ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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segunda-feira, maio 19, 2008

Aumento de emigração. Ausência de futuro. Medo e expectativas baixas.
No nosso país, demasiados dias são demasiado parecidos como este para demasiadas pessoas...
"O André deambulavava de um lado para o outro, com o fato um pouco salpicado apesar do chapéu. Apesar de tudo parecia composto, à excepção dos olhos avermelhados e a palidez da pele. As mãos apertavam a mala de pele já um pouco coçada com nervosismo. Faltavam cerca de cinco minutos para a entrevista. A porta do prédio pareciam enorme, como uma bocarra falsamente convidativa. Uma planta carnívora de betão, espelhando o cinzento da cidade como um fatalismo surdo e pictórico. O som da água nas poças parecia mais convidativo que o silêncio abafado que André ouviu depois de cruzar as portas.
Perto das escadas ouviu uma voz polida e educada, mas pouco empática. A menina que controlava a recepção perguntava-lhe o seu destino, e ele respondeu de forma ausente, mostrando uma carta. Ela pediu que se aproximasse, retirou-lhe a carta da mão com toda a delicadeza e pediu-lhe que se sentasse num dos cinco sofás que ladeavam o balcão da recepção. No meio uma mesa com revistas desactualizadas e cupões para cursos à distância.
Ela falou ao telefone e mandou-o subir.
André subiu pelo elevador até ao sétimo andar. Quando as portas se abriram, deparou-se com um corredor revestido a mármore, com longos tapetes de motivos árabes no espalhados pelo chão. Uma mulher de óculos na ponta do nariz e uma saia deliciosamente curta cruzou-se com ele e sorriu. Deixou cair um pouco do aroma de um perfume que André não sabia qual era. O desespero e o anseio tocaram uma vez à porta, mas ele consegui correr com eles. Não queria comprar nada. Naquele momento queria era vender-se. Esperava que a mercadoria pudesse de alguma forma interessar.
Na sala estavam quatro homens. Envergavam fatos escuros e dispensavam olhares inexpressivos mas que fitavam com firmeza. André sabia que estava a ser analisado desde o momento em que entrara. Queria pôr os pés para dentro mas não conseguia. Tentou sentar-se com segurança, mas deixou os ombros caírem um pouco para a frente. O cansaço era agora tão visível como o desespero e por mais que soubesse que tudo o que havia a fazer era engolir mais uma dose de desprezo antecipado e mostrar-se brilhante e fresco, deu consigo a ser incapaz de o fazer. Recordava o sono constante que tinha, aliada à dificuldade em dormir. Como uma espécie de picada constante que impedia o descanso de fazer aquilo para que servia.
No entanto, o instinto de preservação, moribundo mas incrivelmente teimoso, lançou um único alerta, fazendo com que André abrisse a mala e mostrasse o curriculum impecavelmente impresso, inserido em capas de plástico tornando o manuseamento mais simples e agradável.
Os olhares dos supostos entrevistadores amenizaram um pouco. O silêncio era feito de pedaços de realidade palpável e invisível, e ele viu-se forçado a baixar os olhos muito mais vezes do que seria aconselhável. Viu uma nódoa na lapela que o azul escuro tornara invisível. Ou assim ele esperava. As mãos tremiam. O mundo lá fora era um estômago torcido em forma de nó de marinheiro. Podia ser o atum ou a pressão.
A conversa começou como tantas outras. Discorrer sobre o passado, extirpar os supostos anseios e projectos de futuro. Percorrer os detalhes, ver uma espécie de anseio de vitória nos olhos, perceber os gestos. André estava em estado para tudo menos isso. Tinha uma dor de cabeça extrema, produto de uma descrença forçada pelo tempo e inadequação.
Acabou por saltitar com a máxima confiança que lhe era permitida entre as questões, as verificações de coerência, a suposta fluência do discurso, os variados registos em determinados cenários propostos. A entrevista correu mal, mas não tão mal como ele esperaria. talvez fosse chamado dali a três meses, mas ele não sabia, nem sequer poderia supor que algo passasse da normalidade da negação. Nada lhe fora adiantado. Tudo era um registo de faces cordiais mas duras, de retorno a um nada, do passar dos minutos sem fim ausentes do vislumbre de uma bandeira branca que dançasse como as tréguas da realidade.
Às três da tarde daquele dia, as mãos estavam vazias, o corpo perdido e transpirado dentro do fato, e as ideias fixadas numa ausência de soluções. Pressão na cabeça, fadiga constante, ideias mais ou menos trágicas ululando uma mensagem incoerente.

