Stephen King - 1982
(Nota: Todas estas histórias estão devidamente registadas na Inspecção Geral das Actividades Culturais. Não que passe pela cabeça de alguém interessar-se em roubar seja lá o que for, mas pelo menos fica o desclaimer.)
(Nota II (prévia) - Esta é uma modesta e pouco subtil homenagem ao mestre E.A. Poe, e ao fascínio irreprimível que a obra dele ainda hoje me causa. Pelo que invoca, pelas cores que dá às suas paisagens, aos seus personagens, aos locais onde estes se contorcem. Acho que todos temos mestres, e eu tenho alguns, mas este é talvez aquele que melhor representa o que muitas vezes me vai passando pela cabeça quando resolvo escrever alguma coisa. Tenho um especial carinho por esta porque foi a primeira história que escrevi em formato de conto, relembrando exactamente as pequenas mas narrativas de Poe que tanto me fazem sonhar acordado e inquieto.)
"FRIO BRANCO"
“I am above the weakness of seeking to establish a sequence of cause and effect, between the disaster and the atrocity.
Edgar Allan Poe.
Parte I
"Acordei em Lisboa, como em todos os outros dias. Aliás, como vivo nos subúrbios, tenho a sorte de não ouvir os carros a passar quando o dia ainda nem sequer despertou. Levantei-me e tomei um banho à pressa, escorregando no chão da casa de banho e quase esmagando o nariz contra o lavatório. Mal tive tempo para pentear o emaranhado castanho a que tenho o desplante de chamar de cabelo antes de comer duas torradas e beber um chocolate quente, porque não suporto café. Saí de casa à pressa, com a gravata a dançar ao vento.
Cheguei ao escritório e a secretária sorriu-me com o mesmo ar de sempre. A Paula era uma mulher nova, de vinte e sete anos, bonita o suficiente para gerar comentários nas mijas colectivas do escritório, mas tinha um ar estranho, aluado por vezes. Eu gostava dela. Tratava-me com a candura que os meus supostos formadores deveriam ter. Por vezes, ficava admirado com a sua facilidade em dominar aspectos processuais que a mim me escapavam de todo.
Fiquei surpreso em saber que não havia recados para aquele dia. O meu patrono tinha ido para Braga, oficialmente para tratar de uma escritura, mas mais tarde vim a saber que tinha outros negócios a tratar. Ia lá cerca de quatro vezes por mês, e a facturação da deslocação nunca aparecia. Ao passar pela sala de espera, vi uma cliente nova sentada numa das cadeiras de madeira já algo vetusta. Tinha o cabelo desgrenhado, provavelmente pela acção do vento, mas vestia de forma elegante. Olhei para os sapatos e mala, e vi que havia ali dinheiro em caixa para um dos meus colegas mais velhos. Ela olhou para mim e sorriu desafectadamente. Tive um impulso de simpatia e sorri para ela de modo pouco profissional, avançando para a minha sala em passo acelerado. Cruzei a porta e sentei-me na minha cadeira giratória que guinchava como um roedor após o estalido da ratoeira. Tinha uma pequena sala, e sentia-me suficientemente isolado. Era a única coisa boa daquele estágio. Aquela sala. Olhava pela janela e podia ver o rebuliço da cidade, mas sempre em silêncio, já que os vidros eram duplos. Impediam o frio e o som, o que para mim era óptimo. Olhei para as acções de condomínio e lancei-me ao trabalho.
Em Lisboa, existem dois tipos de advogados estagiários. Aliás, três. O grupo minoritário, é aquele que consegue uma colocação numa pequena sociedade, sem grandes tubarões, que consegue fazer o seu trabalho, aprende com o patrono, e equilibra o resto da sua vida. O segundo, são os escravos a soldo, miseravelmente pagos, fazem de tudo um pouco, e não têm horas para nada. Ou trabalham nos grandes escritórios, onde são tratados como máquinas sem direito a qualquer manifestação de vida exterior que não seja o empregador, ou trabalham para um qualquer filho da mãe que tem ali durante dois anos um escravo que necessita da nota de estágio. Fazem aquele esforço monumental em nome de uma possível carreira ou posição num escritório, mas muitos acabam por levar um pontapé no rabo depois do final da escravatura encapotada e disfarçada de formação. Nem as empresas de trabalho temporário conseguem oferecer tão bons negócios. E finalmente existe o terceiro tipo, o “office-boy” que lida com toda a espécie de trampa do escritório e faz os recados, poupando ao patrono o dinheiro a gastar com serviço externo. Conhece as repartições públicas em Lisboa em menos de dois meses, e nunca lida com nada de importante. O patrono limita-se a dar duas palavritas de quando em vez, reclama se alguma coisa está mal feita, e nunca paga seja o que for. Eu pertencia a este último grupo e nas divisões menores.
