ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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quarta-feira, agosto 31, 2005

Com cuidado, há que perceber que as nossa fragilidades, o núcleo daquilo que somos, não interessa a ninguém.
Há que entender que aquilo que nos torna humanos, que faz parte da nossa razão de pedir, de aceitar o contributo de qualquer afeição, é frágil e parte-se com facilidade. São mapas de tesouros já tão corroídos pelo tempo e maus tratos que, perante um manuseamento mais violento e descuidado, desintegram-se, deixando-nos a nós próprios hesitantes quanto à sua localização.
A verdadeira tristeza é afinal de contas a dificuldade de emparelhar a tolerância. De perceber que o desafio humano também está ao nível das suas fraquezas, dos seus desejos maiores que a terra, e que de alguma forma minam alguma da sua força ou coerência.
A verdadeira canseira é uma certa canção de fim, a ausência dos elementos explicativos no acervo de dor passada por uma boa causa ou uma crença firme.
Com algum cuidado, há que perceber que se temos de nos proteger de nós próprios perante quem tem algum tipo de chave, então o sentido primordial já voou pela janela. Nada é mais difícil que sentir a desadequação silenciosa do nosso material mais profundo e delicado, perante as exigências de força e exactidão de quem constantemente revê a nossa imagem perante si mesmo.
Sem pudores, há que admitir a profunda tristeza que nos leva a aceitar a predação do que supostamente é desejado como "conhecimento" profundo.
A génese das defesas é o desejo dos outros em vê-las actuar.
E com algum cuidado, podemos deixar que isso não nos destrua.
Mas não é fácil.
Completamente de Acordo

O casamento enquanto contrato cível sempre me pareceu algo absolutamente contrário ao principio do amor concretizado numa união de vida entre duas pessoas.
Uma aberração do positivismo jurídico aplicado a elementos da vida humana que deveriam estar isentos de qualquer regulamentação que não a da vontade emocional das pessoas.

terça-feira, agosto 30, 2005

"You touched my hand
Said, "Follow me
I'll be your eyes when you cannot see"
Now the only blindness that I'm gonna choose
Is ignorance to all your misuse"

Beth Orton

Dá-se sempre pouca atenção ao perigo inerente aos julgamentos, egoísmos e indiferenças.

Não era o Fitzgerald que dizia que:

"Whenever you feel like criticizing any one," he told me, "just remember that all the people in this world haven't had the advantages that you've had (...) Reserving judgments is a matter of infinite hope."

ou então outro senhor, mais contemporâneo e para muitos menos ilustre:

Threw you the obvious and you
flew with it on your back,
a name in your recollection,
Thrown down among a million same.
difficult not to feel a little bit disappointed
and passed over
when i've looked right through
to see you naked and oblivious
and you don't see me.

But i threw you the obvious
just to see if there's more behind
the eyes of a fallen angel,
the eyes of a tragedy.

Here i am expecting just a little bit
too much from the wounded.
But i see through it all and see you.
So i threw you the obvious
to see what occurs behind
the eyes of a fallen angel,
eyes of a tragedy.
Oh well.
Apparently nothing.
You don't see me.
You don't see me at all...

Maynard James Keenan - "3 Libras"
Ídolos apenas demasiado humanos, ou até que ponto os exaurimos?
Ela erradicou-me da sua lista de links.

Perfeitamente compreensível, dado o tom mais recente deste meu local.

Mas lá se vão as minhas hipóteses de publicar alguma coisa.
Fiquei apreensivo.
Eu devia saber.
Era muita fruta.

Lá se vão metade das minhas visitas.


(brincadeira, ok?)

