ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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sexta-feira, novembro 04, 2005

No outro dia discutia com alguém, quais os mecanismos para que uma relação de compromisso e longo curso pudesse funcionar.
Esta é talvez a pergunta mais recorrente no chamado mundo urbano/moderno, e aquela que menos pessoas conseguem responder. Talvez por isso, na faixa etária onde me situo, só me depare com duas situações.
- Pessoas comprometidas, divididas entre aquelas com vida infernizada e os que conseguem ser decentemente felizes ( filhos da mãe sonegadores de fórmulas bem sucedidas).
- Pessoal que se separou e se vê plantado na chamada normalidade quotidiana.
O verdadeiro(a) solteiro(a) não existe aos trinta anos. Bem, com algumas raras excepções, a verdade é que as pessoas raramente acordam aos trinta anos com a noção de que ainda não tentaram um projecto. A mais das vezes, e agora tendo em conta o segundo grupo, sabem que tentaram e reiteram pensamentos relativos à merda que lhes terá acontecido.
Lambem-se feridas, conjectura-se acerca das marcas que ficam, e a forma como estas são realmente muito mais complicadas de ultrapassar do que se julga.
O solteiro dos trinta anos simplesmente conjuga uma espécie de crença suave com um pragmatismo reactivo que diz algo muito simples - "Eu sei muito bem o que não quero" - por isso, os ameaços de chatice são corridos a uma velocidade estonteante.
(Assim sendo, o solteiro de 30 anos sabe o que não quer, e como tal perde a paciência para amantes de Nicholas Sparks, Paulo Coelho, Celine Dion, gente que escreve em linguagem sms, histerias, fundamentalismos, pressas, burrices emocionais por precipitação, moralismos, anarquias emocionais, etc, etc, etc)
Esse pragmatismo é algo de insuportavelmente chato quando confrontado com várias premissas, como as comparências desacompanhadas a jantares. Ou as conclusões alheias e opinativas de relacionamentos infelizes e conflituosos acerca de formas atalhadas de estar com alguém, como se existisse uma moralidade subjacente ao facto de se partilhar algo especial com outra pessoa.
A verdade é que os gatos escaldados simplesmente aceitam uma latitude maior de formas de estar, e vivem como podem, da forma que as suas defesas lhes permitem. Para alguns é incompleto, mas para quem nunca experimentou uma perda relacional séria, ou o fim de um projecto de vida, a visão é necessariamente toldada. Ou entao é apenas uma questão de opinião emocional ou sensorial, e como tal, não sujeita a postulados ou axiomas. Há muitas formas de se conseguir estar com alguém, precisamente porque o baixar da guarda se torna cada vez mais dífícil. Porque as coisas realmente doem, e a vulnerabilidade é apenas um pedacito de pele que não suporta muitos esfolamentos consecutivos, sob pena de se descaracterizar ou destruir.
O solteiro pode ser teimoso, mas raramente é convicto.
É, no máximo, humano, e vive como pode com os fantasmas que o assolam, mas plenamente consciente de que não consegue nem quer afastar-se do mundo das pessoas, que ainda é a motivação maior que possui.
Claro que muitos transformam isso numa jornada de líbido ou de descoberta desenfreada. Alguns entram em stress completo porque concluem que as barreiras se mantêm firmes, apesar de todos os esforços. Há outros que se enamoram realmente, e simplesmente se deixam ir porque como qualquer pessoa calçada com borracha lisa em gelo polido, só podem mesmo é escorregar.
A noção é esta - as relações para funcionarem, dependem de coisas tão singelas como sentido de humor, esforço, e capacidade de ser o mais extraordinário possível. E isso deve ser ponderado através mesmo da actividade profissional ou o desejo de criar um rancho de pirralhos. Porque, como me disse a pessoa com quem conversei sobre o assunto, tudo menos que o extraordinário entre duas pessoas, é inutil e uma perda de tempo.
E como ele tem razão.
O solteiro escaldado sabe disto.
Perfeitamente.
Ah, já para não dizer que são devoradoras de todos os livros do Paulo Coelho...
Se conheço mais alguma mulher cujo livro preferido é "As Palavras que Nunca te Direi", e o filme favorito " O Diário da Nossa Paixão", vou cortar os pulsos com um X-Acto, ou simplesmente premir o gatilho...
As pessoas dizem que a vingança é um prato que se come frio, mas sobretudo que é um sentimento desprezível.
Algo que supostamente apodrece o espírito e deixa uma lógica de eterna falta de paz na expectativa de um ressarcimento que nunca é o esperado.
Não sei muito bem o que pensar disto.
Entre a vingança e a impunidade, venha o diabo e escolha. Qualquer uma das duas é perniciosa, mas depois recordo-me de Dantes e dos 40 anos no castelo de If. E sinceramente, payback might be a bitch, mas por vezes é absolutamente justo e bem aplicado.
E afinal de contas, Justa ira é boa ira. Ou não?

quarta-feira, novembro 02, 2005

Aproxima-se o fim do ano, as festividades.
Aproxima-se uma reflexão aturada sobre o tema, as urgências dos afectos, a dentada mais forte da solidão, os balanços, as medicações de alma, enfim...
Aproxima-se o genesis... ou o némesis...?
Em três passos de uma energia renovadora,
Está a morte em fuga,
E a tua visão, assim dominadora...
Embora eu ande necessariamente perdido entre a minha costela inatista e uma outra feita de empirismo, tendo a dar uma certa preponderância ao poder modelador das experiências tidas.
E isto porque quando chegamos a um certo ponto na nossa vida, não temos outra alternativa senão aceitar que as formas de viver podem alterar-se a pontos quase não admissíveis pela chamada "normalidade".
Formas talhadas e guiadas pelos contornos possíveis, que espantam e transmitem estranheza. Mas essa estranheza assenta numa percepção diferenciada. Naquilo que alguns viram, e outros não. Naquilo que alguns perderam, e outros apenas acham que podem imaginar o que será essa perda.
Entendo perfeitamente que para alguns, a falta de convencionalidade não faça sentido. Porque existem demasiadas coisas a proteger. Os pés normalmente não gostam de solos falsos, e as derrocadas, ainda que parcelares, podem ser desconfortáveis.
Eu sempre julguei que as defesas pessoais fossem produtos de uma normalidade de processos conscientes, de vontade expressa. Algo que provém da vontade própria, traduzida no abafar de uma qualquer promessa de fogo.
Mas estava enganado.
As defesas surgem como um espirro, como o estertor de um corpo a adormecer ou o reflexo vocal perante a dor. Não estavam lá. Mas depois estão. Aparecem. Solidificam-se. Borrifam-se nos nossos protestos e assentam arraiais, coriáceas como só as intransponibilidades o conseguem ser. O estilhaçar de qualquer coração é demasiado ensurdecedor, e repete-se como a zanga de trovoada num céu negro ainda de dia.
É em razão dessas defesas que duas coisas ocorrem.
Ou se dá início a um rápido e progressivo processo de seca, de engelhamentos de todas as formas relacionais, sob a égide da segurança neutra.
Ou vive-se como se pode. Como é possível. Sem desvirtuar quaisquer emoções, sentimentos ou formas de estar. Simplesmente se encontra uma maneira. Pode por vezes assemelhar-se a roer uma passagem por entre as paredes do labirinto, mas ao menos tem-se a consciência de que ele existe, e que lá andamos. Vive-se como se torna possível não ignorar os contributos de uma realidade que nos tendo ameaçado, mostra sempre a outra opção.
E cansados, damos connosco em ebulição partida, porque embora certos locais estejam perdidos sem mapas, outros são o que somos, e não há volta a dar.
Abraçamos o que sentimos, e viajamos.
Ainda que seja como podemos.
Sim, é um fantástico modo de vida...

