Ouvindo hoje a TSF, fiquei com uma ideia curiosa na cabeça.
Curiosa ou assustadora, consoante a lógica que se lhe aplique. Eu prefiro encará-la como um desafio, embora admita que as forças de constrangimento sejam sérias o suficiente para que o optimismo seja, no limite, moderado.
Todos falam em globalização. É uma realidade. Mas eu nem sequer vou abordar a questão económica, e aparentes contradicções dessa realidade. Falo sim da formatação comportamental, e alguma confusão quase difamatória relativamente à individualidade, tantas vezes confundida com individualismo.
A individualidade é o elogio do característico. É a percepção do pessoal, do próprio, da diferenciação indefinível. Expressa-se pela consciência da liberdade pessoal e o esforço construtivo, através de juízos éticos e estéticos para encontrar uma identificação. Essa identificação, em meu modesto ver, cresce e dignifica-se com a partilha. A experiência da liberdade pessoal sublima-se com a feliz contaminação da aprendizagem mútua. Somos mais e melhores quando aproveitamos o que de bom e entendível a individualidade de outro nos traz.
A multiculturalidade, e a interpenetração de influências é algo já amplamente debatido e reconhecido como positivo (Não confundir com relativismo cultural absoluto, que rejeito veementemente).
Mas é na expressão da evolução diária que subsiste o gozo e beleza da expressão da liberdade pessoal. O reconhecimento da justiça, dos juízos éticos, do esforço de exploração criativa e de partilha, para que o universo de cada um seja cada vez mais seu, no respeito da sua idiossincrasia, mas em colaboração com os outros.
É por isso que me preocupa a ideia da formatação.
A pressão esmagadora das conformidades, dos medianos, dos trilhos pavimentados, sem altos ou raízes de pergunta que possam crescer por baixo e estalem esse pavimento. Preocupa que a individualidade seja confundida com individualismo, que as ideias de reacção sejam esmagadas por um discurso de conformismo e aceitação de uma qualquer noção de poder omnipresente. Chateia-me que a diferença, que as perguntas nos olhares e nas formas de estar possam de alguma forma ser catalogadas como desvios.
A globalização deveria ser feita da contaminação por conhecimento e oportunidades, não por uma "new world order" em que a competição se sobrepõe claramente à colaboração, atingindo mesmo as esferas pessoais. A evolução não põe de parte a comunicação, julgo eu. Porque quando isso acontece, o mundo das pessoas fractura, violentamente, se assim tiver de ser.
E todos lamentam.
A verdade é que a individualidade não sobrevive sem a percepção do outro. Eu creio que a mesma deve ser feita em termos de conhecimento e descoberta de formas de colaboração, como um par de idiossincrasias que se alimentam mutuamente.
No fundo, desiludido ou não com as pessoas, a verdade é que as mesmas são a fonte da minha individualidade. Só assim ela fará sentido, e como tal, é na expressão da discordância que desenharei esse contorno.
Custe o que custar.