ESTAÇÕES DIFERENTES

"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."

Stephen King - "Different Seasons"


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segunda-feira, abril 03, 2006

No outro dia encontrei um velho amigo. Falámos durante algum tempo, já que havia passado cerca de uma década desde que o vira pela ultima vez. E ele falou-me, ou melhor recordou-me de algo que se passou na vila onde vivemos durante a maior parte da nossa adolescência, e onde vivi até sair de casa dos meus pais.
Isto, foi inventado, mas é baseado em factos que são demasiado reais para o meu gosto.
Deve haver um Pita em todos os agrupamentos de miúdos, em todos os bairros ou vilas ou seja lá que espécie de unidade habitacional estejamos a pensar. Se não o conhecemos pessoalmente, ouvimos falar dele, ou daquilo que fez, e rezamos para que quando passe por nós escolha o passeio do lado contrário.
O Pita, ou “Cara-de-cavalo” tinha uma tendência irreprimível para fazer passar mal os outros, especialmente aqueles a quem conseguisse dominar. Foi o primeiro miúdo a ter uma Yamaha DTLC, e por vezes entretinha-se a empurrar os outros garotos das bicicletas abaixo, fugindo a grande velocidade na sua mota.
O “Pita” ganhara o cognome de cara de cavalo devido a uma conjugação de circunstâncias que não se podem designar como felizes, mas que lhe iam servindo alguns propósitos. Era um miúdo enorme e fortíssimo, que nem um cavalo, dissera alguém uma vez, e tinha o maxilar superior proeminente, ultrapassando sensivelmente o inferior. Estas duas características conjugadas com uma antipatia generalizada criaram um epíteto dotado de uma perenidade inquebrantável. No entanto essa designação só circulava no circuito alternativo, porque ninguém se atrevia a proferir essa alcunha na presença do seu dono.

