ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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quarta-feira, fevereiro 27, 2008

Os Modernos e os Receosos.
A palavra delírio vem do latim e significa "sair do trilho...
Dixit...
"Ela – Conheces uma fotógrafa chamada Renee Cox? Ou James W. Bailey?
Ele – Nem por isso. Sou admirador do Sebastião Salgado, conheço a foto que toda a gente conhece do Steve McCurry, mas o meu conhecimento em fotografia fica por aí.
Ela – São muito bons. Mas estes são fotógrafos mais complicados. Mais polémicos. Um deles, a Cox, retratou a ultima ceia substituindo Cristo por uma mulher negra nua.
Ele – Estou a ver que a coisa não pode ter ficado pacífica.
Ela – E vês bem. A senhora tem uma ala própria, de acesso restrito num dos museus onde tem trabalho exposto permanentemente. Parece que a correspondência de ódio e ameaças não pára. Até o presidente da câmara de Nova Iorque ameaçou interditar o trabalho dela.
Incrível, não achas?
Ele – E suponho que tu tenhas o mesmo estilo de trabalho.
Ela – Exacto. Recordas-te ou viste o “Intimidade”?
Ele – O filme?
Ela – Sim. Sabes de certeza qual é. Aquele em que a protagonista, a Kerry Fox, faz sexo
oral real ao colega de cena?

Ele – Ah, sim, já sei. Pois… ouvi falar qualquer coisa acerca disso.
Ela – Foram feitas muitas entrevistas. Os tablóides ingleses começaram a tocar a corneta
e as histórias começaram a vir ao de cima. Há uma entrevista do Linklater… o namorado… a um jornal inglês, onde o tipo tenta explicar como é que se lida com a mulher a ter sexo real à frente das câmaras.
E conta uns episódios engraçados.
Sabes o que é que ela disse ao namorado, quando ele lhe perguntou porque é que ela
queria arriscar-se a fazer o tipo de cenas de sexo que o realizador lhe pediu para retratar no filme?

Ele – Não faço ideia…
Ela – Porque, como actriz e mesmo cinéfila, nunca fizera aquilo antes. Espero que a ti te explique muita coisa.
Ele – Entendo. Mas ainda assim, como seriam as conversas daquele casal depois da estreia do filme…
Ela – Sim, é complicado, mas por vezes para se fazer certas coisas, há uma escolha legítima, em meu ver. É uma afirmação, mais nada. Um modo de vida. Ela como artista, escolheu fazer as coisas assim e correr o risco. Ele aceitou. Não é qualquer um que o faz.
Ele – É o teu caso?
Ela – Sim. Isso choca-te? A violência que viste é encenada mas o sexo é real. As fotografias não funcionavam se o sexo não fosse real. Exactamente como naquele filme. A emoção surge, nesse contexto, na reprodução do sentimento que se quer causar. E eu quero abanar o barco, digamos
assim. É caso para dizer que neste momento tens de fazer perguntas muito complicadas ao que chamas de moralidade própria.

Ele – Para já acho-a suficientemente elástica, mas porquê exactamente?
Ela – Para saberes se valeu a pena vir aqui. Agora estou a ser provocadora, eu sei, mas quem anda à chuva…
Será que não vieste também tentar a tua sorte? Apesar do medo, quero eu dizer.
No fundo, é tudo encenação. Arte. Trabalho.
Os verdadeiramente curiosos dão os melhores modelos, sabias? São os únicos entusiastas, na minha opinião.

Ele – Bem, não sei…ahmn…. Se é tudo trabalho,
onde é que fica a emoção para causar o tal impacto da
arte que falaste?
Ela – Isso só descobrirás por ti próprio."
Pois...

terça-feira, dezembro 11, 2007



Os relatos sobre os comportamentos disfuncionais entre casais dão que pensar. Especialmente no campo sexual, porquanto leva a reflexões complicadas. Reflexões que entram pela lógica da relação, pelo partilhar de espaços, pela descoberta mútua, pelo ensinamento do corpo e a percepção do outro através de coisas tão básicas e essenciais como o cheiro ou os movimentos típicos.

A verdade é que ouço todo o tipo de histórias. De mulheres pouco interessadas em sexo, de homens sempre cansados, de relações que se vão defrontando com problemas derivados, quero eu crer, não do conhecimento mútuo, mas da entrada nas vivências quotidianas, e dos seus efeitos. O elemento confiança e partilha parece ter aí uma espécie de campo minado, pois aos que vão conhecendo, mostra-se a dimensão daquilo que não se reveste necessariamente de mistério ou sofisticação. Ao aceder ao nosso básico, as imperfeições sobem como uma espécie de crachá brilhante, e torna-se impossível que este não ofusque o olhar de quando em vez.

Mas se pensarmos, as disfunções sexuais, as incompatiblidades, a montanha russa dos interesses mútuos não se colocam nunca nos relatos de situações limitadas no tempo ou na disponibilidade. Também é um mito que a aventura não assuste ou intimide, porque bem vistas as coisas, a percepção de alguém novo, de um calor de corpo que não conhecemos, de um cheiro que não nos é familiar, coloca toda a espécie de ansiedades em jogo, o que acaba por poder provocar problemas "funcionais".

Mas a verdade é que a mais das vezes cavalga-se sempre na lógica da descoberta, e a disfuncionalidade fica de fora quando a confiança é sempre limitada. Talvez alguns considerem que isso é uma espécie de opção instintiva, de ganhos e perdas necessários a qualquer fenómeno relacional.

Nunca generalizando, a verdade é que conheço cada vez mais casos em que a convivência sã ( ou não) ganha um poder considerável sobre as pulsões. Mas a verdade é que elas vêm ao de cima, mais cedo ou mais tarde. Podem ou não concretizar-se, mas é a capacidade de equilibrar os variados instintos que safará a pessoa. O contra-balanço, porque é inegável que o amor progride na sua dupla face de fenómeno ternurento com dentes.

Em consequência, multiplicam-se os relatos, especialmente de mulheres (que são os que mais me intrigam e interessam), que expressam em alto e bom som a dureza da sua condição face à sua auto-determinação e ganho social. E algumas dessas histórias parecem demasiado caricatas para serem reais, mas a expressão nos olhares e o tom das palavras parecem deixar pouca margem para dúvidas. A sua frustração emerge, não raras vezes, como a manifestação do inegável poder sexual que assombra o homem desde a antiguidade, e como tal, escora-se na força de uma emocionalidade sexuada, que é bem mais complicada de satisfazer devidamente. E quem é quem para poder negar aquilo que cada um acha satisfatório? Há uma margem de tolerância ou parcimónia? De selecção de argumentos e atributos da pessoa? Brincando, diria que o tamanho interessa sempre, não importa o que me digam as visadas. Mas também interessa o tamanho do interesse instilado, da variação das perspectivas, da criação de caminho para caminhar, passo a redundância, ao que se junta um pouco de sorte. E aí todos são responsáveis, perdedores ou vencedores. Perguntar e exigir não são petulâncias. São rações de sobrevivência.

As disfunções, às quais chamaria apenas desencontros parciais e cronológicos, surgem-me muitas vezes como pecados de preguiça, mas também é certo que a natureza pessoal de cada um pode ser mais ou menos consentânea com a capacidade e vontade de retirar várias águas da mesma fonte, e sempre frescas e correntes.

Ao estagnar, surge o cheiro, e nada sobrevive.

Fácil?

Claro que não!

Possível?

Parece que sim...