Passem por

Está cada vez melhor.

segunda-feira, outubro 31, 2005

Muitas pessoas dizem que é difícil experimentar uma certa felicidade pelo bem estar de outros. Pelos seus triunfos, pelo facto de que entre as suas mãos está um abraço real que os salva, nem que seja pedaço a pedaço, pelo facto de que talvez até estejam melhores que nós e não se coibem de nos exibir esse sorriso por esse mesmo facto.
Não entendo o conceito da inveja enquanto elemento abstracto. Ficar roído porque alguém conseguiu genuína e justamente um triunfo. Porque venceu à sua custa, e é alguém mudado em virtude dessas mesmas vitórias.
Não entendo como pode algo dentro de alguém contorcer-se em virtude do sorriso de felicidade genuína, que até sabemos que não durará muito naquela intensidade. Como verificamos que a aura da pessoa transpira para outros, e alguém simplesmente puxa a nuvem para o auge da parada.
A inveja mesquinha é dos sentimentos mais execráveis que existe ao cimo da terra. Oscar Wilde à parte, faz parte do elemento mais repugnate do cinismo, que assenta na recordação da morte necessária do que se mascara de eterno. Com alguma sorte e meio mundo de trabalho, até pode ser.
Mas o invejoso fará tudo para minimizar cada feito, para se sobrepor como uma espécie de delator das más colheitas e escolhas do mundo, como se este lhe pertencesse numa sala de audiência.
A inveja é a pior forma de roubo que existe entre pessoas de guarda meio baixa. Mascarada de adulação, não faz dos invejados Othelos, mas planta demasiadas sementes de dúvida, e esvazia os instantes que justificam todos os outros que não são tão bons. Ou mesmo insuportáveis.
Um invejoso queixar-se-á de um ruído no banco de um carro de sonho comprado pelo amigo que o desejava desde miudo. Criticará a voz estridente na terceira gargalhada da maravilhosa mulher que o amigo traz para um jantar. Sublimará as pequenas derrotas, e ignorará os grandes triunfos.
O invejoso só suporta ser condescendente. Quando erroneamente pensa que se pode tornar o queixoso dos efeitos de uma suposta felicidade superior.
Não é difícil ficar feliz por outros.
De certa forma descansa-nos. Permite-nos atacar outros problemas com mais força, porque sabemos que a nossa energia gasta a aplacar aquela dor alheia, deixou de ser necessária.
Ficar feliz pelos outros, é calçar um pouco dos seus sapatos, e passar mais uns metros no meio do vridro farpado. Sem cortes, sem cautelas. Anestesiados por algo que se resolve, e que pode muito bem propagar-se.
Num vírus de justificação terrena.
Alheio ás putridas vacinas da inveja.
Sim, é uma importação, mas em termos de iconografia, das mais felizes.
Claro que sou suspeito pela forma como ligo a noite das bruxas a qualquer traço dos ambientes conceptuais do Tim Burton, mas ainda assim há algo na exploração do medo, da percepção de outras realidades que as torna próximas e atraentes à curiosidade.
Nascida do paganismo ( muito mais divertido que qualquer forma de monoteísmo) e muito radicada na cultura anglo-saxónica,
esta festa assenta na nossa capacidade de experimentar o gozo do medo, o respeito pelo canto escuro que necessariamente está vazio, mas que se mexe por vezes sem que possamos arriscar um segundo olhar sem estremecer.
Bem sei que para comércio e afins, é mais um esfregar de mãos, porque os putos adoram uma boa desculpa para personificar aquilo que alguns já são - monstros à solta.
Mas é igualmente uma festa de imaginação, um instante para procurar coisas que não estão lá, mas que por segundos é bom ter a dúvida.
Um afloramento do paganismo acolhido pela sociedade monoteísta de hoje, que a mim muito me apraz. :)
Fora a mercantilização que se faz de tudo isto, o conceito importado é giro.
Por mim, bem inspirador. Ou não fosse a noite de Hallowen ( ou Hallow Eve) um eterno retorno às obras do mestre. Vejam a curta metragem Vincent.
E a viagem começa.
A falta de imaginação é a praga comunicacional.
Emudece tudo o que até podia ser genuíno, mas sai em fórmula, e penetra somente por rendição...
Amanhã faz um ano que algo muito especial aconteceu.
Algo que de alguma forma reúne umas pitadas de impossível, só entendido por aqueles que o vivem, que o respiram, que o aceitam.
Alguns, porque não lhes foi dado a conhecer este prisma ainda, vivem como podem e sabem. No fundo, todos fazemos isso.
Mas o restauro e manutenção de uma certa sanidade e amor pelas coisas mais fundamentais, teve a génese num pequeno pormenor que fará um ano de idade amanhã.
Um pormenor de cores escuras perante um rio de fios mais claros.
Um pormenor mais tarde reencontrado. Concretizado.
A felicidade simples das coisas realmente preciosas que tão raramente cruzam o nosso caminho.
Na noite mais pagã do ano, eis-me a ponderar certas formas de providência.
Agnósticas claro...
Embora ainda algo cedo, e na esperança do restauro das nossas reservas, branco é a cor do Inverno....
14 Furacões este ano....


"Nature is just enough; but men and women must comprehend and accept her suggestions."

Antoinette Blackwell

sexta-feira, outubro 28, 2005

Recupera-se, mas nunca se esquece.
Nunca.
A cura nunca é confundida com esquecimento.
As dores não desaparecem. Simplesmente mudam de enquadramento.
E retornam nos passos das memórias do que não tinha sentido, para que algum dia passe a ter.
Entende-se, mas regista-se.
Aceita-se, mas fermenta-se.
Percebe-se, mas questiona-se.
Recupera-se, mas nunca se esquece.
Para mim, dos momentos do ano em cinema :)

"Mal: Ok, clearly some aptitude for this, but it ain't all buttons and charts, little albatross. You know what the first rule of flying is? Well, I suppose you do, since you already know what I'm about to say.

River: I do. But I like to hear you say it.

Mal: Love. You can learn all the math in the 'verse, but you take a boat into the air you don't love, she'll shake you off just as sure as the turning of worlds. Love keeps her in the air when she oughta fall down, tells you she's hurting 'fire she keens.
Makes her a home.

River: Storm's getting worse.