O Pita reinava soberano, seguido de perto pelo seu pequeno séquito de rémoras que ansiavam gulosamente pelas sobras do dinheiro que ele tinha e do poder que impunha. A alcunha nunca era proferida junto na sua presença ou de algum dos seus sequazes. Esse séquito era composto pelas raparigas que se haviam cansado das bicicletas de mudanças e babavam para cima da motorizada, e os “amigos” que o temiam mas que de alguma forma lhe davam cobertura nas asneiradas que faziam, para além de irem aproveitando as sobras femininas que ele descartava. Normalmente as rejeitadas continuavam no grupo, como uma espécie de despojo ambulante, um factor de prestígio para a corte e consideradas disponíveis para os seguidores masculinos. A maioria iludira-se simplesmente com uma ideia de popularidade visível, e mesmo que arrependidas, consideravam a alternativa como algo cem vezes pior. Era a velha história tantas vezes vista e repetida. Antes visível a todo o custo, que invisível a nenhum. A noção de ter para onde ir todos os dias junto a algumas pessoas era preferível a uma espécie de caminhada orgulhosamente só em meio aqueles que nunca entenderiam essa independência. Em certa medida, tudo fariam para a destruir, como de resto já haviam feito.
Rei na corte da rua e em casa, o Pita teve uma infância e principalmente uma adolescência invulgar. Num período no qual era comum passar maus bocados, perdidos entre a sensação de impotência e a ausência de capacidade gestora dos mais variados sentimentos, ele tinha acesso a tudo aquilo pelo qual os miúdos lutam fervorosamente.
Como todos os monarcas absolutos, o exercício do poder quotidiano começou a enfadá-lo. Era um miúdo inteligente, e apesar da tendência para os distúrbios, era um aluno razoável, e só não era brilhante porque simplesmente não queria. Mas essa inteligência depressa o levava a demonstrar os esquemas simples, e o que acontecia de alguma forma não o satisfazia. A tortura aos mais fracos era uma actividade que raramente o cansava, mas ainda assim não chegava.
O passo seguinte para a batalha contra o tédio surgia na forma do não convencional. À parte do espancamento ocasional aos opositores, a erva e o haxixe surgiram rapidamente. O consumo era de tal forma astronómico que os momentos sóbrios eram cada vez mais raros. Caiu duas vezes de mota, mas a sorte impediu-o de sofrer mais que arranhões profundos.
Após dois anos de tanta actividade, surgiu a cocaína, que coincidiu com a maioridade. O pai ofereceu-lhe um jipe preto, cheio de cavalos no motor e rodas altas, enchidas a jantes de raios brilhantes. A mota, que entretanto se tornara uma Honda 900 RR ( Fireblade) deu lugar ao carro, e as coisas tomaram mais ou menos o mesmo caminho. Acho que no fundo se tratava de uma evolução natural no percurso do Pita.
Durante este período surgiram algumas das piores histórias acerca dele. Coisas escabrosas, que alguns qualificaram como inveja ou má vontade, mas que muitos apontavam como previsível dado o historial. Como mais tarde se viria a saber, havia pelo menos um tom de verdade a tudo isto.
Falava-se no caso do Estádio Nacional, onde ele supostamente teria violado uma rapariga de vinte anos com quem saíra, deixando-a no meio da mata do Jamor às três e meia da manhã. Ela aparentemente não fizera queixa, e ninguém sabe muito bem porquê. Para mim era óbvio.
Comentavam-se as rixas constantes e o caso da queimadura de cigarro na testa. Falava-se no incêndio da sala de teatro da vila. E o nome dele aparecia sempre relacionado, como um murmúrio do vento frio em meio a qualquer cenário de desolação.
No vigésimo sétimo aniversário, já cidadão da Republica Federal dos Speeds e anfetaminas, o Pita resolveu experimentar o novo jipe que lhe fora oferecido de uma forma diferente. Após cerca de quatro horas numa discoteca de Cascais, saiu para a Marginal e com o pé pesado e vista toldada começou a conduzir numa das faixas destinadas ao transito que circulava no sentido contrário. No fundo era uma espécie de brincadeira que lembrava aqueles filmes em que os ladrões fogem pelas ruas em contra mão, para despistar os polícias. Normalmente é muita chapa partida mas nunca ninguém se aleija, pelo menos não de forma permanente.
Mas filmes à parte, a sorte, ou perícia, já nem sei, durou cerca de vinte minutos. Às cinco e dez da manhã o jipe bateu de frente com uma carrinha que circulava na sua faixa de rodagem. Ao contrário dos filmes, o resultado foi bastante mais grotesco.
Uma das raparigas do banco de trás foi projectada com uma tal violência que atravessou o vidro frontal do jipe e, já morta, acabou por esmagar a cabeça do condutor do outro carro. Os bombeiros encontraram pedaços de ambas as cabeças por todo o carro. Ambos tiveram morte imediata, num exercício doentio de compaixão que a realidade acabaria por ter com eles.
A outra foi cuspida pela janela aberta do lado direito, voando cerca de vinte metros e espetando-se no asfalto com uma tal violência que não havia um osso do corpo que não estivesse partido. Calculo que tenha morrido numa agonia lenta, mas há certas coisas que talvez seja melhor nem imaginar.
O rapaz sentado no lugar do morto fora minimamente diligente e apertara o cinto. No entanto fora tal a violência do impacto, ( mais no lado direito do jipe), que o metal invadiu o habitáculo, esmagando tudo quase até à bacia. O rapaz morreria por perda de sangue, já que uma das artérias se abrira como uma vagem madura atacada por um cutelo.
A pendura da carrinha fora submetida a várias fracturas nas pernas e algumas vértebras da coluna, mas sobrevivera.
O Pita só não saiu do automóvel porque o impacto lhe partiu o fémur esquerdo. Tinha a cara cortada devido aos cacos, mas tirando isso, nem sequer a consciência perdera. O que no fundo seria o pior para ele, e imagino eu que para qualquer pessoa. Ficara preso no carro, vendo a morte à sua frente e ao lado, ao mesmo tempo que a dor lhe comia a perna esquerda, a zona pélvica e a cara cortada pelos cacos.
O resto é história contada nos jornais. Foi acusado da prática de três crimes de homicídio simples e dois de ofensas à integridade física agravadas. A panóplia de substâncias que lhe encontraram no corpo, juntamente com a lenga-lenga que balbuciava entre dentes e choro convulsivo, pedindo desculpa a toda a gente, repetindo constantemente tratar-se de um acidente, não ajudaram muito à festa. Mas o que o lixou completamente acabou por ser o testemunho temeroso de dois amigos, também eles autores de acidentes na mesma estrada naquela mesma noite. O que fora admitido como um rumor, veio a confirmar-se testemunhalmente, voltando a fazer manchetes meses depois.
Ao que parece, o Pita tinha uns amigos tão ou mais truculentos do que ele próprio, e que se entediavam com a mesma facilidade. Entre conversas em frente a copos cheios e as drageias de várias cores que saltitavam das algibeiras para a boca, criou-se uma espécie de bolsa de apostas, que consistia em coisas terrivelmente simples, das quais alguns pormenores parecem demencialmente fantasiosos, para dizer o mínimo.
Uma das mais simples consistia precisamente na condução em sentido contrário em qualquer estrada, sendo que a parada subia sempre que a dificuldade do percurso ou a velocidade dos outros veículos fosse maior. Sim, esta alimária frequentava desde caminhos de cabras a auto-estradas, fazendo uma espécie de deslizamento serpenteante até que a aposta se considerasse ganha ou alguém levasse com um deles em cima. Ao que parece, o choque seguido de sobrevivência tinha um bónus extra, isto obviamente se a aposta fosse cumprida. Gente com queda para a diversão original, diria eu.
Outra das habilidades do grupo de apostadores, e devo dizer, esta é a minha preferida, tinha duas modalidades. A modalidade estática e a dinâmica. Eram igualmente estúpidas e perigosas, embora a segunda o fosse ainda mais. Para mim era o equivalente a fazer malabarismo com três secadores de cabelos ligados, enquanto se toma banho de espuma.
A primeira, vulgo estática, como deveriam estar os neurónios destes meninos, consistia em colocar o automóvel na passagem de nível, perpendicular aos carris. O objectivo era tirar o da frente do comboio o mais tarde possível, evitando o choque mortal de centenas de toneladas de aço em movimento. Quem conseguisse sair em último lugar ganharia o dinheiro e o que mais estivesse envolvido no esquema da aposta. Normalmente vinha em forma de pó, e o resto são redundâncias às quais me esquivarei.
A segunda consistia no mesmo principio, mas era, como já disse, ainda mais perigosa e imbecil. Os ditos apostadores iniciavam uma corrida com o comboio, normalmente na estrada adjacente que a certa altura se cruzaria com a linha na forma de uma passagem de nível. A ideia era atravessar a passagem de nível antes que o comboio lá chegasse, fazendo uma curva fechada à frente deste. Era necessário um cálculo impressionante, uma vez que a ideia era passar mesmo à frente do engenho ferroviário, descrevendo uma curva em U e conseguindo sair ileso.
Contam-se histórias de carros esmigalhados, de corpos cortados literalmente ao meio e lançados à distância e outros para além de qualquer reconhecimento senão pelo registo da arcada dentária. Mas nunca se falavam dos sobreviventes, que desapareciam sem deixar rastro, como fantasmas oriundos da própria morte causada pelo erro de cálculo. Se não existiam vítimas, tudo o que sobrava eram as histórias de maquinistas contadas no fim dos turnos de madrugada, e que eram tomadas em grande parte como a parcela de mito urbano reservado aos comboios.
Depois deste acidente e três outros na mesma noite, a investigação começou a fazer-se à séria. A Polícia Judiciária já perscrutara estes rumores durante cerca de um ano, mas o planeamento era muito bem feito e discreto, o que implicava uma reorganização de prioridades. No fundo, havia mais que fazer e supostamente mais premente.
Acontece que o pequeno surto de sustos e algumas mortes veio para os jornais, e quando a imprensa põe a boca no trombone, as coisas começam rapidamente a acontecer. Aqui não foi excepção, tendo o Procurador da altura dado um discurso vigoroso e ameaçador prometendo apanhar os culpados.
O “acidente” do Pita acabava por dar uma visibilidade macabra a um fenómeno que se começou a desdobrar como um boneco de “origami”. As investigações foram intensificadas, muitas pessoas interrogadas, algumas presas, e sobretudo começou a levantar-se o véu, ou deveria dizer a mortalha, que escondia uma história estranha e radicada numa espécie de desejo de fuga do convencional que chocou o país durante meia semana. Dois dias depois alguém enterrara uma miúda viva depois de a violar, e a atenção popular mudou rumo.
O procurador da República encarregado do caso não conseguiu provar a qualificação nos crimes de homicídio, embora se tivesse empenhado muito. O juiz não foi na conversa, embora eu cá desejasse que ele tivesse ido.
Do outro lado o defensor, um advogado de alta-roda com um defeito na pronúncia (vulgo sopinha de massa), demonstrou grande labor, mas também não conseguiu colar o dístico da negligência na prática dos factos.
A decisão acabou por ser achada no centro. Os vários testemunhos de ocupantes de veículos que seguiam na mesma faixa e assistiram a tudo, somados ao cocktail químico que lhe encontraram no sangue, e ao desvelar de toda a operação de apostas ilegais deixou pouco espaço para clemência na mente e na apreciação técnica e jurídica do colectivo de juízes da Boa-Hora.
O Pita foi condenado pela prática de crimes de homicídio simples e ofensa à integridade física grave. Assim, dito de chofre, deve ser como levar um murro no estômago dado por uma pá de escavadeira. A vida inteira vai ao ar, num instante, traduzida em algumas palavras e anos de arrependimento inútil. Pelo menos é essa a ideia que me fica.
Eu não estava lá para ver, mas o o meu amigo contou-me que alguém vira e lhe dissera que o Pita começou a chorar e soluçar como um catraio de cinco anos. Os pais, destroçados, limitavam-se a olhar enquanto ele era levado para o carro celular, provavelmente corroídos por algum senso de responsabilidade que só muito indirectamente tinham.
Gabriel contava esta história, como todas as outras, com um senso analítico muito próprio. E levantava questões, das quais eu memorizei a seguinte.
Existe um preceito no código penal que diz:

“Artigo 132º
Homicídio qualificado

1 - Se a morte for produzida em circunstâncias que revelem especial censurabilidade ou perversidade, o agente é punido com pena de prisão de 12 a 25 anos.
2 - É susceptível de revelar a especial censurabilidade ou perversidade a que se refere o número anterior, entre outras, a circunstância de o agente:
a) (…)
b)(…)
c) (…)
d) (…)Ser determinado por avidez, pelo prazer de matar ou de causar sofrimento, para excitação ou para satisfação do instinto sexual ou por qualquer motivo torpe ou fútil;”
(…)


Como vos disse acima, ele nunca chegou a ser condenado por homicídio qualificado. Mas pergunto-me a mim, em completa e até dolorosa confusão, o que significa aquilo que aconteceu naquela noite na marginal Lisboa-Cascais?
Olhando para o historial do Pita, e nós conhecíamo-lo bem, seria fácil chegar a uma conclusão. Um dos ferrolhos que segurava a porta mental do disparate maligno saltara, e assim se acha a justificação para uma clara vontade de provocar o que sucedeu. A expressão “causar sofrimento” parece-me perfeitamente adequada. Sinceramente eu preferiria pensar que tudo o que sucedera, tendo em conta a evolução dele, se deveria a qualquer problema de infância ou desregulação social ou mental. Uma vez obtida essa conclusão, tornar-se-ia mais fácil explicar algumas coisas.
Eu no entanto não sei bem o que pensar. Olhei directamente para a expressão dele durante anos e aquilo que mais me assustou não foi uma maldade qualquer a cabriolar nas íris coloridas. Não havia nada espelhado na expressão dita normal, e talvez se não fosse pelos actos sobejamente conhecidos, olhariam para ele como uma pessoa de semblante ausente, perdido.
Aquilo que mais me assustou é que não via nada naqueles olhos. A expressão não cintilava, não havia nada que pudesse definir o olhar senão uma espécie de desinteresse profundo e total misturado com um pequeno desdém. Como alguém que mata uma mosca que acaba de entrar na sala ou derruba um pacote de açúcar no chão limpo.
Ele estava lá, mas sinceramente parece que ao mesmo tempo já havia desaparecido haveria provavelmente muito tempo. As reacções violentas eram imensas, é verdade, mas era na dita normalidade que tudo isto se via. O que no fundo não me faz estranhar a imensa vontade que o levaria a procurar fazer sempre aquilo que não estava à mão, ou pelo menos não deveria.
Se era mal aquilo que eu via? Se é disso que falo? Sinceramente não sei. O meu amigo diz-me que sim. Que é uma modalidade. E reforça ainda que tem certeza porque já viu uma representação de mal puro bem de frente, e que o Pita era apenas uma pequena gradação.
Até hoje não sei o que ele quis dizer com aquilo, mas querem saber uma coisa? Acho que acredito nele. Quando o vi no banco dos arguidos, tive uma espécie de certeza empírica. E nem quero imaginar o que o meu amigo clama ter visto.
Coincidências neste caso são assustadoras, e quando acabámos a conversa, ele afastou-se com um sorriso nostálgico e triste estampado no rosto. Isto aconteceu há um ano, e apesar de morarmos perto, nunca mais o encontrei. Fui à hemeroteca à procura deste caso nos jornais antigos, mas não tive sorte. Terá acontecido? Eu sei que sim. E pelos vistos não fui o único. Mas sempre me pareceu um mau sonho, ou um mito urbano. Outra voz trouxe-me apenas a comprovação de algo que incomoda tão mais em conceito que pela normalidade da ocorrência no nosso dia a dia. Sei que fui a tribunal. E vi aquele nada.
Espero encontrar o meu amigo novamente, para poder confirmar que estivemos realmente naquela sala.
Talvez os verdadeiros fantasmas sejam mesmos estes.
Os inesperada e tristemente reconhecidos.
Sinceramente.
Em todas as vidas existem perigos. Situações que se tornam melhor evitar. Uma espécie de local sagrado mas com o efeito contrário ao de um santuário. Uma zona a evitar de medo, sofrimento e dor.
Todos esses perigos desaconselham qualquer veleidade nos seus territórios. Coisas simples. Um supersticioso deve evitar escadas erguidas, ainda que julgue que não passará debaixo delas de forma alguma. Um ex-alcoólico deveria evitar sempre as feiras de vinhos e bebidas que ocasionalmente surgem nos hipermercados, mandando alguém às compras nessas alturas. Um vigarista não deverá jogar poker com cegos.
E isto porque a escada pode cair. O golo para provar pode transformar-se na garrafa para recordar e nos litros para afogar. Um dos cegos pode ter marcado as cartas com relevos em Braille e ser irmão do dono do casino clandestino.
As coisas podem efectivamente correr mal.
Mas por vezes não há outra alternativa senão poder perder tudo.
Especialmente se nunca se ganhou nada...
Ia a passear no outro dia e olhei para a porta do complexo turístico, onde existiam uns quantos bares e restaurantes, e vi um casal de namorados em discussão. Ele esbracejava. Ela escondia o rosto por debaixo de uma pala feita pela mão e unia as mãos num simulacro de prece quando seria a sua vez de deitar argumentos. A discussão não parecia acintosa. Pelo menos não excessivamente. Não existiam aqueles olhares de surpresa perante algo que o outro nunca deveria ter dito. Nada de lágrimas, pelo menos até aquela altura. Os esgares eram de exasperação, mas não existia uma bastarda, filha da raiva e desprezo que emana da troca (falta) de ideias quando a discussão perde o sentido para ser apenas uma espécie de jogo do esqueleto no armário com as articulações inflamadas. Procura-se uma espécie de dor e vitória pequena na tentativa de magoar pela suposta exposição à incoerência. E a partir de uma certa altura perde-se toda a cautela e deferência, passando a ser esse o objectivo do jogo. Não leva muito tempo até que se perceba que não há resultado nenhum a atingir. Mas ainda assim avança-se, com arrependimentos surdos pelo meio, na constituição de pequenos crimes entre amantes e amores que quase sempre se tornam cicatrizes nodosas, feitas de sombra ou mesmo de ameaça, de sangue.
E depois recordei alguns casos que conheço.
E percebi quão terrível é a verdade da frequência.
De algo que acontece demasiadas vezes sob a capa de uma aparente normalidade...

