ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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quarta-feira, abril 14, 2004

Atenção a Angels in America.
Ao DVD e á Banda Sonora.
Ainda não vi, mas pelo que tenho lido, parece algo de muito especial.
Excepto para o César das Neves ou homofóbicos que tais. Esses preferem cruzes e mitologia de culpa feita a... como é que se chama?.. Ah! Ideias...

Um grande e velho amigo guia-nos através de uma sugestão de indumentária. Foi o meu primeiro e talvez melhor sorriso do dia.

Grande Abraço, Bird ( Tem algo a ver com o Charlie Parker?)
Muitas pessoas assumem uma postura de escuta, mas infelizmente, limitam-se a procurar um eco...
Socorro... Quem salvará o Monsanto?
Mas não há ninguém que veja esta atrocidade?
Sim, estou a repetir-me, mas é demasiado grave o que se avizinha...
Abro o Público de hoje e constato que a maioria eleita para a Câmara de Lisboa não quer considerar o parque florestal do Monsanto como área protegida.
É caso para dizer que já nem se dão ao trabalho de disfarçar, e temo pelo momento em que este maravilhoso pulmão da cidade de Lisboa venha a ser invadido pela ganância e interesses imobiliários.
Que absoluta vergonha. Que triste desperdício...

quarta-feira, abril 07, 2004

É uma constante que tenho visto em pessoas com um certo alinhamento político religioso esta espécie de alergia á ficção, como se fosse uma espécie de género menor ou coisa que o valha. Além de ser um preconceito de quem tem uma qualquer espécie de aversão à criação e imaginação, como se fossem coisas indignas, é contraposto com outra espécie, desta vez de sobranceira, como se a raiz da dita cultura séria radicasse nessa teimosia com o que chama de realidade.
E depois vivem a vida completamente ligados a um mito, a uma fantasia, que gera uma corrente de opinião e crença gigantescas. Os polícias da realidade acham-se assim rendidos a uma história mitológica, na qual crêem através do recurso à imaginação que gera algo sobre o qual não se deve pensar, mas simplesmente acreditar.
Em que é que ficamos?
O que é impressionante é que essas mesmas pessoas apoiam-se numa corrente de opinião. Se o Village Voice diz que a ficção está morta, vá lá saber-se porque estranhos desígnios dos gurus da chamada cultura "séria", então é vê-los a seguir a prédica sem perguntas, à semelhança do que fazem perante outras situações.
É isto a glorificação da realidade?
Ou a religião surge como a excepção a essa regra de qualificação?
Aqui existe, no mínimo, incoerência, já para não falar na cabotinice intelectual do costume.
Enfim.
"Maldito é o Homem que vive em época decadente." Robert E. Howard

"Roubado" ao magnífico Cruzes Canhoto
"Ao contrário de muitas pessoas que têm uma qualquer pancada na cabeça, a não ser que aceitemos que todos têm tal coisa, eu sempre me dei bem com o meu pai. Talvez porque fosse fácil admirá-lo, ou porque nunca fora económico no afecto que distribuía, ou porque era uma pessoa que recebia um terço da generosidade com que brindara tanta gente durante toda a sua vida. Não conseguíamos conversar de forma muito aprofundada, e ainda não conseguimos fazê-lo, mas isso não surpreende na maioria das situações que conheço, especialmente no que diz respeito às pessoas da minha idade. Divertimo-nos a ver a bola, a trocar ideias à mesa dos almoços cheios de tias e sobrinhos, mas não consigo contar-lhe nada acerca de uma qualquer melancolia trazida por um livro, ou uma peça de música ou uma mulher mais esquiva. Dificilmente poderia discutir o meu ultimo e mirabolante projecto literário que certamente acabaria devolvido na minha caixa de correio ou muito bem aproveitado para rascunho numa qualquer secretária.
Acho que este é sem duvida um fenómeno recorrente. Talvez não nas gerações que seguem a minha, mas a noção que tenho é que salvo alguns indivíduos que se enchem de bravura e estão preparados para ouvir tudo da boca dos filhos, a maioria dos progenitores conscienciosos não arriscam entrar na esfera mais privada e íntima da prole. Talvez porque nesse local moram determinadas formas de sentir, como o sofrimento, e pode ser demasiado penoso saber até que ponto a descendência pode estar a sofrer sem que se possa intervir. Ou então não falam a mesma linguagem, porque a musica não é a mesma, os livros também não, e o panorama político lança mensagens diferentes no mesmo anuncio para cada uma das gerações que o vejam. Eu e o meu pai éramos, como ainda somos, compinchas, amigos da bola, conversadores de boa vontade que os laços de sangue arrastavam para uma intimidade mais incómoda por vezes, mas inevitável. "



Excerto de ficção ou quase...

segunda-feira, março 29, 2004

CARTAS A SÓNIA VI

Não é fácil ser humano. Humano naquela asserção em que a inspiração junto de outros manifesta-se por uma combinação entre uma firme e paradoxal crença racionalizante nas pessoas. Apesar de tudo, pensarás.
A verdade é que ser humano, daqueles que nos envergonham porque a meio da sua naturalidade jorram um elemento composto de humildade e ambição na personalidade, é um feito absoluto, em meu ver. Porque está lá conservada uma espécie muito peculiar de inocência. Aquela que reconhece o cinismo e até bebe uns cafés com ele de quando em vez.
Aquilo que mais me espanta é como consegues fazer isso tudo.
Como consegues ir perdoando, descobrindo, e agregando, mesmo quando muitas pessoas olham para o outro lado, em busca da descomplicação.
Ser indefeso perante alguém que se mostra num acto contínuo de querer bem e querer justo, é para mim simplesmente natural.
Seres tu, explica muita coisa.
Especialmente a razão pela qual somos levados a isolar apenas alguns seres humanos, precisamente aqueles que o conseguem ser.
Com toda a complexidade e sentimentos contraditórios.
Com toda a dificuldade e desejado visionarismo.
Não é facil ser humano.
Como é que fazes?
A minha Amiga Ana falou há tempos da pena de morte, e da complicada discussão que há em torno da questão.
Tendo tido contacto com pessoas que trabalharam na polícia judiciária na altura em que fazia pesquisa para uma história, e sabendo o que eles vêm diariamente, e daquilo que algumas pessoas são capazes de fazer ás outras, eu entendo a hesitação que ela tem em desconsiderar absolutamente a pena de morte.
Quando ouvimos falar em pessoas que metem bebés em microondas ou matam pensionistas á martelada para lhe roubar pouco mais que dez Euros, o distanciamento racional é uma tarefa complicada. Basta fazer o velhor truque da personalização da dor, do choque e da revolta.
Basta imaginar que é à nossa mulher, amgio ou filho que abrem a garganta de um lado a outro. Ou que os mutilam na pré-morte. Ou que os sujeitam a todo o tipo de sevícias imagináveis, e a imaginação humana para o horror é , aparentemente, infindável.
Imagino a minha mulher sujeita a um acto desta sorte. Imagino ter de confrontar a morte dela, e conhecer do sofrimento, do medo, da dor que a precedeu. Se desejaria matar o agressor? Provavelmente. E com as minhas próprias mãos, com certeza.
Mas a criação das leis, da ideia de Estado de Direito, do manancial de direitos que assistem á verdadeira e desejável forma de democracia não pressupõe uma movimento de elevação relativamente á pena de retribuição pura? Do olho por olho? Não é a utilização da morte uma incoerência? Embora o nosso sentido de justiça e retribuição seja manifestado provavelmente em agressão tendente á morte, não deve ele ser refreado, sob pena de se tornar complicadíssimo traçar uma linha?
O historial de tantos assassinos em série, daqueles que povoam os pesadelos e argumentos mais ou menos conseguidos de alguns filmes e livros, denota normalmente um historial de abuso e violência psíquica e mental.
O pai, (ou mãe - embora seja muito mais raro, é verdade) , que viola o filho, que o espanca, que gera um senso de alheamento da realidade mas não uma perda de sanidade, criando assim um assassino de sangue frio e crueldade inumana, não deveria sofrer também qualquer espécie de condenação?
Eu não tenho posição completamente firme sobre a questão.
Julgo que é complicado não sentir um desejo de morte perante, por exemplo, violadores e mutiladores de crianças.
Mas também sei que a ideia do contrato social que forma os estados e as sociedades assenta num caminho que desejavelmente será melhor que a simples organização com base em soluções "Salomanianas".
Seria justo matar uma pessoa desse calibre?
Talvez, assim como á luz de uma justiça precisa, Salomão poderia ter cortado o miudo em duas postas.
Mas tanto um como outro não me parecem a solução adequada.
A pena de morte pode ser o produto de um impulso até justificado, mas não deve ser o estandarte identificativo de um Estado de Direito.
"Que a punição convenha ao crime", já lá dizia o japonês.
Em Democracia, é encontrar esta adequação que significa o desafio, e não simplesmente desfazermo-nos do problema pela morte, como se a sociedade pudesse irresponsabilizar-se dos actos perpetrados por algo que por ela foi produzido.
A pena de morte não me parece solução, porque em certa medida, duvido que qualquer uma das testemunhas que tenham visto uma execução do autor de crimes contra si ou a sua familia/amigos, tenha sentido qualquer felicidade, alívio ou contentamento. Sinceramente, penso que o que fica deve ser um vazio, uma inexplicabilidade perante algo que não fez sentido nem no momento do crime, nem na suposta e devida punição ou retribuição.
No fundo, amiga Ana Albergaria, dou-te meia razão.
Porque é, e será sempre um assunto complicadíssimo de racionalizar.
Mas esta é a minha opinião.

Ando rendido aos audiobooks. E digo o termo em inglês porque a produção nacional de tal instrumento, que torna os períodos de viagem automóvel num absoluto prazer, é inexistente.
Será que alguém alguma vez terá a iluminada ideia de começar a juntar uns actores e dar voz a livros, permitindo que as pessoas possam aproveitar o tempo imbecil que se passa no trânsito?
Espero que sim.
Nem que seja Margarida Rebelo Pinto, lida pela Fernanda Serrano ou a Paula Bobonne. Pensando bem, é melhor não dar ideias...
Mas fica o pensamento.
Para já, restam as magníficas edições inglesas, feitas prazer de leitura através de um truque que até nos leva á infância.
Que coisa será melhor que retornar a um ponto no qual as histórias nos são contadas? O prazer de ouvir alguém que tem algo um pouco mais longo, complexo e recompensador para dizer.
Vivam os livros em suporte audio!
Que alguém se lembre de os começar a traduzir.
Que alguém comece a pensar em contar histórias...


