ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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quinta-feira, novembro 24, 2005

FALA QUEM SABE OU QUEM CONSEGUE
I

The sea is calm to-night.
The tide is full, the moon lies fair
Upon the straits;--on the French coast the light
Gleams and is gone; the cliffs of England stand,
Glimmering and vast, out in the tranquil bay.
Come to the window, sweet is the night-air!
Only, from the long line of spray
Where the sea meets the moon-blanch'd land,
Listen! you hear the grating roar
Of pebbles which the waves draw back, and fling,
At their return, up the high strand,
Begin, and cease, and then again begin,
With tremulous cadence slow, and bring
The eternal note of sadness in.
Sophocles long agoHeard it on the {AE}gean, and it brought
Into his mind the turbid ebb and flow
Of human misery; we
Find also in the sound a thought,
Hearing it by this distant northern sea.
The Sea of Faith
Was once, too, at the full, and round earth's shore
Lay like the folds of a bright girdle furl'd.
But now I only hear
Its melancholy, long, withdrawing roar,
Retreating, to the breath
Of the night-wind, down the vast edges drear
And naked shingles of the world.
Ah, love, let us be true
To one another! for the world, which seems
To lie before us like a land of dreams,
So various, so beautiful, so new,
Hath really neither joy, nor love, nor light,
Nor certitude, nor peace, nor help for pain;
And we are here as on a darkling plain
Swept with confused alarms of struggle and flight,
Where ignorant armies clash by night.
Dover Beach
by
Matthew Arnold
Apenas um comentário acerca da rábula do Nuno Markl acerca da posição da igreja relativamente á proibição da ordenação de gays, ou de quem supostamente apoia a cultura gay ( seja isso o que for)...
Brilhante.
Apenas um comentário a mais uma pérola de Ratzinger...
Triste.

quarta-feira, novembro 23, 2005

If I dream and see your eyes, lost inside a city of untamed hair, and come to a conclusion, is that beauty sometimes transcends all definitions, and the capability to state them.
As I see myself small in front of that beauty, I believe myself to be huge when I find it possible to behold it, as a simple miracle, as a killer of cynicism.
And as I imagine, and find myself incapable of letting the images go, I recreate pain in the form of energy, for rage, when just, saves our sense of dignity. Because it states realism, and we feed on the ground on which we stand.
Of course you are nothing but imagination. But that doesn’t mean that you do not feed on me, and my debt is my simple and explicit demonstration of a quiet rage.
You do not exist, and yet I hear you all the time. My hands just flow through whatever they have to do to reach some representation of a synonym for beauty that has no defined form, no unthinkable pain derived from distance.
And as I always told you, on the edge of what I am, a simple and mild child, don’t think that I can pretend that the world can’t come to an end.
But let him say that to me, in person.



Como é possível que não te deixem cantar...
Apenas uma demonstração da palhaçada asquerosa em que se tornou a modorra cultural e artistica feita de tipos que falam em vez de cantar, mostram umas gajas com mamas e cus empinados e vendem uma porrada de discos a malta que acha que é cool andar de arma á cintura e parecer-se com um gangster.

Leiam e constatem a razão pela qual o novo album de Fiona Apple não é editado e que explicará talvez o problema que a Sony Music terá tido com mais artistas no passado.

O mercantilismo economicistas é realmente, a espaços, o conceito mais nojento e infeccioso do planeta.
Se:
As pessoas não fazem esforços,
Aceitam a rotina como algo de absolutamente normal,
Acham que tudo se torna mais importante que cuidar de algo que supostamente deveria unir duas pessoas,
Encontram a importância nas merdices e picuinhices, porque tudo pode ser deixado para amanhã,
Desistem da sua individualidade porque aceitam que não a podem partilhar a certo nivel com a pessoa que escolheram,
Encaram o desinteresse como uma consequência normal da dinâmica relacional,
Abandalham o espólio intelectual e físico porque afinal de contas, "há coisas mais importantes" e "isso já não interessa" porque afinal, no que diz respeito à pessoa, "já está",
Nada criam, nada provocam, nada mudam, nada evoluem porque o pragmatismo levou a melhor e há que pensar em tudo menos nisso,
Entendem que a voz interna morre na vida adulta porque a imaginação é coisa de miudos,
Aceitam que uma qualquer espécie de relação duradoura/estável é uma negação de brincadeira, de travessura ou risco,
Encaram os outros como bibelots num anúncio simpático a cerveja os whisky novo,
Acham que está tudo dito quando se atolam das supostas felicidades das obrigações, e deixam morrer a voz interna, o espirito criativo e a ideia de que a sua liberdade nunca pode estar em causa, porque só a entregando de livre vontade e sempre na medida certa é que se consegue pertencer a alguém...
...Façam um favor a vós próprios, e aos outros.
Fiquem sós e pensem no que andam a fazer. Na merda que andam a fazer.
Se acham que no complexo afectivo entre duas pessoas tudo é relativo, então a maior das faltas de respeito está efectuada. A falta de esforço redunda no desrespeito de considerar que qualquer acordo tácito relacional justifica todo o tipo de modorra ou automatismo sonolento.
Ou então aceitem, e não se queixem. Assumir as responsabilidades é já um caminho célere para a dignificação de uma mudança necessária.
E percebam rapidamente que estão mortos, e ainda não receberam o aviso lá em casa.
A maturidade não é medida pela ausência de rugas na gravata, ou as medalhas de mérito obtidas na realização dos pragmatismos.
A maturidade é aceitar as coisas na verdadeira medida, mas rebelar sempre contra aquilo que afoga a idiossincrasia do espírito. Porque se é certo que não podemos ser sempre felizes, é igualmente indiscutivel que a felicidade a espaços é possível, desde que procurada activamente.
Se não estão para isso, não se queixem.
Não têm qualquer legitimidade para o fazer...

terça-feira, novembro 22, 2005

(...)Qualquer coisa que esteja bem nestas tomadas de consciência, é mérito de quem as passou.
O que estiver mal, estará por culpa de quem as interiorizou incorrectamente, ou seja, eu. Se vos parecer demasiadamente com um texto de auto ajuda, fica desde já esclarecida que não é essa a intenção, e apresentadas as desculpas por isso mesmo :)


A LISTA - PARTE II

11. Conhece o teu corpo. Usa-o ao extremo. Mas conhece o teu ponto de harmonia. Raramente conseguirás lá chegar, mas poderás estar sempre nas redondezas.

