ESTAÇÕES DIFERENTES
Stephen King - "Different Seasons"
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sexta-feira, novembro 04, 2005
quarta-feira, novembro 02, 2005
E isto porque quando chegamos a um certo ponto na nossa vida, não temos outra alternativa senão aceitar que as formas de viver podem alterar-se a pontos quase não admissíveis pela chamada "normalidade".
Formas talhadas e guiadas pelos contornos possíveis, que espantam e transmitem estranheza. Mas essa estranheza assenta numa percepção diferenciada. Naquilo que alguns viram, e outros não. Naquilo que alguns perderam, e outros apenas acham que podem imaginar o que será essa perda.
Entendo perfeitamente que para alguns, a falta de convencionalidade não faça sentido. Porque existem demasiadas coisas a proteger. Os pés normalmente não gostam de solos falsos, e as derrocadas, ainda que parcelares, podem ser desconfortáveis.
Eu sempre julguei que as defesas pessoais fossem produtos de uma normalidade de processos conscientes, de vontade expressa. Algo que provém da vontade própria, traduzida no abafar de uma qualquer promessa de fogo.
Mas estava enganado.
As defesas surgem como um espirro, como o estertor de um corpo a adormecer ou o reflexo vocal perante a dor. Não estavam lá. Mas depois estão. Aparecem. Solidificam-se. Borrifam-se nos nossos protestos e assentam arraiais, coriáceas como só as intransponibilidades o conseguem ser. O estilhaçar de qualquer coração é demasiado ensurdecedor, e repete-se como a zanga de trovoada num céu negro ainda de dia.
É em razão dessas defesas que duas coisas ocorrem.
segunda-feira, outubro 31, 2005
Claro que sou suspeito pela forma como ligo a noite das bruxas a qualquer traço dos ambientes conceptuais do Tim Burton, mas ainda assim há algo na exploração do medo, da percepção de outras realidades que as torna próximas e atraentes à curiosidade.
Nascida do paganismo ( muito mais divertido que qualquer forma de monoteísmo) e muito radicada na cultura anglo-saxónica, esta festa assenta na nossa capacidade de experimentar o gozo do medo, o respeito pelo canto escuro que necessariamente está vazio, mas que se mexe por vezes sem que possamos arriscar um segundo olhar sem estremecer.
Algo que de alguma forma reúne umas pitadas de impossível, só entendido por aqueles que o vivem, que o respiram, que o aceitam.
Alguns, porque não lhes foi dado a conhecer este prisma ainda, vivem como podem e sabem. No fundo, todos fazemos isso.
Mas o restauro e manutenção de uma certa sanidade e amor pelas coisas mais fundamentais, teve a génese num pequeno pormenor que fará um ano de idade amanhã.
Um pormenor de cores escuras perante um rio de fios mais claros.
Um pormenor mais tarde reencontrado. Concretizado.
A felicidade simples das coisas realmente preciosas que tão raramente cruzam o nosso caminho.
Na noite mais pagã do ano, eis-me a ponderar certas formas de providência.
Agnósticas claro...
sexta-feira, outubro 28, 2005
"Mal: Ok, clearly some aptitude for this, but it ain't all buttons and charts, little albatross. You know what the first rule of flying is? Well, I suppose you do, since you already know what I'm about to say.
River: I do. But I like to hear you say it.
Mal: Love. You can learn all the math in the 'verse, but you take a boat into the air you don't love, she'll shake you off just as sure as the turning of worlds. Love keeps her in the air when she oughta fall down, tells you she's hurting 'fire she keens.
Makes her a home.
River: Storm's getting worse.
Mal: We'll pass through it soon enough. "
Joss Whedon - Serenity
quinta-feira, outubro 27, 2005
Procela cá dentro.
Não tenho explicações para as variações de humor, ou para o facto de tudo o que é emocional ser captado como raios soltos na atmosfera. São demasiados recortes notáveis em cada pedaço do real. Demasiados relevos, que o tacto não consegue ignorar, e sons novos feitos de sensibilidades antigas.
São os olhos daqueles que passam e sorriem de forma triste, afastando o seu cansaço como arautos dos dias normais, culpados e vitimas dos pequenos crimes entre amigos e amantes.