A dor de cotovelo

Esta sempre foi uma das minhas perplexidades. Como é que alguém consegue falar à boca cheia, com um snobismo que realmente revela o calibre de certas pessoas e a incapacidade para uma tão necessária humildade?
Como é que alguém que escreve, calcando o estilo de um cronista que, enfim, é no mínimo discutível, pode tecer determinadas considerações acerca de um Prémio Nobel, alguém que mostrou ao mundo a capacidade que tinha ínsita na sua obra?
Mas para este amigo, a academia sueca só tem momentos de lucidez alternados, o que comprova a falta de imparcialidade na análise da obra de alguém, fazendo uma avaliação pelo critério de posicionamento político, que como se sabe, é do piorio.
Ezra Pound era um fascizóide de primeira água. Mas a sua obra provavelmente transcende o seu posicionamento político. Mas para este "sopeiro", isso já é irrelevante.
A dor de cotovelo está, neste caso, associada á lata ou falta de capacidade de auto-análise. Porque o tamanho da lata e descaramento que é necessário ter para falar de alguém que ficará para sempre na história das letras, quando a única coisa que se consegue produzir é um estilo de escrita e opinião passado a papel químico de alguém que acha porreiro ser um Bad Boy que fala mal de tudo, ultrapassa aquilo que é, em meu ver, mensurável.
Pode não gostar-se da obra de Saramago. Gaita, eu só consegui ler dois livros dele e não é ás suas páginas que vou quando quero reler algo que me dá efectivamente prazer, ou que seja terapêutico.
Mas é preciso realmente não ter qualquer noção das realidades quando se compara o Prémio Nobel a um cágado, e quando não se tem senão um blogzinho miserável, como este, que começa a não ser sequer levado a sério, tal é a dimensão da soberda presente nas suas afirmações.
A dor de cotovelo é uma coisa complicada.


quinta-feira, março 25, 2004

Criado Scriptorium moderno com 50 mil noviços arranjados à pressão...

A primeira pergunta que me ocorre é bem simples... para quê?

A segunda observação prende-se com uma curiosidade.

A secretária de Estado da Educação, Mariana Cascais, assinalou o início do projecto, ontem, na Escola Gabriel Pereira, em Évora, ao escrever o primeiro versículo do Salmo I.

Ora esta senhora foi a mesma que recusou colaborar com os projectos de áreas curriculares de educação sexual e distribuição de preservativos nas escolas, numa demonstração de irresponsabilidade social que roça o cómico. Aliás, como do suposto crachá da moralidade Neoblanc.
É esclarecedor ver onde estão as prioridades desta senhora, como, e infelizmente, estão as de muitas pessoas. Só que essas não têm responsabilidades ao nível da educação dos jovens e alunos das escolas, podendo dar-se ao luxo de enterrar a cabeça na areia e não ver o mundo como ele é.
Lamentável... mas cada vez mais típico neste país de hoje...

terça-feira, março 23, 2004

Como é que é possível?

Como é que se consegue ser tão reaccionário? Tão segregacionista e elistista ao ponto de desprezar tudo o que não marcha ao ritmo daquela forma de pensamento?
Os exemplos de seguidismo são sempre lamentáveis, mas seguidismo "clonelike" a um personagem como João Pereira Coutinho é no mínimo cómico.

Vejam com os vossos próprios olhos.



segunda-feira, março 22, 2004

O que é exactamente a misoginia, mas quando aplicada de forma inversa?
Será femininismo? Sinceramente que não sei.

Aquilo que me ocorre dizer sobre o assunto é que a querela, ainda que acesa e carburante, não o faz por si só, mas sim alimentada com gente com acesso a muita lenha seca e oca. E ainda por cima, em certa medida, apoiada em justificações que são no mínimo, estranhas formas de ocupação mental, e defesa de bizarros territórios.
Eu cá digo sim ao eterno masculino, porque a suposta evidência da mente do homem é uma terrível falácia, e o amor complexo não é de forma nenhuma feudo do belo sexo.
Não sei porque me ocorreu isto agora.


Desculpem lá...
Não vou ver a Paixão de Cristo.

Eis porquê...

Como se já não bastasse de fanatismos no mundo de hoje.

sexta-feira, março 19, 2004

A beleza pode ser problema. De uma magnífica espécie, mas ainda assim, um problema.
Anda por aí, e apresenta-se com a naturalidade implacável de algo que existe positivamente sem intenção, que acrescenta sem esforço, que provoca reflexão dividida entre um estado taciturno e estranhamente esperançoso.
É como imaginar a captura de um instante perfeito submetido á ilusão da persistência da retina, ou seja, que se repete indefenidamente, com vida.
Quem já viu uma mulher bonita a dançar quando o sabe fazer, entenderá o que quero dizer.
Frase da semana:

"I serve my country by rocking!!!!"

Jack Black

"The greatest test of courage on earth is to bear defeat without losing heart"

Robert Green Ingersoll 1833-1899, Advogado e Orador Americano


Empire of Lights - R. Magritte

Este quadro maravilhoso evoca sempre a mesma ideia para mim. Uma miscelânea fantástica de luz e sombra, de mistério, distância, tensão prévia a uma série de acontecimentos.
É uma história, onde tudo se mistura e integra, á semelhança da natureza composta de que somos feitos.
Só desejaria conseguir contar uma história que de alguma forma reflectisse a sensação deste quadro.
O deambular entre a luz e a sombra, a aura de medo e a promessa de céu azul e claro num mesmo cenário. A inquietação, a projecção do silêncio como antecâmara dos ruídos da noite.
Este é um quadro que me fala de medo, a representação gráfica da genial história de Henry James - "The Turn of The Screw".
É a subtileza de um verdadeiro mergulho na imaginação perante aquilo que parece absolutamente normal, mas não o é. Porque ao olhar para este quadro, vejo tanta coisa que não está lá.
O facto de William Friedkin ter criado uma das mais emblemáticas imagens do cinema com base neste quadro prova que realmente não há acasos, e que os momentos de real génio surgem sempre como uma primeira aparição de algo sublime.
Vivemos num estado onde o positivismo jurídico produz pérolas como a que vamos ler a seguir, especialmente no que concerne ás normas programáticas, se bem que isto nem sequer é uma norma propriamente dita, mas enfim.
Não se instituiu a educação sexual nas escolas, porque alguns retardados julgam que fere uma qualquer noção de moral acerca da qual nem vale a pena discutir pela ridicularia que reveste, nem se permite, ao contrário do resto da Europa, a criação de uma lei que permita a Interrupção Voluntária da Gravidez dentro de prazos legalmente estabelecidos e em condições dignas, com devido acompanhamento médico.
O Estado Português, através do seu orgão legislativo, á guisa da mais proficiente das avestruzes, prefere ignorar a realidade com base num critério moral acerca de questões que nem sequer deveriam estar sob alçada do pode político/legislativo, e produz pessegadas como esta.
Uma chouriçada programática, ainda que bem intencionada, e que supostamente é apresentada como a solução para uma questões tão importantes como a IVG, a gravidez adolescente, a propagação de doenças sexualmente transmissíveis e a educação sexual.

Tendo em conta que a Secretária de Estado da Educação que
tem delírios mentais como este -

"Mariana Cascais, secretária de Estado da Educação e militante do CDS-PP, defendeu recentemente, em entrevista ao "Diário de Notícias", que não deveria existir uma disciplina específica para a educação sexual, contrariando o espírito de um projecto em elaboração pelo grupo parlamentar do PSD. Mariana Cascais disse ainda discordar da possibilidade de haver preservativos nas escolas, uma medida prevista na lei em vigor, da responsabilidade do PS."
-In Público de 11-03-2004
-

aceitam-se desde já apostas.

Eu aposto (probabilidades de 1000 contra 1) como na melhor das hipóteses, o documento infra transcrito vai ficar como está, ou seja, uma declaração de intenções que não passa disso mesmo, que alguém acredita que substitui a responsabilidade do Estado em resolver este problema e não fingir que ele não existe. Ou seja, as boas intenções e nada mais, apresentadas como um pungente "nós fizemos o que podíamos".
Leiam o documento e riam.
Eu cá comecei o dia com uma gargalhada sentida.


Resolução da Assembleia da República n.º 28/2004
Medidas de prevenção no âmbito da interrupção voluntária da gravidez
A Assembleia da República resolve, nos termos do n.º 5 do artigo 166.º da Constituição, recomendar ao Governo ( han, já viram? recomenda, sugere, mas força obrigatória geral? nope, sorry) o seguinte:
1 - Na área da educação:
1.1 - Apostar na educação para a saúde, criando uma área curricular autónoma de formação e desenvolvimento pessoal dirigida especificamente aos alunos do 3.º ao 9.º ano de escolaridade;
1.2 - Esta área curricular, ou disciplina, a partir do 7.º ano, deve ser obrigatória, salvaguardando a responsabilidade dos pais, nos termos da Constituição e da Convenção Europeia dos Direitos do Homem, sujeita a avaliação, e vocacionada para a educação dos comportamentos nos domínios da civilidade e da saúde física e mental, com especial prioridade à saúde sexual e reprodutiva;
1.3 - Dotar cada centro de apoio social escolar (CASE) dos recursos indispensáveis à promoção da saúde, bem como ao apoio, acompanhamento e rastreio dos alunos em situação de risco, nomeadamente nos domínios da alimentação, do consumo de substâncias aditivas que geram dependências e da saúde sexual;
1.4 - Instituir a figura do tutor escolar vocacionado para a ajuda e o aconselhamento e para a primeira abordagem no despiste e identificação de situações de risco entre os alunos, bem como na articulação com a intervenção especializada ao nível dos CASE;
1.5 - Promover acções de informação, formação e prevenção junto das comunidades educativas visando a circunscrição das condutas e práticas de agressão e violência sobre e entre menores;
1.6 - Criar condições de flexibilização de horários escolares e de exames com vista a que os mesmos se adeqúem à continuação do percurso escolar das mães ou grávidas adolescentes e jovens.
2 - Na área do apoio à maternidade:
2.1 - Criar condições especiais no acesso a creches e jardins-de-infância por parte dos filhos de jovens mães estudantes com o objectivo de lhes permitir a manutenção no sistema de ensino;
2.2 - Reforçar a fiscalização das empresas no que respeita ao cumprimento da lei sobre a protecção da maternidade e da paternidade;
2.3 - Apoiar as instituições particulares de solidariedade social que prestam ajuda e aconselhamento a jovens mães em situação de carência económica ou de vulnerabilidade social;
2.4 - Estimular a criação e o desenvolvimento dos centros de apoio à vida com o objectivo de apoiar mães grávidas solteiras e mães com dificuldades económicas e sociais;
2.5 - Flexibilizar os mecanismos de atribuição de licenças de maternidade, ajustando-os melhor ao objectivo da conciliação de responsabilidades familiares e profissionais;
2.6 - Acompanhar o cumprimento da Lei da Adopção no sentido da sua plena aplicação e da sua premência, tendo em conta as alterações de procedimentos e práticas nos domínios da segurança social, da justiça e da saúde.
3 - Na área do planeamento familiar:
3.1 - Garantir que todas as farmácias, de forma permanente, assegurem a dispensa de todos os meios e métodos contraceptivos previstos na legislação em vigor;
3.2 - Promover a efectiva articulação entre os centros de atendimento a jovens, os centros de saúde e os hospitais da área de referência, bem como com as unidades móveis de saúde, com o objectivo de alargar a efectiva cobertura de consultas de planeamento familiar e de saúde materna a um grupo particularmente vulnerável como são os adolescentes e jovens;
3.3 - Reforçar as condições de acesso aos meios e métodos contraceptivos de forma a prevenir e evitar a gravidez indesejada e ou inesperada, especialmente em grupos particularmente vulneráveis, devido a exclusão social, carência económica ou dificuldades de acesso à rede de saúde pública;
3.4 - Reduzir os tempos de espera das cirurgias de laqueação e de vasectomias.
4 - Na área da interrupção voluntária da gravidez:
4.1 - Garantir, através de orientações precisas aos hospitais do SNS, o integral e atempado cumprimento da Lei da Interrupção Voluntária da Gravidez, garantindo às mulheres, em situação que preencha as condições legais, a interrupção voluntária;
4.2 - Em caso de impossibilidade, o hospital deve garantir o imediato acesso a outro estabelecimento público ou privado, suportando o SNS os respectivos encargos;
4.3 - Apresentar um relatório anual na Assembleia da República sobre o grau de cumprimento da Lei da Interrupção Voluntária da Gravidez.