Mal: We'll pass through it soon enough. "

Joss Whedon - Serenity
Para aqueles que acham que fazem pouco, ainda que em cada instante tenham a preocupação da melhoria, queria deixar uma palavra.
Deixá-los mais descansados porque há quem nada faça. Porque há quem nada crie para outros, não importando aquilo que lhes é dado. Que há quem simplesmente ignore a capacidade de fazer o fantástico das coisas mais simples. Há quem ignore que a proximidade, ou qualquer espécie de instinto gregário e afectivo não vive de subentendidos.
Para os que julgam que os esforços são parcos, queria apenas certificar que uma palavra é importante, e uma lógica de presença assenta na simplicidade frontal das pequenas dádivas. Para os que olham para os esforços ofertados com o reflexo das mãos vazias, queria apenas que percebessem que aquilo que fazem se transforma numa das barreiras ao cinismo individualista e absoluto.
Para os que a cada dia não se importam de oferecer um gesto, tendo a noção de que são necessários, queria apenas dizer que cada dia é pelo menos parcialmente salvo, e feitas as pazes por meio segundo com os dentes da humanidade.
Creio sinceramente que é assim.
Obrigado.

quinta-feira, outubro 27, 2005

No jogo da sedução, Pigmaleão e Galateia serão sempre associados ao género com que foram inicialmente criados.
Infelizmente.
A iniciativa é um "turn on" tão grande...
Tempestade lá fora.
Procela cá dentro.
Não tenho explicações para as variações de humor, ou para o facto de tudo o que é emocional ser captado como raios soltos na atmosfera. São demasiados recortes notáveis em cada pedaço do real. Demasiados relevos, que o tacto não consegue ignorar, e sons novos feitos de sensibilidades antigas.
São os olhos daqueles que passam e sorriem de forma triste, afastando o seu cansaço como arautos dos dias normais, culpados e vitimas dos pequenos crimes entre amigos e amantes.
São os cães cabisbaixos, que cheiram o chão molhado em busca das novidades dos dias. Dos passeios que são os seus livros, dos aromas a mortes e vidas que fazem as narrativas do período consciente.
Os cinzentos por vezes descem. Feitos gás inócuo, passeiam-se como fantasmas que aos vivos pouco mais fazem que mostrar-se. E congratulo-me com aquele toque mais frio, aquele cheiro a água que já foi, e a renovação do mundo.
A cidade escurece e acende as suas velas. Recordo-me dos rostos e emparelho-os nas felicidades parcelares que me trazem. São demasiados os instantes para que os mereça todos, e no entanto aparecem-me. Pintados em organizada confusão. Quase que como inexplicavelmente gratos por serem meus.
E então é tudo demasiado.
A chuva cai e o céu pisca os olhos.
Afinal avançamos....

domingo, outubro 23, 2005

Tilling my own grave to keep me level
Jam another dragon down the hole
Digging to the rhythm and the echo of a solitary siren
One that pushes me along and leaves me so
Desperate and Ravenous
I'm so weak and powerless over you

Someone feed the monkey while I dig in search of China
White as Dracula as I approach the bottom

Desperate and Ravenous
I'm so weak and powerless over you

Pale angel go away
Come again some other day
The devil has my ear today
I'll never hear of what you say
Promised I would find a little solace
And some piece of mind
Whatever just as long as I don't feel so

Desperate and Ravenous
I'm so weak and powerless over you
Desperate and Ravenous
I'm so weak and powerless over you


Maynard James Keenan

sexta-feira, outubro 21, 2005

Surreal é a presença de uma lógica.
Normal é a falta dela.
Triste é a frequência da segunda, quando todos gostam da primeira.
A confiança entre as pessoas, e a reserva do seu espaço de intimidade e privacidade não está sujeito a relativismos. O espaço pessoal, aquilo que lhes diz respeito é inviolável, não importa a motivação que possa estar por trás de uma suposta devassa desse local reservado. Seja o telemóvel, o computador, a correspondência, nada está ao abrigo de qualquer cláusula interpretativa de largo espectro que permita ao prevaricador justificar a respectiva devassa de algo que pertence ao universo pessoal e restrito à pessoa em causa.
A confiança é feita do respeito pela dimensão pessoal do outro, e pela lógica de partilha concedida. O gozo da dádiva é encontrada nos elementos que a pessoa escolhe oferecer-nos, ou partilhar connosco. A devassa da privacidade é, como qualquer forma de violação ou acto sem consentimento, a obtenção de um falso e perverso resultado. Não se ganha nada senão a pior percepção relativa ao ganho de poder ou informação. Algo ganho no âmbito do pior tipo de traiçao possível. Aquele que assenta na confiança do outro em não ter de esconder ou resguardar o que é seu, o que é privado.
Bem sei que algumas pessoas justificam as violações de privacidade ou as negligências com uma especie de defesa de um bem maior. Mas esse é um falso argumento.
Não há nada mais execrável que a violação da privacidade. Do que a poluição do direito da pessoa em ter o seu espaço, a escolha do seu universo pessoal que, em certos elementos, é compreensivel e necessariamente intransmissível.
Não há canalhice pior que a invasão, que ir onde não há consentimento. A um espaço que não nos pertence de forma nenhuma.
Nos dias em que identifico as minhas pequenas quesílias com o mundo, dou por mim a olhar para os detalhes.
Para aquilo que escorre pela realidade fluida e se transforma nas idiossincrasias que retenho. Apercebo-me agora que vou retendo uma parcela de mundo, e dos seus habitantes, bastante maior do que pensava.
Talvez porque ache que o mundo é também um pouco mais meu, e assim, faço da minha presença uma lógica de pertença.
Nas cores escuras do presente, estão as premissas de um tempo para amadurecer os contributos. E dou comigo a agradecer em trejeitos e palavras internas os relevos dos caminhos trazidos pelas portas que me abrem.
Aprendo a sorrir no âmbito do que sofre da falta de treino ou hábito. Entreabro porque os pormenores se elevam sem estímulo forçoso.
E deixo-me incautamente tocar pelas coisas que são belas sem o saberem, porque sinceramente, há demasiado mundo a ver para que lhes possa resistir.
Nos dias em que percebo que as minhas perdas podem ou não ser irrecuperáveis, apaixono-me pelos meus conceitos, reconheço-lhes o risco, e faço da minha vivência um equilibrio possível, afastado por demasiados anos de escuro.
Não tenho tudo. Nem grande coisa.
Mas a realidade embeleza-se, sem me dar cavaco.
Dou-lhe os bons dias e vou protegido. Por visões. :)

terça-feira, outubro 18, 2005

If time is my vessel, then learning to love
Might be my way back to sea
The flying, the metal, the turning above
These are just ways to be seen
We all get paid
though some get faith before they die
But the stars we will navigate
Through the holes in your eyes
How many days will it take to land
How many ways to reach abandon
oh abandon
Oh, so swoon baby starry nights
May our bodies remain
You move with me, I'll treat you right, baby
May our bodies remain
There is love to be made
So just stay here for this while
Perhaps heart strings resuscitate
The fading sounds of your life
How many days will it take to land
How many ways to reach abandon
oh abandon
So swoon baby starry nights
May our bodies remain
As weak we move, I'll feed you light, baby
May our bodies remain
Oh yeah in history, I'll treat you right, babyI
'm honest that way, hey
Swoon baby starry nights
May our bodies remain

Interpol

Pergunto-me a mim mesmo é a razão pela qual esta fabulosa faixa se chama "Public Pervert"...
Lindo.