São os cães cabisbaixos, que cheiram o chão molhado em busca das novidades dos dias. Dos passeios que são os seus livros, dos aromas a mortes e vidas que fazem as narrativas do período consciente.
Os cinzentos por vezes descem. Feitos gás inócuo, passeiam-se como fantasmas que aos vivos pouco mais fazem que mostrar-se. E congratulo-me com aquele toque mais frio, aquele cheiro a água que já foi, e a renovação do mundo.
A cidade escurece e acende as suas velas. Recordo-me dos rostos e emparelho-os nas felicidades parcelares que me trazem. São demasiados os instantes para que os mereça todos, e no entanto aparecem-me. Pintados em organizada confusão. Quase que como inexplicavelmente gratos por serem meus.
E então é tudo demasiado.
A chuva cai e o céu pisca os olhos.
Afinal avançamos....
domingo, outubro 23, 2005
Jam another dragon down the hole
Digging to the rhythm and the echo of a solitary siren
One that pushes me along and leaves me so
Desperate and Ravenous
I'm so weak and powerless over you
Someone feed the monkey while I dig in search of China
White as Dracula as I approach the bottom
Desperate and Ravenous
I'm so weak and powerless over you
Pale angel go away
Come again some other day
The devil has my ear today
I'll never hear of what you say
Promised I would find a little solace
And some piece of mind
Whatever just as long as I don't feel so
Desperate and Ravenous
I'm so weak and powerless over you
Desperate and Ravenous
I'm so weak and powerless over you
Maynard James Keenan
sexta-feira, outubro 21, 2005
terça-feira, outubro 18, 2005
Might be my way back to sea
The flying, the metal, the turning above
These are just ways to be seen
We all get paid
though some get faith before they die
But the stars we will navigate
Through the holes in your eyes
How many days will it take to land
How many ways to reach abandon
oh abandon
Oh, so swoon baby starry nights
May our bodies remain
You move with me, I'll treat you right, baby
May our bodies remain
There is love to be made
So just stay here for this while
Perhaps heart strings resuscitate
The fading sounds of your life
How many days will it take to land
How many ways to reach abandon
oh abandon
So swoon baby starry nights
May our bodies remain
As weak we move, I'll feed you light, baby
May our bodies remain
Oh yeah in history, I'll treat you right, babyI
'm honest that way, hey
Swoon baby starry nights
May our bodies remain
Interpol
Pergunto-me a mim mesmo é a razão pela qual esta fabulosa faixa se chama "Public Pervert"...
Lindo.
segunda-feira, outubro 17, 2005
terça-feira, outubro 11, 2005
She was born to be the woman
I would know
And hold like a breeze half as tight as both eyes closed
Who's seen Jezebel
She went walking where the cedars line the road
Her blouse on the ground where the dogs were hungry, roaming
Sayin' wait
We swear we'll love you more
And wholly, Jezebel
It's we, we that you are for only
Who's seen Jezebel
She was born to be the woman we could blame
Make me a beast half as brave and be the same
Who's seen Jezebel
She was gone before I ever got to say
Lay here, my love, you're the only shape
I pray toJezebel
Who's seen Jezebel
Will the mountain last as long as I can wait
Wait like the dawn, how it aches to meet the day
Who's seen Jezebel
She was certainly the spark for all I've done
The window was wide, she could see the dogs come runnin'Sayin' wait
We swear we'll love you more
And wholly, Jezebel
It's we, we that you are for only
Woman King - "Jezebel" From "Iron and Wine"
How happy he, who free from care
The rage of courts, and noise of towns;
Contented breaths his native air,
In his own grounds.
II
Whose herds with milk, whose fields with bread,
Whose flocks supply him with attire,
Whose trees in summer yield him shade,
In winter fire.
III
Blest! who can unconcern'dly find
Hours, days, and years slide swift away,
In health of body, peace of mind,
Quiet by day,
IV
Sound sleep by night; study and ease
Together mix'd; sweet recreation,
And innocence, which most does please,
With meditation.
V
Thus let me live, unheard, unknown;
Thus unlamented let me dye;
Steal from the world, and not a stone
Tell where I lye.