12. Quando cumprimentares alguém, não te fiques pelos monossílabos. Pergunta sempre como elas estão, pois não estão habituadas.

13. Recorda-te que o dinheiro não é tudo, mas que sem ele não podes fazer nada.

14. Serve-te da natureza, mas nunca abuses dela. A memória da terra não é assim tão má como a ignorância parece crer.

15. Sê modesto, mas acredita no que podes efectivamente fazer.

16. Dá o exemplo, mas acalenta os vícios que te tornam mais humano. A negação destes tornar-te-ão frio e inacessível.

17. Numa conversa de amigos, inventa acerca de ti uma história divertida. Depressa te aperceberás de que as histórias que são verdadeiras virão à memória muito mais rapidamente, e com outro gosto e vivacidade.

18. Lê! Seja lá o que for, mas tenta sempre saber coisas diferentes, nem que seja algo chato. A cultura, em alguns aspectos, é necessariamente chata!

19. Tem cuidado com as crianças que encontres. Se não tens jeito para elas, aprende rapidamente, pois serás recompensado de uma forma que nunca ninguém espera.

20. Ao cumprimentares as pessoas, toca-as o mais possível.



Das melhores tiras de uma das melhores BD dos ultimos tempos.

Mutts, de Patrick McDonnell...

E uma homenagem a alguém que adoro ver rir...

domingo, novembro 20, 2005

Os modos de vida que nos são apresentados, por circunstâncias de vida, surgem como estranhos, mas depois encaixam perfeitamente. Primeiro estranha-se, depois entranha-se, já lá dizia o génio.
Acabamos por gerar a normalidade a partir do que surge inicialmente como gritante originalidade. Há quem diga que alguns aceitam a lógica do que são capazes. Outros simplesmente aceitam o receio como parte integrante de uma vivência, e entregam-se ao que são capazes.
Dificil aceitação aquela que se apega à normalidade. Aos códigos do que, sendo aceitável, simplesmente restaura uma noção de desespero em contagem decrescente perante o que toda a gente considera como "o normal objectivo".
E se aquilo que toda a gente quer tiver sido roubado? E precisamente por excesso de aceitação do que é considerado aceitável, ou bonito, ou mesmo desejável?
Ninguém responde.
E os pequenos crimes acumulam-se.
Quid Juris... ?

sexta-feira, novembro 18, 2005

Começo hoje uma espécie de listagem de máximas que apenas têm eco naquilo que o contributo dos outros me ensinou.
Conceitos e ideias que retive dos ensinamentos e experiências junto a outros, e que me levaram a estas pequenas e inconsequentes conclusões.
Qualquer coisa que esteja bem nestas tomadas de consciência, é mérito de quem as passou.
O que estiver mal, estará por culpa de quem as interiorizou incorrectamente, ou seja, eu. Se vos parecer demasiadamente com um texto de auto ajuda, fica desde já esclarecida que não é essa a intenção, e apresentadas as desculpas por isso mesmo :)
É dirigida a uma um personagem feminino que sinceramente, nem sei bem que é...
A LISTA - PARTE I
1. Quando acordares, levanta-te depressa. É a única forma de apagar rapidamente o toque da preguiça;

2. Fala bem alto de manhã. Nem que seja sozinha, pois esse tipo de loucura é sedutora;

3. Entristece-te se for necessário, mas evita ao máximo o desespero. A primeira é genuína e válida, mas o segundo não é condição de vida, apesar do que possa ser dito em contrário;

4. Elogia as pessoas que amas, sem bajulices. Os silêncios subentendidos não são tão subentendidos como isso, e o amor necessita de ser falado;

5. Sê sempre educado, mas nunca deixes de perder a calma quando isso se justificar. A contemporização é, infelizmente, demasiadas vezes confundida com fraqueza;

6. Faz algo disparatado todos os dias. Mesmo aquilo que te pareça mais idiota no momento menos importante. O absurdo praticado ajuda a entender o alheio;

7. Sorri para todas as pessoas que o merecem, mesmo que a tua disposição não seja a melhor. é a melhor forma de ser facilmente reconhecido;

8. Não apagues toda a irreverência do teu espírito. A tua resistência tornar-te-á identificável e respeitada até mesmo pelos teus antagonistas e inimigos;

9. Nunca olhes para um momento especial pensando no medo que tens do seu término. Conta antes os segundos em que te apercebes que foi melhor estar vivo para estar a vivê-lo.

10. Aceita as críticas, mas procura sempre refutá-las. Os teus argumentos serão sempre prova de que elas foram injustas, e a incapacidade dos mesmos provará a irrefutabilidade daquelas.
(...)

quarta-feira, novembro 16, 2005



A ausência de palavras, perante a manifestação complexa e subjectiva de beleza, é apenas a lógica comportamental que determina a reacção perante o evidente e completo.
Porque nos deparamos com algo que transcende uma certa capacidade analítica de explicar cada arrepio leve da estética que nos invade, ao mesmo tempo que percebemos o que ultrapassa essa mesma ideia, e que no fundo até a pode revelar.
É por isso que a complementaridade e o equilíbrio são uma busca.
Constroem-se, e ninguém, mas ninguém nasce com eles.
Talvez a voz, talvez o contorno, mas talvez a visão só seja possível quando o resto leva o palpável a transcender-se.

terça-feira, novembro 15, 2005

"Ignorance is the night of the mind, but a night without moon or star."

Confuncio

O grande problema é que de uma certa forma, muita gente escolhe nem ver a mínima réstia de aurora.

sexta-feira, novembro 11, 2005

O silêncio que se pensava impensável, tornou-se afinal uma lógica, muito determinável.
As voltas que sentem estáticas, não são mais que amostras de delírio, necessariamente erráticas.
Aquilo que é feito de alegria impensada, é o produto de cada pedaço de originalidade dispensada.
A paragem dos papagaios num céu sem vento, são as escolhas alheias, cuja fundamentação é tão inexplicável como o seu intento.
O facto de não querer saber, não é verdade, trata-se apenas de defesas, nascidas de simples ansiedade.
O silêncio que se pensava impensável está cá por escolha, à espera que a mesma se torne consciente, e alguma redenção a recolha.
E nas percepções dos dias que se sucedem, na rapidez que entontece, vejo o imenso sucedido, porque se calhar, afinal tudo acontece.
Tornada incolor a consistência de cada pedaço de memória, deixa-se de lado uma possível e dolorosa realidade, para se tornar história.
O silêncio que se pensava impensável, e a vida daí decorrente, torna o passado já suportável, porque afinal, não é o presente.



