
Os relatos sobre os comportamentos disfuncionais entre casais dão que pensar. Especialmente no campo sexual, porquanto leva a reflexões complicadas. Reflexões que entram pela lógica da relação, pelo partilhar de espaços, pela descoberta mútua, pelo ensinamento do corpo e a percepção do outro através de coisas tão básicas e essenciais como o cheiro ou os movimentos típicos.
A verdade é que ouço todo o tipo de histórias. De mulheres pouco interessadas em sexo, de homens sempre cansados, de relações que se vão defrontando com problemas derivados, quero eu crer, não do conhecimento mútuo, mas da entrada nas vivências quotidianas, e dos seus efeitos. O elemento confiança e partilha parece ter aí uma espécie de campo minado, pois aos que vão conhecendo, mostra-se a dimensão daquilo que não se reveste necessariamente de mistério ou sofisticação. Ao aceder ao nosso básico, as imperfeições sobem como uma espécie de crachá brilhante, e torna-se impossível que este não ofusque o olhar de quando em vez.
Mas se pensarmos, as disfunções sexuais, as incompatiblidades, a montanha russa dos interesses mútuos não se colocam nunca nos relatos de situações limitadas no tempo ou na disponibilidade. Também é um mito que a aventura não assuste ou intimide, porque bem vistas as coisas, a percepção de alguém novo, de um calor de corpo que não conhecemos, de um cheiro que não nos é familiar, coloca toda a espécie de ansiedades em jogo, o que acaba por poder provocar problemas "funcionais".
Mas a verdade é que a mais das vezes cavalga-se sempre na lógica da descoberta, e a disfuncionalidade fica de fora quando a confiança é sempre limitada. Talvez alguns considerem que isso é uma espécie de opção instintiva, de ganhos e perdas necessários a qualquer fenómeno relacional.
Nunca generalizando, a verdade é que conheço cada vez mais casos em que a convivência sã ( ou não) ganha um poder considerável sobre as pulsões. Mas a verdade é que elas vêm ao de cima, mais cedo ou mais tarde. Podem ou não concretizar-se, mas é a capacidade de equilibrar os variados instintos que safará a pessoa. O contra-balanço, porque é inegável que o amor progride na sua dupla face de fenómeno ternurento com dentes.
Em consequência, multiplicam-se os relatos, especialmente de mulheres (que são os que mais me intrigam e interessam), que expressam em alto e bom som a dureza da sua condição face à sua auto-determinação e ganho social. E algumas dessas histórias parecem demasiado caricatas para serem reais, mas a expressão nos olhares e o tom das palavras parecem deixar pouca margem para dúvidas. A sua frustração emerge, não raras vezes, como a manifestação do inegável poder sexual que assombra o homem desde a antiguidade, e como tal, escora-se na força de uma emocionalidade sexuada, que é bem mais complicada de satisfazer devidamente. E quem é quem para poder negar aquilo que cada um acha satisfatório? Há uma margem de tolerância ou parcimónia? De selecção de argumentos e atributos da pessoa? Brincando, diria que o tamanho interessa sempre, não importa o que me digam as visadas. Mas também interessa o tamanho do interesse instilado, da variação das perspectivas, da criação de caminho para caminhar, passo a redundância, ao que se junta um pouco de sorte. E aí todos são responsáveis, perdedores ou vencedores. Perguntar e exigir não são petulâncias. São rações de sobrevivência.
As disfunções, às quais chamaria apenas desencontros parciais e cronológicos, surgem-me muitas vezes como pecados de preguiça, mas também é certo que a natureza pessoal de cada um pode ser mais ou menos consentânea com a capacidade e vontade de retirar várias águas da mesma fonte, e sempre frescas e correntes.
Ao estagnar, surge o cheiro, e nada sobrevive.
Fácil?
Claro que não!
Possível?
Parece que sim...