Aprovada em 3 de Março de 2004.
O Presidente da Assembleia da República, João Bosco Mota Amaral.

quinta-feira, março 18, 2004

Emersos nos nossos códigos comportamentais, sabemos que a Primavera chega.
Mas de que forma? A que é que prestamos atenção? De que forma aligeiramos a tristeza das coisas necessárias, dos apetites, da visão das coisas que cobiçamos e se perdem em alucinações infantis feitas de nuvem?
Tenho de agradecer aos amigos obreiros pela simpatia e a atenção ao juntar-me ao seu núcleo duro de escolhas.
A responsabilidade cresce, e de alguma forma, os meus disparates não podem ser em tão grande monta.
Vamos lá ver o que se pode fazer.

Obrigado e um abraço

quarta-feira, março 17, 2004

Um Amigo reencontrado, de outras andanças, de outras conversas.
O caso típico da pessoa com a qual até podemos não concordar, mas com quem se consegue sempre conversar, racionalizar e sobretudo, desfrutar da comunicação no seu melhor.
Macguffin amigo, um abraço de reencontro, e passemos á conversa, que espero longa.
Um dia destes explico a razão pela qual passei de interventor a observador no Pastilhas.

Abraços de Urso

terça-feira, março 16, 2004

Apesar de talvez ser inutil, vou continuar a escrever.
As histórias atormentam-me. Sonho, acordo, como com elas. É para lá que quero ir, mas as obrigações terrenas obrigam-me a ser apenas um visitante, um passageiro de caneta, ou mais propriamente, de teclado na mão.
Mas não há problema.
Em que outro cenário é que podemos ser um deus criador, ainda que o mundo feito corra o risco de não agradar?
É o hino interno da liberdade, julgo eu. O problema é que não tenho grande voz...
Mas ando a treinar.

Relativamente ao que sucedeu em Espanha, os comentários são já sobejamente conhecidos, e sobretudo, a aura de violência e cobardida inqualificável que fica no ar empesta como uma espécie de névoa poluída. Não há justificação alguma para uma situação ocorrida em Espanha, simplesmente porque a morte premeditada e cobarde não merece qualquer comentário sequer exemplificativo.
No entanto, e conforme se pode ler em vários jornais ao longo dos últimos dias, a atitude do Governo Espanhol mostra bem o calibre de determinadas pessoas, facções, ou ideologias. Mostra igualmente a capacidade mutante de determinado tipo de pessoas ou governantes, que logram imitar a mais reticente das lapas quando confrontadas com o rochedo do poder.
O grande problema, e aqui devo dizer, de uma certa direita elitista e cultivadora das diferenças apríorísticas, é a sobranceria. A soberba e a cabotinice que avalia as pessoas (eleitorado) como uma espécie de massa informe e não pensante, que engolirá passivamente a mais grosseira mentira que lhe quiserem vender.
Esconder o que se passou com base num esticar da corda eleitoralista, é passível de um daqueles clips da Euro News, onde se lê a legenda - " No Comments".
É um desrespeito pelas pessoas, pela democracia. Mas foi a mesma que reagiu, ainda que alguns opinion makers, os mesmos que andam calados que nem ratos acerca das ADM, ficassem de cara amarrada, agarrados ao jargão militante disparado ás cegas.
Não foram os atentados que custaram as eleições ao PP. Foi a tentativa de os varrer para debaixo do tapete numa sociedade de informação, onde pelos bons ou maus motivos, tudo acaba por saber-se.
Só espero que a tendência pegue, sinceramente. Porque talvez não melhoremos muito, mas há que impedir que tudo fique ainda pior.
Bem, depois de uma ausêcia prolongada, devido a compromissos de outra ordem, menos prazenteiros, mas infelizmente mais prementes, eis-me de volta. No entanto esta ausência vai continuar, embora de forma intermitente, uma vez que esses compromissos tendem a persistir e perdurar no tempo.
Mas quando tiver o quartel general em ordem, entenda-se, local e tempo para pesquisar e dizer algumas coisas que julgo importantes, voltarei em força.
A todos quantos dão uma perninha pelo estaminé, o meu muito obrigado.
Até breve e continuemos.

segunda-feira, março 01, 2004

Pois é... foram 11.
Bem sei que alguma da chamada crítica esclarecida dirá que os Óscares são políticos e bla´, blá, blá... por aí fora.
Muitos dirão que o feito de Peter Jackson esteve envolvido numa onda de simpatia pela persistência do autor, e como tal, levou onze estatuetas.
A verdade é que, á semelhança do que acontece em demasiadas ocasiões, a chamada "inteligentzia" (provavelmente soletrei mal) tentará a todo o custo minimizar aquele que foi um feito magnífico, uma proeza, incorporada numa transposição do intransponível. Talvez com isto acabe a sobranceria cultural de uma certa parcela da sociedade que qualifica os chamados géneros menores e maiores de acordo com a sua concepção do que é a qualidade cultural. A mesma tendência cultural que minimiza a comédia e os géneros fantásticos, sem ao menos terem a mínima noção da dificuldade que é fazer rir ou ter uma real e prolífica imaginação. Talvez comece a mudar.
Enfim, pelo menos alguma da crítica reconheceu a qualidade deste maravilhoso épico, e a honestidade simultaneamente rigorosa e ternurenta com que Jackson filmou o Senhor dos Anéis.
Foram 11. Merecidos.
Fica no entanto um reconhecimento rendido a todos os outros filmes, em especial Mystic River e Lost in Translation, pela energia, honestidade e beleza crua das suas problemáticas e a forma inspirada como foram filmadas. Bill Murray, és grande!
E atenção a Big Fish, uma pequena maravilha que foge á porcaria do estereótipo cultural dos dias de hoje em que só aquilo que é feio, porco e mau é que tem qualidade. Tim Burton mostrou o seu virtuosismo e poder para filmar o imaginário num filme que está injustamente afastado da agitação dos prémios e reconhecimentos.

Abraço a todos.

SK


sexta-feira, fevereiro 20, 2004

Um homem de extrema direita sem pejo de dizer alarvidades xenófobas e segregacionistas sobre a imigração, e outro que sendo responsável pela comissão nacional de adopção, prefere ver as crianças em orfanatos e famílias de acolhimento ao invés de entregues a uma família ou pai homossexual, mesmo que essa pessoa tenha todas as capacidades de lhe dar um bom lar e todo o afecto necessário a um crescimento saudável.

Foi neste tipos que a maioria de Portugal votou.
Sinceramente, acho que vou apanhar o próximo barco para o Ártico.
De volta ás lides.
Numa semana em que a França reconheceu o casamento de uma mulher com um defunto, onde os conservadores do Irão irão ( cacofonias e repetições à parte ) ganhar as eleições por falta de opsição, lançando o país nas profundezas da idade média, onde a promissora e talentosa Scarlet Johansson mostrou histeria dispensável na entrega de um prémio, na qual começa o Fantasporto que eu, débil económico crónico, vou ter de deixar para o ano que vem novamente, e está um frio inimaginável que vai transformar o CArnaval nacional no espectáculo confrangedor do costume.

Enfim, parafraseando Dave Mathews, é uma situação típica nestes tempos típicos.

Abraço a todos

quinta-feira, fevereiro 12, 2004

Sim, vem aí o dia dos namorados, uma espécie de oásis para o comércio no meio de uma época dificil com pagamento de cartões de crédito, prendas atrassadas do Natal e a ausência de aumentos no vencimento.
Sim pode ser que seja uma patranha comercialóide.
Mas para mim, existir mais uma desculpa para fazer uma surpresa ou ir a qualquer lado com a cara metade não me parece má de todo. Há coisas piores.
E de resto a consciência só pesa se as prendas e gestos só aparecem por meio destes (falsos) gatilhos. Caso contrário, é mais um evento que pode realmente ser agradável.
Agora cada um saberá de si, verdade?
Aos tímidos, talvez seja uma espécie de trégua desculpabilizante. A desculpa para escrever aquela carta temível. Fazer uma figura ridícula, e esperar que a coragem sirva como alavanca do intento do amor.
Nem sempre resulta. Mas os riscos foram feitos para serem corridos. Alguns, pelo menos.
Boa sorte, e bom dia de São VAlentim, que perdeu a cabeça por causa de uma mulher - literalmente....

Uma pergunta pertinente...

Onde anda o Pipi?
Como sempre, tiro o chapéu a este senhor. Quando entrei em contacto com ele, e mais tarde, depois de um estudo interessado mais que rigoroso, chego á conclusão de que é o que tenho de mais próximo com uma religião ou código ético. De forma eclética, claro, mas ainda assim...
Kant achava que só eramos livres quando perseguiamos o Bem. Embora possa ser discutível, eu creio nele. Era alguém que tinha fé no facto de que os homens algum dia criassem juízo e dessem passos em direcção á harmonia, num crescimento constante imparável.
Sou ingénuo e acho que é possível.
Sou maioritariamente kantiano. Sempre fui. Que fazer?



Bicentenário da morte comemora-se hoje
Immanuel Kant: o filósofo dos Direitos Humanos

Helena Ferro de Gouveia, Frankfurt
PÚBLICO
Immanuel Kant (1724-1804), nascido no seio de uma família humilde, foi enterrado como um monarca. No dia do seu funeral, a vida em Königsberg, na Prússia oriental, actual Kalininegrado, parou. O caixão foi acompanhado por milhares de pessoas e ecoaram os sinos de todas as igrejas da cidade.

Hoje, decorridos 200 anos sobre a morte do grande filósofo dos direitos humanos, da igualdade perante a lei, da cidadania mundial, da paz universal e acima de tudo do "Sapere Aude", a emancipação da razão, a Alemanha assinala a data com uma série de colóquios universitários, com a exibição na televisão pública do filme "Kant Reloaded" e com uma visita do ministro dos Negócios Estrangeiros, Joschka Fischer, a Kalininegrado. A Universidade de Bona disponibilizou na Internet, em acesso gratuito, o maior banco de dados mundial sobre o filósofo assim como as suas obras completas e cartas pessoais (www.ikp.uni-bonn.de/kant).

Rir é bom para a digestão
Mesmo a tempo do bicentenário surgiram numerosas publicações dedicadas ao autor da "Crítica da Razão Pura" (1781). Três delas, publicadas em Novembro de 2003, são biografias - "Kant" de Manfred Kuehn, "Immanuel Kant" de Steffan Dietzsch e "Kants Welt" de Manfred Geier - que questionam o retrato estereotipado de Kant traçado por Henrich Heine e que se inscreveu nos manuais de filosofia: um homem que obedecia às virtudes prussianas, cuja vida era absolutamente disciplinada, modesta e puritana. "Viveu uma vida de solteirão, mecanicamente ordenada, quase abstracta", escreveu Heine.

Um pensador genial com um quotidiano monótono? As novas obras biográficas mostram um outro filósofo que jogava com gosto às cartas, que apreciava uma boa refeição ou um espectáculo de teatro, que gostava de anedotas - claro que por motivo racional: o riso estimula a digestão - que se interessava pela política mundial. Naturalmente que não foram apenas os aspectos privados de Kant que mereceram a atenção dos autores (todos reconhecidos especialistas no obra do filósofo da Aufklaerung), mas a sua vida intelectual, as suas ideias e como estas foram influenciadas pelo clima da época.