Alexander Pope - "Ode to Solitude"
segunda-feira, outubro 10, 2005
sexta-feira, outubro 07, 2005
Bravo, Bravo, Bravo...
Bravíssimo!!!
Brilhante e hilariante.
E destaque-se já a imensa coragem de João Pedro George por ter conseguido ler e dissecar a panóplia de pessegadas escritas por esta senhora. Ainda por cima a mulher nem sequer se esforça por disfarçar... Pior que isso, só ler o "Rio Piedra" do Paulo Coelho até à página 15...
(Se soubessem o que me custa criticar o que alguém escreve, porque é algo que normalmente não faço porque julgo que a criação é sempre de louvar, perceberiam até que ponto esta senhora consegue tirar do sério qualquer pessoa que faz um esforço sério por amar livros, sejam eles melhores ou piores. Depois de ler esta recensão crítica, fico mais descansado relativamente aos meus maus fígados...)
quinta-feira, outubro 06, 2005
| You Are 60% Boyish and 40% Girlish |
You are pretty evenly split down the middle - a total eunuch. Okay, kidding about the eunuch part. But you do get along with both sexes. You reject traditional gender roles. However, you don't actively fight them. You're just you. You don't try to be what people expect you to be. |
A experiência diz-me que dando-se bem com uns e outros, não se é realmente querido por nenhum...
Será verdade?
(Teste via Charlotte)
A cry like thine in mine own heart I hear:
"Resolve to be thyself; and know that he,
Who finds himself, loses his misery!"
But often, in the din of strife,
There rises an unspeakable desire
After the knowledge of our buried life;
A thirst to spend our fire and restless force
In tracking out our true, original course;
A longing to inquire
Into the mystery of this heart which beats
So wild, so deep in us--to know
Whence our lives come and where they go."
Mathew Arnold - "The Buried Life", (45-54)
Este tipo conhecia-me e eu nem sabia...
terça-feira, outubro 04, 2005
| Your Seduction Style: Fantasy Lover |
![]() You know that ideal love that each of us dreams of from childhood? That's you! Not because you posess all of the ideal characteristics, but because you are a savvy shape shifter. You have the uncanny ability to detect someone's particular fantasy... and make it you. You inspire each person to be an idealist and passionate, and you make each moment memorable Even a simple coffee date with you can be the most romantic moment of someone's life By giving your date exactly what he or she desires, you quickly become the ideal lover. Your abilities to make dreams come true is so strong, that you are often the love of many people's lives. Your ex's (and even people you have simply met or been friends with) long to be yours. No doubt you are the one others have dreamed of... your biggest challenge is finding *your* dream lover. |
Acho que os moços se enganaram...
segunda-feira, outubro 03, 2005
Os Cães Danados está à solta.
quinta-feira, setembro 29, 2005
Tretas.
As dores de crescimento nem sempre são necessárias ou fazem sentido. É ao contrário, por acaso. As dores de crescimento e dita construção pessoal que se justificam como tal são poucas, e têm um sabor misto. E são normalmente aquelas que esquecemos porque as transformamos no esforço necessário para ter atingido alguma felicidade, ainda que a espaços.
E as outras?
As outras ficam, fazem estragos, e desdramatização alguma consegue reparar alguns dos fragmentos que se soltam. Gostaria de dizer o contrário, é verdade, mas nunca recuperamos algumas coisas. Transformamo-nos, e com esperamça, melhoramos. Mas nunca mais somos o que fomos, e isso deixa sentimentos mistos de nostalgias confusas. Pelo menos não é linear que cresçamos. Que mudamos sim, mas o sentido só mais tarde se pode aspirar a entender. Acho eu...
quarta-feira, setembro 28, 2005

Qual Top Model, qual actriz de cinema, qual raio que o parta.
Esta senhora...
E depois é ouvir-lhe a voz e multiplicá-la por tudo o que possam imaginar.
SLOW LIKE HONEY
'Words & Music: Fiona Apple
You moved like honey in my dream last night
Yeah, some old fires were burning
You came near to me and you endeared to me
But you couldn't quite discern me
Does that scare you?
