ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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terça-feira, janeiro 08, 2008

Ainda acerca do tabaco, andam os tabágicos em grande polvorosa, feridos de morte naquilo que dizem ser o seu direito a fumar. Ora bem, vou tecer apenas mais algumas considerações breves:
1 - Obviamente que é uma idiotice não se fumar em esplanadas, mas ao contrário do que acontece em Espanha, não é proibido por esta legislação, como tal, por aí não há controvérsia.
2 - Durante pelo menos uma década de educação, de instrução quanto aos efeitos, malefícios e sobretudo, o dever de acrescido de respeito que o tabaco impõe, os fumadores mudaram zero dos seus comportamentos. A lei permitia-lhes, e como tal, vai de acender, e se o gajo da mesa ao lado não fuma, e por acaso até está a comer, azaretes. Portanto, enquanto a coisa lhes ia de maré, o incómodo dos outros, dos não fumadores, das pessoas que têm direito a respirar um ar decente enquanto comem, não significava nada. É preciso ter uma lata do caraças vir reclamar agora contra aquilo que supostamente sempre fizeram, sem apelo nem agravo.
3 - Sou claramente a favor das salas com locais destinados a fumadores, desde que a extracção seja suficiente. E existem casos em Lisboa, onde vivo, que o ilustram, e estive no outro dia num deles. Se a eficiência dos outros locais for a mesma que verifiquei no local onde estive, então todos ficam felizes. Agora se a extracção não for suficiente, a simples separação entre zona fumadores ou nao fumadores não funciona, e como tal, reclamar essa falsa barreira é um puro exercício de quem acha normal sobrepor suposto prazer sobre o bem estar e a integridade física dos outros. Se houver condições para todos, óptimo. Se não, pois parece-me que o direito a respirar oxigénio em detrimento de poder expelir monóxido de carbono (e alcatrão) parece impassível de discussão.
4 - Hoje pude entrar na pastelaria situada no meu prédio. Respirava-se. O ar era claro, conseguiamos sentir o cheiro do pão, e não tossir como se não houvesse amanhã, antes das oito da manhã!!! É apenas uma nota pessoal, mas de grande satisfação.
5 - Uma nota à malta com quem falei que fala de fundamentalismo. Sempre fui a favor do exercício das liberdades cívicas e individuais, principalmente. Mas nunca advoguei que essa liberdade pudesse sobrepor-se ao bem estar mais elementar dos outros. Daí que sou a favor das drogas leves, do carácter opcional do uso de capacete em motociclos (excepto crianças, claro), entre outros exemplos. E porquê? Porque é a integridade pessoal de cada um, e não afecta outros. Se me quero charrar ou partir os cornos no asfalto, é um problema meu. Mas empestar o ar dos que me rodeiam, já deixa de ser um problema só meu. Isto parece-me claro. Fundamentalista é este brado contra uma situação que afinal vem tutelar aqueles que nunca foram tutelados.
Fumem em casa, na rua e nos locais com devida extracção. Não tenho nada contra mesmo. Fora isto, o ar é de todos. Respirável, claro.

quinta-feira, janeiro 03, 2008



E finalmente entrou em aplicação a legislação anti-tabaco. Finalmente!

Sim, bem sei que há muita gente que se indigna perante o que julgam ser uma restrição da sua liberdade pessoal, com argumentos que, por vezes, roçam o risível pela insustentabilidade dos mesmos.

Mas vamos lá ver.

Não existe liberdade pessoal quando o exercício dessa liberdade causa dano (comprovado) ou contraria a liberdade do concidadão. Por mais voltas que se possam dar, como é que se justifica que uma pessoa não fumadora tenha de levar com as baforadas dos fumadores, que, na sua grande maioria, se estão borrifando para os efeitos da sua prática no ar dos que estão próximos.

Alguns atalham imediatamente com a expressão da vontade, ou seja, se não quiser, não vou ao restaurante, ao bar, à discoteca.

Esse argumento é fraquinho por vários motivos.

Em primeiro lugar, porque as pessoas que trabalham nesses locais não estão lá "porque querem", ou será que a condição de não fumador deveria ser, na opinião dos fumadores convictos, elemento de restrição no acesso à profissão? Deveria mesmo depender da vontade dos trabalhadores empregados nesses locais o facto de escolherem tal posto de trabalho, dependento essa opção da suportabilidade do tabaco? Bem, isso seria mesma coisa que dizer a um trabalhador da construção civil que opera um martelo pneumático que só obteria o emprego se abdicasse dos tampões dos ouvidos, ou dizer aos mineiros que a ventilação eficaz dos poços das minas é opcional, porque afinal só lá vai quem quer. O que, claramente, é um absoluto disparate.

