
Em primeiro lugar deve esclarecer que não sou pai, o que logo me deixará em desvantagem. Mas também penso que é uma falácia quem me diz que não posso analisar uma situação relativa à parentalidade simplesmente porque não tenho descendência. O empirismo não esgota as possibilidades de análise e conhecimento de determinadas realidades.
Dito isto, refiro-me ao papel de uma determinada forma de disciplina aplicável à chavalada.
É certo que nunca morri de amores pelas crianças, mas entendo quem o sinta, quem simplesmente se derreta ou renda perante os petizes. São formas diferentes de olhar para um mesmo conceito. As crianças podem ser encantadoras, mas também são um veículo de crueldade, manipulação e segregação do mais cortante que se possa imaginar. E não preciso de olhar para elas para o saber. Já fui uma, e sei como é. William Golding é leitura de cabeceira, que posso fazer?
Mas isto também é um detalhe.
É inquestionável que o amor, o carinho e a capacidade de comunicar e argumentar as decisões são fundamentais numa educação e formação da nova pessoa. As crianças devem aprender pela instrução, pela demonstração, pelo encorajamento, pelo desenrolar das realidades num leque de opções para a construção da personalidade.
Mas também, em meu modesto ver, devem aprender o valor de cada coisa, a sentir que merecem o que têm, a respeitar os outros acima de tudo.
Hoje em dia as novas teorias pedagógicas, que vão desde a criação dos novos monstros conhecidos como "crianças-rei", à perfeita estupidez que é não ser escolarmente avaliado até ao 9º ano, insistem que a criatividade da criancinha não deve ser tolhida. Se isso implicar pegar fogo aos cortinados ou encher na professora, pois, parecem ser ossos do ofício. E gostaria de dizer que isto é exagero, mas a hipérbole está cada vez mais próxima do corriqueiro. Claro que existem crianças e crianças, personalidades e personalidades, mas a verdade é que cada vez mais se generaliza um padrão de comportamento ( e tenho amigos professores que mo dizem) onde a desresponsabilização ou a falta de disciplina (legitimada, justificada e sustentada, claro) são palavras de ordem.
Por vezes vejo coisas que me arrepiam os cabelos, assentes numa espécie quase de temor perante os rebentos. Por outras vezes, vejo o sentimento de culpa gerar tentativas de compensação, normalmente material, que redunda em alguns (muitos) casos numa total desvalorização de tudo quanto é recebido. E depois dizem-me que os miúdos estão diferentes, que as coisas não são o que eram.
Eu tive a sorte de ter sido educado com todas as formas de apoio, carinho e estabilidade que alguém poderia alguma vez desejar. Do ponto de vista afectivo, e dos outros, nunca me faltou nada, mas sempre senti internamente que não tinha o direito de rebentar com as oportunidades que os meus pais me proporcionavam, que tinha de merecer o que me davam. Sentia vergonha se ficasse mal perante eles, se não pudesse mostrar o valor que tinhas nas coisas a que me propunha fazer e conseguia graças às condições que me proporcionavam. Tive (e tenho, mesmo depois de adulto) amor, mas tive também muitas e válidas noções do que significa dar valor a alguma coisa. E a disciplina, a ideia de que as regras também contam para alguma coisa, nem que seja para formar carácter, sempre foram a base de qualquer recordação que tenho do tempo em que os meus pais decidiam o meu caminho. Nunca me impuseram nada senão que escolhesse e me dedicasse a um caminho. Segui os meus gostos e opções, mas sempre com a ideia de responsabilidade. Sempre me permitiram ser um espírito livre, mas nunca admitiram que não respeitasse o próximo.
Respeitando obviamente as opiniões de quem é mais versado do que eu nestas matérias, e mesmo quem tenha uma perspectiva diferente, a verdade é que os factos comprovam que esta ideia de facilitismo produz muitos exemplos de prepotência precoce e um senso de desresponsabilização que em muitos casos redunda num desrespeito pelas pessoas, num "estássecagantismo" que incomoda e assusta. Lamento, mas acho que a disciplina encorajadora, a ideia da responsabilização com afeição nunca fez mal a ninguém. Chamar alguém à responsabilidade pelo que fez é tão importante como felicitar pelo que conseguiu. Enquanto se ignorar isso, a geração morangos com açúcar, as crianças-rei, e uma geração de analfabetos com o 9º ano serão realidades preocupantemente abundantes, como de resto os números dos resultados escolares o comprovam. E culpar os professores, como fazem tantos pais, é sacudir a água do capote, porque normalmente as playstations conseguem fazer pelo silêncio aquilo que qualquer manual escolar é infelizmente incapaz.
A disciplina nunca fez mal nenhum a ninguém. Com bom senso, inteligência e encorajamento afectivo, claro.
Mas isto sou eu...