ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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quinta-feira, dezembro 06, 2007



No outro dia, quanto seguia de carro, ouvia um programa na rádio (estatal) chamado conversas de raparigas, o qual me causou alguma estranheza, confesso.
Primeiro porque no painel se ouvia uma voz masculina e profundamente afectada, para quem tudo era uma seca. Tudo. E depois porque o tom que sobressaiu de alguns membros da tertulia radiofónica foi tradutor de uma ideia que, à falta de melhor termo, me parece idiota, como tudo o que se torna moda porque sim.
Tornou-se cool falar mal do Natal. Maldiga-se aquele que caia na piroseira de gostar da quadra, de achar piada às cores, ao escuro, ao nevoeiro, à comida e a mimar um pouco aqueles de quem gosta. O que fica bem é denunciar o mercantilismo, achar que a atitude enfadada a relembrar velhos tempos (que provavelmente para alguns eram be piores que estes) e assumir uma nostalgia quase cínica pelas couves e o caldo de galinha de outros tempos.
Tornou-se sofisticado pôr todos os rituais em causa, porque, de certa forma, é no esclarecimento da era moderna que se produz a magnífica ideia de que tudo é uma seca. Tudo é enfadonho, e ai daquele que por acaso até sentir um calor qualquer no espírito com as decorações citadinas de Natal.
Sinceramente não percebo, e tenho uma teoria já anteriormente referida por muitas pessoas, estou certo. E esta assenta na falta de capacidade de suportar o peso da culpa. Como alguém me disse, as ausências constantes e absolutas não podem ser compensadas com uma aparição anual, por muito bom que seja o bacalhau. Mas parece-me que são precisamente aqueles que tanto denunciam o quão "un cool" é a quadra natalícia que mais parecem surgir com uma consciência pesada. São aqueles que não perdem tempo algum realmente a escolher algo para alguém especial, seja no Natal seja durante o ano. Ou são outros que nao tensão que a quadra inflige, que sucumbem perante os descasos que não quiseram colmatar no seu comportamento anual.
Claro que toda a gente tem direito e legitimidade para gostar ou não da quadra, mas falha-me entender este tom demolidor relativo à mesma, muitas vezes numa tentativa de denúncia que não tem de facto essa aplicabilidade generalizadora. Há quem, felizmente, possa e queira sentir-se bem nest altura, ou deveria dizer, sentir-se melhor. E para os que apanham a seca há umas viagens muito baratas para destinos tropicais, ou o interior de casa com qualquer electrodoméstico que não seja a a televisão, ou qualquer livro sem menção ao mês de Dezembro.
E assim agrada-se a todos. O cool, e os absolutamente bregas, como eu, que já montei a árvore e leio o Cântico de Natal do Dickens, anualmente, desde há vinte anos. Por falar nisso...
"Marley was dead: to begin with. There is no doubt whatever about that. The register of his burial was signed by the clergyman, the clerk, the undertaker, and the chief mourner. Scrooge signed it: and Scrooge's name was good upon 'Change, for anything he chose to put his hand to. Old Marley was as dead as a door-nail.(...)"