Filósofo da Revolução Francesa
Kant viveu numa época conturbada, marcada por grandes mutações sociais, políticas e religiosas. A "orientação teológica" da Filosofia é posta em causa - Deus vai sendo progressivamente substituído pela ciência, tendência contra a qual Kant vigorosamente lutará - e a soberania intelectual do homem passa, com o Iluminismo, a repousar na ciência, que adquiriu, depois de Isaac Newton, um estatuto de dignidade e credibilidade recusado a outras formas de pensamento.

Na perspectiva política, o fenómeno mais relevante é a configuração do Estado moderno e de novas formas de organização do poder. Os escritos políticos de Kant datam já da maturidade e são fortemente influenciados por dois acontecimentos históricos da altura: a Revolução Francesa (1789) e a Revolução Americana (1776).

Não é em vão que foi classificado por Heine, Marx e Hengels como o filósofo da Revolução Francesa. Há de facto alguma analogia entre ambas as revoluções e o pensamento kantiano: a emancipação do homem face à autoridade e a afirmação da liberdade. De tal forma que o eco de Kant é tão importante na França como na Alemanha.

Para o investigador francês Etienne François, "se Kant é considerado na França como uma referência incontornável, na Alemanha é visto como uma etapa da pensamento filosófico" uma vez que não existem entre os filósofos que verdadeiramente são significativos nenhum que se tenha subtraído a um posicionamento relativamente a Kant.

A filiação de Kant até Juergen Habermas "é assumida e reivindicada". O próprio artigo primeiro da Lei Fundamental alemã - "A dignidade do homem é intocável" - é, ainda de acordo com Etienne François, claramente de inspiração kantiana. O pensamento kantiano surge como um elemento fundador no processo de construção europeia que coloca a dignidade humana, a reflexão e a ética no cerne dos seus objectivos. O projecto de Tratado Constitucional europeu reivindica também no seu preâmbulo o legado do Iluminismo.

Fischer em Kalininegrado
O bicentenário é ocasião para o chefe da diplomacia germânica inaugurar um consulado alemão em Kalininegrado, um enclave russo entre a Lituânia e a Polónia, onde o filósofo do Aufklaerung nasceu, ensinou e morreu. A ex-Königsberg, no mar Báltico, foi a capital dos reis da Prússia, tendo sido conquistada pelo Exército Vermelho durante a II Guerra mundial, e rebaptizada, em 1946, como Kalininegrado, em homenagem ao dirigente soviético Mikhail Kalinine. Nesta cidade não se encontra hoje nem a casa natal do filósofo nem aquela onde ele morreu, mas existe um museu Kant, assim como uma estátua do pensador em frente à Universidade - oferecida pela condessa alemã e grande dama do jornalismo Marion von Doenhoff.

O seu túmulo situa-se numa das extremidades da catedral, parcialmente arrasada pelos bombardeamentos de 1944-45, e nele está inscrito: "Duas coisas preenchem o espírito de uma admiração e de uma veneração crescentes e renovadas, à medida que a reflexão nelas incide: o céu estrelado sobre mim e a lei moral em mim."

sexta-feira, fevereiro 06, 2004

CARTAS A SÓNIA IV


Não há qualquer dúvida de que são as pessoas das quais mais gostamos que têm a maior capacidade para nos magoar. E não se pense que isto é uma qualquer manobra de injustiça maquiavélica por parte dessas pessoas. Não. Bem vistas as coisas, a culpa é essencialmente nossa, originada no nascimento e progressão dos nossos afectos. Somos nós que damos as coordenadas para o local onde está enterrado, como dizia King, o nosso coração secreto. Somos nós que colocamos guardas sonolentos e medrosos à porta, e deixamo-nos invadir.
A genealogia do amor tem uma morfologia muito própria. Assenta nas tentativas de explicação da irracionalidade, e cozinha num caldeirão fervente sentimentos paradoxalmente próximos e afastados. O significado por vezes deixa uma pessoa perplexa quanto à possibilidade da sua coexistência, mas a verdade é que arrisco a dizer que a pessoa que amamos é precisamente aquela que mais vontade dá de lhe apertarmos o pescoço.
Podemos efectivamente reparar nos detalhes, criar uma linha média das expectativas, e dançar por cima de brasas alternadas que são afinal o cumprimento ou frustração daquelas. Criamos acusações, damos connosco a tomar atitudes que dez segundos depois não fazem qualquer sentido e nos deixam de costas nuas perante a vergastada da consciência racional. Mas tomamo-las. há algo de irresistível, quase ao nível do pormenor verificado com um espírito ébrio, que torna a dinâmica do amor uma contenda onde, à semelhança de tantos combates, metade das baixas não tem explicação. Ou a bem dizer, quase todas.
Há algo que esperamos ver sempre nos olhos da pessoa que amamos. É uma espécie de acompanhamento, uma diferença lógica entre a sua capacidade de dar e a auto-preservação que mantém. Como se guardasse alguns segredos e mantivesse aquela individualidade que nos leva à loucura suave da descoberta. O enamoramento feito das saudades reiteradas pela ausência e as descobertas segundo Lavoisier. Amamos aqueles que são capazes de transformar, mas que no fundo se mantêm construídos pelos seus compostos. É a progressão na mente e corpo do outro que faz do amor uma espécie de ritual de ciclos, onde a simples capacidade de ver o outro sem tempo ou espaço se torna a delicia maior. Sinceramente, e apesar de existirem milhares de justificativas para tal situação, julgo que o fundamento do amor, seja em busca ou manutenção, ou simplesmente na vivência, reside num detalhe simples. A irracionalidade em que nos coloca, as dores que traz em alternância, aquele estado de aperto onde respirar é uma luta, mas sem o qual a vida parece um saco vazio, onde a paz desejada soa sempre a recompensa oca e insossa. No amor nunca se quer realmente paz. Entendimento sim, mas paz real? O próprio sexo é uma ausência de paz, e as dores de perseguição, que parecem maiores que cordilheiras de granito, são um paradoxo que a tranquilidade pode anular, sob pena de cansar como um caminho sem curvas.
Discordo que o amor seja, em alguns instantes, sempre obsessivo. Há quem diga que o é sempre quando é real, mas eu não tenho essa ideia. O amor pode criar pensamentos estranhos, não condizentes com a noção de vida que as pessoas originariamente tinham, mas nunca o consegui despir de uma fundamentação mínima. Como quase tudo aquilo que é completo e maravilhoso, o amor é uma entidade composta, e o grande temor que causa justifica-se na sua capacidade de transmutação, passando de ícone de perfeição a monstro sádico. O amor não é equilibrado constantemente, porque a sua sobrevivência depende disso. Há alguma lógica fervente nos seus desequilíbrios, naquele sofrimento que parece injustificado. Repudia o excesso, mas não há forma de dar a volta ao texto. Disseque-se o amor e teremos uma iguaria parcialmente venenosa. Como o Fugu ( prato de peixe japonês venenoso mas servido como sashimi ou sushi em restaurantes) , é preciso ter cuidado para não morrer pela ingestão desse veneno, mas é a intensidade das emoções, tactos e acontecimentos, aquela sensação de ter metade do pé no vazio que torna tudo tão urgente, misterioso e parcialmente incompreensível. E tão necessário. O amor é uma aventura em que a perspectiva de que os heróis se safem porque são bons rapazes não existe sempre. Pode muito bem ser uma história sem redenção ou exposição de catarse. Um conto negro. Mas sendo um conceito paradoxal, também há justiça no amor. A mente humana não é tão autista que não consiga justificar determinadas genealogias no seu objecto de desejo, e é efectivamente comum gostar-se daqueles de quem amamos, ao contrário do que dizem alguns. Eu creio firmemente nisso.
A verdade é que nem sempre é fácil ajustarmo-nos ao que consideramos ser as vivências do amor. Tal como podemos achar piada a uma cicatriz antiga, a dor que a causou é sempre de má memória, pelo menos no curto prazo. E pior que a dor, é a dor associada ao medo, e o medo é condimento natural do amor. Acontece pelo simples facto de gerarmos um sentimento inexplicavelmente forte, feito de sensualidade, posse e entrega relativamente a alguém que pela sua naturalidade se torna o baluarte de diferença onde parece que tudo é semelhante.
Existem milhares de teorias. Sinceramente, eu julgo que cada pessoa terá a sua, mesmo aqueles que julgam o amor como uma espécie de ferramenta manobrável. As culatras costumam ser bem traiçoeiras para essas pessoas, mas isso são outras histórias.
O amor é uma caldeirada. Uma confusão. Uma abstracção feita das noções próprias do que são as ditas verdades, e apoiadas em convicções inabaláveis. É estúpido, muitas vezes ridículo, ao ponto de muitos se escudarem numa elegância asséptica, porque a linguagem de carne, sangue é lágrimas do amor não é fácil, confortável ou mesmo imaginativa a mais das vezes. As palavras no calor da refrega não são musicais, e só no afastamento do amor, na pausa em que a memória ou antecipação nos permite visualizá-lo é que nasce algo que não arrepia a espinha ou constrange. Mas as mãos em cima da grelha ardente produzem sempre reacções e palavras que o descontrolo torna vulneráveis e trapalhonas. Pessoa dizia que as cartas de amor eram ridículas. Eu digo sinceramente que todo o discurso do amor em chamas é ridículo, e normalmente é um veiculo incompleto para o oceano de intenção que é querer viver o amor num determinado momento.
Mas o gozo que provoca a especulação acerca dele, faz com que tantos o tenham tentado, e que cada miúdo cheio de feromonas tente ainda e sempre escrever as piores cartas imagináveis, cheias de termos que dão a volta ao estômago do observador imparcial. O problema com muitos dos discursos sentimentaloides e lamechas, é que tentam simular e publicitar aquilo que só faz sentido quando o mundo lá fora parou, e não resta senão o inferno da exteriorização de algo que come o interior com dentes incandescentes. A contenção dessa fúria do amor produz textos, frases, gestos, música belíssima, porque é a glorificação um pouco distante de um milagre de intenção. Quem a produz continua a ser devorado por si mesmo, mas num misto de recordação e antecipação, como a diástole, o momento em que a gota de chuva viaja no ar, o encandeamento após o relâmpago, a pausa entre inspiração e expiração, o último segundo da peça antes dos aplausos.
Por isso, todo este discurso surge na óptica de quem se esforça por entender a totalidade do amor. Aquilo que traz, leva, produz ou destrói. Tentado desesperadamente não fugir para aquela linguagem de dentro da fogueira, mascarando a minha ridicularia o mais possível. Não é fácil levar o embrulho todo para casa, mas na resistência do amor está igualmente a fundamentação do outro.
E na minha mente, tu és como um singular e perfeito truque de magia feito por um ilusionista inexperiente. A única deixa imponente e arrasadora de um uma actuação mediana. Aquele acorde inexplicável no meio de um arranjo musical comum. A pincelada de génio no meio de um quadro de elevador.
Por qualquer razão, partida em milhares de argumentos objectivos, e milhões de ausências de argumentação, tu surges como a singularidade no meio do já conhecido, debatido e analisado. És a redescoberta de ti mesma que me vais emprestando. E por saber tanto de ti quanto há ainda por saber, torna o amor agitado, mas orgulhosamente vivo, como uma criança irrequieta, mas que no fundo sabe onde as suas fundações permanecem.
Em suma, é nessa soma de tudo, de dores e prazeres alternantes, que volto a descobrir-te neste segundo e naquele já mais à frente.
E só me fica uma conclusão…
O amor é isto.
Uma amiga minha está embrenhada no mundo mágico da prole, de ser a dadora de vida, de ver e testemunhar aquilo que o clichê identifica como milagre da vida, mas que não há outra forma de designar.
Não havendo forma de expressar o seu contentamento e rendição a tal estado afectivo, fica aqui a nota á mensagem de "Instinto" que me enviou.
E merece cada segundo.

