
Em períodos de caos no trabalho, ou simples ferrugem de escrita, são normalmente coisas do mundo de todos nós que me fazem quebrar algum silêncio. Talvez porque berrar para o ar de nada adiante, e embora escrevê-lo aqui também não, pelo menos fica registado como a inutilidade da indignação individual num cenário onde as excrescências sociais da nova ordem mundial mostram a cara e redundam na incoerência daqueles que preconizam uma dinâmica económica que acabará por nos desagregar como uma manta de amebas na mão de uma criança precocemente experimentalista. Mas embora a indignação individual valha cada vez menos, acho que vale sempre a pena dizer alguma coisa.
O plano governamental para o aumento da natalidade é uma boa intenção cheia de peneiras, feita pequena conjuntura para "enganar" efeitos de mudança estrutural. Será que as pessoas julgam que 2500€ chegarão para levar aqueles que não querem ou não podem ter uma familia mais numerosa a tê-la?
Quando o tecido empresarial português martela as exigências de uma alteração constitucional para retirar qualquer elemento de estabilidade do contrato de trabalho, e reduzi-lo a uma mera relação obrigacional simples, com total liberdade de desvinculação, como é que se pode ter a lata de pedir à população portuguesa para ter mais filhos? Ou alguns?
Eu gostaria que os defensores do liberalismo economicista fossem a um banco e tentassem comprar uma casa com um contrato a termo certo de seis meses. Ou a um stand tentar comprar um carro. Ou a um colégio do pré-escolar minimamente decente para tentar colocar um filho, e ter dinheiro para que os gajos aguentem os putos até Às sete, isto se o chefe estiver de bom humor. Ou tentar explicar-lhe que não pode ter a Playstation 3 porque dali a seis meses nem se sabe se a família terá o salário para as despesas correntes.
Gostaria que pelo menos existisse o pudor e o bom senso para se concluir que a natalidade é um reflexo de duas conjunturas normalmente díspares. Ou uma pobreza extrema, onde a natalidade dispara (assim como a mortalidade infantil, mas isso é outra história) por várias razões que vão desde a inexistência de uma ideia de planeamento familiar à incapacidade de recorrer economicamente à mais básica profilaxia, ou uma estabilidade económica que permite a alguns ter a capacidade de gerar prole sem a estar a sujeitar a riscos de insolvência familiar constantes. Entre Oeiras e Cascais, junto ao rio, é ver uma miríade de cabecinhas loiras e alegres, a correr e sujar-se por toda a parte. Acho que o sinal é claro.
Portanto se o modelo social preconizado pelos detentores do poder económico, (os quais defendem uma alteração da constituição na qual se preconize um modelo laboral onde claramente a vida pessoal e familiar é secundária) é claramente "Huxliano", não podem esses mesmos defensores vir pedir milagres demográficos numa era onde o medo, a incerteza e as pessoas consideradas descartáveis são uma realidade inegável e aterradora.
Não se trata de ser de esquerda, direita, centro, de cima ou de baixo. Trata-se de coerência mínima e bom senso.
Não se trata de ser de esquerda, direita, centro, de cima ou de baixo. Trata-se de coerência mínima e bom senso.
Tenham vergonha!
Tenham respeito pelas pessoas.