Antecipando as respostas inflamadas do infeliz liberal que por algum acaso cá vier parar, expresso apenas algumas angustias quanto o tema em epígrafe.
A meritocracia cresce, e a passos largos. O exponencial crescimento do acesso aos cursos superiores, a criação e vinda de teorias de eficiência que pouco se afastam de uma escravatura a soldo, a competição desde idades demasiado tenras para entender que o outro nem sempre tem de ser nosso concorrente, tudo são elementos de uma atitude que se pode comparar aos hábitos de um hamster. Correr rápido, ter a ilusão de ir a qualquer lado e morrer com a noção de brevidade iluminada nos ultimos pensamentos.
Não tenho dúvidas de que a ambição de crescer e progredir enquanto ser humano, produtivo e cultural é valiosa e em certa medida, inestimável. Mas não é isso que se pede. Pede-se o "overachievment", o corredor de maratona que tem de atravessar as sucessivas metas nem que tenha de o fazer num cambaleio agonizante. Pede-se aquela palavra odiosa que mascara o abuso de muitas exigências - "a (absoluta) disponibilidade.
Em face a este statuos quo, tenho várias perguntas:
- Alguns dos argumentos aventados prendem-se com o facto de se querer ganhar dinheiro para ter coisas, ou para providenciar à pessoas amadas uma vida melhor. Será que tudo isso substitui a presença da pessoa, o seu contributo, a sua carne e espírito junto dos que dele gostam? Será que vale a pena ver a alegre cifra do extracto multibanco, que permite a casa de multiplos quartos constantemente vazia, o carro dos anúncios selectos para ir e voltar do trabalho e quase nada mais, a roupa da moda para as reuniões e viagens,os restaurantes finos para jantar quase exclusivamente com clientes?
- Outra das razões apresentadas prende-se com o bem estar da prole. E aqui sou insuspeito para falar,jaque a paternidade não me fascina por aí além (embora espere que isso mude, a sério!). Será que a conta bancária, que paga os colégios, as roupas da Sacoor e quejandos, os brinquedos caros e anestesiantes, substituem a presença, a intervenção dos progenitores, o seu papel educador e emocional? Será que as desculpas para os horários impossíveis, entram na percepção de um petiz que não faz ideia porque raios é que o pai/mãe passa dias sem o ver? É engraçado como os liberais aqui baixam sempre a bola. Não tem resposta para esta situação, porque lidam com uma incompreeensão que é genuína e se está a cagar para estatísticas. A incompreensão de quem só deseja a contrapartida do afecto que lhes é entregue.
- Porque razão é que gente casada com a carreira tem famílias? Sinceramente, para quê? É pelo estatuto? É porque ficabem perante o conselho de administração? É que na minha óptica, quem tem objectivos desses, perfeitamente legítimos, não tem espaço, nem desejo de ter família, amigos ou a chamada vida pessoal. Mas no entanto, tenta ter tudo, mesmo sabendo por onde é que a corrente quebrará. É igualmente legítimo ter esse desejo, até porque me custa a crer que, ( excepção de talvez Jardim Gonçalves e quejandos) essas pessoas não acusem o vazio no seu dia a dia, mas até que ponto será justo sujeitar os entes queridos a esse malabarismo do tempo?
- Embora não seja novidade para ninguém, a verdade é que o dinheiro acaba por ser a resposta. Não há tempo para ver um filme enroscado no sofá, uma noite de Inverno e com um alguidar de pipocas á frente, mas de quando em vez lá dá para ir ao restaurante onde os empregados até sacodem a gravilha das solas recortadas dos sapatos e fazem uma limpeza a seco ao casaco da senhora enquanto ela janta. Não se lê um livro, ou se procura uma musica, mas porra, quem é que tem tempo e cabeça para ler essas merdas complicadas quando toda a energia mental foi simplesmente espremida como um limão inchado, precisamente para ter este ecran de plasma de 1,5m, onde curiosamente, nunca se vê filme algum porque nao há tempo.
- Será que alguêm vê mesmo um valor intrinseco em ser definido pelo seu trabalho?Não ter espaço para ser humano, para ser preguiçoso, sexual, curioso, hedonista, ou partede uma família, seja ela de sangue ou amizade?
- Já nem vou falar no sexo. Porque se eles não comerem as secretárias no 234ª serão do ano, ou elas não derem uma volta com o diletante que por acaso tem tempo e dinheiro para fazer desportos radicais na Gronelandia ou no deserto de Gobi, o cansaço é sempre muito, e "há sempre coisas mais importantes em que pensar".
- A verdade é que dita família nuclear está em declínio, e quem mais torce para que ela viva, é quem menos condições dá para que isso seja possível. São aqueles a quem repugna os direitos laborais, o direito enquanto ser cultural e mesmo desportivo. A contradicção essencial é por demais óbvia. São os que compram as famílias com o tal "bem estar".
- Os sinais de tristeza e perturbação social são alarmantes. A depressão, a obesidade e as demais doenças relacionadas com o stress estão a arrefecer e estilhaçar todas as chamads estruturas gregárias modernas. A obsessão do"conseguir para mostrar"está a ultrapassar em larga escala"o criar para ser". As pessoas crescem num impulso de ambição competitiva selvagem, onde a ambição que se instila não é ser melhor ou mais sustentado, mas conseguir um espaço de poder onde gravitem aqueles que potencialmente criticam.
A meritocracia é uma realidade, e cresce cada vez mais. As pessoas cada vez menos desculpam um distanciamento perante um escalão de elasticidade economia/social. A humildade é confundida e acusada de preguiça, e o estatuto consegue-se pelo betão, a chapa e os circuitos integrados.
E a minha pergunta mantem-se a mesma.
Porque tentam algumas dessas pessoas ter uma família? Um(a) namorado(a)? Ou alguns amigos? Ao contrário do que dizia Ovídio, nem sempre nos mantemos vivos, ainda que não estejamos presentes.
Digo isto em tom de tristeza, e não de acusação. Em tom de expectativa, de um oxalá, porque a esta altura, é tudo quanto me(nos) parece restar.