Hoje apetecia-me falar de algo belíssimo e perturbador.
Enquanto conceito.
E depois ocorreu-me.
Para quê cansar-vos com palavras, quando num segundo se torna tão fácil ver o que quero dizer ;)
É assustadora a facilidade com que se consegue manter distância.
E como isso é um código aceite.
Como surge á guisa de dissuasão causada pela visão de uma arma carregada, pronta a mostrar o que se intui até por vezes como um tique de personalidade.
É por isso que tenho evitado olhar-me ao espelho nos ultimos dias.
As atitudes perante as obsessões têm dois espectros antagónicos.
Existem aqueles que as tentam combater, e em alguns casos, até são bem sucedidos, e existem os outros que as agraciam, como uma espécie de lógica irremediável e tão característica como a curva do nariz ou a cor dos olhos.
Sem de forma alguma julgar os tiques esquizoides de cada um, ( chiça e eu tenha alguns), a verdade é que a insistência num comportamento que em ultima instância se torna auto-destrutivo, escapa-me. Não tenho qualquer forma de procurar uma empatia mínima com aquilo que está mais que provado, e não se compadece com o mínimo de auto-respeito. E no entanto sucede, porque algumas pessoas traçam a linha demasiado além do razoável, e com isso, criam a falsa sensação de limites de respeito próprio que, a mais das vezes, já arderam há muito.
Claro que as obsessões não se compadecem com racionalismo. A raiz do conceito assim o dita.
Mas a linha é sempre conhecida. A pessoa sabe sempre a cor dos seus olhos e pressente a curvatura do seu nariz. E a identidade sofre os abalos de recuos cada vez mais pronunciados, porque alguém provavelmente aproveita um poder que não deveria ter, mas que lhe é ofertado em bandeja.
As obsessões são uma espécie distorcida de porto seguro. Por vezes creio que as pessoas só se reconhecem no exercício da sua obsessão, levados pelo desejo de certeza do que são e como o manifestam, ainda que isso as vá destruindo.
Algumas pessoas não estão preparadas para a perda. Nem querem estar.
Embora fosse isso a possível solução.
"Tiny Little Fractures"

Is there a place I can go
Is there a light to get me there
If I've forgotten what to say
It's because all words are dust
If this is really what you think
How come you won't look me in the eye
All this crying in your sleep
As I lie awake beside
Is there a T-shirt I can wear
Coz I am soaking look at me
What do you mean I don't love you
I am standing here, aren't I
Maybe you thought of it first
Maybe I get all the praise
Is there a place I can go
Is there a light to get me there"

Snow Patrol

Mensagens de outros tempos.
As recordações também podem ser conceptuais, úteis, além de neutras.
Felizmente.

quinta-feira, novembro 10, 2005

Nos dias que amanhecem assim, fica a nítida sensação que por mais improvável que seja, é possível continuar a ser medianamente optimista.

Alguém lá ao fundo protestou.

Os aplausos são de facto para lá, embora a luz teime em ficar acesa.

Ou quase.
Por instantes estive quase lá novamente...

Deve ser este o real sinónimo de aprendizagem.

terça-feira, novembro 08, 2005

segunda-feira, novembro 07, 2005

Não faço ideia do que se passa em Paris. Em França, aliás.
Assusta-me e preocupa-me, mas falta-me talvez ainda mais informação para poder entender minimamente o que se passa.
A ideia que me dá é que estamos perante o rebentamento de uma bolsa infectada de sociedade, por um pretexto que dá a mais perigosa ferramenta que uma multidão necessita. Uma causa.
Estamos perante uma reacção violentíssima de um sector de excluídos, aproveitada a espaços por arruaceiros profissionais para os seus intuitos próprios.
Mas coloca-nos uma questão pertinente, que obriga a um olhar atento para elementos preocupantes numa sociedade fracturada por códigos e elementos gregários diferentes.
A exclusão gera raiva, e com ela toda a falta de espírito crítico e discernimento que resultam em violência inaceitável e injusta. No fundo parecem dois sectores da sociedade que se canibalizam, sendo que o papel predatório vai alternando sequencialmente. A violência verte com a naturalidade e cadência de algo que se impele a si mesmo. As razões originárias desaparecerão em breve, e cada soldado de rua recrutado junta-se a um bando que resiste, provavelmente não sabendo coisa alguma sobre os "mártires" que deram origem a esta situação.
É, no fundo, a história mais velha do mundo.
Alguma razão haverá para este fenómeno.
Ou milhentas.
Mas qual será?
Os motins de Los Angeles começaram com algo muito parecido.
O que faz crer que existem demasiados rastilhos por identificar, e que a dita segurança presente à ordem pública é cada vez mais uma ilusão.
A separação dos estractos sociais cria monstros. Lembrando Goia, talvez até mesmo o sono da razão colectiva.
Sei lá...
Acarinhamos o que é (também) nosso.
Fazêmo-lo, porque a naturalidade de qualquer expressão de afeição é a conservação da vida, a manutenção da natureza doque nos enlaçou, nos trouxe uma percepção estética e afectiva perante algo ou alguém.
Cuidamos dos que escolhem a nossa presença, que absorvem o nosso conceito, para que possamos simplesmente desfrutar de algo que nem sequer pode ser apelidado de retribuição. É apenas a verificação da vontade, criada de forma alheia e pela qual somos inconsciente e felizmente responsáveis.
Agimos perante o que nos agrada, porque a paixão abstracta é uma forma de rendição. É por isso mesmo que nos abrimos a uma melodia e ela nos leva daqui para fora. É por isso que procuramos cada letra, som e imagem que nos construa a inconografia certa do que somos fora de nós.
Somos o que podemos, porque não temos alternativa.
E pensando bem, não precisamos.
Porque se vamos sempre evoluindo, mantemos a constância do que nos sustenta, e melhoramos, convictos de que a inércia é a morte por asfixia que qualquer forma de amor por qualquer coisa ou pessoa.
Cuidamos do que é nosso, porque não temos outra alternativa.
A percepção da afeição é por vezes demais.
Enche-nos de tal forma que tendemos a libertar o excesso através da paixão, do juízo rendido. Somos forçados a admitir que a paixão é em si criada, e nasce de dentro para fora.
Como aliás, a maioria das coisas.
Cuidamos do que é nosso porque fomos nós que o fizemos.
De todas as formas.
Como fomos ou somos igualmente feitos...

