ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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quinta-feira, março 13, 2008

For my readhead.


O Pedro ouvira muitas vezes as discussões entre os donos de cães e gatos. Uma espécie de compita em que se exultavam as qualidades, mas muito timidamente se enunciavam os respectivos defeitos. Era uma escolha, pronto. Uma espécie de perfilhamento pelas ditas características intrínsecas de cada animal.

Nunca tivera dúvidas.
Cães.
Porquê? Os olhos, a língua pendente, mas sobretudo a capacidade de mostrar afecto, algo que a etologia acabava por provar. Achava fascinante que a suposta qualificação de irracionalidade nos animais não os impedisse de sentir estados de alma, de afeição, aparentemente inacessíveis para o funcionamento cerebral não complexo a essencialmente traduzido em instinto. O simples facto de um animal intuir reacções e desenvolver uma afeição deixava-o curioso sobre a incondicionalidade que sobrevinha. Curioso e rendido.

Saiu para a rua com o papel na mão, sentindo o calor tão normalmente divorciado da pouca luminosidade a que o dia se permitia. Cruzou algumas ruas, cumprimentou alguns vizinhos mais idosos que contornavam o seu ócio da melhor forma possível através de sorrisos em rostos tristes e sulcados por milhares de sóis. Vislumbrou a praça do Martim Moniz, polvilhada de sombras diurnas e alguns andares apressados. Junto à esquina do hotel uma mãe puxava uma criança em pranto pelo braço. Ao lado das bancas, dois homens de camisa desfraldada discutiam o início da época de futebol que se seguiria.

Por todo o lado, em maior ou menor numero, deambulavam cães. Em passadas tristes ou mais animadas, com a marca da fome e maus tratos, ou bem alimentados à custa das generosidades do lixo ou gentes das cidades. Deitados ao sol, quando o havia, ou simplesmente abrigados da chuva, piscando os olhos debaixo do gotejar, era uma realidade tão omnipresente como a percepção das pedras da calçada debaixo dos pés.

Já na Praça da Figueira, uma senhora afectada passeava um cão relativamente grande. Andava como se escolhesse as lajes do pavimento, ignorada pelo amigo que a puxava entusiasmado pela trela. Reparou que a mulher tinha um rosto bonito, mas absolutamente glacial. Como se um dos inúmeros manequins presentes das vitrinas da Rua dos Fanqueiros houvesse ganho vida e passeasse por ali. Por alguma razão que desconhecia, Pedro resolveu segui-la. Tinha ainda algum tempo, e o fim de semana na Baixa, ainda por cima sob a ameaça de chuva, costumava ser calmo.
Aquela mulher parecia muito deslocada naquele lugar, cheia de uma irrealidade que ele não conseguia explicar. A mulher puxava levemente pelo animal, obrigando-o a voltar ao caminho com a paciência de quem corrige o andar titubeante de um filho. O céu plúmbeo fazia com a roupa clara que trazia brilhasse. Uma espécie de foco ambulante no meio de um cinzento fosco e triste de uma cidade desesperada por sol. A afectação no andar era de tal forma evidente, que quando Pedro a viu sentar-se na pastelaria Suiça e pedir um café, os dedos encaracolaram numa pose digna de qualquer caricatura que ele pudesse imaginar. A boca falava quase sem afastar os lábios, e ele perguntava-se como seria possível articular discurso com os maxilares colados. A suposta contenção elegante da boca normalmente traduzia-se numa entoação estranha da linguagem. Como ouvir alguém com problemas respiratórios.

O empregado voltou com a chávena e colocou-a na mesa. Não existiu um obrigado ou qualquer aceno que o indicasse. Havia uma expressão de incómodo generalizado, como alguém que se vira apanhado num chiqueiro gigantesco e evitava tocar no que fosse. Olhou para a chávena e chamou o empregado. Sem olhar para ele exigiu supostamente a troca do mesmo. Pedro achou que seria provavelmente por estar sujo ou fendido num dos rebordos. Mal sabia ele que era pelo facto do recipiente estar demasiado quente, o que, segundo ela, a impedia de segurar no mesmo. Veio a nova chávena. Ela tornou a não olhar para o empregado ou sequer esboçar algum gesto de agradecimento.

Pedro começou a ficar impaciente. Preparava-se para recomeçar a andar quando a mulher olhou para o pequeno cão e o afagou. O rosto desfez-se e apareceu algo parecido com uma luz em meio a tanta cera endurecida e programada. Ela nunca teria noção dessa mudança, e isso acabou por desgostá-lo um pouco. Ou alegrá-lo. Não sabia bem.
Estava na hora de andar em frente.
Já tinha visto tudo.



quarta-feira, maio 23, 2007

Atenção Gatos Fedorentos, Contra-Informação e quejandos. A RTP poderá estar a um passo de instaurar qualquer espécie de processo, (não disciplinar porque provavelmente funcionam em regime de prestação de serviços, sem subordinação jurídica) ou de retaliação por "bocas" lançadas ao primeiro-ministro.

Aquilo que se está a passar com o professor suspenso é produto da mais asquerosa forma de exercício de poder, e lambe-botismo por parte de uma directora que com certeza tem objectivos altos em termos de carreira política. É de uma tal ridicularia e desplante, que o Ministério da Educação, à boa maneira do regime blindado em si mesmo, nega qualquer intervenção no caso, nem que seja para o necessário esclarecimento de partidos políticos e pessoas em geral.

Além de ser um atentado absurdo à liberdade de expressão, (quantos mails não circularão com bocas e comentários aos membros do Governo), é uma expressão do mais básico exercício da prepotência, na lógica de baixar a bola aos dissidentes e discordantes. Penso em toda a espécie de rábulas, nacionais e internacionais (pense-se no Daily Show do Jon Stewart, ou o Leno), feitas aos políticos, algumas delas mesmo agressivas, e depois olho para isto, e surge um riso consternado e cansado.

Seria cómico se não fosse asqueroso.

Seria risível, se não fosse perigoso.

O autarca de Vila Nova da Rabona parece cada vez mais vestido de pele real...