Porque se escondem as pessoas?
A ideia de escapar é a transposição em acção do que conceptualmente é um desejo de protecção. Escapo-me porque onde estou chove, troveja, e o mais provável é levar com um raio no cocuruto. Brincadeiras à parte, esconder é algo que está para além da deslocalização do corpo ou da presença. É apenas uma necessidade quando a ideia de permanência, com aquilo que sou efectivamente, é uma exposição simples e concreta daquilo que por lado talvez não devesse ser, da tristeza em não conseguir com o que sou surgir como melhor a outro. Também deriva do desejo que tenho de pensar que talvez no meio da confusão errática que me constitui haja algo onde possa valer-me, e dar corda aos sapatos internos quando isso nada mais é que incapacidade.
Porque me escondo? Muitas vezes para poder ficar onde estou, mas mais devagarinho, com mais suavidade. Para poder pedir licença pelo meu pequeno lugar, para poder ver, para poder aspirar da apaixonante sensação de simplesmente haver ali algo mais, alguém mais, mais mundo que o meu eco. Como falo três línguas, talvez tenha sorte e me faça entender de quando em vez.
Esonderijo, ou o que tomam por ele, muitas vezes é apenas como a solução do informático.
Desligo-me e volto a ligar-me, na esperança que de alguma forma alguma coisa funcione.
Na esperança que não continue a ser indiferente que fique com a pele à vista.