E depois dizem que as mulheres não têm todas as prerrogativas...
As pessoas, em meu ver, com uma dose excessiva de paranóia, culpam os meios de informação pela crescente onda de violência e a transposição etária, digamos assim, da capacidade para cometer crimes atrozes.
Mas quando no início do século passado se cantava a seguinte rima nos recreios...

Lizzie Borden took an axe
And gave her mother forty whacks.
And when she saw what she had done,
She gave her father forty-one.


... eu pergunto-me se haverá alguma sustentabilidade nos protestos de alguns sectores da sociedade civil. Não são as crianças por natureza seres de imaginação fértil? Não existirá a necessidade de olhar para elas como seres complexos? Não terá existido sempre violência na juventude imberbe? As chamadas "nursery rimes" são em grande parte plenas de violência.

Eu só consigo recordar vezes sem conta o livro de William Golding, e perceber um paralelo quase imediato.
Os jovens que na ilha se corrompem e rendem á selvageria inimaginável, são seres deixados á sua própria sorte, seguindo uma determinada propensão. Não acontece o mesmo hoje em dia, onde as pressões do mundo designado como produtivo obriga a que as pessoas deixem os seus filhos um pouco à sua sorte? Não são os homens que propalam a importância da estrutura familiar os mesmos que tentam a todo o custo abolir leis laborais que protegem as pessoas que vivem para além do seu trabalho? Que tentam cercear a liberdade de acesso aos meios culturais menos fáceis ou evidentes?
Não parece tudo isto um pouco confuso? E contraditório?

terça-feira, janeiro 27, 2004

Fui ver "In America".

E que filme. Uma história simples, muito bonita, com dois fenómenos de interpretação de palmo e meio.
Pode ser tudo. Uma reflexão sobre a esperança e perserverança, sobre o medo, a culpa, mas aquilo que retive foi a capacidade de mergulhar profundamente em sentimentos reais, sem nunca fugir o pé para o "CAso da Vida TVI". Há uma contenção que a espaços desaba naquilo que é insuportavelmente emocional na vida de cada uma das personagens, e a bem ver, perfeitamente transponível para nós.
Talvez seja algo complicado de dizer, mas é um filme bonito, talvez dos mais bonitos pela simplicidade, realismo e ilusão simultânea que os afectos e laços inquebráveis podem proporcionar.
A não perder, acima de tudo porque o facto de amarmos algo ou alguém nunca nos coloca a salvo da nossa própria capacidade de causar dano ou felicidade.
Como podemos carregar um juízo de culpabilização do outro e um amor maior que tudo no mesmo saco mental e emocional?
Vejam a opinião de Sheridan...

Todo o tipo de extremismo é uma imbecilidade perigosa.
Por mais que se ouçam relatos de sonegação de liberdades, a repugnância que tal facto instila é sempre renovada e mais pungente.
Seja onde for.
E só há uma palavra para a sonegação da liberdade de navegação na internet em Cuba. Repugnante.

segunda-feira, janeiro 26, 2004

Féher, Angel Almeida, Paulo Pinto nomes que marcam um momento que os praticantes e fãs de desporto dificilmente esquecem pelas piores razões.
Jovens, atletas, aparentemente saudáveis, que num momento de profunda infelicidade morrem sem o que parece ser uma explicação aparente.
Parece impossível pensar numa morte por paragem cardíaca, aos vinte e quatro anos.
Parece impossível que a morte pareça sempre uma traição, uma coisa inconcebível e imcompreensível.
Ontem mal consegui dormir.
Á memória de Fehér, Paulo Pinto, Angel Almeida e Reggir Lewis, que morreram todos da mesma maneira, no campo onde faziam aquilo que mais gostavam, dando prazer e alegria aos outros.

sexta-feira, janeiro 23, 2004

Eu não sou tipo de entrar em polémicas estéreis, especialmente quando o esforço é tendente e responder a alguém que tenta vestir uma pele ou calçar uns sapatos que não lhe servem. Alguém deveria dizer a esta "senhora" que a chamada cultura ou capacidade não se adquirem por contágio devido a proximidade que ela tem com pessoas que são condescendentes o suficiente para ouvir os seus disparates.
Sinceramente, só me recordo das bacoradas incessantes que lançava no programa que apresentava, com Julio Machado Vaz, e do quão risível é ver uma pessoa que nem sequer se apercebe do ridículo dos seus trejeitos e da sua soberba.
Vou comentar esta (b)posta de Anabela Mota Ribeiro, por indicação deste magnífico bloguista, e porque sinceramente é inacreditável a sobranceria, cabotinice e ainda por cima, falta de logica que brota das palavras da Dona AMR. Aliás, esta senhora é a demonstração física de um mito no qual nunca acreditei, mas que pelos vistos existe, ou seja, de que as pessoas com um palminho de cara a mais normalmente não mandam uma para a caixa.

Mas vamos pegar por partes:


Parece que isto, isto e isto se têm sentido algo incomodados com a minha participação na blogoesfera modesta e limitada por compromissos sociais e profissionais de quem tem uma vida "lá fora." Nem sei o que diga, se é que vale a pena dizer alguma coisa.

Aqui está a elevação cultural a falar, ou seja, referir-se ás pessoas como "isto". É a boa educação a falar e deve ser um assomo da corrente pós-modernista a vir ao de cima nesta senhora tão culta e por dentro da arte dita "séria". Bolas, isto é que é ironia de fino recorte! Esta senhora está na vanguarda da expressão cultural de nível superior! E ainda por cima tem compromissos sociais lá fora! Tenho de ir a correr comprar a Lux ou a Caras.

"Tolkien é um autor menor. Digo-o sem quaisquer hesitações. Tenha os adeptos incondicionais que tiver (e são muitos até num país pouco dado a leituras como o nosso a julgar pela quantidade de impropérios com que me encheram a caixa de correio), isso não faz dele mais do que um escritorzeco de contos de fadas desprovidos da contextualização mítico-social que confere validade a esse género literário."

Ainda bem que esta senhora sabe o que é o critério de gosto e qualidade literária, e o que confere validade seja a que espécie de literatura for. Aliás, Tolkien é um dos autores do Século, um dos livros mais lidos de sempre ( só secundado pela Bíblia), autor de uma obra que transcende qualquer espécie de ficção criada até hoje, pelo detalhe, pela problemática geopolítica abordada através daquilo a que ele chamou de aplicabilidade, mas para esta senhora é um escritorzeco de contos de fadas descontextualizadas. Um homem que levou mais de quinze anos a escrever a saga e quarenta a compor todo o background, criou um alfabeto e consequente linguagem de raíz, é um badameco qualquer que pôs ali uns dragões e puf, já está.
O que ainda ninguém disse a esta senhora, é que os nossos gostos pessoais não são o selo de garantia de qualidade, e lá porque não gostemos de algo, não significa que esse algo não seja bom ou tenha qualidade. Eu não gosto de Miles DAvis ou Charlie Parker , mas os homens era dois génios da música. Acho Balzac uma pincelada das antigas, mas é de facto um dos maiores escritores de sempre. AMR pode não gostar de Tolkien á vontade, é um direito seu, e pode defendê-lo, mas falta-lhe a autoridade intelectual para proferir um disparate como designar o escritor mais lido de sempre como um autorzeco. O ridículo vai ao ponto de confessar que ainda não leu as obras, o que ainda acentua mais esta cabotinice vazia de argumentos, como são as asneiradas que diz a mais das vezes.
Já agora, gostaria que ela me explicasse onde está a contextualização "mitico-social" ( seja lá o que isso for) no fantasma de Hamlet, no espectro dos Canterville, em Dorian Grey, na ressuscitada Catherine Earnshaw, Roderick Usher e outros que tais. Ou se calhar Poe, Shakespeare, Bronte ou Wilde não são literatura á seria... Aliás, no seu tempo, estes autores eram tratados abaixo de cão pelos críticos que tinham um discurso muito parecido com o desta senhora. Eram afinal apenas um bando de autorzecos, e assim permanceram...


De qualquer forma, fico positivamente satisfeita por ver que, afinal, há portugueses que lêem fora das classes ditas "intelectuais." Que leiam Tolkien, Harry Potter ou o Homem-Aranha tanto se me dá. Pelo menos, é um princípio e pode ser que um dia venham a descobrir o gosto pela literatura a sério.

Santa Maria Madalena. É mais um dos milagres de Fátima! Esta senhora sabe o que é literatura a sério. Ora quem defende isto com tal veemência, tem com certeza uma justificação, uma espécie de grelha de qualidade, talvez medida em termos quantitativos, como J. Evans Pritchard o fazia, através de um gráfico, no sempre agradável " Dead Poets Society".
Estou sinceramente à espera de receber no meu mail essa grelha, para poder perceber o que ando a ler. Caraças, isto são boas notícias!!!



Quanto às críticas dirigidas ao "Magazine" e à 2:, para evitar polémicas desnecessárias, basta-me dizer que nem um, nem a outra têm como público alvo os autores das críticas. Por isso, para quê perderem tempo com coisas que não vos interessam e que não compreenderão de qualquer maneira? Não será por falta de canais com o tipo de programação que vos agrada com certeza.

Esta então é a mais asquerosa das intervenções. É próprio dos vómitos elitistas de quem se julga esclarecido e iluminado relativamente á pobre da populaça que infesta o mundo onde esta senhora anda. Achei especialmente infeliz a alusão ao facto de que as pessoas não seriam capazes de entender os conteúdos do seu programazinho. É de uma prepotência e demonstração de mania das grandezas que roça o obsceno.


E estou aqui para ficar. Podem ter a certeza disso. Com polémicas ou sem elas. Citando o grande Honoré de Balzac, "Les existences faibles vivent dans les douleurs, au lieu de les changer en apophtegmes d'expérience, elles s'en saturent, et s'usent en rétrogradant chaque jour dans les malheurs consommés."

Isto é que são más notícias. Ou talvez não. É sempre bom ver que há um cantinho para rir na blogosfera, ainda que o humor produzido involuntariamente pelo autor.
O reino dos céus será desta senhora. Talvez ela entenda esta alusão primária, quem sabe...


E em resposta à pergunta "dele", não li os livros porque tenho as minhas prioridades e há coisas mais urgentes a ler.

Ora cá está espelhada toda a autoridade para poder formular uma opinião. Porque emprenhar pelos ouvidos é a fórmula mágica para conseguir fazer um juízo crítico fundamentado, porra, toda a gente sabe isso...



Até Gollum. A respeito deste último, há algo a dizer. A sua representação no filme é, obviamente, uma evocação do aspecto que o corpo dos doentes com SIDA em estado terminal assume. A demonização era desnecessária, quanto a mim.