segunda-feira, outubro 17, 2005

E agora que o céu está cinzento, e o ano aperta com outras cores as memórias, eventos e balanços, a poeira assenta e olhamos para aquilo que muitos tipos de fogos consumiram.
E aproxima-se a passos largos o fecho de contas, as lógicas dos momentos e eventos, os olhares que guardámos e os que não nos guardaram.
Afagamos os conceitos, e perdemo-nos a meio da lógica perniciosa da actividade que nos vai sangrando pedaço a pedaço, tentando nunca submergir a originalidade nem a lógica dela derivada.
Agora que o mundo caminha mais frio, a escuridão aproxima a essência das coisas, molda-a e coloca-a numa taça rude e riscada.
Ao sorvê-la, tanta coisa continua a escapar-nos, mesmo os sorrisos teimosos emprestados ás coisas que nao entendemos totalmente. Ou os que demos à noção de justiça que não pode escapar-nos, sob pena de mergulhar na modorra confortável e comodista.
Está a chover.
É caso para dizer que alguém o diz por nós.

terça-feira, outubro 11, 2005

Who's seen Jezebel
She was born to be the woman
I would know
And hold like a breeze half as tight as both eyes closed

Who's seen Jezebel
She went walking where the cedars line the road
Her blouse on the ground where the dogs were hungry, roaming
Sayin' wait
We swear we'll love you more

And wholly, Jezebel
It's we, we that you are for only
Who's seen Jezebel
She was born to be the woman we could blame
Make me a beast half as brave and be the same

Who's seen Jezebel
She was gone before I ever got to say
Lay here, my love, you're the only shape
I pray toJezebel
Who's seen Jezebel

Will the mountain last as long as I can wait
Wait like the dawn, how it aches to meet the day
Who's seen Jezebel
She was certainly the spark for all I've done
The window was wide, she could see the dogs come runnin'Sayin' wait
We swear we'll love you more
And wholly, Jezebel
It's we, we that you are for only

Woman King - "Jezebel" From "Iron and Wine"
I
How happy he, who free from care
The rage of courts, and noise of towns;
Contented breaths his native air,
In his own grounds.


II
Whose herds with milk, whose fields with bread,
Whose flocks supply him with attire,
Whose trees in summer yield him shade,
In winter fire.
III
Blest! who can unconcern'dly find
Hours, days, and years slide swift away,
In health of body, peace of mind,
Quiet by day,
IV
Sound sleep by night; study and ease
Together mix'd; sweet recreation,
And innocence, which most does please,
With meditation.
V
Thus let me live, unheard, unknown;
Thus unlamented let me dye;
Steal from the world, and not a stone
Tell where I lye.


Alexander Pope - "Ode to Solitude"

segunda-feira, outubro 10, 2005

What If they found out about me?

What if I find myself out?

What if I'm all there?

What if they really see who I am...

...And them and me, just simply disagree?
O que é a química?
Poderá reduzir-se a feromonas? Ou é uma percepção apriorística, quase como um inatismo, que faz com que do estado de contemplação da beleza se passe ao calafrio do desejo?
A química, conforme é reproduzido por quase toda a gente, estabelece o impulso do toque. É a entidade geradora da relação de causa efeito no toque e seus derivados. A química é uma representação múltipla do reconhecimento da atracção, porque comunica sem qualquer outra linguagem que não o reconhecimento simultâneo à experiência.
O beijo é a passagem para esse estado de conhecimento mútuo que não presume uma única palavra. Como uma passadeira vermelha, esse tipo de toque gera a percepção inabalável de uma conexão, mesmo que seja só essa. É uma ligeira perda de conhecimento em meio a um vendaval concentrado de percepções. É doer ainda mais um pouco.
Mas sinceramente, a química não terá qualquer espécie de justificação ou arquétipo anterior? Poderá a química existir sem mais, sem qualquer fundamento reconhecível no outro?
Será a química capaz de nunca se enlaçar na comunicação? Será o interesse anulável perante a criação surda de um querer?
Não sei.
Sinceramente, prefiro crer que não acontece dessa forma. Que nada é totalmente aleatório e que a comunicação pode efectivamente ser um factor, ainda que parcial, à percepção do toque que queima.
Mas a química não fala.
E ao arremessar-nos para um beijo real, a perigosa perda do peso no mundo faz com que o centro de tudo derive numa representação multipla do toque sexual. Do toque. Da consciência de outro.
Sendo assim, o que é a química?
O cansaço é uma componente do esclarecimento.
Não em todas as ocasiões, é certo, mas há algo no cansaço, na limitação da reacção perante o esforço que clarifica a mente. Que pelo menos molda em formatos mais brandos as consequentes contradicções de apetites, memórias recorrentes, projectos. O cansaço permite-nos diferenciar as pessoas porque já não temos força para argumentar com os instintos que nos assaltam quando estamos despertos e energéticos.
O cansaço no entanto, é um pau de dois bicos. Porque agudiza as emoções, precipita certos formatos de rendição e clarifica a essência e impacto de determinados pormenores.
O cansaço no entanto não é a modorra. É a chamada procura inteligente. É a aceitação de uma lógica, e a força esclarecida que dali decorre.
Estar cansado é escolher.
É perder um pouco a estupidez que vem com a vitalidade mal gerida, e evitar os erros que embrulhados em referências e instantes construídos podem matar-nos.
Sem avisar.
O cansaço, a espaços, é o bálsamo lúcido.
Somos nós, adultos e ponderantes.
E quando dura q.b., poupa-nos toda uma vida de coisas que não interessam.
"Come to me in my dreams, and then
By day I shall be well again!
For so the night will more than pay
The hopeless longing of the day."

Mathew Arnold

sexta-feira, outubro 07, 2005

Desancar a Margaridinha como il faut...

Bravo, Bravo, Bravo...

Bravíssimo!!!


Brilhante e hilariante.

E destaque-se já a imensa coragem de João Pedro George por ter conseguido ler e dissecar a panóplia de pessegadas escritas por esta senhora. Ainda por cima a mulher nem sequer se esforça por disfarçar... Pior que isso, só ler o "Rio Piedra" do Paulo Coelho até à página 15...

(Se soubessem o que me custa criticar o que alguém escreve, porque é algo que normalmente não faço porque julgo que a criação é sempre de louvar, perceberiam até que ponto esta senhora consegue tirar do sério qualquer pessoa que faz um esforço sério por amar livros, sejam eles melhores ou piores. Depois de ler esta recensão crítica, fico mais descansado relativamente aos meus maus fígados...)

quinta-feira, outubro 06, 2005

O pecado original da tua presença, foi nunca a teres reconhecido como tal.
A perda assim gerada nunca é alheia.
A massa colossal de nós próprios que a raiva não consegue limpar, é apenas uma fogueira numa noite de lua nova, acesa por quem duvida de qualquer espécie de aurora, atacado que está pelo sono num universo de anos divididos ao meio entre noite e dia.
O cínico é um habitante dos pólos, que dorme todo um Verão...
Quando se consegue tornar ouvir o excelente "Walk Away" do Ben Harper até ao fim, algo mudou.
Parar para respirar....

You Are 60% Boyish and 40% Girlish

You are pretty evenly split down the middle - a total eunuch.
Okay, kidding about the eunuch part. But you do get along with both sexes.
You reject traditional gender roles. However, you don't actively fight them.
You're just you. You don't try to be what people expect you to be.



A experiência diz-me que dando-se bem com uns e outros, não se é realmente querido por nenhum...
Será verdade?