sexta-feira, novembro 04, 2005

No outro dia discutia com alguém, quais os mecanismos para que uma relação de compromisso e longo curso pudesse funcionar.
Esta é talvez a pergunta mais recorrente no chamado mundo urbano/moderno, e aquela que menos pessoas conseguem responder. Talvez por isso, na faixa etária onde me situo, só me depare com duas situações.
- Pessoas comprometidas, divididas entre aquelas com vida infernizada e os que conseguem ser decentemente felizes ( filhos da mãe sonegadores de fórmulas bem sucedidas).
- Pessoal que se separou e se vê plantado na chamada normalidade quotidiana.
O verdadeiro(a) solteiro(a) não existe aos trinta anos. Bem, com algumas raras excepções, a verdade é que as pessoas raramente acordam aos trinta anos com a noção de que ainda não tentaram um projecto. A mais das vezes, e agora tendo em conta o segundo grupo, sabem que tentaram e reiteram pensamentos relativos à merda que lhes terá acontecido.
Lambem-se feridas, conjectura-se acerca das marcas que ficam, e a forma como estas são realmente muito mais complicadas de ultrapassar do que se julga.
O solteiro dos trinta anos simplesmente conjuga uma espécie de crença suave com um pragmatismo reactivo que diz algo muito simples - "Eu sei muito bem o que não quero" - por isso, os ameaços de chatice são corridos a uma velocidade estonteante.
(Assim sendo, o solteiro de 30 anos sabe o que não quer, e como tal perde a paciência para amantes de Nicholas Sparks, Paulo Coelho, Celine Dion, gente que escreve em linguagem sms, histerias, fundamentalismos, pressas, burrices emocionais por precipitação, moralismos, anarquias emocionais, etc, etc, etc)
Esse pragmatismo é algo de insuportavelmente chato quando confrontado com várias premissas, como as comparências desacompanhadas a jantares. Ou as conclusões alheias e opinativas de relacionamentos infelizes e conflituosos acerca de formas atalhadas de estar com alguém, como se existisse uma moralidade subjacente ao facto de se partilhar algo especial com outra pessoa.
A verdade é que os gatos escaldados simplesmente aceitam uma latitude maior de formas de estar, e vivem como podem, da forma que as suas defesas lhes permitem. Para alguns é incompleto, mas para quem nunca experimentou uma perda relacional séria, ou o fim de um projecto de vida, a visão é necessariamente toldada. Ou entao é apenas uma questão de opinião emocional ou sensorial, e como tal, não sujeita a postulados ou axiomas. Há muitas formas de se conseguir estar com alguém, precisamente porque o baixar da guarda se torna cada vez mais dífícil. Porque as coisas realmente doem, e a vulnerabilidade é apenas um pedacito de pele que não suporta muitos esfolamentos consecutivos, sob pena de se descaracterizar ou destruir.
O solteiro pode ser teimoso, mas raramente é convicto.
É, no máximo, humano, e vive como pode com os fantasmas que o assolam, mas plenamente consciente de que não consegue nem quer afastar-se do mundo das pessoas, que ainda é a motivação maior que possui.
Claro que muitos transformam isso numa jornada de líbido ou de descoberta desenfreada. Alguns entram em stress completo porque concluem que as barreiras se mantêm firmes, apesar de todos os esforços. Há outros que se enamoram realmente, e simplesmente se deixam ir porque como qualquer pessoa calçada com borracha lisa em gelo polido, só podem mesmo é escorregar.
A noção é esta - as relações para funcionarem, dependem de coisas tão singelas como sentido de humor, esforço, e capacidade de ser o mais extraordinário possível. E isso deve ser ponderado através mesmo da actividade profissional ou o desejo de criar um rancho de pirralhos. Porque, como me disse a pessoa com quem conversei sobre o assunto, tudo menos que o extraordinário entre duas pessoas, é inutil e uma perda de tempo.
E como ele tem razão.
O solteiro escaldado sabe disto.
Perfeitamente.
Ah, já para não dizer que são devoradoras de todos os livros do Paulo Coelho...
Se conheço mais alguma mulher cujo livro preferido é "As Palavras que Nunca te Direi", e o filme favorito " O Diário da Nossa Paixão", vou cortar os pulsos com um X-Acto, ou simplesmente premir o gatilho...
As pessoas dizem que a vingança é um prato que se come frio, mas sobretudo que é um sentimento desprezível.
Algo que supostamente apodrece o espírito e deixa uma lógica de eterna falta de paz na expectativa de um ressarcimento que nunca é o esperado.
Não sei muito bem o que pensar disto.
Entre a vingança e a impunidade, venha o diabo e escolha. Qualquer uma das duas é perniciosa, mas depois recordo-me de Dantes e dos 40 anos no castelo de If. E sinceramente, payback might be a bitch, mas por vezes é absolutamente justo e bem aplicado.
E afinal de contas, Justa ira é boa ira. Ou não?

