Embora não seja minimamente generalizável, como de resto nada será, ao longo da vida deparei-me com um fenómeno engraçado para o qual nunca me deram uma explicação que me elucidasse. Provavelmente porque o assunto é sempre meio parodiado, e a brincadeira acaba por esconder alguns instintos menos confortáveis de assumir.
Cada vez que me deparava com um grupo de miúdas, no qual existisse uma delas que fosse invulgarmente gira, as restantes normalmente eram, digamos assim, para o menos engraçado. E realmente isto poderia constituir apenas uma espécie de coincidência, mas a verdade é que na maioria dos grupos unidos de moças com que me deparei, uma delas destacava-se claramente das outras. E isso sempre me intrigou. Julgo que não é rara a visão que se tem em locais nocturnos, nos quais se vê um grupo unido de mulheres, normalmente nunca mais de três ou quatro, e uma delas destaca-se claramente das outras em termos de aparência. Não são raras as histórias da amiga que normalmente serve como intermediária para a amiga gira. Ganhar a confiança dessa amiga menos gira normalmente era como passar à tangente numa espécie de triagem apriorística, para chegar depois a uma outra antecâmara. Confesso que numa das raras ocasiões em que isso me aconteceu, fiquei na conversa com a miuda menos gira (sim, ainda assim era gira, mas menos que a outra), e esqueci-me completamente da brasa, que por acaso olhava em volta como se passasse revista ao séquito.
Perguntei a alguns amigos e amigas, meio na paródia, e a resposta oscilava entre a simples coincidência e uma espécie de empatia com posicionamento. Diziam que a miúda gira rodeia-se da maior ausência de competição possível, e que as sequazes acabam por beneficiar da atenção que a brasa recebe, acabando por conhecer igualmente aqueles que se aproximam. Acontence exactamente a mesma coisa com o aquele nosso amigo bem parecido e com charme. O tipo que vai a qualquer lado e parece ter mel, e o efeito gravitacional é o mesmo. Tinha um amigo, pertencente a um grupo antigo que hoje em dia pouco vejo, que conseguia entrar em qualquer lado e algo estremecia. E como era um tipo porreiro, sem caganeirices, a coisa era ainda mais eficaz porque nada nele se assemelhava minimamente a um pintarolas com a mania que os chatos comem alface. E conhecemos algumas das amigas das amigas que se aproximavam, e a coisa parecia uma espécie de intersecção de conjuntos.
Pode parecer pueril, mas a verdade é que me deparei com esse tipo de situação em todas as faixas etárias, embora nunca tivesse uma resposta clara. A mulher gira está muitas vezes rodeada ou próxima de amigas de outro campeonato, e devo dizer, embora aceite perfeitamente a limitação da minha experiência, que raramente vi uma proximidade férrea entre duas brasas. (Com os homens atrevo-me a dizer que é diferente, mas mais uma vez, é por verificação empírica.)
Será que a potencialidade de competição ( e atenção que o facto de ser gira não tem necessaria nem se calhar principalmente a ver com atenção masculina) é capaz de minar a proximidade entre algumas mulheres? Há efectivamente um posicionamento, uma espécie de hierarquia consoante a piada que se tem? Julgo que são imensas as teorias, e digo-o meio em tom de paródia, mas confesso que ainda continuo curioso quanto a uma resposta absolutamente sincera e livre do politicamente correcto.
Ou se calhar não passa mesmo de coincidência...