(Teste via
Charlotte)
O air-born voice! long since, severely clear,
A cry like thine in mine own heart I hear:
"Resolve to be thyself; and know that he,
Who finds himself, loses his misery!"
Mathew Arnold - 1822-1888
É no atrevimento dessa procura, que nasce a fundamentação ontológica do que realmente somos. E os crimes que vamos comentendo, passam por atenuantes se a lógica for de retorno ao que deveríamos ser, porque sempre se acreditou nessa premissa.
Os conceitos valem por si, e nenhuma mudança arranca as fundações. As procuras estão lá. São nossas, e cada passo é esperançoso na tentativa de nos trazer à dimensão dual pela qual somos amados, mas, e finalmente, também nos amamos. À paz inquieta.
Entendo-te melhor do que julgas.
Mas sinceramente, é coisa que já não me importa muito.
Também porque não importa em si a minha visão.
Os conceitos valem por si mesmos, como disse.
E no final, a conversa é sempre connosco próprios.
Ao encontrarmo-nos, sabemos sempre o que fazer.
"But often, in the world's most crowded streets,
But often, in the din of strife,
There rises an unspeakable desire
After the knowledge of our buried life;
A thirst to spend our fire and restless force
In tracking out our true, original course;
A longing to inquire
Into the mystery of this heart which beats
So wild, so deep in us--to know
Whence our lives come and where they go."


Mathew Arnold - "The Buried Life", (45-54)


Este tipo conhecia-me e eu nem sabia...

terça-feira, outubro 04, 2005

TEST TIME



Your Seduction Style: Fantasy Lover

You know that ideal love that each of us dreams of from childhood? That's you!
Not because you posess all of the ideal characteristics, but because you are a savvy shape shifter.
You have the uncanny ability to detect someone's particular fantasy... and make it you.

You inspire each person to be an idealist and passionate, and you make each moment memorable
Even a simple coffee date with you can be the most romantic moment of someone's life
By giving your date exactly what he or she desires, you quickly become the ideal lover.

Your abilities to make dreams come true is so strong, that you are often the love of many people's lives.
Your ex's (and even people you have simply met or been friends with) long to be yours.
No doubt you are the one others have dreamed of... your biggest challenge is finding *your* dream lover.




Acho que os moços se enganaram...
Mas não seria uma perspectiva desagradável, não senhor.
Como é que as minhas respostas deram nisto é que gostava de saber...
Everyday I love you less and less, já lá diziam os Kaiser Chiefs...

segunda-feira, outubro 03, 2005

Alguns amigos meus resolveram unir-se, quase sem se conhecerem. Criaram uma pequena comunidade para dizer o que lhes vai na gana. Aguarda-se a fervura do melting pot.

Os
Cães Danados está à solta.

quinta-feira, setembro 29, 2005

Julgo que podem existir milhares de formas para se lidar com aquilo que nos vai acontecendo. Aquilo que acontece e que nos muda a vida não tem propriamente um arquétipo definido. Não pede opinião. Não faz grandes apresentações. Escorregamos pelos acontecimentos como um reflexo falhado de equilíbrio, conscientes da queda, mas sempre com a esperança de que o impacto não se dará. Claro que quando a dor se instala, e percebemos que a previsão estava certa, a surpresa instala-se sempre.
Há algo de estranho e sempre intrusivo na dor pessoal. Aparece, sorri com dentes afiados, deixa as marcas e desaparece, fazendo com que o tempo em que a alojámos pareça sempre perdido, ao contrário de umas quantas e interessantes teorias de construção pessoal.

Tretas.

As dores de crescimento nem sempre são necessárias ou fazem sentido. É ao contrário, por acaso. As dores de crescimento e dita construção pessoal que se justificam como tal são poucas, e têm um sabor misto. E são normalmente aquelas que esquecemos porque as transformamos no esforço necessário para ter atingido alguma felicidade, ainda que a espaços.

E as outras?

As outras ficam, fazem estragos, e desdramatização alguma consegue reparar alguns dos fragmentos que se soltam. Gostaria de dizer o contrário, é verdade, mas nunca recuperamos algumas coisas. Transformamo-nos, e com esperamça, melhoramos. Mas nunca mais somos o que fomos, e isso deixa sentimentos mistos de nostalgias confusas. Pelo menos não é linear que cresçamos. Que mudamos sim, mas o sentido só mais tarde se pode aspirar a entender. Acho eu...
A força de uma mentira depende da convicção com que a depositamos no outro e a credibilidade intrínseca. A credibilidade depois divide-se em dois factores para que a mentira resulte.
Ou tem de ser de tal forma absurda que ninguém teria a coragem de a mencionar como sendo um facto real, ou está de tal forma escorada numa credibilidade do senso comum que a argumentação corroborativa assemelha-se a um colete à prova de balas.
Vá lá, quantos de nós já não pensaram que aquilo que alguém nos dizia era tão quimérico que ninguém se atreveria a tentar vendê-lo a menos que por alguma alta improbabilidade da vida, tivesse realmente acontecido?

quarta-feira, setembro 28, 2005

Em qualquer forma de esperança não há outra hipótese senão sublimar o impossível e defender o improvável.
Alguma alma caridosa pode ajudar-me a impedir que o spam publicitário nos comentários prolifere?

Muito agradecido:)



Qual Top Model, qual actriz de cinema, qual raio que o parta.
Esta senhora...
E depois é ouvir-lhe a voz e multiplicá-la por tudo o que possam imaginar.


SLOW LIKE HONEY
'Words & Music: Fiona Apple

You moved like honey in my dream last night
Yeah, some old fires were burning
You came near to me and you endeared to me
But you couldn't quite discern me

Does that scare you?
I'll let you run away
But your heart will not oblige you
You'll remember me like a melody
Yeah, I'll haunt the world inside you
And my big secret -- Gonna win you over


Slow like honey, heavy with mood
I'll let you see me, I'll covet your regard

I'll invade your demeanor
And you'll yield to me like a scent in the breeze
And you'll wonder what it is about me
It's my big secret --

Keeping you coming slow like honey, heavy with mood
Though dreams can be deceiving

Like faces are to hearts
They serve for sweet relieving
When fantasy and reality lie too far apart
So I stretch myself across, like a bridge

And I pull you to the edge
And stand there waiting
Trying to attain
The end to satisfy the story
Shall I release you?
Must I release you?
As I rise to meet my glory
But my big secret

Gonna hover over your life
Gonna keep you reaching
When I'm gone like yesterday
When I'm high like heaven
When I'm strong like music 'Cuz
I'm slow like honey, and
Heavy with mood

terça-feira, setembro 27, 2005

Don't keep your good luck to yourself.
Blue

"I didn't want to know
I just didn't want to know
Best to keep things in the shallow end
Cause I never quite learned how to swim
I just didn't want to know
Didn't want, didn't want,
Didn't want, didn't want
Close my eyes just to look at you
Taken by the seamless vision
I close my eyes,
Ignore the smoke,
Ignore the smoke,
Ignore the smoke
Call an optimist, she's turning blue
Such a lovely color for you
Call an optimist, she's turning blue
While I just sit and stare at you
Because I don't want to know
I didn't want to know
I just didn't want to know
I just didn't want
Mistook the nods for an approval
Just ignore the smoke and smile
Call an optimist, she's turning blue
Such a lovely color for you
Call an optimist, she's turning blue
Such a perfect color for your eyes
Call an optimist, she's turning blue
Such a lovely color for you
Call an optimist, she's turning blue
While I just sit and stare at you
I don't want to know

