
Muitas vezes temos uma noção quase certa daquilo que faremos. Daquilo que somos, daquilo que identificamos como estrutura primária da nossa forma de ser. Damos connosco a construir um arquétipo das nossas tendências. Passamos um longo e laborioso tempo a desenhar os cantos e curvas dos prováveis destinatários de todas as nossas formas de amor, identificando-os nas premissas da nossa liberdade, gotejando em direcção ao que pode não passar de perda e dor. A torneira de onde escorremos espraia-se como pouquíssima água em tanta areia escaldada pelo círculo ardente, e no entanto, a queimadura não permite ainda assim ignorar o toque alisador da água.
É engraçado como em quase todas as matérias, a força que nos liga à liberdade é teimosamente insubmissa. As dúvidas, as fugas, as teimosias, surgem como se pudéssemos estancar o tempo e fazer da finitude uma espécie de contínuo circular, onde as felicidades parcelares se moldam como uma ilusão de espiral autofágica. No dedilhar incerto pelas feridas da incerteza brota então uma vida que desconhecíamos, uma espécie de mundo que não morre aos instantes, mas que se torna infindo pela simples prova da sua existência. Aqueles que o tornam possível, cruzam a pele e enrugam-na em cada instante irrepetível de vida. São as marcas da vivência, as surpresas feitas pegadas na tal areia lisa, antes que o sol evapore a água que a fez permeável às formas do tempo que passa, e das pessoas que ficam.
E que mais resta?
Bem, talvez o facto de sermos prisioneiros desses instantes, da tristeza profunda que mata a perenidade, mas que ao salvar dez segundos, salva um mundo inteiro. Um mundo que somos nós, uma lógica que nos pertence, uma libertação em queda livre que, passo a passo, nos molda um bocadinho, como beijos de dentes ávidos que suavemente cortam lábios.
A verdade é que o facto de não sabermos, de ligarmos o carro e nada vermos após a curva, dão-nos a asas que podem derreter-se. Mas os instantes em que se paira, antes que o vento denuncie a queda, podem ser uma vida inteira. E quem sabe, talvez o vento venha de cima, e não por baixo.