sexta-feira, março 31, 2006

Noto que em algumas franjas da opinião feminina, e reforço o termo algumas, que o ressabiamento está a crescer de forma avassaladora, mascarado de uma espécie de evolucionismo socialmente correcto.
Pérolas como a superioridade de um qualquer eterno feminino, associado a uma perspectiva maniqueísta de que ao universo masculino está necessariamente traduzida numa infantilidade e deslealdade quase genéticas, revelam um desconhecimento algo paternalista que por vezes inquina qualquer crítica, mesmo as legítimas.
Pensar que muitas mulheres não traem, ou que não procuram de alguma forma muitas das coisas que aparentemente criticam, é ter uma visão unilateral ou parcial da realidade. Pensar que algum dos géneros pode defender-se das suas iodiossincrasias, negando essa mesma defesa ao género contrário, é apenas um exercício de sobranceria, que vitima quer o machismo, quer o feminismo.
São perspectivas que abandonam o espirito crítico e se apoiam em normas de comportamento reiterado e na idolatria da tradição. São o pior dos vincos na contenda do tecido social inter-géneros, e, na minha modesta opinião, todos são culpados.
Talvez porque o esforço esteja em superiorizar e não entender, na paixão das defesas e não no espirito crítico das eventuais, e diga-se, necessárias discórdias.
A discriminação por género é tão nociva quanto qualquer outro motivo baseado numa realidade existencial própria do indivíduo, e que em nada afecte o seu valor como ser participante.
Podemos gostar mais de umas coisas e menos de outras.
Mas de alguma forma, cada uma das defesas ou ataques deve ser argumentativa. E não baseada num simples pressuposto de facto - ser homem ou mulher.
Lamentamos parte das nossas transformações quando alguns dos nossos amigos estão próximos, e ainda assim, parecem ver-nos à distância.
Por culpa nossa, claro.
"Love isn't what these asshole poets like McKuen want you to think it is. Love has teeth; they bite; the wounds never close. No word, no combination of words, can close those lovebites. It's the other way around, that's the joke. If those wounds dry up, the words die with them. Take it from me. I've made my life from the words, and I know that is so."

Stephen King, pela voz da personagem Gordon Lachance em "The Body", uma novela incluida no livro "Different Seasons", de 1982.

Dou-lhe toda a razão. Toda mesmo

segunda-feira, março 27, 2006

"Fame often makes a writer vain, but seldom makes him proud."

W.H. Auden
"Honesty is the best policy"

Cervantes
"One of the reasons for Casanova's success as a lover was that he, unlike most eighteenth-century men, paid a great deal of attention to the other gender's pleasure as much as he did his own. He also delighted in being seduced; though he is often thought of as the great seducer, he much preferred to consider himself the victim. He believed himself in love with many of the beautiful women he pursued, and, unusually for his time, often treated them as his equal and remained dear friends with them long after the affairs ended." - Wikipedia
Sim, porque as mulheres também predam... aliás, sempre predaram.
Sim sim... a religião organizada é uma coisa bonita...e coerente e perfeitamente de acordo com os valores de tolerância e respeito pela liberdade individual... e a teocracia então...

"The Prophet Muhammad has said several times that those who convert from Islam should be killed if they refuse to come back" and that even while this is so, "Islam is a religion of peace, tolerance, kindness and integrity. That is why we have told [Abdul Rahman] if he regrets what he did, then we will forgive him"The judge added more ominously: "If [he] does not repent, you will all be witness to the sort of punishment he will face."

Ver o magistral disparate em formato completo
aqui...
Nos dias dos escravos do pragmatismo, o sofrimento surdo da ausência conta-se em minutos. Nos poucos e insuficientes minutos que a contrariam, e que servem como parca desculpa para um universo de falhas e pequenos crimes entre amigos ou amantes.
Claro que todos fazem as opções que lhes são permitidas, ( ou não), e depois tentam no furor da sua criatividade encontrar as ferramentas de compensação.
Mas por vezes não basta. Não serve, não chega.
Porque os problemas surgem, e a correcção de comportamentos normalmente aparece em pleno reinado da irrecuperabilidade.
A consciência do que há a fazer tem de ter mais cuidado com o que se quer fazer. Porque no cansaço tem de existir a criatividade, o desejo de fazer algo mais, sob pena de se criar uma linguagem rotineira feita de uma falsa companhia e do almejar de sensações perdidas algures num constante adiamento.
A morte de qualquer forma de amor também pode operar-se por envenenamento súbtil.
Nos dias de hoje, talvez seja a moda aliada a uma terrível eficácia...
"Remember, remember, the fifth of November,
The gunpowder treason and plot.
I know of no reason why gunpowder treason should ever be forgot."
Fui ver a adaptação, se bem que é mais baseado na Graphic Novel do Allan Moore que outra coisa, de V for Vendetta. E vim rendido.
Visualmente irrepreensível, traz uma espécie de género misto. Um filme de entretenimento, ou vulgarmente apelidado de acção com miolos. Bem, se formos a ser honestos, já o Heat do Michael Mann fora um grande filme de acção com miolos, mas este tem elementos verdadeiramente irresistíveis.
Bem sei que há quem julgue que este filme é uma espécie de incitamento ao terrorismo, mas para mim é uma visão menor e redutora da obra. Existem referências claras aos EUA de hoje, ao perigoso caminho totalitarista que se trilha no presente, onde as pessoas estão dispostas a sacrificar a sua liberdade pessoal por segurança, mostrando uma curta memória para um passado não tão distante. As liberdades cívicas que tanto custaram a ganhar, acabam por ser uma espécie de bem dispensável por causa do medo.
V é um personagem, em meu ver, do melhor que há. Herói e anti-herói. Inspirador e correcto, mas também um lunático na melhor tradição do Batman. Lirico e intelectual, disforme mas fortíssimo, elegante e sofisticado, mas frio e implacável.
Evey é uma esfera de promessa naqulo que identifico como uma metáfora da voz interior de indignação de cada pessoa, aquela que até pode calar-se, mas denuncia internamente aquilo que realmente não está bem.
Gostei muito deste filme, precisamente porque dá uma visão original, cheia de ritmo e visualmente esplendorosa, de algo que nos deve fazer pensar. O amor à liberdade pessoal, à conquista que isso significa, já que a verdadeira segurança não é feita pelo controlo e bloqueio intelectual, mas sim pelo esclarecimento e em ultima instância, pois claro, pela justiça.
"This visage, no mere veneer of vanity, is it vestige of the vox populi, now vacant, vanished, as the once vital voice of the verisimilitude now venerates what they once vilified. However, this valorous visitation of a by-gone vexation, stands vivified, and has vowed to vanquish these venal and virulent vermin vanguarding vice and vouchsafing the violently vicious and voracious violation of volition. The only verdict is vengeance; a vendetta, held as a votive, not in vain, for the value and veracity of such shall one day vindicate the vigilant and the virtuous." - V

quinta-feira, março 23, 2006

Porra, afinal citei - II

One that does not think to highly of himself is more than he thinks.