quarta-feira, novembro 02, 2005

Aproxima-se o fim do ano, as festividades.
Aproxima-se uma reflexão aturada sobre o tema, as urgências dos afectos, a dentada mais forte da solidão, os balanços, as medicações de alma, enfim...
Aproxima-se o genesis... ou o némesis...?
Em três passos de uma energia renovadora,
Está a morte em fuga,
E a tua visão, assim dominadora...
Embora eu ande necessariamente perdido entre a minha costela inatista e uma outra feita de empirismo, tendo a dar uma certa preponderância ao poder modelador das experiências tidas.
E isto porque quando chegamos a um certo ponto na nossa vida, não temos outra alternativa senão aceitar que as formas de viver podem alterar-se a pontos quase não admissíveis pela chamada "normalidade".
Formas talhadas e guiadas pelos contornos possíveis, que espantam e transmitem estranheza. Mas essa estranheza assenta numa percepção diferenciada. Naquilo que alguns viram, e outros não. Naquilo que alguns perderam, e outros apenas acham que podem imaginar o que será essa perda.
Entendo perfeitamente que para alguns, a falta de convencionalidade não faça sentido. Porque existem demasiadas coisas a proteger. Os pés normalmente não gostam de solos falsos, e as derrocadas, ainda que parcelares, podem ser desconfortáveis.
Eu sempre julguei que as defesas pessoais fossem produtos de uma normalidade de processos conscientes, de vontade expressa. Algo que provém da vontade própria, traduzida no abafar de uma qualquer promessa de fogo.
Mas estava enganado.
As defesas surgem como um espirro, como o estertor de um corpo a adormecer ou o reflexo vocal perante a dor. Não estavam lá. Mas depois estão. Aparecem. Solidificam-se. Borrifam-se nos nossos protestos e assentam arraiais, coriáceas como só as intransponibilidades o conseguem ser. O estilhaçar de qualquer coração é demasiado ensurdecedor, e repete-se como a zanga de trovoada num céu negro ainda de dia.
É em razão dessas defesas que duas coisas ocorrem.
Ou se dá início a um rápido e progressivo processo de seca, de engelhamentos de todas as formas relacionais, sob a égide da segurança neutra.
Ou vive-se como se pode. Como é possível. Sem desvirtuar quaisquer emoções, sentimentos ou formas de estar. Simplesmente se encontra uma maneira. Pode por vezes assemelhar-se a roer uma passagem por entre as paredes do labirinto, mas ao menos tem-se a consciência de que ele existe, e que lá andamos. Vive-se como se torna possível não ignorar os contributos de uma realidade que nos tendo ameaçado, mostra sempre a outra opção.
E cansados, damos connosco em ebulição partida, porque embora certos locais estejam perdidos sem mapas, outros são o que somos, e não há volta a dar.
Abraçamos o que sentimos, e viajamos.
Ainda que seja como podemos.
Sim, é um fantástico modo de vida...

Passem por

Está cada vez melhor.

segunda-feira, outubro 31, 2005

Muitas pessoas dizem que é difícil experimentar uma certa felicidade pelo bem estar de outros. Pelos seus triunfos, pelo facto de que entre as suas mãos está um abraço real que os salva, nem que seja pedaço a pedaço, pelo facto de que talvez até estejam melhores que nós e não se coibem de nos exibir esse sorriso por esse mesmo facto.
Não entendo o conceito da inveja enquanto elemento abstracto. Ficar roído porque alguém conseguiu genuína e justamente um triunfo. Porque venceu à sua custa, e é alguém mudado em virtude dessas mesmas vitórias.
Não entendo como pode algo dentro de alguém contorcer-se em virtude do sorriso de felicidade genuína, que até sabemos que não durará muito naquela intensidade. Como verificamos que a aura da pessoa transpira para outros, e alguém simplesmente puxa a nuvem para o auge da parada.
A inveja mesquinha é dos sentimentos mais execráveis que existe ao cimo da terra. Oscar Wilde à parte, faz parte do elemento mais repugnate do cinismo, que assenta na recordação da morte necessária do que se mascara de eterno. Com alguma sorte e meio mundo de trabalho, até pode ser.
Mas o invejoso fará tudo para minimizar cada feito, para se sobrepor como uma espécie de delator das más colheitas e escolhas do mundo, como se este lhe pertencesse numa sala de audiência.
A inveja é a pior forma de roubo que existe entre pessoas de guarda meio baixa. Mascarada de adulação, não faz dos invejados Othelos, mas planta demasiadas sementes de dúvida, e esvazia os instantes que justificam todos os outros que não são tão bons. Ou mesmo insuportáveis.
Um invejoso queixar-se-á de um ruído no banco de um carro de sonho comprado pelo amigo que o desejava desde miudo. Criticará a voz estridente na terceira gargalhada da maravilhosa mulher que o amigo traz para um jantar. Sublimará as pequenas derrotas, e ignorará os grandes triunfos.
O invejoso só suporta ser condescendente. Quando erroneamente pensa que se pode tornar o queixoso dos efeitos de uma suposta felicidade superior.
Não é difícil ficar feliz por outros.
De certa forma descansa-nos. Permite-nos atacar outros problemas com mais força, porque sabemos que a nossa energia gasta a aplacar aquela dor alheia, deixou de ser necessária.
Ficar feliz pelos outros, é calçar um pouco dos seus sapatos, e passar mais uns metros no meio do vridro farpado. Sem cortes, sem cautelas. Anestesiados por algo que se resolve, e que pode muito bem propagar-se.
Num vírus de justificação terrena.
Alheio ás putridas vacinas da inveja.
Sim, é uma importação, mas em termos de iconografia, das mais felizes.
Claro que sou suspeito pela forma como ligo a noite das bruxas a qualquer traço dos ambientes conceptuais do Tim Burton, mas ainda assim há algo na exploração do medo, da percepção de outras realidades que as torna próximas e atraentes à curiosidade.
Nascida do paganismo ( muito mais divertido que qualquer forma de monoteísmo) e muito radicada na cultura anglo-saxónica,
esta festa assenta na nossa capacidade de experimentar o gozo do medo, o respeito pelo canto escuro que necessariamente está vazio, mas que se mexe por vezes sem que possamos arriscar um segundo olhar sem estremecer.
Bem sei que para comércio e afins, é mais um esfregar de mãos, porque os putos adoram uma boa desculpa para personificar aquilo que alguns já são - monstros à solta.
Mas é igualmente uma festa de imaginação, um instante para procurar coisas que não estão lá, mas que por segundos é bom ter a dúvida.
Um afloramento do paganismo acolhido pela sociedade monoteísta de hoje, que a mim muito me apraz. :)
Fora a mercantilização que se faz de tudo isto, o conceito importado é giro.
Por mim, bem inspirador. Ou não fosse a noite de Hallowen ( ou Hallow Eve) um eterno retorno às obras do mestre. Vejam a curta metragem Vincent.
E a viagem começa.
A falta de imaginação é a praga comunicacional.
Emudece tudo o que até podia ser genuíno, mas sai em fórmula, e penetra somente por rendição...
Amanhã faz um ano que algo muito especial aconteceu.
Algo que de alguma forma reúne umas pitadas de impossível, só entendido por aqueles que o vivem, que o respiram, que o aceitam.
Alguns, porque não lhes foi dado a conhecer este prisma ainda, vivem como podem e sabem. No fundo, todos fazemos isso.
Mas o restauro e manutenção de uma certa sanidade e amor pelas coisas mais fundamentais, teve a génese num pequeno pormenor que fará um ano de idade amanhã.
Um pormenor de cores escuras perante um rio de fios mais claros.
Um pormenor mais tarde reencontrado. Concretizado.
A felicidade simples das coisas realmente preciosas que tão raramente cruzam o nosso caminho.
Na noite mais pagã do ano, eis-me a ponderar certas formas de providência.
Agnósticas claro...
Embora ainda algo cedo, e na esperança do restauro das nossas reservas, branco é a cor do Inverno....
14 Furacões este ano....