Aqui não resisto, entre gargalhadas, a transcrever do Cruzes, o J que me desculpe - "São conhecidos os dons proféticos de Tolkien para descrever na década de 50 como seriam as vítimas da SIDA da década de 80".


Tanta referência ao triunfo dos homens bons e justos do Oeste perante os tiranos do Leste é obviamente uma referência ao mundo em que vivemos. E onde estão as mulheres? Relegadas para papéis secundários de serviçais e companheiras.

O disparate continua. Se a senhora em causa ler uma página que seja sobre a obra do autor, saberá que ele sempre negou a escrita de um livro alegórico, mas sim aplicável. A aplicabilidade reside na liberdade de adaptação do leitor, ao contrário da alegoria, intenção clara e calculada do autor.
Quanto à misoginia, talvez o homem até tenha sido, mas vimos o mesmo filme? Que eu saiba, o Rei Feiticeiro é morto por Ewoyn, a sobrinha do Rei Theoden.. para uma serviçal e submissa, tem umas grandes abébias. Já para não falar em Galadriel, mas enfim...


E pronto, cá fica.
Quanto a AMR, talvez um dia perceba que o seu papel nas intervenções televisivas ou outros quejandos, deve-se ao seu valor como bibelot engraçado, e abrande nos disparates.
Recomendo-lhe que leia ou oiça o discurso de Stephen King aquando da entrega do prémio que lhe foi concedido pela NBA ( não, Anabela, não são os tipos do basquetebol), e recue em tanta cagança para tão pouca competência. Saudações!

Aos restantes, um abraço.

quinta-feira, janeiro 22, 2004

Por alguma razão não consigo memorizar datas de aniversário.
Porque será?
Porque é que não esqueço a minha e recordo a de todos os outros, por exemplo?
Mais um livro a reter, e que espero arranjar o tempo para ler.

A biografia de Carl Jung que ao que parece, era um safardana na pior espécie, apesar dos esforços da sua biógrafa.
Chegou a lançar uma bomba de Carnaval para perto de uma das suas filhas, deixando-a surda de um ouvido, aparecia em ocasiões sociais com a mulher num braço e a amante ( a quem chamava a outra esposa), no outro, entre outras proezas.
Andou de candeias ás avessas com Freud e quase foi o psiquiatra de Hitler.

"Jung" - de Dierdre Bair.
"Our Fathers" de David France.

O repugnante universo da pedofilia na Igreja Católica Americana relatado num livro que segundo o Times, vale a pena ler.
Acho que vou á Amazon fazer uma encomenda...

"Here is the incredible criminal history of the Rev. Joseph Birmingham, "methodically moving from boy to boy like a champion at a pie-eating contest" and nicknamed Father Burning-hand by one of his many victims."

E pensar que alguns escritores de ficção têm dificuldade em criar monstros, quando a realidade está pejada deles...

Um Vergonhoso, Triste e Recorrente Fenómeno

O mais impressionante em todas estas situações é verificar como é que as pessoas conseguem odiar de morte a diferença, sem qualquer outro motivo que não um ressentimento injustificado. Até porque para quem trabalha com imigração, que é o meu caso, sabe que os argumentos económicos para justificar racismo são uma falácia já antiga e que não engana ninguém, à excepção do Paulinho das Feiras.
Enfim, dá logo volta ao estômago começar assim o dia, mas são as noticias do mundo...

quarta-feira, janeiro 21, 2004

Embora já haja ecos deste evento em todas as publicações ou blogs, ou o que for, ainda estou a beliscar-me enquanto recordo a frase daquele senhor cujo nome nem memorizei e que crê que a mulher violada que engravide deveria ter a criança.
A minha cara metade deu um pulo de metro e meio no sofá e disse apenas isto:

"Só um homem é que poderia ter uma tirada destas. Alguém que não sabe do que fala".

Eu concordo com a IVG até ás dez semanas. Concordo que a defesa do valor vida nos moldes em que os ditos defensores da mesma o apresentam é uma falácia, uma vez que se descartam da noção de qualidade de vida e consequentes direitos humanos daqueles que alguém força a vir ao mundo. Esses senhores são os mesmos que vociferam contra o uso do preservativo, que propalam a abstinência, entre outros disparates. Aqueles que não sabem que em África um preservativo custa o equivalente a metade do rendimento mensal, e que muitas pessoas nem sequer sabem o que isso é. Pessoas que nascem apenas para morrer em condições que a nosso conforto nem sequer consegue imaginar como são. Mas segundo esses movimentos, nasceram e iso é que é importante. Agora desenrasquem-se.

Mas adiante.
O que realmente me chamou a atenção é existirem homens a ditar sentenças sobre algo que é um universo que a nós está vedado. Eu nunca saberei o que é ter uma escolha para procriar ou não, e como se posiciona o meu corpo ou consciência relativamente a essa matéria.
Por isso, qualquer lei que obste a uma escolha, que criminalize algo que critério cientifico nenhum consegue determinar, ou seja, o conceito de vida propriamente dito, é um tropeção moral onde deveria existir direito e objectividade relativa a uma autodeterminação de consciência individual.
O disparate que aquele senhor proferiu, como tantos naquela noite, é apenas uma prova de alguém que fala de cor, sem ter a mínima noção de como as coisas são ao nível do desespero que é para alguém ter de recorrer ao aborto.

Hoje de manhã ouvi a música dos Marretas.
E realmente existem coisas que tempo ou modernidade alguma conseguem por de parte. Aquela música ainda me faz arrepiar a pele, colocar um sorriso na cara e expressar uma ternura interna por algo que era e é um tiro na mouche.
Os Marretas, assim como os tresloucados da Warner nos seus episódios de seis a sete minutos são um delírio que ainda hoje não dispenso, apesar do olhar pouco entusiasta de quem tem de me aturar todos os dias.
A verdade é que a maioria dos meus amores reais surge e permanece, vem de dias antigos, vive de noções basilares do que era belo, engraçado, terno, importante, expresso em coisas como os Marretas ou o Tulicreme, do qual falou a Ana Albergaria.
Não me entendam mal. Não sou um saudosista, e muito menos um conservador ( cruzes canhoto, irra!), simplesmente tendo a afeiçoar-me ao que surge e fica com a naturalidade de ser simplesmente o que é.
Vou ouvir os Marretas mais uma vez, desculpem lá.
Passei de Martin Amis para Stephen King, e tenho Patricia Cornwell, Neil Gaiman ou William Faulkner em cima da mesa de cabeceira.
E parece que consigo ouvir as falanges de apoio do público dentro da minha cabeça a gritar para o seu favorito, um pouco á semelhança daquela cena hilariante da escolha da princesa no filme Shrek.
E isto porque cada um deles tem algo que eu posso andar á procura neste momento, mas o problema é decidir ou acertar na coincidência entre os apetites e a adequação.
Mas afinal de contas, não é essa a eterna dúvida acerca de cada coisa ou pessoa que amamos, nem que seja potencialmente?
Estou-me completamente a borrifar.
Estou a escrever uma história como queria há muito tempo. Daquelas que os iluminados culturais designariam de escapista, mirabolante, fantasiosa, e o diabo a sete.
Embora vá insegura, (pois a minha musa apresenta-se como uma sobrevivente em muito mau estado de um descarrilamento e colisão frontal entre comboios), há muito tempo que as ideias não pulavam desta maneira. Provavelmente serão ideias de merda para muitos, mas eu só tenho um mandamento na escrita, e foi o meu amigo que o disse. Aliás, está em baixo, numa outra posta, a bold, mas eu transcrevo.


Frank Norris, the author of McTeague, said something like this: "What should I care if they, i.e., the critics, single me out for sneers and laughter? I never truckled, I never lied. I told the truth." And that's always been the bottom line for me. The story and the people in it may be make believe but I need to ask myself over and over if I've told the truth about the way real people would behave in a similar situation.

We understand that fiction is a lie to begin with. To ignore the truth inside the lie is to sin against the craft, in general, and one's own work in particular.



E essa é a verdade para mim. Tentar sempre dizer a verdade, fazer uma estimativa do que seriam as reacções normais, escrever com a honestidade espelhada no desejo de contar uma história, e no que penso que realmente acontece nesse delírio feito narrativa. Se corto esquinas, faço-o sem saber.
No fundo creio em cada história e conto-a como ela me aparece, seja passada num subúrbio de Lisboa, ou nessa mesma cidade uns largos anos no futuro, com golfinhos de volta ao Tejo.

E divertir-me tanto como me chateio, porque quem escreve só para se chatear, comete um acto de masoquismo puro que sinceramente não entendo.



Parece que a regulamentação da Lei de Imigração lá vai andar para a frente, apesar das brigas de comadres ao nível do Conselho de Ministros.
O que é mais impressionante é que o PP já nem se dá ao trabalho de camuflar as suas tendências conservadoras e segregacionistas, seja neste aspecto, seja na questão do aborto, e por aí fora.
Entrincheirados nos seus fatinhos de risca branca, não fazem a mínima ideia do que é a conjuntura do país em termos de imigração, e a dinâmica dos fluxos de pessoas que estão ligadas, muitas vezes pelas piores razões, ao fenómeno migratório.
O número proposto, 6500, é uma falácia, e mais do que isso, é uma análise completamente cegueta da realidade nacional. Basta recordar que estamos a menos de seis meses do Euro, sendo que as obras e preparativos finais vão absorver e necessitar de um numero muito mais elevado.
O que choca realmente, não são os 6500, mas a forma como se chega a esse número, sem um estudo sério, onde se ausculta os verdadeiros actores sociais relativamente ao impacto que algo assim terá. As empresas e seus orgãos associativos ou representativos, os Sindicatos, os trabalhadores, não foram ouvidos, ou levados a contribuir com o que são as suas necessidades. 6500 é um número para inglês ver, que facilitará aquilo que Gomes Canotilho chamou de modelo restrictivo.
A quota de 6500 cidadãos estrangeiros estará esgotada em Março. Acreditem no que vos digo.

quinta-feira, janeiro 15, 2004

Atenção.
Hoje é dia de estréias.

Atenção a Thirteen - para uma reflexão sobre a dolescência á la Larry Clark ( parece que anda a produzir seguidores)

- Underworld - Parece que é um pouco banhoso, mas os cenários e premissa parecem engraçados. No entanto para certos argumentistas e realizadores, a tentação para borrar a pintura é irresistível por demais.

- In The Cut - Será o Instinto Fatal versão Jane Campion? Ou algo diferente. Uma coisa é certa - Meg Ryan agarrou na menina romântica de excrescências vomitantes como " You've Got mail" e compôs uma bad girl, ao que parece. Vamos lá ver o que sai.

Mas para a semana esteia Lost in Translation! - Vamos lá ver se Sofia Copolla repete o brilharete que fez com "Virgin Suicides" ( que já agora se deveria ter traduzido os suicídio virgens e não virgens suicidas, mas entende-se a intuito) um dos meus filmes preferidos. PElo que ouço falar e leio, parece que voltou a dar cartas. Estarei lá para ver.
Viva! Viva!

Parece que a pouca vergonha italiana vai acabar e até um país que é governado por um fascismo higiénico teve o bom senso de dizer basta quando as coisas chegam a um tal ponto de falta de decência e vergonha na cara.
Depois do bloqueio das inaceitáveis leis medida, Berlusconi já náo tem mão no barco que nem sequer sabia conduzir. "Don Corleone" poderá não ter outra solução senão convocar eleições antecipadas, o que seria uma alegria para a Europa, e para quem olha para a confusão institucional em Itália como um embaraço Europeu.
Parece que o bom senso pode tirar férias, mas nunca abandona o posto de trabalho. Viva por isso!

terça-feira, janeiro 13, 2004

Mesmo que pudesse fazer algum comentário condigno, não me atreveria...



