
Como já o fizeram muitos, certamente, a frase de Sartre surge-me hoje invertida, ou pelo menos, conjugada.
O Inferno somos nós. Ou talvez sejamos todos. Ou talvez isto não passe mesmo de um curso de água feito de correntes desencontradas, onde uma mesma folha anda de um lado para o outro, erraticamente, tentando apenas manter-se à tona.
As previsões normalmente não servem, e abarcam uma possibilidade que a realidade se encarrega de mostrar com dentes afiados.
Esse Inferno é feito das corridas adiante, das visões acerca de destinos, das marcas de emoções e eventos passados, dos desejos de fuga, das fugas efectivas. Forma-se a partir dos efeitos das nossas acções sobre os outros. Das consequências da importância que ganhamos, e como isso altera outros estados, outras formas, outros destinos.
Mas no fundo somos nós. As opções, as facilidades produzidas pelos estados de graça da integração. São os efeitos das pressões, dos cartões de acesso e visita, dos deveres julgados existentes, do silêncio da voz interna que já se sabe que não fará completo sentido. E na despreocupação aparente do passar dos dias, os pequenos crimes entre as pessoas infectam. E na marcha, topam-se os que mancam.
Ver alguém na queda, a meros metros do topo das chamas, silencia. Perdemos a noção do que devemos dizer, precisamente porque sabemos que não há nada a fazer. Porque em certa medida, a dimensão do sofrimento e destino alheio retira-nos qualquer legitimidade para proferir seja o que for, pela horrível ineficácia de que acabamos por padecer. Os juízos anteriores reforçam-se, mas a censura finda perante a dimensão do dano emergente.
E não temos um Vergílio para retirar de lá seja quem for...
Enfim, dia triste e grave...