Goethe
Porra, afinal citei - I

"Many people believe that humility is the opposite of pride, when, in fact, it is a point of equilibrium. The opposite of pride is actually a lack of self esteem. A humble person is totally different from a person who cannot recognize and appreciate himself as part of this worlds marvels."

Rabino Nilton Bonder


Ah pois é...

quarta-feira, março 22, 2006

Bem sei que existe uma corrente que considera a arrogância uma espécie de direito adquirido. Como um casaco social que protege essas pessoas da, em meu ver justa, censura pela bazófia e cabotinice que emana dos discursos elevados dos zarolhos em suposta terra de cegos.
Mourinho, Lobo Antunes, Prado Coelho, Vasco Pulido Valente, etc.
Será que de uma certa forma os feitos reconhecidos permitem uma espécie de discurso quase autista perante aqueles que (justamente diga-se) o reconhecem?
Será que a malta do quotidiano que resolve cagar as suas postas de pescada, está legitimada a fazê-lo pelos feitos?
Será que meia duzia de citações e o recital de um passado académico justificam uma espécie de hermetismo bafiento, onde qualquer tentativa de entender é considerada uma afronta, dada a pretensão de universalidade na obra destes artistas?
Desde quando perguntar é um crime? Ou o achincalhar gratuito, um estado de necessidade do talento perante quem o reconhece e enaltece?

terça-feira, março 21, 2006




Foto: Filipa Oliveira

Aos anciãos deve-se respeito.
As histórias contadas na cobertura encarquilhada, na rugosidade das suas vivências feitas matéria, são a matéria do mundo.
E eles renascem. São antigos, mas nunca velhos. Têm cabelo que cresce a cada renovação de estação. braços que se tornam forte e não mais quebradiços. Produtores de frescura quando passam a suportar o abraço quente do sol. Exploradores do nucleo da terra, da água que lá perpassa, em correntes inaudiveis aos seres que, contrariamente aos anciãos, caminham.
A Primavera nasce hoje, ou continua.
Ceres traz Perséfone de volta, e a luz espraia-se pelo mundo. Há um beijo suave e luminoso, um pincel tresloucado na mão de quem não conhece morfologias limitadas.
Os anciãos observam este tempo e vêm os tolos mamíferos em toda a espécie de danças. As mentes fraquejam nesta altura, assim como na transição para o Outono. A pressão do universo parece feita de um ímpeto naturalistico ao qual os anciãos respondem largando pó nas costas caprichosas do vento.
Hoje, dia dos anciãos, em que o mundo é igualmente banhado pela mesma quantidade de luz solar e os hemisférios não se olham em desconfiança, aqueles desempoeiram os fatos e refrescam o mundo. Movem-se no seu silêncio e reiniciam uma nova etapa na jornada da paciência.
E então tudo é verde...

(Porque hoje é dia da árvore)
O fogo vive.
Diz-se dele que também lambe em queimaduras.
Tem mãos e dedos, encaracola-se ao crepitar.
Pinta a sua companhia de um laranja que afoga
Traz todo o calor que se lhe arroga
E lança-se numa missão indefinível.
Queima até se consumir, e consome quem queima
Enrola-se em labaredas contorcionistas
Numa voz estalada perdida da noite que afasta
O fogo está lá.
Opera o milagre da energia
arrasa enquanto espalha tom de alegria
E voa cego, sozinho
Na temperatura de um Inferno doce
O fogo está só á espera
Que todo o ardor comece
Para ser responsável solitário
De tudo o que ao seu calor acorre
Numa luz feita de queimadura
Daquelas que nunca morre.
O fogo vive.
Porque o fogo é.
E quando se extingue
num vermelho de sangue vertido
Reacende-se com o ar do mundo
Com o sopro de saudades acesas
Que o revive da ausência arrependido.


P.S. - Porque hoje é dia Mundial da Poesia :)
We protect people because we have to.
But it's not that they are fragile or anything. In fact, we measure the intensity of how much they matter, by the hurt that their demise causes us. And the more hopeless it seems, the worst we feel about our incapability to save them, even if for a single minute of true presence and company.
Está uma enésima versão de Casanova nos cinemas. Ao que me parece, suavizada.
Mas há algo na crítica latente ao mito de Casanova que me intriga.
O mito não nasce da verificação material do mesmo?
Casanova era o que era por vencer a resistência, não por obrigar ninguém a coisa alguma.
Assim sendo, quem deverá ser alvo de crítica no ambito do mito?
A meu ver ninguém.
A Liberdade não se escolhe. É-se...
Verde é a cor da Primavera :)

terça-feira, março 14, 2006

Portugal é mesmo uma merda por vezes, e as distribuidoras de cinema uma bosta fedorenta e pustulenta.
"Os três enterros de um homem" - de Tommy Lee Jones e "Ghost in the Shell" não estão a ser exibidos em Lisboa.
Além disso, quer um gajo marcar férias, e nem sequer há ainda cartaz dos festivais de Verão, à excepção do Rock in Rio que a julgar pelo cartaz ( Shakira e Ivete Sangalo???? tenham paciência!!!) nem vale o esforço...
Sem comentários...
Só se vive na verdade adaptável.
O que se tem para dizer, quando incontido, gera solidão.
É matemático.

segunda-feira, março 13, 2006

A razão pela qual Rachel é real em Blade Runner, e não uma Replicant, é precisamente a mesma que assiste a todos os fenómenos que envolvam o conceito de amor.
Quem tem o direito de retirar a imortalidade ao que mesmo na infíma proporção possível, pode não ser ilusório? Quando existe,
claro...
Sobrevivência é um estado intermédio entre o desespero real, e a expectativa talvez demasiado optimista.
Há demasiadas pessoas nesse estado.
Injusto.
We are all special cases...

Camus

sexta-feira, março 10, 2006

O descanso é também um auto-conceito...

A Paz já não tem essa sorte....