I came to Sweden characterized as a pessimist, though I am an optimist. Now something - perhaps the wonderful warmth of your hospitality - has changed me into a comic. That is a hard position to sustain. It reminds me of days long ago when as a poor teacher I would take turn about during the night with my wife, getting our infant daughter to sleep. I remember once, how at three o'clock in the morning when I began to creep away from the cradle with its sleeping child, she opened her eyes and remarked: "Daddy, say something funny".

However, the moment has come for me to put off the jester's cap and bells.

I do thank Sweden for its wonderfully warm hospitality and I do thank the Nobel Foundation and the Swedish Academy for the welcome and unexpected way in which they have, so to speak, struck me with lightning. I only wish all borders were as easy to cross and all international exchanges as friendly.

I have been in many countries and I have found there people examining their own love of life, sense of peril, their own common sense. The one thing they cannot understand is why that same love of life, sense of peril and above all common sense, is not invariably shared among their leaders and rulers.

Then let me use what I suppose is my last minute of worldwide attention to speak not as one of a nation but as one of mankind. I use it to reach all men and women of power. Go back. Step back now. Agreement between you does not need cleverness, elaboration, manoeuvres. It needs common sense, and above all, a daring generosity. Give, give, give!

It would succeed because it would meet with worldwide relief, acclaim and rejoicing: and unborn generations will bless your name.



William Golding - Discurso de aceitação do seu Prémio Nobel da Literatura em 1983
Embora seja uma ideia antiga, os livros audio, para ouvir durante as secas de trânsito são a melhor das invenções quando a rádio se limita a remoer vezes e vezes sem conta as mesmas xaropadas comercialóides uma e outra e outra vez.
Descobri agora, e recomendo.
Audiobooks, uma bela ideia.
Recentemente vi um filme extremamente interessante, um pouco a puxar para a visão nihilista do Larry Clark é certo, ( do qual não sou um grande fã), mas com várias ideias que essencialmente fazem boas e incómodas perguntas.
Fiquei com a clara e já reiterada ideia de que os anos de crescimento e assimilação da personalidade têm uma permeabilidade absoluta aos contributos dos pais ou responsáveis, e que podem fazer estragos irreparáveis.
Deu-me igualmente a sensação de que o tal vazio e simulacro de amoralidade é finito, e que o cinismo não é eternamente resistente.
Gostei da ideia de procura, mesmo quando não se faz a menor ideia do objecto daquela.
Se bem que um baldas, petulante e com a mania que os chatos comem alface não fala com a eloquência e ecletismo cultural que o protagonista apresenta. Mas o Calvin também não fala como um miúdo de seis anos, e eu gosto imenso da banda desenhada, que nem por esse detalhe deixa de acertar na mouche.
Um dia. Uma experiência. Mais um grande filme.
Qual?
Igby Goes Down, de Burr Steers, e atenção aos dois outros manos Kulkin, a anos luz do tipinho irritante dos "Sozinhos em Casa."

Certo autor disse uma vez que os amigos podem ser como os empregados de bar. Vão e vêm, passam algum tempo connosco, são-nos algo, trocamos algo com eles e vemos a sua dinâmica de presença na nossa vida.
Os mecanismos da afeição, as atracções e repulsas parcelares que fazem o arquétipo de uma relação de amizade, conhecem fases, ou não fossem um derivativo do amor.
Mas são perguntas engraçadas aquelas que fazemos quando os empregados de bar se vão embora, porque já nos deram o que haviamos pedido ou simplesmente levaram o que precisavam. O bulício do bar continua, e por vezes lá os vemos, em meio a toda a multidão que os envolve. E então penso sinceramente que é cada vez melhor e mais recomendável o cultivo de uma amizade com o dono ou maitre de um restaurante lento, onde tudo pode não ocorrer á velocidade que desejamos, mas onde a presença acaba por permitir que o prato apure e se torne prolongadamente único. E como em tantas outras questões não metafóricas, o fast food tem aquela qualidade de alternância esparsa, a ser experimentada somente de tempos a tempos. Sabe bem, é verdade, mas em nada se prolonga.


Não se trata de sexismo amigos...
A sério...

"Woman Causes Parking Garage Chaos
Mon Jan 12,10:00 AM ET Add Oddly Enough - Reuters to My Yahoo!

BERLIN (Reuters) - A German woman caused more than 100,000 euros ($128,300) of damage when an attempt to back out of her spot in a parking garage ended with her car on its roof and four other vehicles damaged, police said Monday.
Police said the woman reversed sharply out of her spot on the upper level of a multi-story parking in the southwestern town of Kirchen, writing off a parked Nissan and damaging a Mitsubishi next to it, police said.

She then accelerated forward, speeding through her original parking place and over a low protective wall -- pitching her Audi some six meters (20 feet) down on to a lower level of the car park.
The car crashed on to a Renault, hit a Citroen and finally came to rest on its roof.
Police said the woman was treated in hospital but that her injuries were not life-threatening. "A blood test was taken after suspicions she was under medication," a spokesman said.
Existem dias de surpresa.
E qual foi a minha quando hoje deparo com um escrito de João Pereira Coutinho onde o moço não só se confessa um admirador de Stephen King, como lhe dispensa encómios, e como faz uma espécie de reconhecimento daquilo que o autor citado refere no seu discurso aquando da atribuição de um prémio literário importante. Neste discurso, King dá uma agulhadas certeiras á chamada crítica iluminada que a história tantas vezes tem provado estar errada e não passar de um bando de snobs com a ideia de universalização de um gosto ou tendência.
Ver JPC apoiar uma causa ou ideia destas deixou-me boquiaberto... sinceramente.
Não o julgava capaz de tal coisa, leia-se, humildade e algo escrito em teor construtivo e não no seu habitual arrazoado de ataques em todas as frentes.
Há dias assim, de surpresa.

quarta-feira, janeiro 07, 2004

Confesso que ultimamente não tenho lido outros blogs.
A falta de tempo é de facto um argumento de peso, mas sobretudo, porque muitos deles se ocupam constatemente de querelas de cariz político mais ou menos disfarçado, um número considerável acha engraçado e "cool" encontrar 65453164 maneiras de desprezar outros e dar a sua visão da realidade como uma espécie de evidência palpalva. Ou seja, em grande número de blogs as coisas andam mais ou menos como uma contenda acesa, e tudo á pantufada.
Felizmente existem outros que espero voltar a ver muito em breve.
Vocês sabem quem são.

Abraços
Aos snobs que julgam a qualidade da literatura pelos seus gostos pessoais ao nível dos conceitos, não fará mal nenhum ler este discurso de um homem que está cansado de provar que sabe escrever, e que finalmente já reconhecimento.

Um documento acutilante, grato, tocanto por vezes, mas um elogio fantástico á honestidade na escrita. Ou seja, imagine-se ou relate-se, tente-se de alguma forma ser o mais honesto possível no que se quer dizer, seja o relator Tolkien ou Irving Welsh.

Aos que gostam da obra do homem, que é o meu caso, é sempre um prazer vê-lo ganhar vida fora das páginas de uma narrativa.




Stephen King
Winner of the 2003
DISTINGUISHED CONTRIBUTION TO AMERICAN LETTERS AWARD


"Thank you very much. Thank you all. Thank you for the applause and thank you for coming. I'm delighted to be here but, as I've said before in the last five years, I'm delighted to be anywhere.

This isn't in my speech so don't take it out of my allotted time. There are some people who have spoken out passionately about giving me this medal. There are some people who think it's an extraordinarily bad idea. There have been some people who have spoken out who think it's an extraordinarily good idea. You know who you are and where you stand and most of you who are here tonight are on my side. I'm glad for that. But I want to say it doesn't matter in a sense which side you were on. The people who speak out, speak out because they are passionate about the book, about the word, about the page and, in that sense, we're all brothers and sisters. Give yourself a hand.

Now as for my remarks. The only person who understands how much this award means to me is my wife, Tabitha. I was a writer when I met her in 1967 but my only venue was the campus newspaper where I published a rude weekly column. It turned me into a bit of a celebrity but I was a poor one, scraping through college thanks to a jury-rigged package of loans and scholarships.

A friend of Tabitha Spruce pointed me out to her one winter day as I crossed the mall in my jeans and cut-down green rubber boots. I had a bushy black beard. I hadn't had my hair cut in two years and I looked like Charlie Manson. My wife-to-be clasped her hands between her breasts and said, "I think I'm in love" in a tone dripping with sarcasm.

Tabby Spruce had no more money than I did but with sarcasm she was loaded. When we married in 1971, we already had one child. By the middle of 1972, we had a pair. I taught school and worked in a laundry during the summer. Tabby worked for Dunkin' Donuts. When she was working, I took care of the kids. When I was working, it was vice versa. And writing was always an undisputed part of that work. Tabby finished the first book of our marriage, a slim but wonderful book of poetry called Grimoire.

This is a very atypical audience, one passionately dedicated to books and to the word. Most of the world, however, sees writing as a fairly useless occupation. I've even heard it called mental masturbation, once or twice by people in my family. I never heard that from my wife. She'd read my stuff and felt certain I'd some day support us by writing full time, instead of standing in front of a blackboard and spouting on about Jack London and Ogden Nash. She never made a big deal of this. It was just a fact of our lives. We lived in a trailer and she made a writing space for me in the tiny laundry room with a desk and her Olivetti portable between the washer and dryer. She still tells people I married her for that typewriter but that's only partly true. I married her because I loved her and because we got on as well out of bed as in it. The typewriter was a factor, though.

When I gave up on Carrie, it was Tabby who rescued the first few pages of single spaced manuscript from the wastebasket, told me it was good, said I ought to go on. When I told her I didn't know how to go on, she helped me out with the girls' locker room stuff. There were no inspiring speeches. Tabby does sarcasm, Tabby doesn't do inspiration, never has. It was just "this is pretty good, you ought to keep it going." That was all I needed and she knew it.

There were some hard, dark years before Carrie. We had two kids and no money. We rotated the bills, paying on different ones each month. I kept our car, an old Buick, going with duct tape and bailing wire. It was a time when my wife might have been expected to say, "Why don't you quit spending three hours a night in the laundry room, Steve, smoking cigarettes and drinking beer we can't afford? Why don't you get an actual job?"

Okay, this is the real stuff. If she'd asked, I almost certainly would have done it. And then am I standing up here tonight, making a speech, accepting the award, wearing a radar dish around my neck? Maybe. More likely not. In fact, the subject of moonlighting did come up once. The head of the English department where I taught told me that the debate club was going to need a new faculty advisor and he put me up for the job if I wanted. It would pay $300 per school year which doesn't sound like much but my yearly take in 1973 was only $6,600 and $300 equaled ten weeks worth of groceries.

The English department head told me he'd need my decision by the end of the week. When I told Tabby about the opening, she asked if I'd still have time to write. I told her not as much. Her response to that was unequivocal, "Well then, you can't take it."