Maynard James Keenan

segunda-feira, setembro 26, 2005

Ser livre é uma forma de estar. É perceber que aquilo que nos mantinha agarrado a certas ideias pode sempre voltar, mas que decidiu ir-se embora. Passou adiante, como um predador já saciado que cheira a caça apenas como forma de reconhecimento do ambiente.
Estão lá os dentes, e o risco da ilusão de liberdade parece demasiado premente.
E no entanto está instalada uma espécie de serenidade estranha. Os acontecimentos passam à nossa frente como o resumo alargado de um filme. Estão lá os pormenores de realização, as cenas mal cortadas, as excruciantes, as desnecessárias, as belas, as que fazem valer a pena ter a noção de algo concluso.
Ser livre é entender ao máximo, no âmbito da frieza da realidade, aquilo que passamos a ser capazes de entender, onde antes apenas se combatia e criavam quezílias internas. É olhar para caminhos pedregosos e não desdenhar da suposta estupidez que leva alguns a trilhá-los.
Ser livre não é viver sem medo, mas abraçar a sua proximidade como um risco enimente. É dançar bêbedo num beiral que se torna um pouco mais largo, não sendo capaz ainda assim de deter o vento frio que denuncia o vazio mesmo ali ao lado.
Ser livre é perceber que nas amarras protectoras existem nós corroídos, elos ferrugentos que se partem perante a força de outra coisa maior que a imobilidade.
Ser livre é ter a noção de que o processo de transformação das dores pessoais nada mais é que uma teimosia, a qual só resulta quando julga que dela desistimos.
Quis ser livre durante um largo período de tempo. Porque acho que devemos isso a cada um de nós, num pressuposto claro de evidências e lógicas internas, no caminho para o potencial. Em sublimação, pelo menos sempre que possível.
Ser livre não é sonhar.
É perceber que acabamos de acordar, e nem tudo é absolutamente distinto dos alicerces dos nossos delírios.
Ser livre é não ter a certeza, e ir assim mesmo.
Porque volta a fazer sentido a viagem.
Seja ela qual for.

sexta-feira, setembro 23, 2005

A propósito deste post de um amigo meu, gostaria de falar um pouco sobre o tema que ele adianta.
Existe todo um debate em torno da questão, que mais me parece ir de encontro ao que são os códigos tradicionais. A metrossexualidade, ou qualquer outra designação que tenham convencionado atribuir-lhe, parece-me apenas uma evolução lógica. Tem um significado real do que é evolução tendente à igualdade não redutora. Em melhores termos, aquela que respeita as faces desejáveis da necessária diversidade entre géneros, mas nunca os limita na busca de uma evolução intrínseca, e obviamente, numa melhoria da relação com os outros.
Existem mulheres que fogem a sete pés do novo especimen, e outras que agradecem o advento do cuidado mínimo com a aparência. (E sim, as mulheres também são seres visuais, voyeurs e estetas pronta a qualificar e sntir os impactos de algo que pode ser o mínimo do seu paradigma.)
A verdade é que, á semelhança do que diz o meu amigo, o metrossexual propriamente dito não existe. Ou a existir, é apenas o produto de um estereótipo inventado pela malta que insiste em manter uma fidelização ao macho latino e cria uma espécie de ícone pronto a ser atacado, especialmente porque não existe.
Como tudo na vida, a conta peso e medida de qualquer conceito. Qualquer afectação ou exagero entra no plano do rídiculo e do conceito pronto a seer engolfado pela chacota.
Mas desenganemo-nos se de alguma forma a evolução das coisas nos pode deixar indiferentes perante aquilo que passa a ser exigido de nós. Malta, acordem para a vida. As mulheres também têm a sua quota parte de exigência. E embora possam ser mais generosas e miopes quanto ás nossas limitações físicas, a verdade é que também fazem as suas exigências, e começam a traçar os seus limites.
E sinceramente, acho bem. Acho que não é plano isolado de um qualquer género a capacidade e preocupação com a sua evolução e melhoria pessoal, seja em que plano for. Sim, porque essa designação do chamado homem moderno também compreende a evolução da sua sensibilidade ao nível da cultura, da mentalidade, da abertura de horizontes. Aquilo que é apelidado de metrosseuxualidade nada mais é que uma reinvenção daquilo que aconteceu no renascimento onde homens como Giordanno Bruno eram filósofos, matemáticos, pintores, mas também atletas. Ou seja, a evolução e a melhoria de motivação intrínseca no sentido de ir ao encontro de algo melhor, de si para si próprio, e por inerencia, para com os outros. E mais propriamente as outras.
Por isso, e na linha do que diz o meu amigo, a associação da metrossexualidade com a homossexualidade tem dois gravíssimos problemas:

1 - É feita como se a segunda fosse algo de pernicioso que transpira para a primeira

2 - É um estereótipo criado para tranquilizar a inércia de certas pessoas relativamente ao que é uma evolução natural, sem exageros ou afectações. Para certas pessoas, o esforço para estar melhor (fisica e intelectualmente) é supostamente eivado de um artificialismo evidente. Tal conclusão é injusta. Estarmos melhores perante nós e mesmo perante aqueles que connosco interagem é até uma medida de respeito para com todos os envolvidos.

Claro que no fundo, cada um vive como quer, e isso é perfeitamente legítimo.
Mas qual é o problema no facto de os homens quererem evoluir, estar melhores, ir mais longe? Em cuidarem de si mesmos?

quarta-feira, setembro 21, 2005

A baixaria que tem sido o debate político, e já agora porque não toda a esfera politizada da nossa sociedade, reflete, mais do que qualquer coisa, um estado de apatia e desencanto perante as realidades. Reflete o encolher de ombros simbólico de um povo que agoniza ao colocar o primeiro joelho no chão.
Que a chuva traga melhorias, porque o sol só acentua as sombras esconsas do país.
Os textos anteriores foram os ultimos textos do Verão que morre amanhã.
Doravante, o laranja é a cor do Outono.

Ab Imo Pectore, Ad Absurdum...
Acho que de uma certa forma, a amizade é um acto de vontade.
Pode fazer-se alguma coisa por ela.
Pode fazer-se muito mais esforços.
Controlar mais fenómenos de comportamento.
Uma amizade pode querer-se na totalidade, e aceitar-se nesse outro tanto.
Uma amizade satisfaz mais do que dói, e por momentos, pode quase enganar ao ponto de se pensar que nada mais que ela é necessário para que a imensa fome de alma que por vezes temos fique queda e saciada.
Mas somente quase... é uma ilusão quase perfeita. Quase...
Porque de uma certa forma, nunca sabemos até que ponto podemos ser ultrapassados por nós mesmos. Os nossos desejos brincam connosco, fazem-nos voar ou enterram-nos em escuridão opaca. Dançamos a sua musica como se nada mais pudéssemos ouvir.
E nessa redoma de encantamento, nessa parcela de mundo que pode realmente isolar-nos, talvez só a amizade possa entrar. Porque será ela que acabará por nos vingar sempre, quando a ilusão termina e deixa aquela voraz insaciedade. Aquela que muitos dizem que o tempo cura, mas que bem vistas as coisas, só piora, até que apodrece e se esquece, porque a substância sonhada deixa de ter o formato pelo qual foi amada.
No fundo, é um processo de substituição, nunca de esquecimento. Porque esse momento deixa-nos sempre de alguma forma perdidos nem que seja pela reiterada memória que dele possamos ter.
E aí, como em tantas outras coisas, a amizade pode ser a única coisa que possa fazer algo semelhante a um salvamento.
A pior coisa que existe para qualquer forma de amor é a inalterabilidade.
O inapelável.
A simples ideia de que não existe coisa alguma que se possa fazer para chegar ao reduto da vontade do objecto do desejo.
No fundo é ausência de razões perante a inviolável liberdade da outra pessoa. Pede-se uma tarefa para superar, mas ela nunca chega. Os amantes, julgo eu, desesperam precisamente quando a perda é irreversível.
E por duas razões.

