ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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segunda-feira, março 02, 2009

Acho que não é sentimento alheio a ninguém, pelo menos num momento que seja da sua vida, no qual nos achamos perguntadores. Sim, bem sei que perguntar é normal. É diário. É como um vaso sanguíneo que tudo abastece na capacidade e necessidade de pensar.
Mas dou comigo a fechar-me no silêncio e ouvir as coisas de outros e a pensar que por mais perguntas que faça, os cuidados parecem não chegar. É ilógico e estúpido pensar que poderei sequer tomar mais do que duas atitudes seguidas que serão abrangentes. Consensuais. Se até o coração recebe e expulsa no intervalar de um mero segundo, porque será que teimo em tentar algo diferente com os seus donos? Pois, não sei, mas a confusão é feita disso mesmo, e é ela que assenta no começo da teimosia e no fim dos objectivos.
A verdade é que raramente a visão que granjeamos, e eu obviamente sou tudo menos excepção, parece aplicável. Há demasiada resistência dos feudos, e as ideias mais marcadas estão entrincheiradas em cidades estados de ideias e sentimentos de tal forma fortificados que são mais as vezes que saem para a guerra que aquelas em que há armistícios.
E no entanto, como nunca se deve fazer perante qualquer dogma, lá teimo em perguntar, em olhar para as coisas, tentar colocá-las num patamar de entendimento o mais transversal e comum possível, e que diabo, falho muito porque não sou senão a linearidade das minhas intenções, a paixão de qualquer coisa parecida com honestidade interna e a necessária debelidade associada às coisas que contam.
E no real afecto a que me permito na peugada de alguns que são poucos, não resta senão a ideia de que se tentar nunca é uma questão, acertar muitas vezes não passa de uma qualquer sorte. Por isso, mais vale perguntar. E uma e outra vez, por mais estupido que (eu) possa parecer.
A verdade é que nada mais fará isso de forma mais eficaz que certa forma de silêncio.
Por vezes o oráculo lá fala sem adivinhas...


quarta-feira, julho 23, 2008

A ideia da generalização sempre me pareceu errada, e na verdade quanto mais cruzo caminhos com outras pessoas, mais essa noção ganha consistência.
Existe uma espécie de fio condutor que me atrevo a defender e sobre o qual reflito, mas tenho plena consciência que as diferenças intrínsecas a cada um dos conjuntos de valores e coerências complexas que vou encontrando são, por si só, pequenos mundos. E somos déspotas desses pequenos mundos, creio, na medida em que os vamos regendo conforme aquele instante parece verdadeiro e coincidente com o que a voz profunda nos vai ditando.
As originalidades não findam. As pessoas encontram e encontram-se nas mais variadas formas de suster o que lhes parece fundamental. Reagem humanamente porque o seu quadro surge pintado das matizes que, à beira de todas as formas de auto-consciência, lhes parecem adequadas.
A ideia da diferença sempre me foi cara, mas ganhou e ganha a cada dia uma dimensão mais apurada. Não creio, (nem hoje, nem nunca), no relativismo absoluto. Há para mim alguma perspectiva sempre defensável e comprovável de bem e mal, de humanidade e desumanidade, de certo ou errado. Mas é no esforço de construção e aproveitamento das diferenças de abordagem que vivem aquelas coisas que nos acompanham, e aquelas que morrem por serem margens sem sequer projectos de ponte.
As pessoas que me têm vindo a ensinar cada vez mais coisas destas sabem quem são, e por isso mesmo, apesar de nem sempre ser agradável (como se alguma vez o pudesse ser), sabem que é inestimável. A fé é também mais pequena, mas contra isso...
Síndrome de culpa católica (para um agnóstico é a osmose em conceito mais estranha do mundo), dialecto urso, vozes de gatos, felizes ditaduras da vontade, diferenças acérrimas, isolamentos ao olhar, segredos emocionais, planaltos de conforto interno, seja lá o que for. Vou recolhendo o que posso, o que me dão, e afinal de contas, o melhor que posso fazer é sempre o melhor que puder fazer.
Mesmo com o pessimismo debaixo do braço, ainda há surpresas debaixo do sol.


quarta-feira, agosto 08, 2007


"(...)how to shoot somebody who'd out drew ya..."

