ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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quinta-feira, junho 30, 2005

Nunca é demais dar a mão á palmatória quando se está errado. Bem sei que algumas pessoas têm alergia a dar o braço a torcer, e há até quem julgue "encantador" essa característica. Como se teimosia e convicção fossem uma e a mesma coisa. Para dar um exemplo, eu até sou um tipo mais chegado à esquerda ( às pessoas, portanto), mas não posso de forma nenhuma pactuar com elogios feitos a Estaline ou a sugestão de que a Coreia do Norte é uma democracia. São aspectos da história e realidade social que não estão sujeitos a qualquer espécie de interpretação criativa que não revele facciosismo ou burrice disfarçada de ideologia.
Por isso sei que, no curso dos últimos tempos, tenho falhado com algumas pessoas. Pessoas que de alguma forma o tempo foi deixando para trás. E quando não era o tempo, era uma etapa a espaços aparentemente instransponível que me tolhia os movimentos.
Mas ao contrário do que se julga, estamos sempre a tempo. Bem sei que as pessoas acabam por aceitar o desisteresse, o sofrido e infligido como um facto da vida social e suas condicionantes. Para mim tem uma designação diferente - preguiça e os perigos do pragmatismo.
E tendo em conta que tenho cidadãos recém - chegados ao planeta para ver, conversas a manter e reatar, decisões a tomar, pessoas a conhecer, rostos a rever, oportunidades a criar e fôlego a recuperar, deixo no ar uma ideia orgulhosamente agnóstica. A admissão do erro que a passagem do tempo criou.
Em ultima análise, tudo depende de cada um de nós.
A aleatoriedade até nos pode dar uma mão de quando em vez, mas para quem não tem nada de transcendental a cuidar de si, pelo menos que reconheça, resta a percepção clara perante os jogos de força que nos trazem as opções.
À semelhança de tantas pessoas, não faço ideia do que por aí vem, mas farei com que dependa ao máximo do meu esforço e intervenção, da minha identificação enquanto pessoa com valores, conceitos e ideias.
A sorte se quiser que apareça.
Mas não se pode depender dela.


Daqui a pouco, o post pré-férias.
Ainda a propósito daquilo que as pessoas podem querer noutra:

A teoria do culto da bela e monstro, na personificação do homem elefante como possível amante, quero eu crer que se trata apenas de uma hipérbole para provar um ponto de vista. Porque a não ser, então estamos na presença de um fenómeno perante o qual eu faço uma vénia em reverência. A questão é que existe esta espécie de alergia á identidade física como sendo parte da constituição da pessoa total, e por conseguinte, como elemento de atracção ou fundamento para o desenvolvimento de paixões ou mesmo amor.
Não, não vou cavalgar a onda do politicamente correcto, e sobretudo, tendo em conta que no mundo de hoje a exigência feminina cresceu brutalmente ( e em meu ver bem - a barriga e o ar desconchavado já eram, e elas sabem-no bem), a ideia de que qualquer espécie de identificação física é necessária parece-me irrefutável.
Se alguém consegue efectivamente sentir alguma coisa por alguém que não lhe transmite qualquer sensação de atracção física, então dou os meus parabéns, mas não vou aceitar a estigmatização primária ( a da cabeça de baixo é de facto infeliz) aplicada a quem exige um elemento de beleza física que lhe seja subjectivamente agradável.
A mulher que mais amei até hoje provavelmente não era nenhuma brasa, mas eu achava que sim, que o era. Tinha uma silhueta que me tirava do sério, o sorriso era fantástico, havia harmonia no corpo, no cabelo,em toda a pessoa física. Para mim era lindíssima, e talvez para a pessoa ao lado não o fosse. Mas que existiam elementos objectivos dessa beleza? Pois claro. O corpo era firme, a silhueta elegante. Tudo o resto podia ser magia levada a cabo pela forma como ela me consigra fazer olhar para ela, à custa da pessoa que era, da brilhantez do seu pensamento, da sua sensualidade e da forma como usava o sarcasmo. Mas estava lá.

