Não tinha ainda falado acerca da situação da aluna e da professora em pleno WWF na sala de aula, ou da tradução situacional implícita nesse acontecimento. A verdade é que, conhecendo vários amigos professores, aquela foi uma situação que em alguns (muitos ) locais se considera menor.
E não me alongarei acerca das lógicas de disciplina nas escolas e quejandos.
Digo apenas que a chamada progressão académica sem exame é um perfeito disparate, bem como a ausência de consequências por faltas. São lógicas de facilitismo que poderiam aplicar-se a pessoas equilibradas e não a uma população que ainda não sabe muito bem o que fazer com as hormonas, e cujos parafusos não estão ainda bem apertados.
O que digo é que a surpresa não pode ser total, já que a iconografia do sucesso é veículada a esses miudos através de uma conjugação de três factores.
Fama desmiolada, futebol e reality/soap-opera shows.
A imagem do sucesso em Portugal ( e sejamos justos, não só) são jogadores de futebol com carros e gajas, ainda que não saibam produzir uma frase, ou gajas e gajos giraços que têm tanto talento para a representação como eu tenho para o crochet, ou os tipos que andam aos pulos que nem macacos nos mais variados reality shows para aparecerem na imprensa da especialidade, cuja indigência de conteúdos não raras vezes roça o inenarrável.
A cultura da pedagogia apoiada em exigência e elogio da evolução não é minimamente consagrada. Que diriam estes miúdos agora dos fantásticos filmes do John Hughes nos saudosos oitentas, onde a "moral" poderia ser óbvia, mas tinha tudo muito mais nuances que os desastres que a televisão cospe todos os dias. (No outro dia tentei ver um episódio dos Morangos com Açucar e fiquei claramente convencido que não passa de material masturbatório para miúdos de 13 anos. Escusado dizer que não passei dos dez minutos, estando a essa altura já à beira de uma quebra de tensão, tal era a ausência de actividade cerebral ou sequer entretenimento fornecido.)
A chamada rebeldia não é invenção de hoje, e todos nós temos a nossas histórias de coisas complicadas nos processos de crescimento. Mas hoje em dia as coisas são mais assustadoras, mais complexas e muito mais danosas, porque os limites foram parar às urtigas e os meninos confundem pedagogia com bandalheira...
Enquanto o modelo de sucesso não for (também) associado a inteligência, humanidade, imaginação e espírito crítico, situações como a do telemóvel são só a ponta do iceberg, e qualquer professor saberá disto. Claro que isto não significa que as escolas de repente se tornaram um antro de malfeitores e pequenos facínoras. Mas a mensagem que se passa para baixo, de pouca exigência e estímulo a pensar e criar só agora começou a gerar aloendros. E esses são, de uma ponta a outra, venenosos, além de crescerem nas condições mais adversas.
A educação começa em casa? Certamente que sim. Mas pouco poderão fazer os pais quando a contra ou subcultura dominante assenta no retorno alto e facilidade.
E quanto a isso...
P.S. - O "menino" que se juntava a outros para "dar porrada na Gi" foi condenado a 8 meses de cadeia por "omissão de auxílio". Não vou obviamente comentar os méritos da sentença, porque não conheço o processo, mas isto é um sinal assustador. Sinal de que já não são pedras às janelas ou palitos nas campaínhas ou porrada no campo de futebol. É malta que arreia nos professores sem hesitação e pode limpar o sarampo a um colega num gesto mais impensado. Malta que traduz uma noção de que não é preciso pensar em nada, ou ter cuidados absolutamente elementares. A desumanização do quotidiano combate com a alteração da natureza das coisas, ou evidenciando o que ela tem de melhor. E apesar de tudo, ainda somos capazes de coisas boas.