lhe era permitida entre as questões, as verificações de coerência, a suposta fluência do discurso, os variados registos em determinados cenários propostos. A entrevista correu mal, mas não tão mal como ele esperaria. talvez fosse chamado dali a três meses, mas ele não sabia, nem sequer poderia supor que algo passasse da normalidade da negação. Nada lhe fora adiantado. Tudo era um registo de faces cordiais mas duras, de retorno a um nada, do passar dos minutos sem fim ausentes do vislumbre de uma bandeira branca que dançasse como as tréguas da realidade.
Às três da tarde daquele dia, as mãos estavam vazias, o corpo perdido e transpirado dentro do fato, e as ideias fixadas numa ausência de soluções. Pressão na cabeça, fadiga constante, ideias mais ou menos trágicas ululando uma mensagem incoerente.
Retornou para o nada que tinha. Como habitualmente.
E abriu novamente o jornal..."