Foto - Filipa Oliveira

Nestes teus dedos que não tapam o sol, ou no abraço alto ao qual não chego, estão as rugas dos teus traços, o encarquilado enredo dos teus braços.
És alta. Profunda. Imensa e imortal, ultrapassando-me na minha suposta superioridade.
Como se eu ao falar pudesse ultrapassar a tua imensa dignidade. Como se o meu discurso, levado pelo vento e demais ruídos da natureza interventiva, pudesse fazer--te comparável, na majestade dos teus anéis internos, que são ornamentos do mundo que dificilmente morre.
E depois deixas-te observar. Tens formatos, espécies e lógicas.
Agrupas-te com semelhantes, formas um silêncio eloquente, já que todos procuram viver perto de ti. Chegas ao céu, mas tens a terra agrilhoada aos pés em felicidade enlameada.
E até morta te ergues, como nenhum monumento humano é capaz.
E fazes-te das cores que prosseguem no ano.
Aquelas que te pedem licença para serem Estações Diferentes.
Completas.
No ciclo do qual tu és a primeira e última representante da Natureza.
Árvore.

quarta-feira, março 08, 2006




FELIZ DIA DA MULHER
Este é sempre um dia complicado para escrever alguma coisa.
Especialmente porque são temas complexos, que versam sobre coisas como rivalidades antigas e códigos de sociedade ou vivência conjunta.
O dia da mulher tem uma importância indiscutível, porque, queiramos ou não, em algumas sociedades a secundarização de género ainda é uma realidade a ser combatida a todo o custo. Parte do Islão, e mesmo do Hinduísmo e país do Sol Nascente colocam a mulher numa postura de subserviência e em alguns casos, sujeitas a uma violência inaceitável, que raia desde a agressão física a todas as formas de humilhação intelectual.
Alegar desconhecimento de que ainda existem comportamentos sectários nas questões do acesso ao emprego e respectivas remunerações (e progressão de carreira) é não querer ver um aspecto feio mas real da sociedade em que estamos.
E não fica só por aí.
A emancipação é vista com desconfiança. Com um olho cerrado e um cenho franzido, porque os códigos ainda estão muito marcados. A atitude, a confiança, a independência e a busca do hedonismo ainda são vistos com os olhos de gerações feitas de comportamentos automáticos e dogmas sociais ainda mais difíceis de quebrar que as lógicas das religiões organizadas.
A agressividade sexual, a lógica da predação, são ainda vistas com os olhos assustados dos caçadores sem munições, que ainda não perceberam que este é um mundo a meias, e que como qualquer imóvel, há que saber partilhar sem conceder, porque muitas mulheres têm quase tanto horror à concessão como aos grilhões sociológicos.
A ideia é sempre a mesma, e está tão batida que mais parece um pregão de rua. É a igualdade na diferença que deve ser mantida, a chamada igualdade criteriosa, porque somos diferentes, e essa diferença significa riqueza. Mas direitos liberdades e garantias são conceitos objectivos, e como tal, não sujeitos a qualquer forma de subjectividade na sua aplicação, por força da aplicação dos princípios à pessoa humana. Ser humano.


Mas vamos agora ver o outro lado:

O paternalismo feminino aliado a uma lógica feminista que assenta naquele discurso ressabiado de que é feita tanta letra mal impressa. Aquela que generaliza na lógica da denuncia de opressores, mas que de alguma forma não reconhece a esses qualquer legitimidade senão aquela que é devolvida em certas matérias pelas próprias mulheres.
Aquele discurso que nos apelida a todos de patetas sexualmente incompetentes, egoístas e ignorantes.
Aquele que nos coloca numa espécie de zona inepta no que diz respeito ao campo das sensibilidades ou formas mais complexas de olhar para os fenómenos.
Aquele que acha que toda e qualquer exigência que o homem pode ter no plano estético ou ético é um fardo para a mulher que aparentemente tudo aceita.
Discursos que falam na obrigatoriedade da mulher ter de estar sempre na mó de baixo no que diz respeito à contracepção e cuidados consigo mesma ( experimentem ter de colocar um preservativo, fazer a barba todos os dias e combater a calvície e a gente depois conversa acerca das dificuldades de género).
Aquelas palavras que denunciam uma espécie de complot genérico relativamente a uma pretensa condescendência masculina para com a capacidade feminina.
Este é o outro lado.
O feminismo nesta perspectiva é tão idiota e bacoco como o mais primário dos machismos, e faz com que s interlocutoras percam toda a credibilidade. E como talvez formas mais atenuadas desse mesmo machismo, parece estar por toda a parte, nos gestos mais comuns.
O que é uma pena, demonstrando que afinal de contas, a desconfiança e o paternalismo parecem estar em ambos os lados da barricada.

E por isso mesmo celebro a mulher como ser completo e fascinante. Complexo, cheio de ângulos de análise, profundamente sensual, sexual e orgânico. Metade da humanidade cheia de mistérios que motivam qualquer incursão mais arriscada, desde que se não presuma nada e se aprenda com os contributos. Um ser pleno de diferenças que completam e não antagonizam. Uma inteligência emocional diferente, mas complementar, claro está.

Lamento que isto possa chocar as mentes mais libertárias/feministas, mas as queixas sobre determinados focos de pressão são injustificadas e próprias de uma visão unilateral. Acho aviltante que tenha de pedir desculpa porque gosto de mulheres bonitas, porque acho que devem procurar ser e estar melhores. Acho perfeitamente imbecil e primário o discurso politicamente correcto da primazia total do interior sobre o exterior, e claro está, vice-versa. Somos seres complexos e completos, e o corpo também é o que somos. É parte da nossa identidade e o receptáculo empírico do melhor que podemos ter na vida.
As pessoas que se abandalham, física ou intelectualmente, que deixam de perseguir (quando podem – não estamos a falar de pessoas que lutam por sobreviver, porque a filosofia só surge em estômagos cheios e tectos estanques) metas, evolução, objectivos, desistem de si e dão os outros por garantidos. E eu não gosto de pessoas que desistem de si mesmas. Que não têm sede de ser sempre algo melhores, de ver sempre algo mais, de respeitarem a sua integralidade humana, seja corpo ou mente.
Mas porque raio é que eu hei-de gostar de celulite? Ou banhas e pneus de inércia? A mesma pergunta faço noutra perspectiva. Porque hei-de gostar de raciocínios primários, ou conversa de novelas, cortinados, dejectos dos infantes, bola, o conselho superior de arbitragem? Porque hei-de de apreciar uma ignorância satisfeita e um estacar no tempo consciente e até feliz na sua pausa e autismo?
Será que querer ou gostar de mulheres que procurem viver e evoluir em corpo e mente é uma espécie de sectarismo? De indesculpável escolha?
Será que as mulheres também ainda acreditam que vendem convincentemente uma sua ausência de padrão e exigência?
Gostar da mulher é gostar da pessoa. Do que ela é, e do que ela pode ser, do que evolui e do que não se descaracteriza. Da sua beleza e intensidade, nas palavras ou em cada centímetro de pele. Na ternura, na sexualidade ou como dizia o Vinicius:

“É preciso
Que haja qualquer coisa de flor em tudo isso
Qualquer coisa de dança, qualquer coisa de haute couture (…)
(…) Não há meio-termo possível. É preciso
Que tudo isso seja belo. É preciso que súbito
Tenha-se a impressão de ver uma garça apenas pousada e que um rosto
Adquira de vez em quando essa cor só encontrável no terceiro minuto da aurora.”