Ontem compareci a um velório.
De uma pessoa que nem sequer conhecia, por solidariedade a pessoas de quem gosto muito.
A morte para um agnóstico é uma dualidade engraçada. É o velho abraço entre a curiosidade e o terror, numa dialéctica de argumentos internos acerca de qualquer das formas de transcendência.
Alguém luminoso falava-me acerca da férrea certeza que tinha de que a sua familiar estava bem agora. Não havia nada no seu discurso que indicasse qualquer forma de propaganda religiosa ou reforço de convicções perante descrentes ( leia-se eu), mas um semblante de paz e profunda convicção pela ideia de um pós-vida melhor. Nos olhos pairava uma tristeza suave, que lhe embelezava estranhamente os traços, mas que sobretudo fazia emergir uma imagem de força e convicção perante a inevitável lógica da esperança necessária que a talvez real e ecléctica crença traga ( ou devesse trazer, sei lá) às pessoas.
Não sei onde estará a senhora agora, se é que está em algum lado. Duvido porque não tenho alternativa, porque é algo tão intuitiva e automaticamente presente como a orientação sexual, por exemplo. (As mulheres são outro tipo de divindade idiossincrática, mas isso são males meus e por isso irrelevantes.)
Está lá é nada posso fazer quanto a isso.
Mas o que sei é que por vezes encontramos a manifestação de emoções e formas de estar na vida que desarmam pela sua honestidade e ausência de intuitos evangelizadores.
Alguém que se limita a "saber" da existência de um plano de existência diferente, e a encontrar uma transferência de conforto e felicidade simples para quem se dirigiu para lá.
Saí de lá transtornado, porque a morte(de outros) assim me deixa, mas com a noção de que em situações limite, o altruismo e afeição podem ser expressos por um simples desejo de felicidades.
E essa simplicidade poderia ser tão válida em vida, como em morte.
Resolveria uns quantos problemas, asseguro-vos.

segunda-feira, agosto 29, 2005


Na era do chamado investimento pessoal, das procuras de sustentabilidade para um suposto sentido para as respectivas vidas, ainda assim surgem, a espaços, os queixumes ( por um lado justificadíssimos) das ausências.
Ausências do essencial, do que deveria ser um automatismo da vida socialmente considerada. Aquela ausências que raramente são perceptíveis pela unidade constituída de pessoas, estratificadas pelos laços sanguíneos ou afectivos.
Talvez por isso
alguém se preocupe realmente, embora tema que esteja a falar para o boneco.
Porque é nos compromissos do calmo, do adiado, do projecto pragmático que se encerram as novas máximas divinas da vida moderna como a entendemos.
É curioso porque se virmos as coisas de uma perspectiva quase ontológica, estamos em competição connosco próprios, para ganhar algo a alguém que talvez nem sequer exista. Concretizando ainda mais, cria-se o delírio do Eldorado quotidiano, o tempo escorre como se dispersado em sementes débeis por cima de instantes. Só instantes. Vidas feitas de instantes, morte das continuidades. A pertença é encarada como um retorno necessário do IRS. Como se uma qualquer entidade estivesse obrigada a providenciá-lo em troca das agruras sentidas.
E no entanto está lá.
Estampado em todos os rostos como uma espécie de enfeite sazonal perfeitamente reconhecivel. Como esses enfeites, aparece apenas de quando em vez, mas nota-se como um grito estridente antes de um serviço de ténis.
Vemos as preocupações com a inércia dos pequenos rituais. Percebemos as procuras, a confusão e insegurança, e observamos como são devorados por um senso de auto-investimento. Porque tem de haver força, combatividade, agressão protectora. Não se perguntam os motivos. São apenas elementos de causa-efeito. Para que serve essa merda afinal?
Para que serve tentar explicar a ansiedade nas palavras, as dores latejantes em locais escuros e silenciosos, ou o frio de previsibilidades diárias perfeitamente escalonadas?
A Humanidade progrediu à custa de pessoas que se transcenderam todas um pouco.
Mas porra, o Balzac dava umas quecas, o Goethe era um tipo razoavelmente feliz e viveu a vida cheia de cores...

O insofismável...


"Taught by time, my heart has learned to glow for other's good, and melt at other's woe."

Homero
Porquês e Génese.


The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revalations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear.

