O Pedro ouvira muitas vezes as discussões entre os donos de cães e gatos. Uma espécie de compita em que se exultavam as qualidades, mas muito timidamente se enunciavam os respectivos defeitos. Era uma escolha, pronto. Uma espécie de perfilhamento pelas ditas características intrínsecas de cada animal.
Nunca tivera dúvidas.
Saiu para a rua com o papel na mão, sentindo o calor tão normalmente divorciado da pouca luminosidade a que o dia se permitia. Cruzou algumas ruas, cumprimentou alguns vizinhos mais idosos que contornavam o seu ócio da melhor forma possível através de sorrisos em rostos tristes e sulcados por milhares de sóis. Vislumbrou a praça do Martim Moniz, polvilhada de sombras diurnas e alguns andares apressados. Junto à esquina do hotel uma mãe puxava uma criança em pranto pelo braço. Ao lado das bancas, dois homens de camisa desfraldada discutiam o início da época de futebol que se seguiria.
Por todo o lado, em maior ou menor numero, deambulavam cães. Em passadas tristes ou mais animadas, com a marca da fome e maus tratos, ou bem alimentados à custa das generosidades do lixo ou gentes das cidades. Deitados ao sol, quando o havia, ou simplesmente abrigados da chuva, piscando os olhos debaixo do gotejar, era uma realidade tão omnipresente como a percepção das pedras da calçada debaixo dos pés.
Já na Praça da Figueira, uma senhora afectada passeava um cão relativamente grande. Andava como se escolhesse as lajes do pavimento, ignorada pelo amigo que a puxava entusiasmado pela trela. Reparou que a mulher tinha um rosto bonito, mas absolutamente glacial. Como se um dos inúmeros manequins presentes das vitrinas da Rua dos Fanqueiros houvesse ganho vida e passeasse por ali. Por alguma razão que desconhecia, Pedro resolveu segui-la. Tinha ainda algum tempo, e o fim de semana na Baixa, ainda por cima sob a ameaça de chuva, costumava ser calmo.
O empregado voltou com a chávena e colocou-a na mesa. Não existiu um obrigado ou qualquer aceno que o indicasse. Havia uma expressão de incómodo generalizado, como alguém que se vira apanhado num chiqueiro gigantesco e evitava tocar no que fosse. Olhou para a chávena e chamou o empregado. Sem olhar para ele exigiu supostamente a troca do mesmo. Pedro achou que seria provavelmente por estar sujo ou fendido num dos rebordos. Mal sabia ele que era pelo facto do recipiente estar demasiado quente, o que, segundo ela, a impedia de segurar no mesmo. Veio a nova chávena. Ela tornou a não olhar para o empregado ou sequer esboçar algum gesto de agradecimento.
Pedro começou a ficar impaciente. Preparava-se para recomeçar a andar quando a mulher olhou para o pequeno cão e o afagou. O rosto desfez-se e apareceu algo parecido com uma luz em meio a tanta cera endurecida e programada. Ela nunca teria noção dessa mudança, e isso acabou por desgostá-lo um pouco. Ou alegrá-lo. Não sabia bem.