ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


Partilhar informação @ estacoesdiferentes@gmail.com

Mostrar mensagens com a etiqueta entendimento. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta entendimento. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, março 31, 2009




Sinceramente, não acho que muitas pessoas sejam complicadas. Acho genuinamente que em muitos casos simplesmente não ouvem. Ou não querem ou vir, o que também é muito legítimo, porque no fundo já existem as vozes internas a recordarem o rosário de asneiras feitas.
Julgo que é nessa falta de audição que existe o ressentimento. Na ausência de um pressentir, na opacidade daquilo que supostamente é retumbante e claro como halogéneo numa mina desactivada. Esse ressentimento cresce e liberta. Liberta porque entre a legitimidade para a surdez e a ausência de códigos destrói qualquer senso de perspectivação relativamente ao que no fundo toda a capacidade de desejar permite esperar, nem ue seja um bocadinho nos minutos de silêncio em que somos mesmo só nós.
Mas e virar a mesa ao contrário? E por ouvir, também imaginar dizer? Talvez em muitos casos muitas pessoas, o proferir seja realmente o velho milagre da escuta activa. Talvez seja o esperanto das formas de estar, ou melhor, de esperar. Talvez seja uma ponte que consiga traduzir aquele velho mas tão eficaz conceito que assenta sempre na diferença feita não por aquilo que quem ouve ou diz saberá, mas pelo que se pode aprestar a ser capaz de saber ou interiorizar.
Contra mim falo quando digo que por vezes há que obviar mais a descoberta alheia. Há toda uma panóplia de mazelas que no desenrolar do "crescimento" nos fragmentam as arestas e nos tornam pouco populares a puzzles mais conhecidos. Mas não há qualquer dúvida na minha mente que as acrimónias que testemunho, os silêncios emburrados, os ressentimentos provocados como claro efeito secundário dos afectos, são uma combinação idiota entre surdez e mudez, que não só rimam foneticamente, mas também nos efeitos que provocam.
Não há a mínima dúvida que associada à parca capacidade de querer perceber, de apanhar os sons contrastantes quando o vento muda de sentido, há também o silêncio, a ausência de código, e a imputabilidade de responsabilidades ao eco desse mesmo silêncio.
E isto não é complicação. É até terrivelmente simples.




quinta-feira, março 05, 2009

Há dias fui ver o Milk. E além de ser um filme fantástico, e com Sean Penn em enormíssima forma (confesso que entre ele e o Mickey Rourke fiquei muito hesitante) é um filme com visão que trata questões delicadas com a sensibilidade e profundidade que algo como a diferença e o preconceito associado ao medo merecem. Lança a questão e o incómodo.
Mas a ideia que me deixou ultrapassa até o âmbito da propria temática, porque a orientação sexual é, infelizmente, apenas um dos motores para a combustão de preconceito que abarca tantos sectores da vida gregária.
Aquilo que me fica, aquilo que julgo que perdura na minha mente, é que o preconceito, a rejeição em aceitar ou entender o que é diferente, como a orientação sexual, é a absoluta incapacapacidade de imaginar o estado de outros, de "calçar os sapatos de outra pessoa".
A verdade é que no juízo de preconceito, ou segregação, existe a ignorância volitiva em imaginar como seria estar ali, sentir-se daquela maneira. Como seria acordar todas as manhãs e sentir que o corpo reagia perante um conjunto de referências sexuais que não aquelas apelidades de "normais". Relembrando o caso de Roy Cohn, obviamente que existe a suprema hipocrisia, que muitas vezes mal se distingue da noção que tenho de maldade, na qual os segregadores vestem precisamente o manto daquilo que propalam odiar tão profunda e convictamente. Mas eu tendo a pensar em termos menos extremos, para esta discussão. Porque será que se conseguissem imaginar como seria sentirem-se de outra forma, o preconceito consegue nascer? Será que se nascessem com uma construção pessoal assente noutros gostos, achariam justificável que lhes fosse negado um espaço para a expressão amorosa, ou o anseio de criar um outro ser humano? Será que conseguindo calçar outros sapatos, ainda assim negariam aquilo que lhes é garantido apenas por uma maioria receosa?
De um certo ponto de vista, acho que esta ideia é mais abrangente. Ela abarca todos os automatismos que temos relativamente ao que julgamos inatacável apenas por convicção interna, mas que por vezes é falha em argumentação. Eu tento eliminar qualquer pressuposto desses da minha forma de estar e ver, mas também, certamente, terei uma mancha na qual deixo de pensar apenas para conseguir reagir. Isso não me impede no entanto de tentar ver o outro lado, de ver as outras coisas, de olhar para a grande maioria dos preconceitos e achá-los coisas hediondas, estúpidas, injustificadas, porque à partida são apenas sentimentos de rejeição sem causa aparente que não medo ou desconhecimento da diferença necessária.
Fossem os sapatos adaptáveis, e não variáveis entre o 30 de um petiz e o 60 do Shaquille O'Neil, e talvez fosse possível criar mais cruzamentos. E andar descalço é um risco imenso, além de ser quase impensável. Talvez aquilo que cristalizemos na negatividade da nossa mente ou alma, ou o que quiserem chamar, mais não seja que, quando a calma retorna, existir ainda assim a incapacidade de virar a câmara de perspectiva, e ainda assim ver alguma coisa.
A principal incapacidade dos intolerantes é pensar que a vida é um analgésico natural, porque fora deles tudo deve doer.


segunda-feira, fevereiro 16, 2009


Foto: "Fipas"

http://olhares.aeiou.pt/vidas_foto1219503.html


Todos estamos a fazer qualquer coisa, acho eu. A nossa coisa. As nossas coisas, as nossas pequenas viagens, o exercício das pequenas manias e o cultivo dos grandes medos. Acho que todos, a certa altura, sentem o eco que o interior faz, como se a voz não fizesse mais do que um "richochete" nas paredes auto-erguidas.