Stephen King - Different Seasons, "The Body" - 1982
Hoje estou de baixa.
Feriram-me o descaramento para poder escrever...
Espero que não dure o dia todo.

sexta-feira, agosto 26, 2005

"Alistem-se, alistem-se, diziam eles..."


We were drinking like the Irish
But we were drinking scotch
Bartender turned on a movie
Everybody turned to watch
And every single eye was gleaming
As he reached the final scene
Well, at least mine did
Here's lookin' at you, kid

It's a mad mission
Under difficult conditions
not everybody makes it
To the loving cup
It's a mad mission
But I got the ambition
Mad, mad mission
sign me up


I think I've seen the look before,yes,
it's kind of non-commital
It says come hither, baby,
but then he's hard wood to whittleit
says it don't mean a thing,
but still, somebody does
He'd like you to join the club that likes to say
there's no such thing as love

and

It's a mad mission
Under difficult conditions
not everybody makes it
To the loving cup
It's a mad mission
But I got the ambition
Mad, mad mission
sign me up

Sometimes you find yourself
flying low at night
Flying blind and looking for
Any sign of light
You're cold and scared, and all alone
You'd do anything just to make it home

It's a mad mission
Under difficult conditions
not everybody makes it
To the loving cup
It's a mad mission
But I got the ambition
Mad, mad mission
sign me up
Sign me up

Patty Griffin
Em breve vou arrumar a minha biblioteca. Finalmente.
Livros e mais livros que estavam encaixotados há demasiado tempo, vão conhecer o seu local nas devidas prateleiras, para que lhes possa tocar, reler uma passagem, e encontrar uma memória.
Uma vida também se arruma desta forma...

quinta-feira, agosto 25, 2005

A pior piada do século:

Sabem o que diz um mau escritor, com óculos escuros e blusão de cabedal, ao cabo de mais um sucesso de vendas?

"I'll be a hack!"
Quando as idiossincrasias felizes estão de férias e os pragmatismos não, as primeiras tornam-se anseios pouco suaves e os segundos fazem-se quimioterapia para a solidão.
Que bom o fim de certa forma de silly season...
A incerteza é um desconforto prolongado e canibal.
Algo do Amor explica-se, pelo menos parcialmente.
Sem capacidade de real comunicação e cumplicidade, o que resta são resquícios químicos que toldam comportamentos, mas não se tornam objectivos de uma mente ávida de felicidade a espaços simples, mas real e genuína.
A total aleatoriedade soa-me a um jogo de sorte que coloca de parte o valor intrinseco das pessoas.
E isso incomoda-me.
Ontem alguém me falou da importância da bondade no acervo qualitativo das pessoas. Especialmente das pessoas que podemos vir a amar, ou as que já amamos.
Foi estranho ouvir a repercussão de uma ideia muito interna vinda da boca de alguém mais vivido, mais experiente, e com uma surpreendente visão de sereno anseio pelos outros.
Aliás, toda a conversa tida naquela mesa de ontem teve o condão de mostrar que certos esquecimentos dolorosos não são afinal generalizados.
Nem vox populi, felizmente...

quarta-feira, agosto 24, 2005

No filme "Whale Rider", vemos alguém que apesar da consciência de ser alvo de um amor alheio incondicional, não consegue erguer-se até ao patamar exigido.
E confunde-se o personagem porque se sabe susceptível dessa afeição, mas não encontra a certeza do merecimento em parte alguma, apesar de todos os esforços, apesar mesmo de cantos e a rendição das baleias.
Podemos transcender-nos, ou tentar, mas chegar ao que gostaríamos de ser perante um olhar que vê sempre mais á frente, pode ser terrivelmente complicado.
Ama-se, exige-se.
Mas qualquer excesso conceptual é perigoso e eventualmente doloroso.
Tornam-se marcas de tanto querer, julgo eu.
Meus amigos, dêem um pulo aqui

Porque há quem tente chegar aos outros de formas que parecem conhecidas, mas construidas de forma singular.