I'll let you run away
But your heart will not oblige you
You'll remember me like a melody
Yeah, I'll haunt the world inside you
And my big secret -- Gonna win you over
Slow like honey, heavy with mood
I'll let you see me, I'll covet your regard
I'll invade your demeanor
And you'll yield to me like a scent in the breeze
And you'll wonder what it is about me
It's my big secret --
Keeping you coming slow like honey, heavy with mood
Though dreams can be deceiving
Like faces are to hearts
They serve for sweet relieving
When fantasy and reality lie too far apart
So I stretch myself across, like a bridge
And I pull you to the edge
And stand there waiting
Trying to attain
The end to satisfy the story
Shall I release you?
Must I release you?
As I rise to meet my glory
But my big secret
Gonna hover over your life
Gonna keep you reaching
When I'm gone like yesterday
When I'm high like heaven
When I'm strong like music 'Cuz
I'm slow like honey, and
Heavy with mood
terça-feira, setembro 27, 2005
"I didn't want to know
I just didn't want to know
Best to keep things in the shallow end
Cause I never quite learned how to swim
I just didn't want to know
Didn't want, didn't want,
Didn't want, didn't want
Close my eyes just to look at you
Taken by the seamless vision
I close my eyes,
Ignore the smoke,
Ignore the smoke,
Ignore the smoke
Call an optimist, she's turning blue
Such a lovely color for you
Call an optimist, she's turning blue
While I just sit and stare at you
Because I don't want to know
I didn't want to know
I just didn't want to know
I just didn't want
Mistook the nods for an approval
Just ignore the smoke and smile
Call an optimist, she's turning blue
Such a lovely color for you
Call an optimist, she's turning blue
Such a perfect color for your eyes
Call an optimist, she's turning blue
Such a lovely color for you
Call an optimist, she's turning blue
While I just sit and stare at you
I don't want to know
Maynard James Keenan
segunda-feira, setembro 26, 2005
Estão lá os dentes, e o risco da ilusão de liberdade parece demasiado premente.
E no entanto está instalada uma espécie de serenidade estranha. Os acontecimentos passam à nossa frente como o resumo alargado de um filme. Estão lá os pormenores de realização, as cenas mal cortadas, as excruciantes, as desnecessárias, as belas, as que fazem valer a pena ter a noção de algo concluso.
Ser livre é entender ao máximo, no âmbito da frieza da realidade, aquilo que passamos a ser capazes de entender, onde antes apenas se combatia e criavam quezílias internas. É olhar para caminhos pedregosos e não desdenhar da suposta estupidez que leva alguns a trilhá-los.
Ser livre não é viver sem medo, mas abraçar a sua proximidade como um risco enimente. É dançar bêbedo num beiral que se torna um pouco mais largo, não sendo capaz ainda assim de deter o vento frio que denuncia o vazio mesmo ali ao lado.
Ser livre é perceber que nas amarras protectoras existem nós corroídos, elos ferrugentos que se partem perante a força de outra coisa maior que a imobilidade.
Ser livre é ter a noção de que o processo de transformação das dores pessoais nada mais é que uma teimosia, a qual só resulta quando julga que dela desistimos.
Quis ser livre durante um largo período de tempo. Porque acho que devemos isso a cada um de nós, num pressuposto claro de evidências e lógicas internas, no caminho para o potencial. Em sublimação, pelo menos sempre que possível.
Ser livre não é sonhar.
É perceber que acabamos de acordar, e nem tudo é absolutamente distinto dos alicerces dos nossos delírios.
Ser livre é não ter a certeza, e ir assim mesmo.
Porque volta a fazer sentido a viagem.
Seja ela qual for.
sexta-feira, setembro 23, 2005
Existe todo um debate em torno da questão, que mais me parece ir de encontro ao que são os códigos tradicionais. A metrossexualidade, ou qualquer outra designação que tenham convencionado atribuir-lhe, parece-me apenas uma evolução lógica. Tem um significado real do que é evolução tendente à igualdade não redutora. Em melhores termos, aquela que respeita as faces desejáveis da necessária diversidade entre géneros, mas nunca os limita na busca de uma evolução intrínseca, e obviamente, numa melhoria da relação com os outros.
