ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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sexta-feira, junho 01, 2007

Pegando num bom ponto levantado por este post da Luna, senti-me tentado a elaborar algumas considerações sobre o chamado Romance ( vulgo sedução, flirt, conversinha de pé de orelha, bater o couro - Luna, tens razão, ainda é a mais identificativa.)

Ora vamos lá organizar-nos.


Não há dúvida que as coisas mudaram. Alguns dirão que para melhor, outros para pior. Mas o ponto levantado pela Luna, e muito bem em meu ver, prende-se com outra coisa. Prende-se com a ideia de facilitismo que rasga uma parte significativa do nosso comportamento socializante, e que, à falta de melhor explicação, se concentra no "mais rápido, mais completo, mais simples".
Em certas coisas, nada contra. Não tenho a mínima pachorra para a defesa da conversa do bandido, porque sinceramente, essa mesma conversa assenta em factores que, a considerar a pessoa como inteligente e bem humorada, se tornam desnecessários. A conversa do bandido, o andar à volta, o toque (ups) acidental, o mascarar da personalidade numa espécie de oleosidade conceptual, acabam por redundar num prolongar desnecessário do processo de "obtenção" de alguma coisa. A conversa do bandido não é flirt. É apenas uma espécie de modelo normalizado de desonestidade simpática que vai testando por eliminatória até encontrar uma de duas variáveis - a) a mulher inteligente que até engraçou com o gajo e não quer perder mais tempo, fingindo que engole as patranhas, ou, b) a burrice que acha reais os encómios rebuscados e por vezes constrangedores de tão formatados (e clichê) que são, confundindo estratégia primária com um olhar especial ou "individualizado".


Nesta lógica, a conversa do bandido, o flirt trapalhão, standartizado, preguiçoso para nada mais serve que esgotar a paciência a uma pessoa, a qual rapidamente indulgencia o autor porque lhe acha piada ao corporal, ou simplesmente condescende e quando tem de ir, desaparece. Se for este o caso, não sei porque raio não vão essas pessoas logo directamente ao assunto. Mais vale. Nos casos da conversa do bandido, mais vale passar adiante e avaliar hipóteses. Aturar uma conversa dessas parece-me algo semelhante a um(a) amante cheio de vigor físico, mas sem jeitinho nenhum, que apesar de durar tempos e tempos, não traz mais nada senão canseira e uma sequência de desilusões, já que a partir de certa altura espera-se que algo melhor venha, mas, desgraça, só continua o marasmo e a sensaboria.
Além disso, a conversa do bandido, em meu modesto ver, só inferioriza a destinatária porquanto a toma por simplória, à qual apenas meia duzia de larachas basta. E gostaria tanto de dizer que conheço poucos casos em que isso acontece, e que nunca vi mulheres muito inteligentes a engolir patranhas no mínimo risíveis. Mas a verdade é mais triste.

Mas outra coisa é o flirt propriamente dito. A conversa, o conhecimento, o jogo, a piada, a sinceridade educada, o atrevimento bem humorado. Isso é outra conversa. E deve ser uma longa conversa. Passar isto adiante é simplesmente retirar todo e qualquer potencial à troca posterior, seja ela o one night stand ou coisa mais prolongada. O sexo é (também e muito) psiquíco. Está na capacidade que o outro adquire de estabelecer uma dualidade, ou seja, deixar-nos curiosos e deliciosamente desconfortáveis ao mesmo tempo. E qualquer espécie de toque será sublimado se a mente se encontrar oleada e sempre carregada por estímulos que derivam da real tentativa de conhecer alguma coisa sincera e única acerca da pessoa em causa. É, no fundo, isso que fará com que a pessoa se sinta especial, porque o interlocutor não tem merdas, respeita a pessoa, e tem mais que fazer do que lhe servir meia dúzia de piropos requentados que nem eficácia "batanete" têm. No fundo, o flirt cria a sensação de curiosidade e semeia alguma afeição. Dure ela o que durar, desde que seja genuína, ganhará o respeito próprio porque acaba realmente por ser algo derivado do interesse que alguém ganha perante nós. E ignorar isto é, em meu modesto ver, estar cada vez mais longe da percepção de coisas no sexo oposto que são do mais divertido e esclarecedor que se possa pensar. A intenção pode ser clara, mas todo o contacto deverá ser uma tentativa de conhecer melhor alguém, e não uma espécie de formulário imaterial para simplesmente aliviar hormonas.


A título de "disclaimer", nada tenho contra as coisas rápidas, ou fugazes que, pela sua natureza assim o tenham de ser. Por vezes mais vale um momento único do que um prolongamento de chatices e incompatibilidades.
Mas nada serve sem a criação do interesse através da revelação do que somos, com a sinceridade q.b., mas sempre despida dos mecanismos subreptícios, as falsas flores, lacinhos e romantismos. Cheiram mal antes mesmo de apodrecerem, o que acontece rapidamente.

O que se passa com o romance?
Bem...
A mesma coisa que sucede com muitas outras coisas, como a leitura, a evolução, a curiosidade intelectual, etc. A malta quer a coisa rápida, eficaz, indolor e incómoda ao mínimo, esquecendo que o sabor de algumas vitórias e conquistas surge precisamente num paralelo com o velho brocardo aplicável ao acto de viajar.
"Getting there is half the fun!"

Certo Luna?
Para mim é. Aliás, sempre foi.
Obrigado pela desculpa dada para me pronunciar sobre o tema.