A situação é muito clara.
Nos ultimos anos as companhias de cosméticos e cuidados pessoais viram as suas quotas de mercado subir tremendamente, porque os homens entraram no mercado. As mulheres começaram a exigir a barriga lisa, o perfume, a pele em condições, e mais coisas.
Será isto mau?
Será mau exigir isso, como exigir sentido de humor, inteligência, humanidade e sensualidade intelectual? Ou tudo e parte do conjunto que se aprende a gostar, amar ou simplesmente ao que atrai?
E sinceramente, porque será que quando se fala em comer por comer, o ideal sensual tem de lá estar, mas isso pode estar arredado da pessoa que eventualmente se ame? Não será isto uma contradicção em termos? Mas eu quero que uma desconhecida me dê mais tesão abstracto do que a pessoa que eu amo ou possa vir a amar?
Indo buscar o brocardo cliché de todos os tempos, a mens sana in corpore sano é afinal de contas uma noção de completo na pessoa. Se essa noção de completo passa por barrigas e uma total ausência de elemento físico, então o seu a cada um e todos felizes. Mas estigmatizar as pessoas que procuram algum elemento físico ( mínimo para si!) como sendo alimárias primitivas que só pensam com as feromonas é um preconceito próprio do feminismo na sua pior faceta, ou seja, uma substituição em troca de género com o machismo, numa espécie de lógica paternalista e um complexo de superioridade indefensável.
Homens e mulheres são e deve ser sempre iguais nos seus direitos objectivos e na salvaguarda de tudo o que diga direito à protecção e desenvolvimento da pessoa humana - trabalho, direitos de cidadania, progresso, acesso à informação e riqueza, etc, etc, etc - e nao propalar-se uma qualquer superioridade que não existe. São diferentes, e felizmente, propensos à complementaridade, embora se insista numa espécie de competição ao velho estilo do bolinha e luluzinha. Aproveitar os contributos das características próprias dos géneros só nos pode enriquecer. Cavar trincheiras só fará o contrário.
Sinceramente, acho que o elemento físico (mínimo)é imprescindível, e que qualificar as pessoas que o exigem ( porque também têm para dar ou esforçam-se nesse sentido) como sendo inferiores e menos elucidadas relativamente ao que a natureza human tem de melhor, é preconceito, e como tal, sem justificação. Para informação pertinente, uma mulher que seja somente corpo e zero de alma ou inteligência nem sequer serve para "comer", usando o léxico já previamente referido. Portanto, o que interessa é a complementaridade - corpo e alma numa harmonia mínima que apaixone - e como tal subjectiva. As mulheres não precisam de mim para nada, assim como eu não preciso delas para nada. Mas a diferença é que as quero porque gosto delas, porque as minhas melhores amigas são mulheres e porque me fascinam o contributo que trazem à minha vida.
Espero ter-me explicado convenientemente. Exijo aquilo que sei que me afecta, impressiona e emociona. Porque somos todos corpo e alma, e negar isso, é cortar a pessoa ao meio. Mas o seu a cada um.

Para toda a discussão e polémica, clicar aqui

quarta-feira, junho 29, 2005

Quem tudo guarda para elogios fúnebres tem um de dois problemas:

- Dor mal resolvida

ou

- Real ou intencional ignorância acerca da pessoa de quem supostamente gostam.
As pessoas com quem falo estão assustadas pela onda de crise que parece atravessar o chamado "relacionamento contemporâneo".
Os relacionamentos caem que nem tordos, as pessoas encontram outras chamadas fontes de motivação ( mas depois sofrem que nem umas bestas no silêncio), e tudo gera um estado de descontentamento que leva a lançar apelos ao ar em busca de uma espécie de paradigma.
Excelente. Sou a favor da exigência desde que fundamentada por argumentos próprios.
No entanto, o que escapa a muita gente é que a simplicidade dos processos é a estrada mais directa para a salvação de qualquer forma de relacionamento. Esquece-se que a lógica dos pequenos gestos não serve apenas para enfardar as páginas de livros idiotas de auto-ajuda. Os pequenos gestos são a intenção emocional tornada vida. É o afago da consideração pela outra pessoa. É a demonstração da sua importância. É o reiterar intenso do fundamento de qualquer escolha, seja para amigas, namoradas ou qualquer qualificação intermédia ( family included pois claro porque o sangue não garante proximidade ou consideração).
Vá. Comprem uma prenda pequena. Façam uma maluquice. Salvem mesmo o que está sólido. Nunca é demasiado tarde ou cedo para cuidarmos do que é nosso. Especialmente se merece.
Tenham ( muito pouco ) juízo.
Ainda e sempre a propósito da contenda entre a importância da dimensão física e intelectual como factores de movimentação do mecanismo de atracção e enamoramento entre as pessoas, ler a magnífica polémica entre os comentadores deste post.

terça-feira, junho 28, 2005

No entanto, vícios são vícios... (clicar na frase)
Decisões

"Walking side by side with death
The devil mocks their every step
The snow drives back the foot that's slow
The dogs of doom are howling more
They carry news that must get through
To build a dream for me and you
They choose the path that no one goes
They hold no quarter, they ask no quarter "

No Quarter - Led Zeppelin
Ignora o fumo... e sorri...


A uma Pessoa cuja coragem e boa fé perante outros a faz merecedora de tudo.

Feliz Aniversário!

segunda-feira, junho 27, 2005

O furto de certas formas de inocência, não está necessariamente preso aos dias de adolescencia mal preparada.Assim como a auto-confiança vem de uma crença própria, nascida muitas vezes no seio de dores importantes e complicadas, a inocência não é produto de ausência de conhecimento.
É apenas algo frágil, mas extremamente maleável. É como um molusco preso por uma membrana suave a uma rocha milenar. E fica ali, muitas vezes ao sabor do embate de ondas infelizes e rancorosas. Segura-se, improvável, quase eternizada, como uma canção doce. Até que um dia se solta. Uma onda maior que as outras, nunca vista naquelas águas, faz com que desista e se solte, deslizando resignada para dentro do turbilhão de água revolta.
É uma espécie de fábula da renúncia. É a lambidela áspera do corte na pele, uma mão impossivelmente persistente que larga a beira do precipicio. E no entanto a água embala-a, afogada, mas estranhamente grávida. Cheia das promessas de renovação que só nova rocha, e nova onda, podem fixar. Até que a mão flexível consiga novo poiso. Mas de tão raro que se torna, raramente se avista. O mar dificilmente produz duas ondas iguais.
O sono da razão produz monstros... era o Goya, que dizia isto, não era?
Permito-me uma pequena adaptação.
Os monstros são amamentados pela insónia da recordação.
Em resposta ao post certeiro da Miss C. , eis a réplica:

O que um tipo provavelmente procura numa mulher:

-Heterosexual,
-Escalão Etário - 22-40 ( desde que a idade mental suficiente esteja lá, bem como a necessária e mínima silhueta - ( vou ser vilipendiado por esta de certeza)
-Solteira, víuva ou divorciada
-Com noção do cuidado de si mesma, corporal e intelectualmente. Sim, tem de ser bonita q.b, sorry... mas no q.b. cabe muita coisa.
-Independente. Mas não autoritária.
-Que consiga viver sem ter de assistir a toda a porra de reality shows vomitantes que pejam a televisão.
-Capaz de manter uma conversa que não meta, TPM, decoração, crianças e actualidade social.
-Que goste de ir ao pavilhão ver o Basquet - ( ok, esta é minha e só minha)
-Romântica tresloucada, ou seja, quase todos os locais são adequados para dar asas a todos os tipos de imaginação.

-Que alinhe.
- Que seja fiel, mas consciente que ela, assim como toda a gente, tem olhos na cara.
-Selvagem QB - encostados á parede, capots de automóvel, cabelos bem seguros pela mão num tufo, imaginação acrobática, léxico criativo, etc etc, etc, etc...
-Meiga.

