ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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quinta-feira, fevereiro 21, 2008


Quando te peguei naquilo que tinhas como mão, percebi que havia pouco a fazer. Não havia morte. Havia pouca ausência de silêncio. Que quer isso dizer. Falo das poucas palavras, das coisas pequenas que deixavas sair a espaços, permeada com a percepção da tua incapacidade. Até o toque dos teus dedos, como uma miúda que tacteia no escuro, era medroso. Era inseguro porque à teimosia das tuas perguntas estava associada a tua nova resolução, ainda que o rio que deixavas correr pela cara abaixo desmentisse tudo como uma empolada resolução de ano novo.

Os teus olhos não eram os mesmos, mas não por causa do inchaço. A tua confusão era a minha confusão, e os abraços possiveis mais ameçavam parecer-se a encontrões na rua, dados pelos desnorteados que seguram demasiadas coisas em braços delgados.

Olhei e vi apenas o longo discorrer do conforto, permeado pelas ansiedades que já não te reconheço como tuas. Depois, multiplico-te pela número de coisas em caras que vejo, e reconheço-te, já cansado, por toda a parte. Identifico-te num alinhamento de criminosos suaves de todos os dias, percebo que as perguntas são inúteis, e sei-te como a medida de controlo do meu sangue. Aquele que ainda bombeia, percebendo-te como a cerca de madeira podre que espera pelo Verão e a pintura das felicidades adiadas.

Afinal, a cal queima, mas não está viva, por mais que lhe dêem esse nome, e eu não te aceito ainda completamente.
Felizmente, nunca o farei.
Acho.







sexta-feira, janeiro 11, 2008


"Ela era uma espécie de incongruência num caminho terrivelmente certo da sua fleuma. Saltitava com uma graça surpreendente por entre os meus estados de alma, encarando a minha falta do mecanismo de saudade e voz pardacenta. O meu problema ultrapassava a depressão precisamente porque desta resulta uma tristeza que por vezes se torna ferozmente reactiva. No meu caso poder-se-ia qualificar mais como uma espécie de massagem cardíaca a alguém que nem sequer sabia ter coração. E a maior parte das vezes, o nada reage ao nada."

terça-feira, outubro 16, 2007




Há dias deparei-me com algumas situações complicadas. Não comigo, mas com pessoas que observo, com coisas que me chegam ao entendimento de forma certamente diferente daquela com que atingirão outros. E como obviamente, por uma questão de respeito pela privacidade, não posso dissertar muito directamente sobre elas (embora vontade não me faltasse), existem algumas coisas que são suficientemente abastractas para se poder falar sobre elas sem correr tais riscos.


Existem efectivamente pessoas que me parecem pensar em termos de rua de sentido único. A má avaliação que fazem da sua própria dinâmica inter-relacional leva-as a concluir sempre pela falta do outro lado, que por sua vez justifica a inércia do seu. É uma espécie, parece-me, de antecipação retributiva, o que não me parece fazer qualquer sentido.

Deparei-me com uma espécie de ressentimento suave e terrivel, que mais assemelho a uma infecção lenta. As ideias parecem multiplicar-se e acrescentar espessura à muralha inerte e amofinada.


Claro que quem está fora, não racha lenha. Mas os factos são sempre factos, e as inexistências tornam-se os conceitos mais fáceis de analisar. Está lá, ou não está. Faz-se o mea culpa ou não. Age-se ou para-se. Levanta-se o cu, ou alapamo-lo em frente ao discorrer dos pequenos ressentimentos, dos pequenos crimes, das pequenas faltas, de mão cansada e estendida.


Nada funciona em piloto automático, por muito que se deseje. E a paragem prolongada é gangrena, ainda que o silêncio pareça promissor. Afinal de contas, da ausência só se pode passar à presença, mas o fim da inércia pode significar o reatar de uma vida que não aquela de quem parou e simplesmente espera.


As pessoas têm de ser mexidas. E por muito teimosa que seja a expectativa em ver como oadversário vai jogar a bola para o nosso campo, subir à rede é corajoso e nobre, nem que seja pela coragem pouco efectiva que demonstra. E na afeição, semos também produto daquilo que a nossa maluqueira nos permite, mesmo que falhemos.


Onde as intenções contam, as acções fazem a diferença. E nada disso o traduz melhor que os pequenos gestos, a inventividade, e algo de provocador.


A receita para a morte do conforto é fazer. Nem que seja mal.

Um arroz queimado com um sorriso quente sabe muitíssimo melhor que um "crepe suzette" a fumegar numa sala gelada.