Há uma espécie de estratégia subreptícia de alguns sectores da opinião pública no sentido de acusarem os detractores da Igreja Católica de brandura com os recentes acontecimentos relativos às caricaturas dinamarquesas e a onda de violência islâmica que terá acarretado.
Qualquer insinuação nesse sentido é claramente despropositada, e vou dar a minha visão das coisas, na medida em que me seja possivel.
Qualquer regime ou organização teocrática/dogmática é para mim uma violência contra as minhas noções de racionalidade, de valor da psique humana, da sua natureza e capacidade. Mas isso são opiniões. No entanto, quando estes regimes ou actos começam a interferir na esfera dos direitos humanos, daquilo que considero ser a dignidade mínima da pessoa humana, então a coisa muda de figura.
A atitude de alguns sectores do Islão face a este assunto é absolutamente inaceitável, e própria de uma certa cultura de fanatismo que isola esses mesmos sectores na pior forma de terceiro mundismo imaginável. A verdade é que a violência e retaliação verbal ou física isola os seus praticantes numa insustentabilidade de posições, e por isso mesmo, fazendo perder a mensagem de (justa?) indignação.
Agora relativamente a esses sectores da opinião pública que esfregam as mãos porque o Islão está a pintar-se da pior cor possível nos dias que correm, e porque os supostos defensores da nação islâmica aos seus direitos estão cair em contradição, só digo isto.
Disparates.
Não há qualquer desculpa para os actos perpetrados nas embaixadas, ou a suposta morte do padre italiano à porta da sua igreja. Não há qualquer justificação em qualquer forma de relativismo cultural para as repetidas violações de direitos humanos básicos, especialmente no que concerne às mulheres. A teocracia ferrenha de alguns sectores importantes dos estados islâmicos, combinados com a miséria sem fim à vista que assola o povo, isola os seu discurso numa espiral de violência que inquina os esforços de outros sectores dessa sociedade em atingir a moderação, o diálogo, a abertura e integração no mundo moderno.
No entanto, esses sectores que acusam os críticos ( como eu orgulhosamente me confesso) da Igreja Católica, e conservadorismos afins, de serem brandos com esta questão, analisam na medida em que lhes é conveniente.
(E atenção que criticar a Igreja CAtólica ou os Radicais islâmicos não significa criticar os católicos ou os muçulmanos. Apenas os seus extremismos levados a cabo por quem supostamente os representa oficialmente.)
A verdade é que não ouvi este brado em uníssono quando os padres norte americanos foram acusados e culpados da prática de pedofilia em dezenas de crianças, e a Igreja simplesmente realocou os padres prevaricadores, sendo que muitos nem sequer chegaram a ser expulsos ou excomungados. E isto só para citar um exemplo.
Que fiquem bem assente que ninguém é condescendente com a morte, a violência e a violação dos direitos humanos e que, quando alguém se identifica como agnóstico ferrenho ( e a espaços anti-clericalista),é-o genericamente, seja o criticado católico, muçulmano, hindu, ou budista.
Não há brandura selectiva.
Pelo menos não aqui.
Porque a pessoa humana não pode ser sujeita a determinados relativismos supostamente culturais ou religiosos. A liberdade digna e em respeito ainda é o bem insubstancial mais precioso da humanidade. Se a religião organizada o entendesse, talvez a sua mensagem não parecesse tão desfasada da natureza humana.
P.S. Se querem que vos diga, dos casos que mais me impressionou em sociedades rígidas e que se escudam num falso relativismo cultural, aconteceu na India.
Um casal de jovens, de castas diferentes, apaixonaram-se e foram decapitados pelas respectivas famílias. Sim, leram bem, decapitados. As estruturas rígidas, e as supostas regras contra a natureza humana, ainda por cima no que ela tem de melhor. O Amor. E imaginem aquele par de pessoas que teve a cabeça cortada por se manter fiel a algo que uma sociedade se recusou a entender, substituindo por assassinato a sangue frio.