-Que alinhe
-Bem humorada.
-Voluntariosa.
-Criativa - Capaz de fazer alguma coisa, de escrever um texto ou fazer uma colagem de pedras, se chegar á conclusão de que a pessoa em causa a faz querer criar.
-Melómana, com gosto por literatura e cinema de várias géneros.
-Capaz de saber lidar e compreender alguma da nossa incapacidade de lidar com o horror existencial de forma sensível.
-Que alinhe
-Que goste de jolas fresquinhas, pratos de caracóis e dias inteiros na praia ( concordo)
-Que não mostre a soberba que a sua suposta emancipação do papel social lhe confere, quando nunca ninguém colocou isso em causa - ressabiamento e feminismo hard core não obrigado..
-Que goste de um belo Tinto e de um belo repasto, mas não peçam café com adoçante com a mania de que isso pode substituir a transpiração no ginásio ou outras actividades análogas.
-Que se preocupe.

-Que alinhe.
-Que não ache que a certa altura já não vale a pena fazer mais nada - o hábito e dar as coisas por garantidas são o cancro de qualquer relacionamento de qualquer espécie. A bandalheira é absolutamente dispensável.
-Que não vá para a cama com três pijamas, um barrete e pantufinhas, mesmo que lá estejam dez edredons, e depois só vista aquela lingerie de morrer quando vai trabalhar.
-Que seja "amiga, companheira, palhaça desta vida, com sentido de humor e sarcasmo q.b.",
-Que deixe espaço nas prateleiras do WC.

-Apaixonada por alguma coisa, seja colecções de calendários, um autor, um músico, o star trek, um realizador, vários realizadores - qualquer coisa que indique que não vive a vida por viver, mas que vive de forma vibrante aquilo que justifica cá andarmos.
- Que não complique quando não há razão alguma.
- Que discuta até rebentar uma corda vocal quando existir um real motivo.
- Que não seja completamente avessa ao conceito de racionalidade quando se trata de uma cara metade.

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...And so on...
A um semana de ir de férias.
A dois dias de tomar decisões muito difíceis.
Same old, same old....

sexta-feira, junho 24, 2005

Aos agnósticos resta-lhes a si mesmos.
Resta a expectativa de que a crença básica nas pessoas os impeça de ir para junto de um qualquer deus, se este existir.

Não fui informado dessa cláusula.
Quando se consegue gerir a rejeição, é porque a alternativa não era especialmente importante.

Quando se consegue compreender, é porque não existia sequer alternativa.

quinta-feira, junho 23, 2005

Escrever uma carta é um pouco como reorganizar o inventário de alma.
Damos sempre com algo com o qual não contávamos, e esperamos que ainda esteja dentro do prazo de validade...


Hoje vou ao IGAC registar um trabalho que começou perto de Fevereiro e que foi ganhando volume. Não sei se é bom, se tem a tal qualidade que os literatos e a inteligência cultural nacional exige como pressuposto mínimo.
Mas acarinho-o pela forma como brotou, e pela honestidade que me custou horrores ao deixá-lo emergir. Como dizia o meu homónimo, cada livro é um filho. Mesmo que o filho abstractamente não preste.
É um projecto pequeno, poesia feita pulsação com uma veia aberta, jorrando por toda a parte.
Provavelmente não dará em nada, mas a julgar por alguns feedbacks, porque não arriscar?
Talvez até o Gehenna chegue ao fim...
Lá estou eu e o optimismo idiota.

Bom dia a todos.

