A propósito de uma conversa com uma amiga acerca do combate entre razão e emoção, ficou-me algo a roer a pinha. Porque não entendo muito bem o antagonismo que algumas pessoas se esforçam em manter relativamente a algo que deveria ser complementar. Eu modestamente julgo que se trata de uma batalha dos equilíbrios. A ideia não se centra na desconfiança somente, mas naquela que se gera a partir dos exageros. No que me diz respeito, as pessoas excessivamente emotivas entram num registo onde a emoção parece justificar tudo, e aí o respeito pelas pessoas e pelas sensibilidades deverá prevalecer. Alguns emotivos (excessivamente, reitero) vestem uma espécie de casaco de impunidade, como se o facto de sentirem qualquer coisa justificasse qualquer entorce se personalidade ou de atitude perante outros, especialmente os que estejam mais próximos. E eu não afino de todo por esse diapasão. A emocão não deverá, em meu ver, claro, nunca por de parte o outro ou outros e encerrar a pessoa numa espécie de estado de inimputabilidade.
A emoção é apenas uma parte do laço que une as pessoas. A afeição intelectual, o reconhecimento pelas qualidades, os gestos, a lógica do fazer bem e fazer por não podem, mais uma vez na minha perspectiva, estar afastados da relação com as pessoas, quer as amemos, sejamos grandes amigos, ou qualquer estágio intermédio. E alguns emotivos são incapazes de fazer isto. Com todo o respeito por eles, são pessoas que normalmente não me puxam, assim como eu provavelmente não os puxarei a eles.
Claro que por racional nunca se deve traduzir insensível. Racional é quem consegue sentir, no meio do sentir consegue ter alguma percepção do mecanismo que a aproxima de alguém, e até trabalhar nesse sentido.
Mas claro está, essa é a minha visão. Não tenho nenhuma guerra contra os Camilianos ;), mas gosto de os ver como parte de um ecletismo em sermos humanos. Coração e razão numa tentativa de sermos melhores ao (também) tornarmos melhores os outros. Nunca esquecer que amar e gostar é também entender, e só com o coração dificilmente se entende coisa alguma para além da pulsão própria. A ideia da dita paixão cega é, em meu ver, própria de um sectarismo emocional onde bem espremido só sobra o egoísmo de uma voracidade sentimental. Voracidade essa onde o próprio acaba por anular todos os outros porque só o que ele sente acaba por ser importante. E eu cá não dou para esse peditório. Podemos amar rendidos, e isso é algo muito bonito, mas nunca à custa de tudo aquilo que pareça não obedecer a esse apetite.
Equilíbrio. Emoção, sensibilidade, intelecto, entendimento, paixão, acção, dádiva. Tudo isto.
Mas cada um terá a sua ideia, claro. Desde que não prejudique ninguém com isso, preferencialmente.
O seu a cada um.