Estava no meio das minhas acções de condomínio (que novidade, um tipo que faz demasiado barulho a altas horas e organiza umas festas com gajas e alguma droga. Garrafas que voam pela janela, elevadores vandalizados…enfim), quando a Paula bateu à porta.
Cheguei ao escritório e a secretária sorriu-me com o mesmo ar de sempre. A Paula era uma mulher nova, de vinte e sete anos, bonita o suficiente para gerar comentários nas mijas colectivas do escritório, mas tinha um ar estranho, aluado por vezes. Eu gostava dela. Tratava-me com a candura que os meus supostos formadores deveriam ter. Por vezes, ficava admirado com a sua facilidade em dominar aspectos processuais que a mim me escapavam de todo.
Fiquei surpreso em saber que não havia recados para aquele dia. O meu patrono tinha ido para Braga, oficialmente para tratar de uma escritura, mas mais tarde vim a saber que tinha outros negócios a tratar. Ia lá cerca de quatro vezes por mês, e a facturação da deslocação nunca aparecia. Ao passar pela sala de espera, vi uma cliente nova sentada numa das cadeiras de madeira já algo vetusta. Tinha o cabelo desgrenhado, provavelmente pela acção do vento, mas vestia de forma elegante. Olhei para os sapatos e mala, e vi que havia ali dinheiro em caixa para um dos meus colegas mais velhos. Ela olhou para mim e sorriu desafectadamente. Tive um impulso de simpatia e sorri para ela de modo pouco profissional, avançando para a minha sala em passo acelerado. Cruzei a porta e sentei-me na minha cadeira giratória que guinchava como um roedor após o estalido da ratoeira. Tinha uma pequena sala, e sentia-me suficientemente isolado. Era a única coisa boa daquele estágio. Aquela sala. Olhava pela janela e podia ver o rebuliço da cidade, mas sempre em silêncio, já que os vidros eram duplos. Impediam o frio e o som, o que para mim era óptimo. Olhei para as acções de condomínio e lancei-me ao trabalho.
Em Lisboa, existem dois tipos de advogados estagiários. Aliás, três. O grupo minoritário, é aquele que consegue uma colocação numa pequena sociedade, sem grandes tubarões, que consegue fazer o seu trabalho, aprende com o patrono, e equilibra o resto da sua vida. O segundo, são os escravos a soldo, miseravelmente pagos, fazem de tudo um pouco, e não têm horas para nada. Ou trabalham nos grandes escritórios, onde são tratados como máquinas sem direito a qualquer manifestação de vida exterior que não seja o empregador, ou trabalham para um qualquer filho da mãe que tem ali durante dois anos um escravo que necessita da nota de estágio. Fazem aquele esforço monumental em nome de uma possível carreira ou posição num escritório, mas muitos acabam por levar um pontapé no rabo depois do final da escravatura encapotada e disfarçada de formação. Nem as empresas de trabalho temporário conseguem oferecer tão bons negócios. E finalmente existe o terceiro tipo, o “office-boy” que lida com toda a espécie de trampa do escritório e faz os recados, poupando ao patrono o dinheiro a gastar com serviço externo. Conhece as repartições públicas em Lisboa em menos de dois meses, e nunca lida com nada de importante. O patrono limita-se a dar duas palavritas de quando em vez, reclama se alguma coisa está mal feita, e nunca paga seja o que for. Eu pertencia a este último grupo e nas divisões menores.
Estava no meio das minhas acções de condomínio (que novidade, um tipo que faz demasiado barulho a altas horas e organiza umas festas com gajas e alguma droga. Garrafas que voam pela janela, elevadores vandalizados…enfim), quando a Paula bateu à porta.
Doutor, está aqui uma senhora para falar consigo.
Fiz sinal para que entrasse e fechasse a porta.
Senhora? Que senhora?
Aquela que estava ali fora sentada.
Para mim? Mas ela não quer falar com um advogado sénior?
Diz que quer falar consigo.
Comigo? Mas eu sou estagiário! Disse-lhe isso?
Disse sim senhor, mas a senhora ainda assim quer falar consigo.
E disse mais ou menos o que queria?
Não senhor. Perguntou por si e não disse mais nada. Chegou muito cedo, penso que até antes de mim.
Olhei para o relógio e vi que eram dez da manhã. A Paula chegava sempre às nove, via o correio e atendia quem chegasse. Eu só entrava às dez. Naquele dia chegara um pouco antes, mas por mero acidente. A 2ª Circular tivera outro daqueles momentos de calma rodoviária, tão raro quão inexplicável.
Bem, mande entrar. Vou ver o que ela pode querer comigo. Em dez segundos deve estar a sair da sala e ir em busca do Doutor Salgado.
Ele já cá estava e, aparentemente, ela não o quis ver.
Mas que estranho...
Posso mandar entrar?
Com certeza..."
(...)
To be continued...