Não sou diferente da maioria das pessoas, acho eu. Tenho a ideia, meio esperançosa, é certo, mas nunca a pretensão ou sequer veleidade, de que eu efectivamente me faço entender. E em certas matérias, as idiossincrasias devem ser insuportáveis, como outras o são para mim. Acho que elas nascem da percepção que alguém tem de que, a espaços, as coisas não podem simplesmente ser como eu as vejo. Que diabo, deve ser verdade, porque a espaços, nem eu acho que alguns fenómenos correspondem minimamente às interpretações que deles faço.

"A falta de julgamento é matéria de infinita esperança", dizia o Fitzgerald. Certamente tê-lo-á escrito enquanto caia da cadeira, de tão bêbado que estaria naquele dia. E no entanto a ludidez desta ideia é assombrosa. Assustadora mesmo, porque existem certas coisas que eu não consigo entender, e talvez não aceite que o mesmo raciocínio seja feito relativamente a mim. Debato-me ferozmente, argumento, e na maioria dos casos, é apenas uma diferença de perspectiva. É apenas cada a um a fazer as suas coisas, e eu as minhas.

Parece-me profundamente falacioso, e por vezes tenho de relembrar-me disso mesmo, achar que poderei entender tudo. Sim, esforço-me, mas ocasionalmente lá me sairão os juízos de desaprovação que certamente serão rugidos muitas vezes quando as minhas costas se viram. E aceitar isso é tão difícil como aceitar que por vezes não se dizem as coisas certas, que a espaços se fazem as coisas na solidão clara de uma perspectiva que é, exteriormente falando, talvez inaceitável. E no entanto, naquele instante de silêncio onde não dá para mascarar nem dourar coisa alguma, faz sentido. Faz sentido na unidade disléxica em que o absurdo do dia a dia nos mergulha, e por onde a única reacção possível parece ser aquela idiotice (abstracta?) que acabei de fazer.

Mas claro que depois existem outras coisas. Existe a verdade. A verdade que por vezes, ao ser descodificada, surge como incrível. A descrença veste-se de resistência, como qualquer forma de negação. Não se ouve nada. A verdade parece uma partida estúpida, como dar uma pipa de massa por uma informação (aparentemente) inócua.

No esforço de entendimento entre as pessoas, e não me excluo, acho que há dificuldade em trocar realmente informação. Em aceitar que por vezes não se está preparado para os contornos daquele que está ali á frente. Em interiorizar que uma coisa é desprezar uma ideia discordante ou duas, e outra é não deixar que isso contamine o portador. Muitas pessoas dizem poder aceitar os recortes de outros, por amor às aberrações internas que por vezes se confundem com atracção pela diferença. E quando a verdade desce, e ainda assim é só parte daquilo de que é feito o todo, a aceitação transforma-se na exculpação de uma incapacidade. Olhamos e não conseguimos aceitar. Baralhamos as cartas, voltamos a dar, e ainda assim não há jogo. As regras não se aplicam quando o objectivo do jogo afinal não parece ser o mesmo.

Cada um faz as suas coisas, e eu faço as minhas.

Sei que tento julgar o menos possível, e entender cada espiral retorcida. E ao falhar, se calhar em muitos casos, mais do que falha minha, é desconhecimento da diversidade. E segue-se em frente, com imagens e ideias que mais parecem a recordação de um local que por alguma razão me tocou de formas inviesadas, ou um quadro que se sabe ser de um mestre e que no entanto, jamais fica na memória.

Porque, pelo menos para mim, o melhor seguro da memória é precisamente entender.

Tentar são intuições.

Perceber continuamente é uma sorte quase obscena.




terça-feira, novembro 11, 2008

Julgo que no passar dos tempos, na suposta aquisição de maturidade no decorrer dos dias que se sucedem, enquanto sulcam canais no meu rosto e semeiam campos inteiros de morte na memória, algo surge como inegável.
Talvez como qualquer estado beatifico ou passional, seja ilusório na expansão do seu próprio tempo enquanto simulação de perenidade, mas ainda assim, perduram as questões que lança, e o que perdura transformado em incapacidade de persistir em certa forma de humanização.
O risco de realmente perder a cabeça está a distância de um hálito.
E por isso, hoje é um dia triste e assustador.
Hoje, mas só hoje, só é possível ter medo.
De tudo.


Once upon a time I was of the mind
To lay your burden down
And leave you where you stood
And you believed I could
You'd seen it done before
I could read your thoughts
Tell you what you saw
And never say a word
Now all that is gone
Over with and done - never to return

(chorus)
I can tell you why
People die alone
I can tell you I'm
A shadow on the sun

Staring at the loss
Looking for a cause
And never really sure
Nothing but a hole
To live without a soul
And nothing to be learned

(chorus 2)
I can tell you why
People go insane
I can show you how
You could do the same
I can tell you why
The end will never come
I can tell you I'm
A shadow on the sun

Shapes of every size
Move behind my eyes
Doors inside my head
Bolted from within
Every drop of flame
Lights a candle in
Memory of the one
Who lives inside my skin

Soundgarden - Shadow of the Sun