"Nature is just enough; but men and women must comprehend and accept her suggestions."

Antoinette Blackwell

sexta-feira, outubro 28, 2005

Recupera-se, mas nunca se esquece.
Nunca.
A cura nunca é confundida com esquecimento.
As dores não desaparecem. Simplesmente mudam de enquadramento.
E retornam nos passos das memórias do que não tinha sentido, para que algum dia passe a ter.
Entende-se, mas regista-se.
Aceita-se, mas fermenta-se.
Percebe-se, mas questiona-se.
Recupera-se, mas nunca se esquece.
Para mim, dos momentos do ano em cinema :)

"Mal: Ok, clearly some aptitude for this, but it ain't all buttons and charts, little albatross. You know what the first rule of flying is? Well, I suppose you do, since you already know what I'm about to say.

River: I do. But I like to hear you say it.

Mal: Love. You can learn all the math in the 'verse, but you take a boat into the air you don't love, she'll shake you off just as sure as the turning of worlds. Love keeps her in the air when she oughta fall down, tells you she's hurting 'fire she keens.
Makes her a home.

River: Storm's getting worse.

Mal: We'll pass through it soon enough. "

Joss Whedon - Serenity
Para aqueles que acham que fazem pouco, ainda que em cada instante tenham a preocupação da melhoria, queria deixar uma palavra.
Deixá-los mais descansados porque há quem nada faça. Porque há quem nada crie para outros, não importando aquilo que lhes é dado. Que há quem simplesmente ignore a capacidade de fazer o fantástico das coisas mais simples. Há quem ignore que a proximidade, ou qualquer espécie de instinto gregário e afectivo não vive de subentendidos.
Para os que julgam que os esforços são parcos, queria apenas certificar que uma palavra é importante, e uma lógica de presença assenta na simplicidade frontal das pequenas dádivas. Para os que olham para os esforços ofertados com o reflexo das mãos vazias, queria apenas que percebessem que aquilo que fazem se transforma numa das barreiras ao cinismo individualista e absoluto.
Para os que a cada dia não se importam de oferecer um gesto, tendo a noção de que são necessários, queria apenas dizer que cada dia é pelo menos parcialmente salvo, e feitas as pazes por meio segundo com os dentes da humanidade.
Creio sinceramente que é assim.
Obrigado.

quinta-feira, outubro 27, 2005

No jogo da sedução, Pigmaleão e Galateia serão sempre associados ao género com que foram inicialmente criados.
Infelizmente.
A iniciativa é um "turn on" tão grande...
Tempestade lá fora.
Procela cá dentro.
Não tenho explicações para as variações de humor, ou para o facto de tudo o que é emocional ser captado como raios soltos na atmosfera. São demasiados recortes notáveis em cada pedaço do real. Demasiados relevos, que o tacto não consegue ignorar, e sons novos feitos de sensibilidades antigas.
São os olhos daqueles que passam e sorriem de forma triste, afastando o seu cansaço como arautos dos dias normais, culpados e vitimas dos pequenos crimes entre amigos e amantes.
São os cães cabisbaixos, que cheiram o chão molhado em busca das novidades dos dias. Dos passeios que são os seus livros, dos aromas a mortes e vidas que fazem as narrativas do período consciente.
Os cinzentos por vezes descem. Feitos gás inócuo, passeiam-se como fantasmas que aos vivos pouco mais fazem que mostrar-se. E congratulo-me com aquele toque mais frio, aquele cheiro a água que já foi, e a renovação do mundo.
A cidade escurece e acende as suas velas. Recordo-me dos rostos e emparelho-os nas felicidades parcelares que me trazem. São demasiados os instantes para que os mereça todos, e no entanto aparecem-me. Pintados em organizada confusão. Quase que como inexplicavelmente gratos por serem meus.
E então é tudo demasiado.
A chuva cai e o céu pisca os olhos.
Afinal avançamos....

domingo, outubro 23, 2005

Tilling my own grave to keep me level
Jam another dragon down the hole
Digging to the rhythm and the echo of a solitary siren
One that pushes me along and leaves me so
Desperate and Ravenous
I'm so weak and powerless over you

Someone feed the monkey while I dig in search of China
White as Dracula as I approach the bottom

Desperate and Ravenous
I'm so weak and powerless over you

Pale angel go away
Come again some other day
The devil has my ear today
I'll never hear of what you say
Promised I would find a little solace
And some piece of mind
Whatever just as long as I don't feel so

Desperate and Ravenous
I'm so weak and powerless over you
Desperate and Ravenous
I'm so weak and powerless over you