Existem mulheres que fogem a sete pés do novo especimen, e outras que agradecem o advento do cuidado mínimo com a aparência. (E sim, as mulheres também são seres visuais, voyeurs e estetas pronta a qualificar e sntir os impactos de algo que pode ser o mínimo do seu paradigma.)
A verdade é que, á semelhança do que diz o meu amigo, o metrossexual propriamente dito não existe. Ou a existir, é apenas o produto de um estereótipo inventado pela malta que insiste em manter uma fidelização ao macho latino e cria uma espécie de ícone pronto a ser atacado, especialmente porque não existe.
Como tudo na vida, a conta peso e medida de qualquer conceito. Qualquer afectação ou exagero entra no plano do rídiculo e do conceito pronto a seer engolfado pela chacota.
Mas desenganemo-nos se de alguma forma a evolução das coisas nos pode deixar indiferentes perante aquilo que passa a ser exigido de nós. Malta, acordem para a vida. As mulheres também têm a sua quota parte de exigência. E embora possam ser mais generosas e miopes quanto ás nossas limitações físicas, a verdade é que também fazem as suas exigências, e começam a traçar os seus limites.
E sinceramente, acho bem. Acho que não é plano isolado de um qualquer género a capacidade e preocupação com a sua evolução e melhoria pessoal, seja em que plano for. Sim, porque essa designação do chamado homem moderno também compreende a evolução da sua sensibilidade ao nível da cultura, da mentalidade, da abertura de horizontes. Aquilo que é apelidado de metrosseuxualidade nada mais é que uma reinvenção daquilo que aconteceu no renascimento onde homens como Giordanno Bruno eram filósofos, matemáticos, pintores, mas também atletas. Ou seja, a evolução e a melhoria de motivação intrínseca no sentido de ir ao encontro de algo melhor, de si para si próprio, e por inerencia, para com os outros. E mais propriamente as outras.
Por isso, e na linha do que diz o meu amigo, a associação da metrossexualidade com a homossexualidade tem dois gravíssimos problemas:
1 - É feita como se a segunda fosse algo de pernicioso que transpira para a primeira
2 - É um estereótipo criado para tranquilizar a inércia de certas pessoas relativamente ao que é uma evolução natural, sem exageros ou afectações. Para certas pessoas, o esforço para estar melhor (fisica e intelectualmente) é supostamente eivado de um artificialismo evidente. Tal conclusão é injusta. Estarmos melhores perante nós e mesmo perante aqueles que connosco interagem é até uma medida de respeito para com todos os envolvidos.
Claro que no fundo, cada um vive como quer, e isso é perfeitamente legítimo.
Mas qual é o problema no facto de os homens quererem evoluir, estar melhores, ir mais longe? Em cuidarem de si mesmos?
quarta-feira, setembro 21, 2005
Mas somente quase... é uma ilusão quase perfeita. Quase...
Porque de uma certa forma, nunca sabemos até que ponto podemos ser ultrapassados por nós mesmos. Os nossos desejos brincam connosco, fazem-nos voar ou enterram-nos em escuridão opaca. Dançamos a sua musica como se nada mais pudéssemos ouvir.
E nessa redoma de encantamento, nessa parcela de mundo que pode realmente isolar-nos, talvez só a amizade possa entrar. Porque será ela que acabará por nos vingar sempre, quando a ilusão termina e deixa aquela voraz insaciedade. Aquela que muitos dizem que o tempo cura, mas que bem vistas as coisas, só piora, até que apodrece e se esquece, porque a substância sonhada deixa de ter o formato pelo qual foi amada.
No fundo, é um processo de substituição, nunca de esquecimento. Porque esse momento deixa-nos sempre de alguma forma perdidos nem que seja pela reiterada memória que dele possamos ter.
A primeira, porque a inércia forçada cria um senso de impotência dupla – pela vontade em aceitar desafios maiores que a vida, e por entender que não existe nenhum que seja eficaz, aumentando assim a sensação de inutilidade.
