ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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segunda-feira, agosto 06, 2007


Muitas vezes temos uma noção quase certa daquilo que faremos. Daquilo que somos, daquilo que identificamos como estrutura primária da nossa forma de ser. Damos connosco a construir um arquétipo das nossas tendências. Passamos um longo e laborioso tempo a desenhar os cantos e curvas dos prováveis destinatários de todas as nossas formas de amor, identificando-os nas premissas da nossa liberdade, gotejando em direcção ao que pode não passar de perda e dor. A torneira de onde escorremos espraia-se como pouquíssima água em tanta areia escaldada pelo círculo ardente, e no entanto, a queimadura não permite ainda assim ignorar o toque alisador da água.


É engraçado como em quase todas as matérias, a força que nos liga à liberdade é teimosamente insubmissa. As dúvidas, as fugas, as teimosias, surgem como se pudéssemos estancar o tempo e fazer da finitude uma espécie de contínuo circular, onde as felicidades parcelares se moldam como uma ilusão de espiral autofágica. No dedilhar incerto pelas feridas da incerteza brota então uma vida que desconhecíamos, uma espécie de mundo que não morre aos instantes, mas que se torna infindo pela simples prova da sua existência. Aqueles que o tornam possível, cruzam a pele e enrugam-na em cada instante irrepetível de vida. São as marcas da vivência, as surpresas feitas pegadas na tal areia lisa, antes que o sol evapore a água que a fez permeável às formas do tempo que passa, e das pessoas que ficam.


E que mais resta?

Bem, talvez o facto de sermos prisioneiros desses instantes, da tristeza profunda que mata a perenidade, mas que ao salvar dez segundos, salva um mundo inteiro. Um mundo que somos nós, uma lógica que nos pertence, uma libertação em queda livre que, passo a passo, nos molda um bocadinho, como beijos de dentes ávidos que suavemente cortam lábios.


A verdade é que o facto de não sabermos, de ligarmos o carro e nada vermos após a curva, dão-nos a asas que podem derreter-se. Mas os instantes em que se paira, antes que o vento denuncie a queda, podem ser uma vida inteira. E quem sabe, talvez o vento venha de cima, e não por baixo.