Não há nada mais eficaz que descrevermos internamente aquilo que somos. A aceitação pode levar anos, memórias, tempos de vida, mas a verdade é que quando ressoa no espaço silencioso onde estamos só nós, sabemos sempre aquilo que não permite variações ou interpretações de estilo.
Esta premissa no entanto não foge à velhinha ideia de que nem sempre temos a perfeita noção de tudo. Sim, não há nada mais nobre e acertado que saber exactamente onde andamos, e não desculparmos o sangue nas mãos como tinta vermelha surgida como despojo de um quadro que não se vê.
E no extremo da percepção dessa ideia surge a noção de opção, a consciência de que o mundo organiza-se em torno daquilo que ao não evitarmos, nos abraça como uma segunda pele, mas com vida própria que não a nossa. Há uma tremenda dignidade e solidão associadas à eterna altercação entre as noções de certeza própria e a concordância externa. E na ausência de leitura dos axiomas que demonstrem essa morfologia está uma segurança devastadora nos seus efeitos. No fundo, o problema não está em ser o que se é, mas em abarcar quaisquer subtis desvios ao que, como qualquer unidade complexa, não terá necessariamente de ser apenas uma coisa em todos os momentos, mas vários momentos feitos de várias coisas.
E na assumpção, na percepção de que as inscrições em muros já deitados abaixo são ecos de uma identidade, está o isolamento próprio da impaciência própria de quem já não suporta a inocente e errada interpretação do óbvio, ou o trautear de uma letra errada para os mesmos acordes.
Fechados na consciência daquilo que somos, e nas chamadas opções associadas e efeitos decorrentes, está um tal desejo de voar para fora de tal casca e ainda assim continuar a ser o próprio, que as asas deixam saudades e anseios, perguntas que o tempo não responde, e a beleza associada à capacidade de ser alternante.
Porque nunca somos só uma coisa. Nunca assentamos apenas numa base. E a incerteza provocada pelas oscilações do que se sente, são instantes verificados e eternizados pela máquina fotográfica afectiva, que não permite interpretações dispares perante aquilo que uma evidência de momento permite na conquista de um mundo inteiro presente no decurso de uma vida.
E essa percepção ninguém consegue furtar.
Ainda que percebamos coisas diferentes depois, ali sabemos o que vimos, e sobretudo, o que fizemos. Mesmo que na autoconsciência dos efeitos possa estar uma conclusão à qual ninguém resiste. Mesmo que as formigas marchem perante o holograma do açucar, observados por um sorriso triste e convicto.
Ninguém é só isto ou aquilo.