A segunda porque de alguma forma o amor atinge o seu ponto mais elevado quando se apresenta inacessível. Para algumas pessoas, a intolerabilidade do sofrimento acessório é uma realidade tão presente como a verificação do sentimento. As pessoas rendem-se no campo de batalha, precisamente quando já não há inimigo. E o querer atinge as fronteiras do desespero.
É estúpido e de alguma forma ilógico. Gosto de pensar que muitas pessoas, (e incluo-me nelas), aceitam a continuidade da dor e irreversibilidade até criarem anticorpos absolutamente eficazes. Um amor real que se consiga esquecer realmente nunca retorna. É a morte no seu estado puro.
sexta-feira, setembro 16, 2005
I haven´t done it for months now, and don't have the need anymore, but I'll always understand the impulse.
quarta-feira, setembro 14, 2005

(foto - Filipa Oliveira)
A Dor.
A dor não é mitigável. Quando é real é bruta, incontida. É um dente farpado da realidade, cravado numa infecção envelhecida. A dor aparece sempre injusta. Aparece como o reflexo de uma desordenação do estado natural de tudo. Escapa ao entendimento por ser uma imaterialidade constituída por um mau estar. Uma sensação.
A dor é sempre uma via dual. Alguém é sempre responsável e alguém responsabilizado. A dor real é o conjunto de todos os segundos de solidão concentrada num esgar de mal-estar produzido por um qualquer deus interno e obscuro.
A dor é subestimada. Encarada como um luxo. É uma espécie de muleta aos discursos socialmente correctos e interpretativos da necessária alternância de sorte. Pior ainda, em muitos casos é ignorada como um recorte de personalidade.
A dor não pede licença. E não se combate. A dor é o abraço de um porco-espinho ferrugento, o perpassar de todas as mágoas de todos os conceitos num filamento afiadíssimo cujo corte, inclemente, teima em permanecer.
A dor não é relativizável. A dor é sempre relativa ao observador, e é talvez a maior injustiça quando o seu surgir está sempre precedido da total incapacidade de a afastar. Não salvamos, e mesmo não culpados, aparecemos sempre como responsáveis.
A dor é a reprodução do inferno em que se tornam os outros. É um instante. Terrível e inexplicável. Sem pretensões a razoável, mascara-se de eterna, como qualquer outra emoção real.
A dor colhe todas as estrelas num céu nocturno e deixa apenas a escuridão. No seu esplendor, é uma massa intransponível e incompreensível, como a ordem ilegítima de um tirano sem rosto sequer.
terça-feira, setembro 13, 2005
sexta-feira, setembro 09, 2005

Deparei-me com ela no outro dia. Escondida num jardim anónimo. Estava ali, e olhava-me. Fixamente. Os recortes desencontrados da sua perfeição, as cores cortadas do tecido real por mãos de artesanato. Criada assim sabe-se lá porquê.
quinta-feira, setembro 08, 2005
quarta-feira, setembro 07, 2005
"As definições de amor podem variar de pessoa para pessoa, e geralmente variam. São elementos da percepção de realidade de cada um, e apesar de ser o elemento de relacionamento humano mais debatido, estripado, e o maior produtor de clichés do mundo dos conceitos, creio que quem o sente nunca dá conta disso. Nem sequer admite essa perspectiva. Para essas pessoas, para todas, arrisco-me a dizer, parece sempre algo diferente e único. Algo que nunca ninguém sabe como é, que parece superior a todas as outras manifestações similares.
Naquela idade, é algo de violento, pueril, e absolutamente impregnado de um elemento ilusório de imortalidade. Parece que nunca cessará, que tem todo o mundo e tempo à sua frente, e que nenhum destes poderá alguma vez colocá-lo em causa. E quem o sente tem tanta certeza disso que normalmente não admitirá qualquer argumento em contrário. Aliás, tentarão defender a sua existência, mesmo quando este sentimento já neles estiver moribundo ou mesmo morto. A lealdade ao conceito de primeiro amor é ainda mais forte que o amor em si. Talvez porque a descoberta de algo provoque aquele sentimento de posse e imutabilidade. Uma espécie de registo de patente na alma.