quarta-feira, junho 22, 2005





Eu, superficial do hedonismo de silhueta me confesso(?)
A propósito das discussões já tidas aqui, aqui e aqui acerca do tema, tenho de fazer um esclarecimento, antes de deixar transparecer uma ideia que não corresponda à realidade.
Afinal de contas, qual é o papel na expressão física das pessoas naquilo que são os mecanismos de atracção e consequente afeição gerada? Até que ponto o nosso corpo representa um papel fundamental na dinâmica relacional das pessoas, desde o ponto anterior ao conhecimento até á constância de um relacionamento, seja lá ele de que espécie for - um dia, duas horas, uma semana, uma vida.
E esperando a previsível zurzidela, vou desde já estabelecer uma ponto fundamental. A harmonia mínima é fundamental. Sim, eu sei, o que raios vem a ser a harmonia minima, e a beleza está nos olhos do observador, e tal, e coiso e o camandro.
Harmonia mínima. Um elemento de beleza corporal que permite a visualização da sensualidade como a entendo. A harmonia de que falava o Vinicius, aquela superfície que apetece tocar, aquele desnudar de uma pequena parcela que transforma a imaginação e a incrementa. O levantar da saia que mostra o mundo, nas palavras de Dave Matthews (*).
Talvez eu tenha um elemento de superficialidade que me leva a tomar determinados tipos de opções inconscientes, e me levem a sentir determinadas pulsões somente quando o tal elemento de harmonia está presente. Talvez eu até me envergonhe um pouco ao sentir que só experimento a atracção devida por mulheres que tragam consigo esse elemento minimo de harmonia, a tradução em silhueta de uma insinuação sensual que gera desejo.
Mas algumas coisas têm de ser esclarecidas.
Quando se fala em harmonia, falamos num computo geral. O que significa que a parcela mental, constituida por toda a sensualidade da atitude, da inteligência, do sarcasmo, da meiguice, da generosidade de capacidade criativa - é absolutamente fundamental! Imprescindível.
Mas não julgo obviamente que tudo opera por mecanismos substitutivos. Um corpo fabuloso não substitui a capacidade de colocar a piada genial no momento certo, assim como a maior das capacidades intelectuais e afectivas não geram o desejo através de uma total discordância com a necessidade de um um juizo estético mínimo. Desejo é forma e substância. Nem só uma coisa, nem somente outra. É o equilibrio. Pelo menos mínimo!
Porque como é evidente, não é perfeição que se pede. Não estamos a falar na dita beleza traduzida em construções à lá Top Model, por um lado, e a capacidade e elucubração e de um Umberto Eco ou uma Harper Lee.
Trata-se tão somente da possibilidade de reconhecer a beleza que nos cative nos dois universos que constituem a pessoa.
É a silhueta falante, uma pele que toca porque as duas dimensões, física e psíquica, já há muito que se fundiram, tornado impossível a dissociação.
Se isto faz de mim uma pessoa superficial, então não tenho outro remédio senão enfiar a carapuça e meter a viola no saco. Encontro-me algures perdido então entre a tradução física de um arquétipo minimo, e sua vivência feita de uma sensualidade inteligente, agressiva e generosa. Em termos mais soltos, mulher "boa" e inteligente q.b. - que me desculpem os mais sensíveis.
Sei que não é muito politicamente correcto, mas é a verdade, e qualquer melindre que isso possa comportar para alguém, contra mim reverte, porque até provavelmente sofro os efeitos da aplicação do meu próprio conceito.
No entanto, julgo que não é demais ser exigente se estivermos de acordo connosco. E essencialmente se acharmos que temos para dar aquilo que pedimos. É uma questão de coerência e mesmo generosidade perante o outro. Queremos dar-lhe o melhor, porque achamos que é precisamente isso que ele nos proporciona ao nivel dos juizos estético e emocional.
É nessa linha que também me insurjo contra a chamada "bandalheira" pós-relação. Aquela ideia que assenta numa espécie de imobilidade porque se cria a noção do "já está". O já está caçado/a, preso/a, assente.
Descura-se o corpo porque "é normal depois de casar". Deixam-se de ter pulsões criativas relativamente aquela pessoa porque "é normal que amaine numa relação". Deixa-se de inventar formas de gostar e surpreender porque " é normal que outros assuntos se sobreponham".
Claro. E depois é normal que as pessoas se separem, se desinteressem, se anulem.
E o corpo, a essência física, é apenas mais um elemento dessa panóplia, mas nunca, em circunstância alguma, se torna despicienda.
Pelo menos na minha forma de ver e sentir as coisas.
Espero ter esclarecido. :)
(*) "Hike up your skirt a little more
show the world to me
in this boy's dream "
Crash - 1996