Jeff Buckley - Halleluyah



Julgo que é pacífico o entendimento segundo o qual as nossas acções e características carregam consigo efeitos. Ao sermos exteriorizados por nós próprios, é inegável a produção de efeitos que se gera em razão de cada uma das nossas características, actos, comportamentos e reacções. É razoavelmente linear pensar que temos uma previsão relativa à forma como afectaremos os outros. No entanto a palavras-chave é previsão, e como a meteorologia, o que é verdade hoje, pode ser varrido pelo vórtice do anticiclone de amanhã. Há algo na nossa singularidade que deixa uma marca, quer queiramos quer não.
Mas questiono-me. Poderá ser de outra forma? Claro que a adaptação é conceito chave nas relações interpessoais. Caso contrário, não passaríamos de um conjunto de eremitas de calhaus e ossos em riste. Mas a verdade é que perante o cenário feito da verdade dos factos, da explicação das motivações, os nossos efeitos são a produção da nossa própria pessoa. Parece-me improvável, ou mesmo impossível que se possa filtrar coisas como o toque, a forma de falar, os reflexos de acarinhamento. Não julgo que seja sequer exigível que, perante a revelação pragmática do que deve estar esclarecido, tenha de haver algum filtro perante as naturalidades do ser, e os seus reflexos comportamentais. Seria algo tão ridículo como programar um beijo para que não seja tão intenso, ou conter uma palavra de alento que pudesse ser disfarçada de encorajamento encapotado.
Ao entrarmos na esfera de outra pessoa, temos múltiplas variáveis. E conhecer o poder de cada uma delas é aceitar o risco que significa abrir seja que tipo de portas, seja a quem for. Podemos e devemos exigir a verdade, e repudiar com agressividade (se tiver de ser) o engano e a manipulação. Mas não podemos nunca ter a noção de que alguém seja responsabilizado ao segundo por ser quem é nas suas naturalidades. Ninguém tem culpa se o seu beijo queima, ou se as suas palavras enchem de sentido o vazio conceptual que acompanhou aquela pessoa que agora as ouve. Se alguém aceita o risco, julgo que terá de acompanhar a luta pelas concretizações do seu "wishfull thinking", sempre consciente de que certas coisas são exigíveis, e outras fazem simplesmente parte do plano de hipóteses e opções que significa estar vivo e em contacto com outros.
Claro que quase sempre existe um temor, uma consciência que surge injustamente pesada em função da responsabilidade que alguém julga ter. Existem poucas coisas piores, para mim pelo menos, que ter a noção de que sou responsável pela criação de algo que nunca esteve nos meus horizontes de opção. Mas a simples noção de que, uma vez posta de parte a ambiguidade perigosa, se possa culpar alguém por ser demasiado certeiro nas sensibilidades de outrem, é achar que o encanto pessoal pode ser algo que se mede em camadas, e que a culpa deve gerir a naturalidade do toque, da forma ou da expressão. Para mim, é algo aberrante.
Estar em contacto com outros é um risco tanto como será um gozo. Pode ser uma luta constante, ou a força geradora da identidade própria, porque como dizia o Kauffman, (também(*)) "somos aquilo de que gostamos, e não (apenas) aquilo que gosta de nós."
Ou como diz acima, a geração de afeição, amor, fraternidade pode ser apenas a quantidade de vezes em que sacamos a arma dialéctica/emocional de forma mais acelerada que o outro. E com sorte, todos levam tiros alternados, e as marcas são apenas de crescimento e evolução, nunca de vazio pela intangibilidade.
Cada um é responsável pela forma como revela o que quer, é um facto, mas nunca, em meu ver, culpado por ser aquilo que é. O efeito que temos ali, é o efeito que sofremos de acolá. Como no basquetebol, estamos sempre no ataque e na defesa. É por isso que é o meu jogo preferido, com lesões e tudo, embora também reconheça que o nível de protecção própria nunca deva ser relevado.
É sacar rápido e ver o que acontece...

segunda-feira, agosto 06, 2007


Muitas vezes temos uma noção quase certa daquilo que faremos. Daquilo que somos, daquilo que identificamos como estrutura primária da nossa forma de ser. Damos connosco a construir um arquétipo das nossas tendências. Passamos um longo e laborioso tempo a desenhar os cantos e curvas dos prováveis destinatários de todas as nossas formas de amor, identificando-os nas premissas da nossa liberdade, gotejando em direcção ao que pode não passar de perda e dor. A torneira de onde escorremos espraia-se como pouquíssima água em tanta areia escaldada pelo círculo ardente, e no entanto, a queimadura não permite ainda assim ignorar o toque alisador da água.


É engraçado como em quase todas as matérias, a força que nos liga à liberdade é teimosamente insubmissa. As dúvidas, as fugas, as teimosias, surgem como se pudéssemos estancar o tempo e fazer da finitude uma espécie de contínuo circular, onde as felicidades parcelares se moldam como uma ilusão de espiral autofágica. No dedilhar incerto pelas feridas da incerteza brota então uma vida que desconhecíamos, uma espécie de mundo que não morre aos instantes, mas que se torna infindo pela simples prova da sua existência. Aqueles que o tornam possível, cruzam a pele e enrugam-na em cada instante irrepetível de vida. São as marcas da vivência, as surpresas feitas pegadas na tal areia lisa, antes que o sol evapore a água que a fez permeável às formas do tempo que passa, e das pessoas que ficam.


E que mais resta?

Bem, talvez o facto de sermos prisioneiros desses instantes, da tristeza profunda que mata a perenidade, mas que ao salvar dez segundos, salva um mundo inteiro. Um mundo que somos nós, uma lógica que nos pertence, uma libertação em queda livre que, passo a passo, nos molda um bocadinho, como beijos de dentes ávidos que suavemente cortam lábios.


A verdade é que o facto de não sabermos, de ligarmos o carro e nada vermos após a curva, dão-nos a asas que podem derreter-se. Mas os instantes em que se paira, antes que o vento denuncie a queda, podem ser uma vida inteira. E quem sabe, talvez o vento venha de cima, e não por baixo.