Dá efectivamente muito que pensar. A cassete dos "imperativos do mercado" tem mais buracos que um queijo suíço...
Não sou economista, e tento apenas informar-me o mais possível, na perspectiva de um leigo que no entanto tenta raciocinar e chega à conclusão que dificilmente se explicam cortes de pessoal numa empresa onde os administradores ganham 300 vezes o que ganha o operacional mais básico na estrutura produtiva. Como alguém me disse, a empresa que tem máquinas com 20 anos, mas um conselho de administração com Audis TDI à porta, não pode explicar-se com imperativos de mercado.
O Presidente do Banco de Portugal não pode vir falar de rigidez de legislação laboral, e de necessidade de contenção salarial, e depois encomendar alguns BMW série 7 ( + ou - 20 000 contos cada) para se transportar de um lado para o outro.
As contradicções estão à vista. E são imensas.
Considero apenas triste e de uma hipocrisia tremenda falar-se em condicionantes de mercado quando o mesmo pode claramente ser regulado, e a ganância do lucro sem contrapartidas de evolução ou progresso ser controlada pelos árbitros - os Estados. Se existirem regras, a selvajeria não se generaliza.
Se afinal de contas não passamos mesmo de factores de produção, de simples elementos na roda dentada, então a ideia de competência e profissionalismo rapidamente é substituída por qualquer pessoa que possa ser espremida o mais possível, pagando o menos possível. E isto parece-me, no mínimo, perigoso e anacrónico, próprio de outras eras negras da história social.
Acredito numa economia de mercado, no valor da concorrência, da competência e profissionalismo, mas nunca a todo o custo, e jamais sem regras. Os árbritos devem ser rigorosos e as regras são para cumprir, porque o sucesso deve ser sempre obtido com as pessoas, e não à custa delas, porque cedo ou tarde, a pressão é demasiada, e algo vai estalar e a derrocada é inevitável. Não entreguem o peixe, mas sim as canas, e que os fiscais vigiem os rios. Assim será mesmo através do valor e trabalho que as pessoas chegarão a algum lado, e não pela eficácia da sua implacabilidade competitiva.
"Nenhuma força de mercado impõe que um administrador tenha que ganhar um salário de 12 milhões de dólares por ano – nem sequer de 2 milhões; mas os conselhos de directores e as comissões de compensação corporativas formadas por amigalhaços podem assumir esta generosidade à custa dos trabalhadores. E é este mesmo grupo de fabricantes de decisões, em conjunto com os funcionários políticos que eles apoiam e subsidiam, que afirmarão enganadoramente, por exemplo, que são as forças do mercado, a pressão inflacionária, e a potencial perda de postos de trabalho que os obrigam a bloquear as tentativas para aumentar o ridículo salário mínimo nos Estados Unidos de 5,15 dólares por hora, e que se mantém há uma década.(...)
Stephen J. Fortunato Jr. - Membro do Supremo Tribunal de Justiça de Rhode Island. Os seus ensaios e análises têm sido publicados no Georgetown Journal of Legal Ethics, no Harvard Law Journal, no In These Times e noutras publicações.