Dizer que não se exige é uma falácia. Pior, é uma hipocrisia acidental. Isso mesmo, esse conceito paradoxal mesmo. Uma hipocrisia acidental. A exigência faz parte da noção de sobrevivência que leva miúdos de tenra idade, sem a lição civilizacional do respeito pela partilha, a subjugar o semelhante porque a vontade surge soberana - Golding dixit.
A exigência é um instante de vontade potencial que mapeia o desejo.
E se para alguns, o amor explica todas as listas, desadequando-as, e para outros, as listas inabilitam a necessidade do amor, a verdade é que a exigência não surge sempre traduzida. Ela emana da percepção partilhada, de ondas de qualquer coisa que se parece com matéria. A exigência feita desejo é como uma luz que se deixa tocar. E para percebermos até onde estamos, o mínimo contorno tem de ser visível, o que, para mim, torna algo como o amor inteiramente inexplicável uma falsidade autocrática.
É naquilo que vemos e percebemos, perante os semelhantes, que o inexplicável cria os únicos. O amor, como o esquematismo kantiano, é a matéria que escolhe escorrer para moldes que de alguma forma existem, ainda que julguemos que só nos apercebemos deles no instante em que se enchem...
Quanto mais vivo, mais creio nisto, e mais o defendo.
Valoramos várias pessoas com milhões de características. Amamos aquelas que, "iguais" às outras, se tornam únicas, sem fazerem ponta de corno de ideia de como o fazem.
Ninguém é o que fazemos dessa pessoa, julgo eu, mas antes aquilo com que consegue insurgir-se, na petulância inconsciente da criação em que se torna, enganando-nos maravilhosamente ao obriga-nos a pensar que, afinal, conhecêmo-los desde sempre.
E exigimos porque num real amigo, amante ou familiar, é sempre isto que acontece.