No fundo, é respeitar a mulher esperar que ela possa ser o melhor que puder ser, sendo que se tente também ser o melhor que se pode. E devo dizer que no melhor que tento ser, talvez não consiga chegar nem perto daquelas que tentam ser o melhor que podem, como seres humanos completos, complexos, multifacetados, e cheios da beleza de seres que nunca estacam e evoluem não para a destruição o degradação, mas que nunca desistem de si, ou das suas visões do mundo que tanto gosto que comigo partilhem e com elas me ensinem.
Aquela que de alguma forma se busca e encontra numa dialéctica evolutiva, e faz de si mesma um ser humano sempre em potencial, sempre diferente. Inteligente e contornado. Sensível e sensual. Meiga e sarcástica. Aluna e professora. Total.
A que não desiste. Não a perfeita, mas a que quer ser o melhor possível.

É essa mulher que aqui celebro.

Feliz Dia para ela.

segunda-feira, março 06, 2006

Interessante....
consigo escrever no meu blog, mas não visualizá-lo...

Que pancada terá dado ao blogger desta vez????

sexta-feira, março 03, 2006



Se de alguma forma criamos sempre algo no destinatário dos nossos amores, sejam eles de que espécie forem, também é verdade que existem sempre os que são principalmente escultores, e os esculpidos.

Nessa alternância, nascem os mecanismos de admiração, sendo que o amor também é aferido na capacidade infinda de recriar o outro, celebrando-o.
"I'm looking in on the good life i might be doomed never to find.
Without a trust or flaming fields am i too dumb to refine?
And if you'd 'a took to me like
Well i'd a danced like the queen of the eyesores
And the rest of our lives would 'a fared well."

The Shins
Hidden Flame
Feed a flame within, which so torments me
That it both pains my heart, and yet contains me:
'Tis such a pleasing smart, and I so love it,
That I had rather die than once remove it.

Yet he, for whom I grieve, shall never know it;
My tongue does not betray, nor my eyes show it.
Not a sigh, nor a tear, my pain discloses,
But they fall silently, like dew on roses.

Thus, to prevent my Love from being cruel,
My heart's the sacrifice, as 'tis the fuel;
And while I suffer this to give him quiet,
My faith rewards my love, though he deny it.
On his eyes will I gaze, and there delight me;

While I conceal my love no frown can fright me.
To be more happy I dare not aspire,
Nor can I fall more low, mounting no higher.

John Dryden


"Roubado"
a este magnifico blog. Tanta qualidade todos os dias

quarta-feira, março 01, 2006



All the world stops now...


Foto: Imogen Cunningham

Quando nos mascaramos de matéria porque passamos por tudo sem sermos nada.
É precisamente assim. Parecemos estar em todo o lado, como que uma pequena brisa não mais construída ou esquecida, através da qual toda a matéria passa.
Como qualquer sonho, evidente, da materialidade passa-se à ousadia. Acordamos e temos os pés para cima, respirando em compasso menos certeiro. Vivos mas ainda não para além daquele terrível portal.
Depois repete-se. Estamos quietos com os ouvidos bem colados à brisa que passa, e não levantamos voo.
Permanecemos certos do formato das coisas, razão pela qual tudo nos atravessa. E tornamo-nos assim. Como que esquecidos em toda a materialidade, que parece passar sem nos ver...
Com a ternura de quem nada modifica, mascara-se connosco de esquecimento.


Foto - Filipa Oliveira

Há olhares que não se aguentam. Que transbordam.
Que ficam ali, puros, sem receios, mostrando-nos um reflexo da nossa culpa.
Há olhares que se tornam tão belos e honestos num segundo de aparição, que nos envergonham, que submetem qualquer teoria a um desejo baço de assentimento.
Há olhares que são tão superiores a nós, que o simples facto de os causarmos se torna coisa impossível de justificar.
Pedem-nos que sejamos a nossa identidade. Que façamos uma construção ligeira daquilo que pensamos ser porque já a isso se renderam.
Querem apenas ver.
Ver-nos.

segunda-feira, fevereiro 27, 2006



Foto - (A mui talentosa Filipa Oliveira)

E as certezas o que são?
É aquilo em que me desfio, por cada dia que aparece, por tudo o que mantém, pela lembrança do que teima em não se tornar etéreo.
Talvez qualquer caminho leve mesmo a qualquer lado. Talvez seja isso que nos mantém à tona, pela paixão admitida ao senso de chegada. Talvez sejamos nada mais que uma viagem. Um discorrer dos segundos, de caminhos que ficam para trás embora permaneçam sempre.
E quando damos por nós, com as mãos bem assentes na queimadura do que é o nosso primário, misturamos as memórias e novidades, somos morte rendida e insuperáveis saudades.

E as certezas o que são?
As marcas da observação do que somos.
As memórias que restauramos com o pincel de evolução eterna, que nada mais é que um beijo prolongado, a espaços aplicado.
Sou eu. No que sei dinâmico, no que marcado fica.
Sempre.

sexta-feira, fevereiro 24, 2006



Foto - Arden McDonald
E afinal vê-se.
A luz não vem é de onde se espera.
Mas surpresa das surpresas, não há qualquer inesperado.
Apenas luz nos contornos...
Percepção sem qualquer adorno da incerteza negra.


As entrelinhas são o cerne do tecido da coesão social.
Não a coesão em termos gerais. Não aquela que forma a sociedade enquanto estrutura gregária genérica. Falo sim da coesão social do nosso meandro, das nossas rotinas, necessidades e expectativas.
As entrelinhas são o discurso não dito, mas que se quer adivinhado. São os recortes de personalidade que constituem a surpresa capaz de fazer a diferença de aproximação. São os desarmes quando o golo parece feito.
Quem lê entrelinhas pode fazê-lo porque estas se levantam e provocam o tropeção, ou porque simplesmente há algo no texto geral que não parece bater certo. Ler nas entrelinhas é perceber uma excelente metáfora e ainda sim não vê-la completamente contextualizada. É entender que por vezes nem todas as peças de música podem ser integralmente melódicas, ou aceitar que alguns manjares, como algumas peças de caça, são bons quando estão quase podres.
As entrelinhas são a forma mais grata de perceber um esquema pessoal feito de necessários equilíbrios em oposição, onde as linhas parecem demonstrar contradições.
As entrelinhas são uma manifestação de interesse real, e a sua leitura uma corte em si mesma. São as frases silenciosas de um olhar preocupado, e o conforto de quem simplesmente não aceita as nossas desculpas esfarrapadas.
Especialmente porque não as queremos sequer dar.

quinta-feira, fevereiro 23, 2006

Nas gotas à minha janela, estão os cinzentos de uma lógica de vida, que reflete em toda a sua superfície o que há para olhar, e o que por ali se cruze.