Maynard James Keenan

sexta-feira, outubro 21, 2005

Surreal é a presença de uma lógica.
Normal é a falta dela.
Triste é a frequência da segunda, quando todos gostam da primeira.
A confiança entre as pessoas, e a reserva do seu espaço de intimidade e privacidade não está sujeito a relativismos. O espaço pessoal, aquilo que lhes diz respeito é inviolável, não importa a motivação que possa estar por trás de uma suposta devassa desse local reservado. Seja o telemóvel, o computador, a correspondência, nada está ao abrigo de qualquer cláusula interpretativa de largo espectro que permita ao prevaricador justificar a respectiva devassa de algo que pertence ao universo pessoal e restrito à pessoa em causa.
A confiança é feita do respeito pela dimensão pessoal do outro, e pela lógica de partilha concedida. O gozo da dádiva é encontrada nos elementos que a pessoa escolhe oferecer-nos, ou partilhar connosco. A devassa da privacidade é, como qualquer forma de violação ou acto sem consentimento, a obtenção de um falso e perverso resultado. Não se ganha nada senão a pior percepção relativa ao ganho de poder ou informação. Algo ganho no âmbito do pior tipo de traiçao possível. Aquele que assenta na confiança do outro em não ter de esconder ou resguardar o que é seu, o que é privado.
Bem sei que algumas pessoas justificam as violações de privacidade ou as negligências com uma especie de defesa de um bem maior. Mas esse é um falso argumento.
Não há nada mais execrável que a violação da privacidade. Do que a poluição do direito da pessoa em ter o seu espaço, a escolha do seu universo pessoal que, em certos elementos, é compreensivel e necessariamente intransmissível.
Não há canalhice pior que a invasão, que ir onde não há consentimento. A um espaço que não nos pertence de forma nenhuma.
Nos dias em que identifico as minhas pequenas quesílias com o mundo, dou por mim a olhar para os detalhes.
Para aquilo que escorre pela realidade fluida e se transforma nas idiossincrasias que retenho. Apercebo-me agora que vou retendo uma parcela de mundo, e dos seus habitantes, bastante maior do que pensava.
Talvez porque ache que o mundo é também um pouco mais meu, e assim, faço da minha presença uma lógica de pertença.
Nas cores escuras do presente, estão as premissas de um tempo para amadurecer os contributos. E dou comigo a agradecer em trejeitos e palavras internas os relevos dos caminhos trazidos pelas portas que me abrem.
Aprendo a sorrir no âmbito do que sofre da falta de treino ou hábito. Entreabro porque os pormenores se elevam sem estímulo forçoso.
E deixo-me incautamente tocar pelas coisas que são belas sem o saberem, porque sinceramente, há demasiado mundo a ver para que lhes possa resistir.
Nos dias em que percebo que as minhas perdas podem ou não ser irrecuperáveis, apaixono-me pelos meus conceitos, reconheço-lhes o risco, e faço da minha vivência um equilibrio possível, afastado por demasiados anos de escuro.
Não tenho tudo. Nem grande coisa.
Mas a realidade embeleza-se, sem me dar cavaco.
Dou-lhe os bons dias e vou protegido. Por visões. :)

terça-feira, outubro 18, 2005

If time is my vessel, then learning to love
Might be my way back to sea
The flying, the metal, the turning above
These are just ways to be seen
We all get paid
though some get faith before they die
But the stars we will navigate
Through the holes in your eyes
How many days will it take to land
How many ways to reach abandon
oh abandon
Oh, so swoon baby starry nights
May our bodies remain
You move with me, I'll treat you right, baby
May our bodies remain
There is love to be made
So just stay here for this while
Perhaps heart strings resuscitate
The fading sounds of your life
How many days will it take to land
How many ways to reach abandon
oh abandon
So swoon baby starry nights
May our bodies remain
As weak we move, I'll feed you light, baby
May our bodies remain
Oh yeah in history, I'll treat you right, babyI
'm honest that way, hey
Swoon baby starry nights
May our bodies remain

Interpol

Pergunto-me a mim mesmo é a razão pela qual esta fabulosa faixa se chama "Public Pervert"...
Lindo.

segunda-feira, outubro 17, 2005

E agora que o céu está cinzento, e o ano aperta com outras cores as memórias, eventos e balanços, a poeira assenta e olhamos para aquilo que muitos tipos de fogos consumiram.
E aproxima-se a passos largos o fecho de contas, as lógicas dos momentos e eventos, os olhares que guardámos e os que não nos guardaram.
Afagamos os conceitos, e perdemo-nos a meio da lógica perniciosa da actividade que nos vai sangrando pedaço a pedaço, tentando nunca submergir a originalidade nem a lógica dela derivada.
Agora que o mundo caminha mais frio, a escuridão aproxima a essência das coisas, molda-a e coloca-a numa taça rude e riscada.
Ao sorvê-la, tanta coisa continua a escapar-nos, mesmo os sorrisos teimosos emprestados ás coisas que nao entendemos totalmente. Ou os que demos à noção de justiça que não pode escapar-nos, sob pena de mergulhar na modorra confortável e comodista.
Está a chover.
É caso para dizer que alguém o diz por nós.

terça-feira, outubro 11, 2005

Who's seen Jezebel
She was born to be the woman
I would know
And hold like a breeze half as tight as both eyes closed

Who's seen Jezebel
She went walking where the cedars line the road
Her blouse on the ground where the dogs were hungry, roaming
Sayin' wait
We swear we'll love you more

And wholly, Jezebel
It's we, we that you are for only
Who's seen Jezebel
She was born to be the woman we could blame
Make me a beast half as brave and be the same

Who's seen Jezebel
She was gone before I ever got to say
Lay here, my love, you're the only shape
I pray toJezebel
Who's seen Jezebel

Will the mountain last as long as I can wait
Wait like the dawn, how it aches to meet the day
Who's seen Jezebel
She was certainly the spark for all I've done
The window was wide, she could see the dogs come runnin'Sayin' wait
We swear we'll love you more
And wholly, Jezebel
It's we, we that you are for only

Woman King - "Jezebel" From "Iron and Wine"
I
How happy he, who free from care
The rage of courts, and noise of towns;
Contented breaths his native air,
In his own grounds.


II
Whose herds with milk, whose fields with bread,
Whose flocks supply him with attire,
Whose trees in summer yield him shade,
In winter fire.
III
Blest! who can unconcern'dly find
Hours, days, and years slide swift away,
In health of body, peace of mind,
Quiet by day,
IV
Sound sleep by night; study and ease
Together mix'd; sweet recreation,
And innocence, which most does please,
With meditation.
V
Thus let me live, unheard, unknown;
Thus unlamented let me dye;
Steal from the world, and not a stone
Tell where I lye.


Alexander Pope - "Ode to Solitude"

segunda-feira, outubro 10, 2005

What If they found out about me?

What if I find myself out?

What if I'm all there?

What if they really see who I am...