Existem instantes, dias, momentos, visões que se tornam irrepetíveis. E obrigam-nos a pensar acerca de determinados fenómenos, e na nossa capacidade de viver com eles.
É de uma tal simplicidade o contorno das lições da natureza que por vezes me sinto pequeno perante a lógica irreprimível que nos apresenta. E acabará sempre por chocar com as chamadas relativizações de ideias, sensações e sentimentos perante os outros e toda a manifestação do mundo designado de "não humano".
Ontem por volta das dez e meia da noite, a praia do Guincho, registava um fenómeno. O vento estava ausente, a temperatura era abrasadora, e a água estava pelo menos a 21 ou 22 graus de temperatura. A lua cheia, estacionada no céu negro e limpo, emitindo uma onda de energia espiralada, desenhava um carreiro prateado do céu até á areia molhada, entrando pela água onde estávamos rendidos. O murmúrio das ondas parecia reverenciar a majestade da lua, e o cenário visual era de tal forma poderoso, belo e impressionante que as vozes ficaram caladas durante muito tempo. Era possível observar aquilo durante horas, em silêncio, desfrutando da companhia de todos na unidade com o tratamento demasiado favorável que a natureza ainda nos vai dando a espaços.
O sol havia morrido da morte habitual e reiterada, vermelho e idoso, ás 21.45. Por pouco quase que aldrabava a noite, roubando-lhe o seu justo espaço. O solstício tinha conhecido o seu fim, mas em toda a majestade simples que se lhe adivinhava. Aqueles instantes pareciam sonhos, e incrementavam algumas questões.
Não sei o que as pessoas esperam de mim. Não faço ideia do que e atingir um pináculo da chamada realização. Não faço ideia da quantidade de instantes que se pode perder ou dispensar no decorrer dos dias que temos, em detrimento dos "objectivos" ou das conquistas pragmáticas. Não faço ideia do que está certo ou errado na dinâmica relacional entre as pessoas, ou na valoração dos conceitos enquanto importantes e inamovíveis. Tenho algumas ideias do que parece constante, mas é tão difícil explicar aos outros o que é importante para nós. Aquilo que pode mudar ou manter a nossa perspectiva, aquilo em que fundamentamos toda a nossa capacidade de amar qualquer coisa ou qualquer pessoa, e que deveria ser a tradução da nossa linguagem feita pessoa. A nossa primeira identificação.
Não faço a mínima ideia do que é considerado adequado ou venerável neste período de vivência de um mundo triste, zangado, mas nem por isso desinspirado.
Só sei que a imagem de ontem, e a companhia daqueles que comigo estiveram, são momentos que levarei comigo até ao dia em que feneça. São fundamento da minha vida. Ficarão na minha cabeça, como imagens que relatarei incessantemente aos meus cada vez mais imaginários filhos ou netos. É felicidade profunda, cristalizada num momento que chegou a ser doloroso, e que define tudo aquilo que sou, ou gostaria de ser.
Tornou-se, afinal, num par de horas que justificou sem uma única palavra, um certo fundamento para que a vida não seja uma espécie de passagem rápida por funções que parecem pré-designadas.
Isto provavelmente não fará de mim "alguém". Não fará de mim e dos outros uma qualquer espécie de passageiros do comboio dos sucessos do mundo, e da veneração pragmática, seca e triste ao poder das ditas "realizações". Provavelmente não servirá para aqueles que exigem voos mais altos.
Mas neste solstício de Verão, a lua e o mar mostraram-me talvez o que é estar vivo. O valor que possa ter pelo valor que dou a certas coisas, ás sensações únicas e erroneamente reputadas de vazias.
O poder acaba. Mais cedo ou mais tarde. A metáfora do Rei na Montanha é demasiado viva.
A complexidade é um enunciado limitado. Nada mais.
Uma noite de vento quente e um banho de lua e mar de impossível beleza duram para sempre.
Como tudo aquilo que realmente importa...