ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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sexta-feira, novembro 02, 2007

Foto - Thomas Barbey


Não há muito tempo, num café muito simpático situado na D. Carlos I (ao Parlamento), tomava café com uma velha amiga de muitas histórias, quando ela falou do peso da metrópole. Falava das distâncias, e do peso da maralha numa cidade que, devido à sua macrocefalia e imensa população, é paradoxalmente um local de solidão e afastamento entre as pessoas. Aqueles que têm uma família ou uma relação, parece refugiar-se nessa lógica, engrossando a parede invisível e plástica que incrementa a rotina dos pequenos crimes humano/urbanos que muitas pessoas cometem contra si mesmas. Falávamos de um esboroar, da perda de paixões que acompanham décadas, da vivência em função das tarefas, dos dentes afiados da cidade perante aqueles que tombam da roda das auto-rotinas.


Não é novidade nenhuma que as metrópoles podem empurrar as pessoas para uma dicotomia solidão versus procura que se torna muito pior na forma como exclui os desenraizados. Aqueles que não têm para onde fugir, ou onde se refugiar, especialmente quando não deveria haver razão para tal.


Lisboa é, creio eu, e à semelhança de outras metrópoles, um monstro de dentes afiados que lá vai alternando com campo de possibilidades e potencialidades. E no meio da adaptação, num local onde as romarias de trabalho-casa/casa-trabalho estraçalham muita da capacidade de fazer algo de diferente, a procura de um interesse, de algo de diferente, que apaixona e leva a esforços complementares de diversificação. Muitas pessoas seguem o seu plano diário, e ocasionalmente é possível ver aquela angústia desenhada no olhar cansado e acuado de quem caminha em stress no círculo dos seus dias. Mas parece que para muitos, ver-se fora desse círculo é ainda mais aterrador, quando o silêncio dos livros e o som das vozes que não se lhes dirigem tudo são ecos de um descaso tão insuportável como inadvertido.


Mas também há possibilidade nas metrópoles. Existem aqueles que andam por aí, com um livro debaixo do braço, com um sorriso encantador, com uma ideia maluca, com um pequeno truque de salão que nunca mostraram a ninguém, com duas coisas reais para dizer, e três disparates deliciosamente interno e pessoais para expor. Existem detentores de histórias felizes, de feridas mal suturadas, gente confusa, ansiosa, ávida, curiosa, com ornamentos na pele ou nas intenções, cabelos entrelaçados, pessimismos estilhaçados por sorrisos desautorizados.


Esta metrópole, porque nunca vivi noutra, pode estilhaçar-nos, mas os cacos em que podemos tornar-nos também podem tirar sangue de outros locais, e a vida algures acaba por ser comprovada. A duras penas ou no próximo momento em que surge o inédito, mas é o perigo de que nos engula que a torna real.


Por isso recordo o rosto dessa velha amiga, e sorrio. Sorrio porque pensava que ao transmitir isto, lhe passava algum senso de conforto, mas talvez só tenha unido a minha confusão à dela. E da percepção empática das coisas que nunca estão estáticas, verte uma ausência de solidão. E porquê? Porque afinal de contas, o real companheirismo e pertença nunca está no destino, mas em todos os fenomenos que se assemelhem à expectativa de de chegar lá, e que permite que se imagine em conjunto, contando as histórias por acontecer.


Creio que será assim, e é por isso que a metrópole é dual - mulher bela ao entardecer ou bruxa fétida no negro encontrado debaixo do sol. E somos todos metidos nas histórias que delas derivam.


Feliz ou infelizmente...






quarta-feira, outubro 10, 2007


Foto By Fipas



Conheço pessoas que são perseguidas por algo que dificilmente definem, e que se enquadra perfeitamente na velhinha canção do Variações. Carregam-se a si próprios em busca de um senso de identidade com coisas que, em algumas ocasiões, nem sequer sabem ainda o que são, ou como podem contribuir para um pouco da realização descansada, ainda que sempre parcial.




Sôfregas, ansiosas, cheias de coragem para dar um passinho mais adiante, sem grandes certezas quanto ao suposto poiso de relaxamento ou objectivo concreto, sofremos sempre um pouco por elas ao ver a inquietação que lhes vai roubando o sono. Achamo-nos impotentes para apontar qualquer sugestão de caminho em direcção não à paz desmorta e macilenta, mas aquele estado de progressão onde encontram as reais possibilidades (sim, porque ninguém me tira da cabeça que não temos mais que isso) de dar de caras com algo parecido a estados intermitentes de felicidade.




Falam connosco, e confortamo-las, talvez conscientes também das nossas insuficiências quanto à capacidade para calar esses desmandos de vontade. Passamos a mão pela sua face, dizemos meia dúzia de palavras feitas de presença, confiança e conforto, e sorriem-nos. Sorriem pela nossa permanência teimosa, como ramos de raízes entrelaçadas, mas talvez um pouco conscientes de que pouco podemos fazer para tal desorientação sem pistas.




Nunca os apressamos a partir, mas sabemos que de nada adianta. Seguem o seu caminho, sorriem na percepção dos passos que os levam, e pelo menos pedem que reconheçamos a vontade de crescer em raíz, ainda que não haja terra ou humus que os alimente.




Mais ou menos próximos, observar com as mãos estendidas é o mínimo (ou talvez mesmo o máximo) que se pode fazer.




Abandoná-los à sua sorte é como dizer que o vento tem livre arbítrio.