Foto - Thomas BarbeyNão há muito tempo, num café muito simpático situado na D. Carlos I (ao Parlamento), tomava café com uma velha amiga de muitas histórias, quando ela falou do peso da metrópole. Falava das distâncias, e do peso da maralha numa cidade que, devido à sua macrocefalia e imensa população, é paradoxalmente um local de solidão e afastamento entre as pessoas. Aqueles que têm uma família ou uma relação, parece refugiar-se nessa lógica, engrossando a parede invisível e plástica que incrementa a rotina dos pequenos crimes humano/urbanos que muitas pessoas cometem contra si mesmas. Falávamos de um esboroar, da perda de paixões que acompanham décadas, da vivência em função das tarefas, dos dentes afiados da cidade perante aqueles que tombam da roda das auto-rotinas.
Não é novidade nenhuma que as metrópoles podem empurrar as pessoas para uma dicotomia solidão versus procura que se torna muito pior na forma como exclui os desenraizados. Aqueles que não têm para onde fugir, ou onde se refugiar, especialmente quando não deveria haver razão para tal.
Lisboa é, creio eu, e à semelhança de outras metrópoles, um monstro de dentes afiados que lá vai alternando com campo de possibilidades e potencialidades. E no meio da adaptação, num local onde as romarias de trabalho-casa/casa-trabalho estraçalham muita da capacidade de fazer algo de diferente, a procura de um interesse, de algo de diferente, que apaixona e leva a esforços complementares de diversificação. Muitas pessoas seguem o seu plano diário, e ocasionalmente é possível ver aquela angústia desenhada no olhar cansado e acuado de quem caminha em stress no círculo dos seus dias. Mas parece que para muitos, ver-se fora desse círculo é ainda mais aterrador, quando o silêncio dos livros e o som das vozes que não se lhes dirigem tudo são ecos de um descaso tão insuportável como inadvertido.
Mas também há possibilidade nas metrópoles. Existem aqueles que andam por aí, com um livro debaixo do braço, com um sorriso encantador, com uma ideia maluca, com um pequeno truque de salão que nunca mostraram a ninguém, com duas coisas reais para dizer, e três disparates deliciosamente interno e pessoais para expor. Existem detentores de histórias felizes, de feridas mal suturadas, gente confusa, ansiosa, ávida, curiosa, com ornamentos na pele ou nas intenções, cabelos entrelaçados, pessimismos estilhaçados por sorrisos desautorizados.
Esta metrópole, porque nunca vivi noutra, pode estilhaçar-nos, mas os cacos em que podemos tornar-nos também podem tirar sangue de outros locais, e a vida algures acaba por ser comprovada. A duras penas ou no próximo momento em que surge o inédito, mas é o perigo de que nos engula que a torna real.
Por isso recordo o rosto dessa velha amiga, e sorrio. Sorrio porque pensava que ao transmitir isto, lhe passava algum senso de conforto, mas talvez só tenha unido a minha confusão à dela. E da percepção empática das coisas que nunca estão estáticas, verte uma ausência de solidão. E porquê? Porque afinal de contas, o real companheirismo e pertença nunca está no destino, mas em todos os fenomenos que se assemelhem à expectativa de de chegar lá, e que permite que se imagine em conjunto, contando as histórias por acontecer.
Creio que será assim, e é por isso que a metrópole é dual - mulher bela ao entardecer ou bruxa fétida no negro encontrado debaixo do sol. E somos todos metidos nas histórias que delas derivam.
Feliz ou infelizmente...
