
Há pouco tempo deparei-me com uma situação que, em bom rigor, me deixou perplexo, para não dizer irritado. Irritado com a burrice, com o movimento contra-evolutivo, com a lógica de posicionamento social que só contribui para que as pessoas estacionem num miserabilismo e um culto á infelicidade por razões de tradição, ou ordem social, ou seja lá o que for. Irritou-me porque provém de mulheres, porque provém de um grupo que infelizmente sofre, em Portugal, os efeitos do flagelo da violência doméstica, assuma ela a forma de que assumir. Sim, porque dias e dias de estilhaçamento de auto-estima e humilhação são bem mais graves que um par de galhetas, embora tudo envolva um universo de desrespeito pela pessoa que tem, e muito bem, sido denunciado.
Mas não é preciso mergulhar nos cenários de terror que envolvem pancada, ferimentos, mortes, marca psíquicas que duram décadas a atenuar.
Falemos apenas na mais comum das formas de condicionamento. Aquela que assenta num longo processo de persuasão, onde a pessoa é levada a crer que tudo o que lhe acontece tem um elemento de justificação, ondeé criada a ideia de que a sua incapacidade é merecida, e que o papel que lhe cabe deve ser levado a cabo com estoicismo silencioso.
Casais, (embora em Portugal isto seja manifestamente superior no caso do conjuge homem) nos quais um dos elementos exerce a subjugação, o tolher das capacidades de reacção e autodeterminação, nas liberdades de exercício de desejos, aspirações. Questionar é um erro, porque a cartilha já existe, e é bem determinada, etc, etc...
Mas o que me espanta não é isto. Infelizmente, esta é uma realidade feia, inadmissível, mas frequente. O que espanta são as mulheres que defendem este condicionamento. Aquelas que acham que as filhas ou noras devem aceitar este estado de coisas como uma pré-determinação comportamental associada a qualquer compromisso. Aquelas que exercem censura forte, quase sempre apoiada numa lógica de moralidade bacoca cheia de vacas sagradas onde não se toca "porque é assim mesmo", e que passam muitas vezes a sua herança de infelicidade contínua para os descendentes, como uma forma de contaminação.
São estas que não entendo. São aquelas que, embora esclarecidas (sim, porque não vamos cair no erro de julkgar que isto se passa ao nível das classes sociais designadas de média-baixa ou baixa), persistem numa ideia de moralidade onde a autodeterminação da pessoa, a sua felicidade, o seu direito ao respeito e à forma de estar que as faz feliz são mariquices caprichosas perante a sacralidade da "familia" nuclear tradicional. Desde que a aparência se mantenha, essas pessoas pouco se importam com o destino real daqueles que são forçados a mantê-la, ainda que isso signifique, em muitos casos, uma morte social, um processo de destruição de auto-estima e respeito, e, em última análise, a tão propalada violência.
Essas mulheres (e homens claro) que defendem tal status quo deveriam ter vergonha na cara. E têm-na, mas apenas para salvar a face, mesmo que por trás da pele tudo apodreça.
Enfim...