ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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terça-feira, abril 15, 2008


Não tinha ainda falado acerca da situação da aluna e da professora em pleno WWF na sala de aula, ou da tradução situacional implícita nesse acontecimento. A verdade é que, conhecendo vários amigos professores, aquela foi uma situação que em alguns (muitos ) locais se considera menor.
E não me alongarei acerca das lógicas de disciplina nas escolas e quejandos.
Digo apenas que a chamada progressão académica sem exame é um perfeito disparate, bem como a ausência de consequências por faltas. São lógicas de facilitismo que poderiam aplicar-se a pessoas equilibradas e não a uma população que ainda não sabe muito bem o que fazer com as hormonas, e cujos parafusos não estão ainda bem apertados.
O que digo é que a surpresa não pode ser total, já que a iconografia do sucesso é veículada a esses miudos através de uma conjugação de três factores.
Fama desmiolada, futebol e reality/soap-opera shows.
A imagem do sucesso em Portugal ( e sejamos justos, não só) são jogadores de futebol com carros e gajas, ainda que não saibam produzir uma frase, ou gajas e gajos giraços que têm tanto talento para a representação como eu tenho para o crochet, ou os tipos que andam aos pulos que nem macacos nos mais variados reality shows para aparecerem na imprensa da especialidade, cuja indigência de conteúdos não raras vezes roça o inenarrável.
A cultura da pedagogia apoiada em exigência e elogio da evolução não é minimamente consagrada. Que diriam estes miúdos agora dos fantásticos filmes do John Hughes nos saudosos oitentas, onde a "moral" poderia ser óbvia, mas tinha tudo muito mais nuances que os desastres que a televisão cospe todos os dias. (No outro dia tentei ver um episódio dos Morangos com Açucar e fiquei claramente convencido que não passa de material masturbatório para miúdos de 13 anos. Escusado dizer que não passei dos dez minutos, estando a essa altura já à beira de uma quebra de tensão, tal era a ausência de actividade cerebral ou sequer entretenimento fornecido.)
A chamada rebeldia não é invenção de hoje, e todos nós temos a nossas histórias de coisas complicadas nos processos de crescimento. Mas hoje em dia as coisas são mais assustadoras, mais complexas e muito mais danosas, porque os limites foram parar às urtigas e os meninos confundem pedagogia com bandalheira...
Enquanto o modelo de sucesso não for (também) associado a inteligência, humanidade, imaginação e espírito crítico, situações como a do telemóvel são só a ponta do iceberg, e qualquer professor saberá disto. Claro que isto não significa que as escolas de repente se tornaram um antro de malfeitores e pequenos facínoras. Mas a mensagem que se passa para baixo, de pouca exigência e estímulo a pensar e criar só agora começou a gerar aloendros. E esses são, de uma ponta a outra, venenosos, além de crescerem nas condições mais adversas.
A educação começa em casa? Certamente que sim. Mas pouco poderão fazer os pais quando a contra ou subcultura dominante assenta no retorno alto e facilidade.
E quanto a isso...
P.S. - O "menino" que se juntava a outros para "dar porrada na Gi" foi condenado a 8 meses de cadeia por "omissão de auxílio". Não vou obviamente comentar os méritos da sentença, porque não conheço o processo, mas isto é um sinal assustador. Sinal de que já não são pedras às janelas ou palitos nas campaínhas ou porrada no campo de futebol. É malta que arreia nos professores sem hesitação e pode limpar o sarampo a um colega num gesto mais impensado. Malta que traduz uma noção de que não é preciso pensar em nada, ou ter cuidados absolutamente elementares. A desumanização do quotidiano combate com a alteração da natureza das coisas, ou evidenciando o que ela tem de melhor. E apesar de tudo, ainda somos capazes de coisas boas.