A primeira, porque a inércia forçada cria um senso de impotência dupla – pela vontade em aceitar desafios maiores que a vida, e por entender que não existe nenhum que seja eficaz, aumentando assim a sensação de inutilidade.

A segunda porque de alguma forma o amor atinge o seu ponto mais elevado quando se apresenta inacessível. Para algumas pessoas, a intolerabilidade do sofrimento acessório é uma realidade tão presente como a verificação do sentimento. As pessoas rendem-se no campo de batalha, precisamente quando já não há inimigo. E o querer atinge as fronteiras do desespero.

É estúpido e de alguma forma ilógico. Gosto de pensar que muitas pessoas, (e incluo-me nelas), aceitam a continuidade da dor e irreversibilidade até criarem anticorpos absolutamente eficazes. Um amor real que se consiga esquecer realmente nunca retorna. É a morte no seu estado puro.

sexta-feira, setembro 16, 2005

I guess we all did it some time...

I haven´t done it for months now, and don't have the need anymore, but I'll always understand the impulse.
Tenho estado incapaz de manter uma regularidade no blog.
Por toda a espécie de motivos imagináveis.
Mas está para breve um regresso em força.
Espero...

quarta-feira, setembro 14, 2005


(foto - Filipa Oliveira)


A Dor.

A dor não é mitigável. Quando é real é bruta, incontida. É um dente farpado da realidade, cravado numa infecção envelhecida. A dor aparece sempre injusta. Aparece como o reflexo de uma desordenação do estado natural de tudo. Escapa ao entendimento por ser uma imaterialidade constituída por um mau estar. Uma sensação.
A dor é sempre uma via dual. Alguém é sempre responsável e alguém responsabilizado. A dor real é o conjunto de todos os segundos de solidão concentrada num esgar de mal-estar produzido por um qualquer deus interno e obscuro.
A dor é subestimada. Encarada como um luxo. É uma espécie de muleta aos discursos socialmente correctos e interpretativos da necessária alternância de sorte. Pior ainda, em muitos casos é ignorada como um recorte de personalidade.
A dor não pede licença. E não se combate. A dor é o abraço de um porco-espinho ferrugento, o perpassar de todas as mágoas de todos os conceitos num filamento afiadíssimo cujo corte, inclemente, teima em permanecer.
A dor não é relativizável. A dor é sempre relativa ao observador, e é talvez a maior injustiça quando o seu surgir está sempre precedido da total incapacidade de a afastar. Não salvamos, e mesmo não culpados, aparecemos sempre como responsáveis.
A dor é a reprodução do inferno em que se tornam os outros. É um instante. Terrível e inexplicável. Sem pretensões a razoável, mascara-se de eterna, como qualquer outra emoção real.
A dor colhe todas as estrelas num céu nocturno e deixa apenas a escuridão. No seu esplendor, é uma massa intransponível e incompreensível, como a ordem ilegítima de um tirano sem rosto sequer.
A dor é em si mesma um mundo, que ao sentir alheio parece até bela, cheia de significado.
Mas a certo ponto é uma inutilidade destrutiva. O veículo para os recortes derrotados e horríveis de todos os conceitos-chave.
A dor é parcialmente necessária, porque a alternância é o estado de sobrevivência obrigatória da alma.
Mas à semelhança do Diabo, o seu maior truque é convencer toda a gente da sua mitigada existência.
A dor está lá, e em momento algum, quando é real e carnívora, se desejaria que assim fosse.



terça-feira, setembro 13, 2005



"Beauty ought to look a little surprised: it is the emotion that best suits her face. The beauty who does not look surprised, who accepts her position as her due -- she reminds us too much of a prima donna."

Edward M. Forster

Eu sabia que alguém sabia...

sexta-feira, setembro 09, 2005





Deparei-me com ela no outro dia. Escondida num jardim anónimo. Estava ali, e olhava-me. Fixamente. Os recortes desencontrados da sua perfeição, as cores cortadas do tecido real por mãos de artesanato. Criada assim sabe-se lá porquê.
Existiam outras rosas á volta. Algumas delas até maiores, mais esplendorosas, mas esta estava ali, centrada como num instante de antecipação de climax. Perfeita porque naquele instante parecia não poder ser outra. Assim, encontrada involuntariamente.
Poderia pensar árdua e longamente acerca de um instante involuntário e perdido assim numa perfeição subjectiva. Mas longe vão as perspectivas optimistas da necessidade do equilíbrio no decurso da realidade como a conheço.
Por vezes acontece o mesmo com as pessoas. Deparamo-nos com aquilo que emanam, o que deixam transparecer no seu cocktail de tendências contraditórias, e aprendemos a gostar do seu cunho impossível de prever. Dos seus elementos, perfeitamente alinhados em discórdia como a impensável arquitectura de pétalas desta flor que me meteu comigo.
Não a pude deixar em paz, e avaliar pelos índios norte americanos, atrevi-me a roubar-lhe um pouco da alma, sabendo que a vida lhe era curta. Com pessoas assim, feitas de tantas camadas, temos mais sorte. Normalmente perduram mais, ou pior ainda, nunca murcham. E capturamo-las na memória exactamente da mesma maneira. Como artesanato da natureza oferecida num esplendor fugaz, provocador e lancinantemente belo.
Tirei a fotografia e não repeti o estalido do obturador. Parecia-me que tinha ficado assim num único segundo, e ela nunca mais me deixaria tê-la ou persegui-la daquela maneira. Percebi que ela se expunha, que dançava assim, em cores, convicta de que o meu reconhecimento do seu poder era quase absoluto. Num segundo, num instante, num compasso de vida.
Algumas pessoas são assim.
Surgem como se nunca as tornássemos a ver. Marcam cada passo á volta do nosso espaço como pegadas em cimento de secagem rápida. Criam a ilusão da partida eminente, mesmo que saibamos que estarão ali por muito mais tempo. Obrigam-nos a criar através delas, roubando o seu efeito e transformando-o em qualquer método de expressão do incomunicável, pelo menos em termos de lógica. Somos tentados a cada segundo a fazer-lhes justiça. Mortos se ficarmos quedos.
Esta flor já morreu há algum tempo. Murchou como a Lauren Bacall, que em tempo algum nos deixa esquecer a sua imponência, jocosa da nossa imperfeita juventude.
Passei pelo mesmo jardim anónimo, e ela não estava. Como o melhor dos instantes que não se repete, o vazio incomodou-me. A nostalgia de um instante de imaginação não se torna menos dolorosa por isso mesmo. Picasso sabia-o, "porque tudo o que se pode imaginar, é real".
A minha esperança é que com as pessoas, isso seja algo diferente.
Será?
Run! He's got a Towel!!!!





Monty Python all the way!!!