One of the few times during the early years of our marriage I saw my wife cry really hard was when I told her that a paperback publisher, New American Library, had paid a ton of money for the book she'd rescued from the trash. I could quit teaching, she could quit pushing crullers at Dunkin' Donuts. She looked almost unbelieving for five seconds and then she put her hands over her face and she wept. When she finally stopped, we went into the living room and sat on our old couch, which Tabby had rescued from a yard sale, and talked into the early hours of the morning about what we were going to do with the money. I've never had a more pleasant conversation. I have never had one that felt more surreal.

My point is that Tabby always knew what I was supposed to be doing and she believed that I would succeed at it. There is a time in the lives of most writers when they are vulnerable, when the vivid dreams and ambitions of childhood seem to pale in the harsh sunlight of what we call the real world. In short, there's a time when things can go either way.
That vulnerable time for me came during 1971 to 1973. If my wife had suggested to me even with love and kindness and gentleness rather than her more common wit and good natured sarcasm that the time had come to put my dreams away and support my family, I would have done that with no complaint. I believe that on some level of thought I was expecting to have that conversation. If she had suggested that you can't buy a loaf of bread or a tube of toothpaste with rejection slips, I would have gone out and found a part time job.

Tabby has told me since that it never crossed her mind to have such a conversation. You had a second job, she said, in the laundry room with my typewriter. I hope you know, Tabby, that they are clapping for you and not for me. Stand up so they can see you, please. Thank you. Thank you. I did not let her see this speech, and I will hear about this later.

Now, there are lots of people who will tell you that anyone who writes genre fiction or any kind of fiction that tells a story is in it for the money and nothing else. It's a lie. The idea that all storytellers are in it for the money is untrue but it is still hurtful, it's infuriating and it's demeaning. I never in my life wrote a single word for money. As badly as we needed money, I never wrote for money. From those early days to this gala black tie night, I never once sat down at my desk thinking today I'm going to make a hundred grand. Or this story will make a great movie. If I had tried to write with those things in mind, I believe I would have sold my birthright for a plot of message, as the old pun has it. Either way, Tabby and I would still be living in a trailer or an equivalent, a boat. My wife knows the importance of this award isn't the recognition of being a great writer or even a good writer but the recognition of being an honest writer.

Frank Norris, the author of McTeague, said something like this: "What should I care if they, i.e., the critics, single me out for sneers and laughter? I never truckled, I never lied. I told the truth." And that's always been the bottom line for me. The story and the people in it may be make believe but I need to ask myself over and over if I've told the truth about the way real people would behave in a similar situation.

Of course, I only have my own senses, experiences and reading to draw on but that usually - not always but usually - usually it's enough. It gets the job done. For instance, if an elevator full of people, one of the ones in this very building - I want you to think about this later, I want you to think about it - if it starts to vibrate and you hear those clanks - this probably won't happen but we all know it has happened, it could happen. It could happen to me or it could happen to you. Someone always wins the lottery. Just put it away for now until you go up to your rooms later. Anyway, if an elevator full of people starts free-falling from the 35th floor of the skyscraper all the way to the bottom, one of those view elevators, perhaps, where you can watch it happening, in my opinion, no one is going to say, "Goodbye, Neil, I will see you in heaven." In my book or my short story, they're far more apt to bellow, "Oh shit" at the top of their lungs because what I've read and heard tends to confirm the "Oh shit" choice. If that makes me a cynic, so be it.

I remember a story on the nightly news about an airliner that crashed killing all aboard. The so-called black box was recovered and we have the pilot's immortal last four words: "Son of a bitch". Of course, there was another plane that crashed and the black box recorder said, "Goodbye, Mother," which is a nicer way to go out, I think.

Folks are far more apt to go out with a surprised ejaculation, however, then an expiring abjuration like, "Marry her, Jake. Bible says it ain't good for a man to be alone." If I happen to be the writer of such a death bed scene, I'd choose "Son of a bitch" over "Marry her, Jake" every time. We understand that fiction is a lie to begin with. To ignore the truth inside the lie is to sin against the craft, in general, and one's own work in particular.

I'm sure I've made the wrong choices from time to time. Doesn't the Bible say something like, "for all have sinned and come short of the glory of Chaucer?" But every time I did it, I was sorry. Sorry is cheap, though. I have revised the lie out if I could and that's far more important. When readers are deeply entranced by a story, they forget the storyteller completely. The tale is all they care about.

But the storyteller cannot afford to forget and must always be ready to hold himself or herself to account. He or she needs to remember that the truth lends verisimilitude to the lies that surround it. If you tell your reader, "Sometimes chickens will pick out the weakest one in the flock and peck it to death," the truth, the reader is much more likely to go along with you than if you then add something like, "Such chickens often meld into the earth after their deaths."

How stringently the writer holds to the truth inside the lie is one of the ways that he can judge how seriously he takes his craft. My wife, who doesn't seem to know how to a lie even in a social context where people routinely say things like, "You look wonderful, have you lost weight?" has always understood these things without needing to have them spelled out. She's what the Bible calls a pearl beyond price. She also understands why I was in those early days so often bitterly angry at writers who were considered "literary." I knew I didn't have quite enough talent or polish to be one of them so there was an element of jealousy, but I was also infuriated by how these writers always seemed to have the inside track in my view at that time.

Even a note in the acknowledgments page of a novel thanking the this or that foundation for its generous assistance was enough to set me off. I knew what it meant, I told my wife. It was the Old Boy Network at work. It was this, it was that, on and on and blah, blah, blah. It is only in retrospect that I realize how much I sounded like my least favorite uncle who believed there really was an international Jewish cabal running everything from the Ford Motor Company to the Federal Reserve.

Tabitha listened to a fair amount of this pissing and moaning and finally told me to stop with the breast beating. She said to save my self-pity and turn my energy to the typewriter. She paused and then added, my typewriter. I did because she was right and my anger played much better when channeled into about a dozen stories which I wrote in 1973 and early 1974. Not all of them were good but most of them were honest and I realized an amazing thing: Readers of the men's magazines where I was published were remembering my name and starting to look for it. I could hardly believe it but it appeared that people wanted to read what I was writing. There's never been a thrill in my life to equal that one. With Tabby's help, I was able to put aside my useless jealousy and get writing again. I sold more of my short stories. I sold Carrie and the rest, as they say, is history.

There's been a certain amount of grumbling about the decision to give the award to me and since so much of this speech has been about my wife, I wanted to give you her opinion on the subject. She's read everything I've written, making her something of an expert, and her view of my work is loving but unsentimental. Tabby says I deserve the medal not just because some good movies were made from my stories or because I've provided high motivational reading material for slow learners, she says I deserve the medal because I am a, quote, "Damn good writer".

I've tried to improve myself with every book and find the truth inside the lie. Sometimes I have succeeded. I salute the National Book Foundation Board, who took a huge risk in giving this award to a man many people see as a rich hack. For far too long the so-called popular writers of this country and the so-called literary writers have stared at each other with animosity and a willful lack of understanding. This is the way it has always been. Witness my childish resentment of anyone who ever got a Guggenheim.

But giving an award like this to a guy like me suggests that in the future things don't have to be the way they've always been. Bridges can be built between the so-called popular fiction and the so-called literary fiction. The first gainers in such a widening of interest would be the readers, of course, which is us because writers are almost always readers and listeners first. You have been very good and patient listeners and I'm going to let you go soon but I'd like to say one more thing before I do.

Tokenism is not allowed. You can't sit back, give a self satisfied sigh and say, "Ah, that takes care of the troublesome pop lit question. In another twenty years or perhaps thirty, we'll give this award to another writer who sells enough books to make the best seller lists." It's not good enough. Nor do I have any patience with or use for those who make a point of pride in saying they've never read anything by John Grisham, Tom Clancy, Mary Higgins Clark or any other popular writer.

What do you think? You get social or academic brownie points for deliberately staying out of touch with your own culture? Never in life, as Capt. Lucky Jack Aubrey would say. And if your only point of reference for Jack Aubrey is the Australian actor, Russell Crowe, shame on you.
There's a writer here tonight, my old friend and some time collaborator, Peter Straub. He's just published what may be the best book of his career. Lost Boy Lost Girl surely deserves your consideration for the NBA short list next year, if not the award itself. Have you read it? Have any of the judges read it?

There's another writer here tonight who writes under the name of Jack Ketchum and he has also written what may be the best book of his career, a long novella called The Crossings. Have you read it? Have any of the judges read it? And yet Jack Ketchum's first novel, Off Season published in 1980, set off a furor in my supposed field, that of horror, that was unequaled until the advent of Clive Barker. It is not too much to say that these two gentlemen remade the face of American popular fiction and yet very few people here will have an idea of who I'm talking about or have read the work.

This is not criticism, it's just me pointing out a blind spot in the winnowing process and in the very act of reading the fiction of one's own culture. Honoring me is a step in a different direction, a fruitful one, I think. I'm asking you, almost begging you, not to go back to the old way of doing things. There's a great deal of good stuff out there and not all of it is being done by writers whose work is regularly reviewed in the Sunday New York Times Book Review. I believe the time comes when you must be inclusive rather than exclusive.
That said, I accept this award on behalf of such disparate writers as Elmore Leonard, Peter Straub, Nora Lofts, Jack Ketchum, whose real name is Dallas Mayr, Jodi Picoult, Greg Iles, John Grisham, Dennis Lehane, Michael Connolly, Pete Hamill and a dozen more. I hope that the National Book Award judges, past, present and future, will read these writers and that the books will open their eyes to a whole new realm of American literature. You don't have to vote for them, just read them.

Okay, thanks for bearing with me. This is the last page? This is it. Parting is such sweet sorrow. My message is simple enough. We can build bridges between the popular and the literary if we keep our minds and hearts open. With my wife's help, I have tried to do that. Now I'm going to turn the actual medal over to her because she will make sure in all the excitement that it doesn't get lost.

In closing, I want to say that I hope you all find something good to read tonight or tomorrow. I want to salute all the nominees in the four categories that are up for consideration and I do, I hope you'll find something to read that will fill you up as this evening as filled me up. Thank you. "

segunda-feira, janeiro 05, 2004

Façamos umas continhas:

O Prof. Marcelo revela em várias publicações que lê, em média, 60 livros por mês.
Vamos então lá fazer algumas contas:

Tendo em conta uma média de 200 páginas por livro, já que uns serão mais pequenos, mas outros com certeza maiores, chegamos a esta cifra.

60/30= 2 - portanto, em média 2 livros por dia.

Se cada livro tiver 200 páginas, e cada página levar 1 minuto a ser lida, dá cerca de 3,33333 ( dízima infinita não periódica), horas para cada livro, ou seja, como são dois diariamente, são cerca de seis horas diárias para leitura, isto pela média, porque alguns dos livros são calhamaços complicados de digerir assim á má fila.

Tendo em conta a revista televisiva da semana que exige trabalho de investigação, as aulas e exames de mestrado, as aulas de faculdade, e o trabalho como jurisconsulto em variadas matérias, que vão do Direito Constitucional ao Administrativo e Financeiro, pergunto-me uma coisa.

Como é que o homem consegue para além disto ler 6 horas por dia, e estar a par de tudo?

Confesso-me intrigado.

Aceitam-se sugestões e comentários que me elucidem este mistério.

Agradecido.

P.S. - A Biblioteca de Pacheco Pereira, ao que parece, tem 25.000 volumes.
Para os ler todos, a dois por dia também,seriam necessários 34 anos de 6 horas de leitura diária ininterrupta.
Chiça, sou uma besta inculta ainda maior do que pensava...