Retornou para o nada que tinha. Como habitualmente.
E abriu novamente o jornal..."



quinta-feira, outubro 04, 2007



Portugal, ou a sua política de gestão dos intrumentos culturais, ou mesmo aceitação dos mesmos, e ainda a porra da rentabilidade acima de tudo, deu mais um exemplo de indigência, da falta de interesse pela cultura, neste caso o cinema, e pelos nichos e interessados em qualquer coisa impressa que não seja futebol ou as férias da Cinha Jardim.

É com profunda tristeza e desagrado que verifico que a PREMIERE, a única revista portuguesa de cinema em condições, e que se tornou uma bíblia de compra obrigatória, chegou ao fim. Será descontinuada a partir deste mês de Outubro, a quatro números da mitica marca da centena de publicações.


Pelo que se pode ler aqui e aqui, nem os argumentos económicos são convincentes, pois sendo uma revista de nicho de mercado muito específico, tinha uma venda que cobria quase toda a tiragem. Como o mítico Se7e, eis mais um oásis na edição escrita que desaparece, deixando ficar a multiplicidade de verborreia e desperdício de papel que são as revistas do coração e jornais da bola.


Não é por ter de passar a comprar a PREMIERE inglesa (já que a americana passou a ser disponibilizada exclusivamente on-line - outra tristeza economicista - Huxley por todo o lado...), ou a EMPIRE, que são muito boas, mesmo que custe quase o triplo desta nossa PREMIERE, mas pela mensagem que passa. A mensagem de que a rentabilidade cultural se faz à custa de matéria que por vezes raia o inenarrável, que o interesse das pessoas parece mesmo ficar-se pela bola, as casas dos decoradores de interiores e jet7, as dicas de beleza e as revistas de mamas e boçalidade pretensamente masculinizada.


Assim é com a imprensa escrita, bem como a televisão e mesmo uma importante fatia mercado editorial (Carolina Salgado, Alexandre Frota e quejandos são apenas um exemplo).


Hoje é um dia particularmente triste para mim, mas acho que o deverá ser para todos os movie nerds, que, como eu, aguardavam a única revista nacional que nos dava umas boas dicas quanto ao cinema a ver e rever.


Hoje é mais um dia em que os interesses economicistas e a particular visão da cultura em Portugal asfixia os interesses ditos de menor popularidade, os quais, talvez, arrisco-me a dizê-lo, até fazem pensar...


Triste...

segunda-feira, março 26, 2007

Ainda no Público de hoje.

Reis Torgal leu-me o pensamento...

Que tristeza de país este...


"Grandes Portugueses": historiador Reis Torgal lamenta possível escolha de Salazar 23.03.2007 - 14h37 Lusa

O historiador Reis Torgal criticou hoje o programa "Grandes Portugueses", da RTP, lamentando que o ditador Salazar possa ser escolhido como "o maior português de sempre", através do que considera ser "memória fabricada".
A título pessoal, Luís Reis Torgal tem prestado apoio científico à câmara de Santa Comba Dão, no âmbito dos contactos que a autarquia tem promovido tendo em vista a criação no concelho de um museu alusivo a Oliveira Salazar, hipótese que o investigador quer ver abandonada.Em declarações à agência Lusa, na semana passada, o catedrático da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra disse que preferia que a casa do antigo ditador, natural do concelho de Santa Comba Dão, fosse transformada em espaço de exposições e centro de documentação sobre o Estado Novo.
Num artigo publicado hoje pelo "Diário de Coimbra", Reis Torgal afirma que "não houve em nenhum país, como no nosso, onde a televisão tem uma enorme importância na opinião pública, o risco de um ditador ser considerado 'o maior português de sempre'".
Sublinhando a sua oposição contra o polémico programa da RTP, salienta que, neste caso, "a qualidade de 'grande português' resulta afinal de um 'voto popular', pago, tal como se elege a 'melhor canção' em medíocres festivais ou se vota a saída ou a permanência dos concorrentes nos programas 'voyeuristas' do tipo 'Big Brother'".
"Neste contexto de 'memória fabricada', corre-se o risco de Salazar ficar em primeiro lugar para gáudio e vergonha de algumas gentes deste país, que se recusa a integrar a ideia de que a História é uma ciência de verdade", refere.
No mesmo artigo, Reis Torgal alude ainda à participação de José Hermano Saraiva, "excelente comunicador" e "ex-ministro de Salazar" num outro programa da televisão pública."A História é identificada com a 'estória', interpretada sob a forma de opinião" por Hermano Saraiva, "o qual, coerentemente, vai afirmando, de quando em vez, que o 'fascismo' em Portugal 'nunca existiu", critica ainda o historiador."