Creio que muita gente não gostará deste filme, mas eu deliciei-me com o nonsense e a delirante imaginação de Douglas Adams. Marvin, o robô depressivo é um absoluto clássico.
Vão ver, a sério. É uma experiência.
Estão enganados os moços....


You are .jpg You are very colorful.  Sometimes you forget things, or distort the truth.  You like working with pictures more than words.
Which File Extension are You?

quarta-feira, setembro 07, 2005

Bush pergunta-se a si mesmo o porquê das asneiras no socorro às vitimas de Katrina
Agora que a chuva de aproxima, e as cores se mascaram um pouco com os seus xales cinzentos, a luz do sol transforma-se numa pequena recordação multiplicada por vários instantes.
Esses instantes são uma estação do ano que deixa sempre alguma coisa connosco.
Mesmo que não seja do melhor que possamos recordar adiante...
A propósito de primeiros amores, desenterrei algo que tinha escrito em Janeiro de 2002...


"As definições de amor podem variar de pessoa para pessoa, e geralmente variam. São elementos da percepção de realidade de cada um, e apesar de ser o elemento de relacionamento humano mais debatido, estripado, e o maior produtor de clichés do mundo dos conceitos, creio que quem o sente nunca dá conta disso. Nem sequer admite essa perspectiva. Para essas pessoas, para todas, arrisco-me a dizer, parece sempre algo diferente e único. Algo que nunca ninguém sabe como é, que parece superior a todas as outras manifestações similares.
Naquela idade, é algo de violento, pueril, e absolutamente impregnado de um elemento ilusório de imortalidade. Parece que nunca cessará, que tem todo o mundo e tempo à sua frente, e que nenhum destes poderá alguma vez colocá-lo em causa. E quem o sente tem tanta certeza disso que normalmente não admitirá qualquer argumento em contrário. Aliás, tentarão defender a sua existência, mesmo quando este sentimento já neles estiver moribundo ou mesmo morto. A lealdade ao conceito de primeiro amor é ainda mais forte que o amor em si. Talvez porque a descoberta de algo provoque aquele sentimento de posse e imutabilidade. Uma espécie de registo de patente na alma.
Quando acaba por morrer, e quase sempre o faz, deixa no entanto este traço de identidade, e arrisco-me a dizer duas coisas, segundo a minha fraca e parcial perspectiva.
A primeira, é que guardamos mais a ideia de como nos sentimos naquela altura, uma entrega sem vícios de experiência, sem artifícios de auto protecção cínica ou pessimismos, do que talvez a pessoa em si.
A segunda, é que a ideia de que não há amor como o primeiro, está certa e errada ao mesmo tempo. Acho que de uma certa forma, pode existir um amor que fique em primeiro lugar, mas esse não é necessariamente o primeiro. Quase nunca é, digo eu..."

terça-feira, setembro 06, 2005

Abraço os meus amigos por necessidade e desejo de dádiva, não por conveniência ou conforto fácil.
Daí que todos os elogios à solidão me pareçam más sessões de auto-terapia, como cassetes tocadas até que a fita se parta e os sons da realidade invadam sem contemplações o núcleo de uma paz que parece podre.

"If we hope for what we are not likely to possess, we act and think in vain, and make life a greater dream and shadow than it really is. "

Joseph Addison

Encontra-se assim explicado o template para grande parte da (i)lógica do amor. Mas era Bernard Shaw que dizia que só os desrazoáveis faziam esta merda andar para a frente...

Em que é que ficamos?


Go on.

Make any kind of day...
Só podia ser uma mulher.

Como Katrina, por vezes a mais impressionante beleza ou demonstração de poder deixa apenas um rasto de destruição sem qualquer ideia da relação causa-efeito...
Acerca dos livros ainda por ler...


"Plunge in, look through; the list is bound to offer up a friend or two."

Marie Arana - no Washington Post de hoje

segunda-feira, setembro 05, 2005

O dia em que tudo tem de recomeçar é precisamente aquele que nunca foi imaginado, para o qual nunca nos preparámos, o que supostamente não existia.
Ler aqui esta história, que o maradona teve a amabilidade de trazer. A história é absolutamente comovente e bonita. O título do post é - "Os Jornais Estão Caros: 2 euros para ter ao pequeno-almoço a companhia desta história, por exemplo:
"A mother's goodbye lesson
By Dr. Larry Zaroff The New York Times
THURSDAY, SEPTEMBER 1, 2005"

Qualquer forma de totalitarismo é má, perversa e podre antes sequer de amadurecer. Seja de esquerda, direita, centro, cima, baixo, ou qualquer quadrante que possam imaginar.

Mas o liberalismo total e a falta de regras mínimas só me faz lembrar Golding.
A Saga de um Casamento

Leiam todos os capítulos.
É, como a própria diz, uma boa história. Das melhores que li por aqui ultimamente.

sábado, setembro 03, 2005

São três da tarde.
Está um calor infernal e o som do eco dentro de casa tem aquele revestimento a tempo.
Na segunda feira o chamado ano activo começa a todo o vapor. Bem vistas as coisas, começa o ciclo do cansaço que talvez não tenha sequer sido interrompido.
O mundo vai começar a mexer novamente, Lisboa vai encher como a estrutura macrocéfala que é, e os ciclos vão iniciar-se.
E no entanto, olhando adiante, prevejo que na última noite do ano, 2005 vai parecer um longo e penoso pesadelo.
São os "blues" de uma tarde de Sábado.
Não liguem.

quinta-feira, setembro 01, 2005

O MEDO


Não há como fazer justiça, ou dizer algo minimamente adequado perante algo assim. As perdas são muitas vezes brindadas com um discurso de desdramatização, com o cliché absolutamente enervante de que o tempo cura tudo e tal e o camandro. Mas a percepção das realidades de quem perde, de quem se apercebe da irrecuperabilidade e da ausência de esperança, são de tal dimensão que qualquer tentativa de verbalizar um conforto redunda numa deselegância trapalhona, embora bem intencionada.
A perda não se relativiza. É terrível, e de alguma forma, tem sempre um cunho de injustiça, de traição, de inexplicabilidade. A perda não faz sentido. Não se cresce pela perda, mas pelo valor que se dá ao que deixa de existir, ao que morre, ao que nos é roubado. A maturidade surge do valor que damos às coisas, aos eventos, às pessoas, às idiossincrasias sem relativismos absolutos. E como custa nunca salvarmos quem por elas passa, porque o tecido do real não nos permite. Porque não temos o poder de elaborar uma solução irreal, e tornar o absoluto em esperançoso relativo.
Queria apenas dizer isto e deixar uma palavra de homenagem, ou sensibilização, ou solidariedade, sei lá(!) para
Ela, porque nem consigo imaginar o que sente, nem consigo dizer-lhe nada que seja adequado ou que conforte.
A ordem natural do mundo por vezes é terrível. Insuportável mesmo.

OS BASTARDOS DE KATRINA

Da natureza, seus efeitos, e a nossa pequenez...
Beslan.
Um ano depois.
Para quê metáforas acerca do impossível, quando este esteve ali, à nossa frente.
Imaginar o medo, dor e angústia dos que sofreram na pele o sequestro, ou daqueles que fora da escola aguardavam pela mais terrível aleatoriedade, é algo que nem sequer consigo imaginar.
Ou talvez não queira.