ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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sexta-feira, fevereiro 29, 2008

Disclaimer: Não sou um aficcionado por miúdos. E quanto mais vejo, menos me convence. Considerandos feitos...
Qual será a razão para uma espécie de tolerância dos adultos para a simplicidade das crueldades entre as criancinhas e pré-adolescentes? Porque será que aquelas coisas "próprias dos miúdos", como ouço, deverão passar ser uma qualquer achega por parte de quem observa.
Há quem diga que as crianças são isto e aquilo, mas já observaram de perto um grupo de miúdos deixados a brincar à solta, por exemplo, num parque infantil? Eu já fiz esse exercício, e sinceramente, fico sem pinga se sangue perante aquilo que vejo. E adicionada a esta percepção está um facto que me surge como irónico e até mesmo triste. As crianças que acho encantadoras, porque a sua necessária infantilidade não lhe dá para a petulância insuportável, mas para uma espécie de aceitação sem filtro do que o mundo lhe traz, traduzida em generosidade e alegria não possessiva, são simplesmente esmagados ou ostracizados como os idiotas ou cândidos da pandilha. Dir-me-ão que isso é normal. Tudo bem, mas lá porque é normal não tenho de achar piada, sinceramente. E não é por vir de miúdos que acho "giro", ou "uma gracinha". Pelo contrário. Há algo naquela ideia de que a infantilidade lhes garante certa impunidade que não me encanta, nem me derrete. Pelo contrário. Aumenta-me o pessimismo, e eu não preciso de mais veículos para aumentar essa minha parcela de interpretação do mundo onde vivo.
A verdade é que ao ver crianças a brincar entre si, ou adolescentes mais jovens a organizar-se, vejo mini-sociedades de regras por vezes implacáveis. E se isso não pode ser evitado pelos próprios, como é "natural", a complacência dos adultos que o observam, e pior ainda, os sorrisos derretidos ou despreocupados ao verificá-lo, deixam-me algo perplexo. Especialmente quem ensina aos miudos que a lógica é nunca ficar por baixo, não importa ao que tenha de se recorrer. A ideia é ser sempre melhor que os outros, e não melhor com eles. E acho que disso os miúdos já têm de sobra, não necessitando assim de reforço "positivo" na matéria.
Olhando para as realidades de hoje na lógica da pedagogia, e ouvindo os verdadeiros relatos de horror acerca do que se passa nas salas de aula, onde o próprio sistema alimenta a lógica da impunidade, mascarando-a de inclusão. E o que se passa nas casas então... medo...

quinta-feira, dezembro 06, 2007



No outro dia, quanto seguia de carro, ouvia um programa na rádio (estatal) chamado conversas de raparigas, o qual me causou alguma estranheza, confesso.
Primeiro porque no painel se ouvia uma voz masculina e profundamente afectada, para quem tudo era uma seca. Tudo. E depois porque o tom que sobressaiu de alguns membros da tertulia radiofónica foi tradutor de uma ideia que, à falta de melhor termo, me parece idiota, como tudo o que se torna moda porque sim.
Tornou-se cool falar mal do Natal. Maldiga-se aquele que caia na piroseira de gostar da quadra, de achar piada às cores, ao escuro, ao nevoeiro, à comida e a mimar um pouco aqueles de quem gosta. O que fica bem é denunciar o mercantilismo, achar que a atitude enfadada a relembrar velhos tempos (que provavelmente para alguns eram be piores que estes) e assumir uma nostalgia quase cínica pelas couves e o caldo de galinha de outros tempos.
Tornou-se sofisticado pôr todos os rituais em causa, porque, de certa forma, é no esclarecimento da era moderna que se produz a magnífica ideia de que tudo é uma seca. Tudo é enfadonho, e ai daquele que por acaso até sentir um calor qualquer no espírito com as decorações citadinas de Natal.
Sinceramente não percebo, e tenho uma teoria já anteriormente referida por muitas pessoas, estou certo. E esta assenta na falta de capacidade de suportar o peso da culpa. Como alguém me disse, as ausências constantes e absolutas não podem ser compensadas com uma aparição anual, por muito bom que seja o bacalhau. Mas parece-me que são precisamente aqueles que tanto denunciam o quão "un cool" é a quadra natalícia que mais parecem surgir com uma consciência pesada. São aqueles que não perdem tempo algum realmente a escolher algo para alguém especial, seja no Natal seja durante o ano. Ou são outros que nao tensão que a quadra inflige, que sucumbem perante os descasos que não quiseram colmatar no seu comportamento anual.
Claro que toda a gente tem direito e legitimidade para gostar ou não da quadra, mas falha-me entender este tom demolidor relativo à mesma, muitas vezes numa tentativa de denúncia que não tem de facto essa aplicabilidade generalizadora. Há quem, felizmente, possa e queira sentir-se bem nest altura, ou deveria dizer, sentir-se melhor. E para os que apanham a seca há umas viagens muito baratas para destinos tropicais, ou o interior de casa com qualquer electrodoméstico que não seja a a televisão, ou qualquer livro sem menção ao mês de Dezembro.
E assim agrada-se a todos. O cool, e os absolutamente bregas, como eu, que já montei a árvore e leio o Cântico de Natal do Dickens, anualmente, desde há vinte anos. Por falar nisso...
"Marley was dead: to begin with. There is no doubt whatever about that. The register of his burial was signed by the clergyman, the clerk, the undertaker, and the chief mourner. Scrooge signed it: and Scrooge's name was good upon 'Change, for anything he chose to put his hand to. Old Marley was as dead as a door-nail.(...)"