...And them and me, just simply disagree?
O que é a química?
Poderá reduzir-se a feromonas? Ou é uma percepção apriorística, quase como um inatismo, que faz com que do estado de contemplação da beleza se passe ao calafrio do desejo?
A química, conforme é reproduzido por quase toda a gente, estabelece o impulso do toque. É a entidade geradora da relação de causa efeito no toque e seus derivados. A química é uma representação múltipla do reconhecimento da atracção, porque comunica sem qualquer outra linguagem que não o reconhecimento simultâneo à experiência.
O beijo é a passagem para esse estado de conhecimento mútuo que não presume uma única palavra. Como uma passadeira vermelha, esse tipo de toque gera a percepção inabalável de uma conexão, mesmo que seja só essa. É uma ligeira perda de conhecimento em meio a um vendaval concentrado de percepções. É doer ainda mais um pouco.
Mas sinceramente, a química não terá qualquer espécie de justificação ou arquétipo anterior? Poderá a química existir sem mais, sem qualquer fundamento reconhecível no outro?
Será a química capaz de nunca se enlaçar na comunicação? Será o interesse anulável perante a criação surda de um querer?
Não sei.
Sinceramente, prefiro crer que não acontece dessa forma. Que nada é totalmente aleatório e que a comunicação pode efectivamente ser um factor, ainda que parcial, à percepção do toque que queima.
Mas a química não fala.
E ao arremessar-nos para um beijo real, a perigosa perda do peso no mundo faz com que o centro de tudo derive numa representação multipla do toque sexual. Do toque. Da consciência de outro.
Sendo assim, o que é a química?
O cansaço é uma componente do esclarecimento.
Não em todas as ocasiões, é certo, mas há algo no cansaço, na limitação da reacção perante o esforço que clarifica a mente. Que pelo menos molda em formatos mais brandos as consequentes contradicções de apetites, memórias recorrentes, projectos. O cansaço permite-nos diferenciar as pessoas porque já não temos força para argumentar com os instintos que nos assaltam quando estamos despertos e energéticos.
O cansaço no entanto, é um pau de dois bicos. Porque agudiza as emoções, precipita certos formatos de rendição e clarifica a essência e impacto de determinados pormenores.
O cansaço no entanto não é a modorra. É a chamada procura inteligente. É a aceitação de uma lógica, e a força esclarecida que dali decorre.
Estar cansado é escolher.
É perder um pouco a estupidez que vem com a vitalidade mal gerida, e evitar os erros que embrulhados em referências e instantes construídos podem matar-nos.
Sem avisar.
O cansaço, a espaços, é o bálsamo lúcido.
Somos nós, adultos e ponderantes.
E quando dura q.b., poupa-nos toda uma vida de coisas que não interessam.
"Come to me in my dreams, and then
By day I shall be well again!
For so the night will more than pay
The hopeless longing of the day."

Mathew Arnold

sexta-feira, outubro 07, 2005

Desancar a Margaridinha como il faut...

Bravo, Bravo, Bravo...

Bravíssimo!!!


Brilhante e hilariante.

E destaque-se já a imensa coragem de João Pedro George por ter conseguido ler e dissecar a panóplia de pessegadas escritas por esta senhora. Ainda por cima a mulher nem sequer se esforça por disfarçar... Pior que isso, só ler o "Rio Piedra" do Paulo Coelho até à página 15...

(Se soubessem o que me custa criticar o que alguém escreve, porque é algo que normalmente não faço porque julgo que a criação é sempre de louvar, perceberiam até que ponto esta senhora consegue tirar do sério qualquer pessoa que faz um esforço sério por amar livros, sejam eles melhores ou piores. Depois de ler esta recensão crítica, fico mais descansado relativamente aos meus maus fígados...)

quinta-feira, outubro 06, 2005

O pecado original da tua presença, foi nunca a teres reconhecido como tal.
A perda assim gerada nunca é alheia.
A massa colossal de nós próprios que a raiva não consegue limpar, é apenas uma fogueira numa noite de lua nova, acesa por quem duvida de qualquer espécie de aurora, atacado que está pelo sono num universo de anos divididos ao meio entre noite e dia.
O cínico é um habitante dos pólos, que dorme todo um Verão...
Quando se consegue tornar ouvir o excelente "Walk Away" do Ben Harper até ao fim, algo mudou.
Parar para respirar....

You Are 60% Boyish and 40% Girlish

You are pretty evenly split down the middle - a total eunuch.
Okay, kidding about the eunuch part. But you do get along with both sexes.
You reject traditional gender roles. However, you don't actively fight them.
You're just you. You don't try to be what people expect you to be.



A experiência diz-me que dando-se bem com uns e outros, não se é realmente querido por nenhum...
Será verdade?


(Teste via
Charlotte)
O air-born voice! long since, severely clear,
A cry like thine in mine own heart I hear:
"Resolve to be thyself; and know that he,
Who finds himself, loses his misery!"
Mathew Arnold - 1822-1888
É no atrevimento dessa procura, que nasce a fundamentação ontológica do que realmente somos. E os crimes que vamos comentendo, passam por atenuantes se a lógica for de retorno ao que deveríamos ser, porque sempre se acreditou nessa premissa.
Os conceitos valem por si, e nenhuma mudança arranca as fundações. As procuras estão lá. São nossas, e cada passo é esperançoso na tentativa de nos trazer à dimensão dual pela qual somos amados, mas, e finalmente, também nos amamos. À paz inquieta.
Entendo-te melhor do que julgas.
Mas sinceramente, é coisa que já não me importa muito.
Também porque não importa em si a minha visão.
Os conceitos valem por si mesmos, como disse.
E no final, a conversa é sempre connosco próprios.
Ao encontrarmo-nos, sabemos sempre o que fazer.
"But often, in the world's most crowded streets,
But often, in the din of strife,
There rises an unspeakable desire
After the knowledge of our buried life;
A thirst to spend our fire and restless force
In tracking out our true, original course;
A longing to inquire
Into the mystery of this heart which beats
So wild, so deep in us--to know
Whence our lives come and where they go."


Mathew Arnold - "The Buried Life", (45-54)


Este tipo conhecia-me e eu nem sabia...

terça-feira, outubro 04, 2005

TEST TIME



Your Seduction Style: Fantasy Lover

You know that ideal love that each of us dreams of from childhood? That's you!
Not because you posess all of the ideal characteristics, but because you are a savvy shape shifter.
You have the uncanny ability to detect someone's particular fantasy... and make it you.

You inspire each person to be an idealist and passionate, and you make each moment memorable
Even a simple coffee date with you can be the most romantic moment of someone's life
By giving your date exactly what he or she desires, you quickly become the ideal lover.

Your abilities to make dreams come true is so strong, that you are often the love of many people's lives.
Your ex's (and even people you have simply met or been friends with) long to be yours.
No doubt you are the one others have dreamed of... your biggest challenge is finding *your* dream lover.




Acho que os moços se enganaram...
Mas não seria uma perspectiva desagradável, não senhor.
Como é que as minhas respostas deram nisto é que gostava de saber...
Everyday I love you less and less, já lá diziam os Kaiser Chiefs...

segunda-feira, outubro 03, 2005

Alguns amigos meus resolveram unir-se, quase sem se conhecerem. Criaram uma pequena comunidade para dizer o que lhes vai na gana. Aguarda-se a fervura do melting pot.

Os
Cães Danados está à solta.