
Especialmente porque são temas complexos, que versam sobre coisas como rivalidades antigas e códigos de sociedade ou vivência conjunta.
O dia da mulher tem uma importância indiscutível, porque, queiramos ou não, em algumas sociedades a secundarização de género ainda é uma realidade a ser combatida a todo o custo. Parte do Islão, e mesmo do Hinduísmo e país do Sol Nascente colocam a mulher numa postura de subserviência e em alguns casos, sujeitas a uma violência inaceitável, que raia desde a agressão física a todas as formas de humilhação intelectual.
Alegar desconhecimento de que ainda existem comportamentos sectários nas questões do acesso ao emprego e respectivas remunerações (e progressão de carreira) é não querer ver um aspecto feio mas real da sociedade em que estamos.
E não fica só por aí.
A emancipação é vista com desconfiança. Com um olho cerrado e um cenho franzido, porque os códigos ainda estão muito marcados. A atitude, a confiança, a independência e a busca do hedonismo ainda são vistos com os olhos de gerações feitas de comportamentos automáticos e dogmas sociais ainda mais difíceis de quebrar que as lógicas das religiões organizadas.
A agressividade sexual, a lógica da predação, são ainda vistas com os olhos assustados dos caçadores sem munições, que ainda não perceberam que este é um mundo a meias, e que como qualquer imóvel, há que saber partilhar sem conceder, porque muitas mulheres têm quase tanto horror à concessão como aos grilhões sociológicos.
A ideia é sempre a mesma, e está tão batida que mais parece um pregão de rua. É a igualdade na diferença que deve ser mantida, a chamada igualdade criteriosa, porque somos diferentes, e essa diferença significa riqueza. Mas direitos liberdades e garantias são conceitos objectivos, e como tal, não sujeitos a qualquer forma de subjectividade na sua aplicação, por força da aplicação dos princípios à pessoa humana. Ser humano.
Mas vamos agora ver o outro lado:
O paternalismo feminino aliado a uma lógica feminista que assenta naquele discurso ressabiado de que é feita tanta letra mal impressa. Aquela que generaliza na lógica da denuncia de opressores, mas que de alguma forma não reconhece a esses qualquer legitimidade senão aquela que é devolvida em certas matérias pelas próprias mulheres.
Aquele discurso que nos apelida a todos de patetas sexualmente incompetentes, egoístas e ignorantes.
Aquele que nos coloca numa espécie de zona inepta no que diz respeito ao campo das sensibilidades ou formas mais complexas de olhar para os fenómenos.
Aquele que acha que toda e qualquer exigência que o homem pode ter no plano estético ou ético é um fardo para a mulher que aparentemente tudo aceita.
Discursos que falam na obrigatoriedade da mulher ter de estar sempre na mó de baixo no que diz respeito à contracepção e cuidados consigo mesma ( experimentem ter de colocar um preservativo, fazer a barba todos os dias e combater a calvície e a gente depois conversa acerca das dificuldades de género).
Aquelas palavras que denunciam uma espécie de complot genérico relativamente a uma pretensa condescendência masculina para com a capacidade feminina.
Este é o outro lado.
O feminismo nesta perspectiva é tão idiota e bacoco como o mais primário dos machismos, e faz com que s interlocutoras percam toda a credibilidade. E como talvez formas mais atenuadas desse mesmo machismo, parece estar por toda a parte, nos gestos mais comuns.
O que é uma pena, demonstrando que afinal de contas, a desconfiança e o paternalismo parecem estar em ambos os lados da barricada.
E por isso mesmo celebro a mulher como ser completo e fascinante. Complexo, cheio de ângulos de análise, profundamente sensual, sexual e orgânico. Metade da humanidade cheia de mistérios que motivam qualquer incursão mais arriscada, desde que se não presuma nada e se aprenda com os contributos. Um ser pleno de diferenças que completam e não antagonizam. Uma inteligência emocional diferente, mas complementar, claro está.
Lamento que isto possa chocar as mentes mais libertárias/feministas, mas as queixas sobre determinados focos de pressão são injustificadas e próprias de uma visão unilateral. Acho aviltante que tenha de pedir desculpa porque gosto de mulheres bonitas, porque acho que devem procurar ser e estar melhores. Acho perfeitamente imbecil e primário o discurso politicamente correcto da primazia total do interior sobre o exterior, e claro está, vice-versa. Somos seres complexos e completos, e o corpo também é o que somos. É parte da nossa identidade e o receptáculo empírico do melhor que podemos ter na vida.
As pessoas que se abandalham, física ou intelectualmente, que deixam de perseguir (quando podem – não estamos a falar de pessoas que lutam por sobreviver, porque a filosofia só surge em estômagos cheios e tectos estanques) metas, evolução, objectivos, desistem de si e dão os outros por garantidos. E eu não gosto de pessoas que desistem de si mesmas. Que não têm sede de ser sempre algo melhores, de ver sempre algo mais, de respeitarem a sua integralidade humana, seja corpo ou mente.
Mas porque raio é que eu hei-de gostar de celulite? Ou banhas e pneus de inércia? A mesma pergunta faço noutra perspectiva. Porque hei-de gostar de raciocínios primários, ou conversa de novelas, cortinados, dejectos dos infantes, bola, o conselho superior de arbitragem? Porque hei-de de apreciar uma ignorância satisfeita e um estacar no tempo consciente e até feliz na sua pausa e autismo?
Será que querer ou gostar de mulheres que procurem viver e evoluir em corpo e mente é uma espécie de sectarismo? De indesculpável escolha?
Será que as mulheres também ainda acreditam que vendem convincentemente uma sua ausência de padrão e exigência?
Gostar da mulher é gostar da pessoa. Do que ela é, e do que ela pode ser, do que evolui e do que não se descaracteriza. Da sua beleza e intensidade, nas palavras ou em cada centímetro de pele. Na ternura, na sexualidade ou como dizia o Vinicius:
“É preciso
(…) Não há meio-termo possível. É preciso
No fundo, é respeitar a mulher esperar que ela possa ser o melhor que puder ser, sendo que se tente também ser o melhor que se pode. E devo dizer que no melhor que tento ser, talvez não consiga chegar nem perto daquelas que tentam ser o melhor que podem, como seres humanos completos, complexos, multifacetados, e cheios da beleza de seres que nunca estacam e evoluem não para a destruição o degradação, mas que nunca desistem de si, ou das suas visões do mundo que tanto gosto que comigo partilhem e com elas me ensinem.
Aquela que de alguma forma se busca e encontra numa dialéctica evolutiva, e faz de si mesma um ser humano sempre em potencial, sempre diferente. Inteligente e contornado. Sensível e sensual. Meiga e sarcástica. Aluna e professora. Total.
A que não desiste. Não a perfeita, mas a que quer ser o melhor possível.
É essa mulher que aqui celebro.
Feliz Dia para ela.









