"(...)how to shoot somebody who'd out drew ya..."
Jeff Buckley - Halleluyah
Julgo que é pacífico o entendimento segundo o qual as nossas acções e características carregam consigo efeitos. Ao sermos exteriorizados por nós próprios, é inegável a produção de efeitos que se gera em razão de cada uma das nossas características, actos, comportamentos e reacções. É razoavelmente linear pensar que temos uma previsão relativa à forma como afectaremos os outros. No entanto a palavras-chave é previsão, e como a meteorologia, o que é verdade hoje, pode ser varrido pelo vórtice do anticiclone de amanhã. Há algo na nossa singularidade que deixa uma marca, quer queiramos quer não.
Mas questiono-me. Poderá ser de outra forma? Claro que a adaptação é conceito chave nas relações interpessoais. Caso contrário, não passaríamos de um conjunto de eremitas de calhaus e ossos em riste. Mas a verdade é que perante o cenário feito da verdade dos factos, da explicação das motivações, os nossos efeitos são a produção da nossa própria pessoa. Parece-me improvável, ou mesmo impossível que se possa filtrar coisas como o toque, a forma de falar, os reflexos de acarinhamento. Não julgo que seja sequer exigível que, perante a revelação pragmática do que deve estar esclarecido, tenha de haver algum filtro perante as naturalidades do ser, e os seus reflexos comportamentais. Seria algo tão ridículo como programar um beijo para que não seja tão intenso, ou conter uma palavra de alento que pudesse ser disfarçada de encorajamento encapotado.
Ao entrarmos na esfera de outra pessoa, temos múltiplas variáveis. E conhecer o poder de cada uma delas é aceitar o risco que significa abrir seja que tipo de portas, seja a quem for. Podemos e devemos exigir a verdade, e repudiar com agressividade (se tiver de ser) o engano e a manipulação. Mas não podemos nunca ter a noção de que alguém seja responsabilizado ao segundo por ser quem é nas suas naturalidades. Ninguém tem culpa se o seu beijo queima, ou se as suas palavras enchem de sentido o vazio conceptual que acompanhou aquela pessoa que agora as ouve. Se alguém aceita o risco, julgo que terá de acompanhar a luta pelas concretizações do seu "wishfull thinking", sempre consciente de que certas coisas são exigíveis, e outras fazem simplesmente parte do plano de hipóteses e opções que significa estar vivo e em contacto com outros.
Claro que quase sempre existe um temor, uma consciência que surge injustamente pesada em função da responsabilidade que alguém julga ter. Existem poucas coisas piores, para mim pelo menos, que ter a noção de que sou responsável pela criação de algo que nunca esteve nos meus horizontes de opção. Mas a simples noção de que, uma vez posta de parte a ambiguidade perigosa, se possa culpar alguém por ser demasiado certeiro nas sensibilidades de outrem, é achar que o encanto pessoal pode ser algo que se mede em camadas, e que a culpa deve gerir a naturalidade do toque, da forma ou da expressão. Para mim, é algo aberrante.
Estar em contacto com outros é um risco tanto como será um gozo. Pode ser uma luta constante, ou a força geradora da identidade própria, porque como dizia o Kauffman, (também(*)) "somos aquilo de que gostamos, e não (apenas) aquilo que gosta de nós."
Ou como diz acima, a geração de afeição, amor, fraternidade pode ser apenas a quantidade de vezes em que sacamos a arma dialéctica/emocional de forma mais acelerada que o outro. E com sorte, todos levam tiros alternados, e as marcas são apenas de crescimento e evolução, nunca de vazio pela intangibilidade.
Cada um é responsável pela forma como revela o que quer, é um facto, mas nunca, em meu ver, culpado por ser aquilo que é. O efeito que temos ali, é o efeito que sofremos de acolá. Como no basquetebol, estamos sempre no ataque e na defesa. É por isso que é o meu jogo preferido, com lesões e tudo, embora também reconheça que o nível de protecção própria nunca deva ser relevado.
É sacar rápido e ver o que acontece...