
Ao lado de Lisboa, junto ao Estádio nacional, vivem uma série de vilas e pequenas cidades feitas de pessoas que as usam maioritariamente para dormir e deambular nos fins-de-semana. São aglomerados de prédios que crescem e se multiplicam como cogumelos numa floresta húmida, intercalados com alguns tímidos espaços verdes. A mata do Estádio Nacional, felizmente protegida, envolve estes aglomerados dando-lhes uma sensação bipartida. Ilusória no espaço, mas concreta na evasão. Existe no entanto o silêncio no meio da confusão, e as pessoas fogem, embrenhando-se no rumorejar das árvores. Os pinheiros formam um tecto de silêncio e sombra, e no coração de Lisboa ergue-se um local de ausência e distância.
Nestas cidades ou vilas a vida corre mais ou menos calma, sem grandes vicissitudes ou alegrias, sem glórias ou desgraças dignas de mais que uma semana. Na grande maioria do tempo nada ocorre senão as idas e vindas daqueles que lá vivem, ou as visitas dos que escolhem a casa de um nativo amigo para visitar. Começam e acabam vidas, praticam-se crimes mais ou menos graves, embora com mais ênfase nos primeiros, as pessoas juntam-se e separam-se, traem-se e reconciliam-se. Os heróis do quotidiano têm as suas glórias passageiras, assim como os seus habitantes mais violentos. As coisas ocorrem com a naturalidade sequencial do dia e noite.
Um homem de passo saltitante impede um miúdo de ser atropelado no caminho de casa da amante. O filantropo da vila aperta o cinto de couro entre as mãos antes de chamar a filha à sala de estar. Um grupo de miúdos ajudam uma velhota a atravessar a rua enquanto um deles corta a alça de couro da bolsa com uma navalha de ponta e mola sem que esta perceba.
Um homem de passo saltitante impede um miúdo de ser atropelado no caminho de casa da amante. O filantropo da vila aperta o cinto de couro entre as mãos antes de chamar a filha à sala de estar. Um grupo de miúdos ajudam uma velhota a atravessar a rua enquanto um deles corta a alça de couro da bolsa com uma navalha de ponta e mola sem que esta perceba.
No jardim, uma rapariga beneficiária da generosidade estética da natureza arrasa o mais delicado dos seus pretendentes antes de se apresentar para o voluntariado. Atrás deles, o bombeiro mais condecorado da região corre para o carro, sabendo que faltam cerca de três horas para largar o turno e ver aqueles filmes com miúdas muito novas que chegaram naquele dia por encomenda. O padre da vila abençoa a paróquia após um sermão comovente, apressando-se a tirar a sobrepeliz e a túnica antes partir para o carro e se encaminhar para a Ericeira. Lá espera-o uma casa à beira mar e uma mulher que coloca no frigorífico duas garrafas de um óptimo vinho branco antes de mergulhar na banheira de água quente e sais.
O sol sobe, apesar de ser a terra que se mexe, e segue-se-lhe a noite. As coisas vão acontecendo na sua sequência normal embora toda a gente olhe pela janela em direcção ao crepúsculo de Verão, com a noção expectante de um dia seguinte que seja de alguma fora diferente. A pouca brisa que existe arrasta algumas folhas carcomidas pelo sol, e os cães aproveitam o fresco para andar um pouco e procurar comida. As vilas estão latentes, sem saberem se vivem calmamente, ou morrem em vago e lânguido estertor. Há uma aura de distância em todos os rostos, de espera, de antecipação, de teimosia numa crença inconsciente.
O sol sobe, apesar de ser a terra que se mexe, e segue-se-lhe a noite. As coisas vão acontecendo na sua sequência normal embora toda a gente olhe pela janela em direcção ao crepúsculo de Verão, com a noção expectante de um dia seguinte que seja de alguma fora diferente. A pouca brisa que existe arrasta algumas folhas carcomidas pelo sol, e os cães aproveitam o fresco para andar um pouco e procurar comida. As vilas estão latentes, sem saberem se vivem calmamente, ou morrem em vago e lânguido estertor. Há uma aura de distância em todos os rostos, de espera, de antecipação, de teimosia numa crença inconsciente.
Nem sei que vejo mais, e continua tudo a desfilar...