Quando acaba por morrer, e quase sempre o faz, deixa no entanto este traço de identidade, e arrisco-me a dizer duas coisas, segundo a minha fraca e parcial perspectiva.
A primeira, é que guardamos mais a ideia de como nos sentimos naquela altura, uma entrega sem vícios de experiência, sem artifícios de auto protecção cínica ou pessimismos, do que talvez a pessoa em si.
A segunda, é que a ideia de que não há amor como o primeiro, está certa e errada ao mesmo tempo. Acho que de uma certa forma, pode existir um amor que fique em primeiro lugar, mas esse não é necessariamente o primeiro. Quase nunca é, digo eu..."
terça-feira, setembro 06, 2005
Daí que todos os elogios à solidão me pareçam más sessões de auto-terapia, como cassetes tocadas até que a fita se parta e os sons da realidade invadam sem contemplações o núcleo de uma paz que parece podre.
"If we hope for what we are not likely to possess, we act and think in vain, and make life a greater dream and shadow than it really is. "
Joseph Addison
Encontra-se assim explicado o template para grande parte da (i)lógica do amor. Mas era Bernard Shaw que dizia que só os desrazoáveis faziam esta merda andar para a frente...
Em que é que ficamos?
segunda-feira, setembro 05, 2005
"A mother's goodbye lesson
By Dr. Larry Zaroff The New York Times
THURSDAY, SEPTEMBER 1, 2005"
Qualquer forma de totalitarismo é má, perversa e podre antes sequer de amadurecer. Seja de esquerda, direita, centro, cima, baixo, ou qualquer quadrante que possam imaginar.
Mas o liberalismo total e a falta de regras mínimas só me faz lembrar Golding.
Leiam todos os capítulos.
É, como a própria diz, uma boa história. Das melhores que li por aqui ultimamente.
sábado, setembro 03, 2005
Está um calor infernal e o som do eco dentro de casa tem aquele revestimento a tempo.
Na segunda feira o chamado ano activo começa a todo o vapor. Bem vistas as coisas, começa o ciclo do cansaço que talvez não tenha sequer sido interrompido.
O mundo vai começar a mexer novamente, Lisboa vai encher como a estrutura macrocéfala que é, e os ciclos vão iniciar-se.
E no entanto, olhando adiante, prevejo que na última noite do ano, 2005 vai parecer um longo e penoso pesadelo.
São os "blues" de uma tarde de Sábado.
Não liguem.
quinta-feira, setembro 01, 2005
Não há como fazer justiça, ou dizer algo minimamente adequado perante algo assim. As perdas são muitas vezes brindadas com um discurso de desdramatização, com o cliché absolutamente enervante de que o tempo cura tudo e tal e o camandro. Mas a percepção das realidades de quem perde, de quem se apercebe da irrecuperabilidade e da ausência de esperança, são de tal dimensão que qualquer tentativa de verbalizar um conforto redunda numa deselegância trapalhona, embora bem intencionada.
A perda não se relativiza. É terrível, e de alguma forma, tem sempre um cunho de injustiça, de traição, de inexplicabilidade. A perda não faz sentido. Não se cresce pela perda, mas pelo valor que se dá ao que deixa de existir, ao que morre, ao que nos é roubado. A maturidade surge do valor que damos às coisas, aos eventos, às pessoas, às idiossincrasias sem relativismos absolutos. E como custa nunca salvarmos quem por elas passa, porque o tecido do real não nos permite. Porque não temos o poder de elaborar uma solução irreal, e tornar o absoluto em esperançoso relativo.
Queria apenas dizer isto e deixar uma palavra de homenagem, ou sensibilização, ou solidariedade, sei lá(!) para Ela, porque nem consigo imaginar o que sente, nem consigo dizer-lhe nada que seja adequado ou que conforte.
A ordem natural do mundo por vezes é terrível. Insuportável mesmo.
Um ano depois.
Para quê metáforas acerca do impossível, quando este esteve ali, à nossa frente.
Imaginar o medo, dor e angústia dos que sofreram na pele o sequestro, ou daqueles que fora da escola aguardavam pela mais terrível aleatoriedade, é algo que nem sequer consigo imaginar.
Ou talvez não queira.