Em segundo lugar, só vai ao restaurante quem quer? Portanto, o facto de eu respirar ou querer respirar decentemente no local onde como é um cercear da liberdade dos que querem encher o local de fumo incomodativo e mal-cheiroso? Que diriam os senhores fumadores, enquanto empestam o ar e lêem o seu jornal em paz, se eu levasse um daqueles rádios (vulgo tijolo), e pusesse a tocar uma boa rajada de Metallica ou Rob Zombie, com o som no máximo, enquanto descansadamente degusto o meu sumo de laranja? Provavelmente davam-me com o tijolo na cabeça, ou saiam. E seria justo afastar a pessoa do local onde gosta de estar, só porque um idiota qualquer resolver perturbar o espaço contíguo com algo manifestamente incomodativo e nocivo à saude? (pulmões num caso, timpanos no outro). Pois é...

A verdade é que os fumadores passivos têm direito a essa protecção, especialmente aqueles que "não têm opção" quanto ao facto de frequentarem esses locais. A extensão da aplicabilidade da lei ao espaço publico fechado por natureza é apenas uma manifestação de respeito pela integridade física do próximo.

Se o civismo fosse uma nota dominante no comportamento dos fumadores, talvez a legislação fosse menos restritiva, porque alguém teria o bom senso e educação de tentar fumar menos ou ter mais cuidado com os que não fumam nos locais públicos. Mas como a maioria se está a cagar, a coisa enrijeceu. É a história da fundamentação coerciva na estatuição das normas quando a educação não produz resultados.

Aceito que, se um local tiver a adequada capacidade de extracção, que existam zonas de fumadores, mas a verdade é que a realidade dos espaços públicos não é essa. Até locais bem arejados, com sistemas de ventilação decentes sabem que colocar uma zona fumador e não fumador implica uma fronteira inexequível no que diz respeito à organização do espaço, logo optaram por ser "locais não fumadores". Se alterarem e o sistema de extracção for eficaz, não serei eu a contestar. Desde que não perturbem o próximo não fumador, be my guest and nail all the coffin's nails your little heart desires.

E o alarido vai passar, por várias razões. Fuma-se no cinema? Em exposições? No teatro? Nos transportes? Não. E os fumadores deixaram de lá ir? Não. Não nego que custe a um fumador não poder exercer o seu prazer (não entendo o conceito de vícios não prazenteiros, excepto as dependências profundas, e mesmo essas, como dizia o Irvine Welsh, é porque em algum momento são mesmo muito boas), mas este não deve sobrepor-se ao que é um molestar do bem estar de cariz físico. Não se trata de diferendos de opinião, mas sim a consequências e incómodo físico.

Quem me conhece sabe que se há coisa que me repugna é qualquer cercear moralista ou inexplicável às liberdades cívicas e pessoais, assentes no consentimento do próprio e desde que isso não ponha em cheque a integridade (comprovada) dos outros. Por exemplo, acho idiota que se obrigue o motociclista a usar capacete. É a sua integridade pessoal. Se ele cair e rebentar as ventas, é uma decisão sua e que o afecta apenas a ele. Mas fumar não é um acto isolado, não pertence apenas à decisão ou livre arbítrio do fumador. Afecta outros, e como tal, não pode esconder-se debaixo da capa da liberdade pessoal, o que constitui um argumento, em meu ver, desonesto. A liberdade pessoal não pode interferir em coisas tão concretamente determináveis como o incómodo e danos à saúde (do outro) provocados pela porra do tabaco e afins.

A verdade é que o pesadelo de milhares de pessoas, que não podiam entrar num café pela manhã sem sairem de lá meio intoxicados, ou de profissionais diariamente maltratados por colegas "chaminés", ou de apreciadores de restaurantes que simplesmente não podia dar uma garfada sem que alguém começasse a queimar alcatrão, se não acabar, vai pelo menos abrandar.

E eu, pessoalmente, ex-asmático/bronquítico e actualmente alérgico, agradeço. E acho que muitos o farão também, pelo exercício de um direito há muito negado pela convencionalidade social de um acto que só diz respeito ao próprio, desde que, óbvia e comprovadamente, não prejudique ninguém.