
Deixem-me dizer-vos uma ou duas coisas acerca da minha família nuclear.
Acerca do meu pai e mãe.
Em meio a tanta conturbação relacinal que se testemunha, os meus pais criaram uma referência esperançosa. Mostraram como se aldraba o tempo, com truques e segredos que só a eles pertencem, e reinventam na sua simplicidade uma progressão de tempo quando a vida necessariamente entra em velocidade de cruzeiro.
A discordância apenas redundou em liberdade. Liberdade de pensamente nunca ausente de disciplina. Disciplina assente na idolatria do respeito e consideração pelo próximo.
Os meus pais estão juntos há 37 anos, e mostram com a graciosidade de quem teve uma sorte incontestável e gloriosa, que por vezes o impensável pode acontecer. Que duas pessoas existem melhorando apenas quem e o que está á sua volta, e em consequência disso nunca granjearam a aprovação ou o poder de outro tipo de conquistas.
Aos meus pais que me salvaram a vida em vários momentos de minutos feitos, e que ao fazê-lo mostraram que certas coisas não se aprendem. Os meus pais não se tornaram no que para mim foram e são. Eles existem como tal desde sempre. E falar de orgulho é fazer-lhe a parca justiça de quem os admira com mil perguntas a mais em cada mão, e tanta mais ignorância relativa á forma de (saber)viver.
Não agradeço vezes suficientes, porque não o sei fazer, e eles não merecem tão pouca justiça feita. Mas crio em mim a referência que me dão desde sempre, como uma espécie de lógica emocional da simplicidade dos afectos. Como aquilo que fazemos, porque gostamos, passa por uma medida de respeito até na discordância. No verdadeiro crescimento.
Por isso deixem-me dizer uma ou duas coisas acerca dos meus pais.
Quem me dera conseguir dizer-lhes na medida em que lhes fizesse justiça.
Quem me dera saber viver com metade da mestria que lhes sai natural, sendo quem são, e criando-me a esperança de que certas coisas são possíveis.
Não é essa a tarefa de qualquer pai?
Demonstrar que o que a vida poderia eventualmente ser?
Que o impo´ssível até acontece, de quando em vez?