E claro está, não podia faltar a imagem da imensidão de tudo o que parece perfeito.
Shadowboxer, pois claro...
E quando certas circunstâncias se juntam, especialmente num dia cinzento como este com música pungente, tendemos a deixar fugir certas coisas. Fugir ao controlo porque a noção de gratidão aparece, como um vento ligeiro que nos impulsiona a dar dois ou três pequenos passos. Cria-se a ilusão de que nada pode ficar quieto, sob pena de cair num sistema garantístico, o que para mim é a primeira e primordial falta de respeito perante aqueles que nos dão alguma coisa.
Algumas pessoas ouvem-me. Outras conhecem do meu cansaço. Outras dão parte da sua estrada para que eu possa caminhar pelas suas idiossincrasias como um convidado. Outras instruem-me a perceber outros mundos que não o meu. Uns confortam-me. Outros abandonam-me apenas para poder voltar com um abraço inflacionado. Uns ouvem o inconfessável e a confusão, outros passam-me a bola. Uns fazem parte, outros partem. Uns ligam, outros escrevem, todos se tornam palavras importantes num ou outro momento. Uns desaparecem, mas ficam. Outros ficam, mas nunca estiveram. Uns jogam, outros são regras.
E de tempos a tempos, torna-se importante agradecer-lhes. Nem que não imaginem que lhes é dirigido. Sinceramente, acho que é a percepção interna dessa importância que permite que cedo ou mais tarde permite revelá-la nos momentos que contam.
Assim sendo, cada um saberá o que lhe é devido, nem que seja porque ando às voltas com a forma como lhes hei-de demonstrar isso mesmo.
São poucos. Mas as multiplas faces dão-lhe o aspecto de multidão. O mundo parece cheio deles e o meu cinismo, quando aparece, não é suficiente para resistir à importancia simples do contributo que lhes é inerente.
Parafraseando Alan Ball, talvez não tenham ideia ou sequer simpatizem com o que acabei de dizer.
Não se preocupem.
Aposto que um dia saberão.
Espero. :)
Acho que
"Come to me in my dreams, and then
By day I shall be well again!
For so the night will more than pay
The hopeless longing of the day."

Mathew Arnold e a Banda Sonora de Serenity para começar o dia.
Que mais pode um homem querer...?
De acordo com o Público de hoje, um grupo de miúdos terá morto um homem à pedrada. Um sem abrigo travesti e toxicodependente.
O horror associado à acção é tão mais contundente quando a páginas tantas se lê :
"Ainda segundo o PÚBLICO apurou, os jovens negaram ter agido com a intenção de matar. No entanto, não conseguiram explicar o que os levou à agressão violenta, nem tão-pouco quem poderá ter desferido a agressão fatal."
O problema da inimputabilidade nestes casos gera sempre reflexão. Até que ponto poderão ou não ser criminalizados os menores de 16 anos, especialmente quando por toda a parte se ouvem ecos de atrocidades como esta? Há ou não a consciência do mal perpetrado? Será que deve ou não ser relevante a consciência do acto praticado?
A propósito desta citação do jornal surgem-me duas imagens.
A primeira a propósito da autobiografia do Stephen King no qual ele refere a primeira vez que tomou contacto com os olhos de um verdadeiro psicopata. E o que ele referia não era um mal bíblico a fazer cambalhotas num olhar demente, mas o vazio, o gelo, a total inexistência de valoração do que lhe era exterior.
Outra será a imagem dos meninos de William Golding, na sua magnífica alegoria da selvajaria inerente á condição humana quando desprovida de regras. Olho para esta situação e imagino as expedições de caça dos habitantes daquela ilha, o destino de Piggy, e toda a problemática inerente ao estabelecimento da idade mínima da percepção do mal. Quando é que será realmente possível a responsabilização por algo como tirar a vida a uma pessoa. Especialmente desta forma, que inspira imagens e noções dignas de pesadelos que nem sequer gostamos de mencionar, quanto mais recriar na mente.
Qual o passado destes meninos capazes de um crime que repugna o mais amadurecido dos homens? Ou será o enquadramento de uma vida passada insuficiente para explicar o assomar de um instinto puramente assassino e grupal que tomou conta de todos? Como Golding diria, talvez tenha sido o facto de o poderem fazer que fez emergir um instinto tão forte como qualquer outro inerente á natureza humana.
Portugal afinal de contas é tão igual a qualquer outro país. Entre as Joanas, as mulheres mortas em rixas familiares e coisas como estas, o fio negro do nosso emaranhado gregário está bem presente, e começa a tecer uma faixa bem visível no tecido social mesclado.
É complicado imaginar que o nosso cantinho de sol não está, como nunca esteve, a salvo de acontecimentos que geram acesas paixões e criam medos ou os novos mitos com que se assustam as crianças. Mesmo que os lobos nas florestas possam ser eles próprios.

segunda-feira, fevereiro 20, 2006

As miúdas gostam de músicos.
É fácil de perceber.
Há algo de absolutamente divino na criação de algo que se argumenta a si próprio, entra no corpo e deixa uma sensação o mais próxima da religiosidade que eu alguma vez experimentarei.
Como é que se resiste a algo assim?
E não é exclusivo às meninas...
Fionna, eu sabia que havia mais um argumento...

domingo, fevereiro 19, 2006

Love is a burning thing
and it makes a firery ring
bound by wild desire
I fell in to a ring of fire...I
fell in to a burning ring of fire
I went down,down,down
and the flames went higher.
And it burns,burns,burns
the ring of firethe ring of fire.
The taste of love is sweet
when hearts like our's meetI
fell for you like a child
oh, but the fire went wild..
I fell in to a burning ring of fire.....

Johny Cash

Bem sei que Match Point é provavelmente uma obra superior em todos os aspectos, mas "Walk The Line" tocou-me de uma outra forma. Por todos os motivos e mais alguns.
Ah, o o Joaquin Phoenix canta para cacete...
"The first and simplest emotion which we discover in the human mind, is curiosity."

William Burke


When you're right, you're right....

sexta-feira, fevereiro 17, 2006

Não é todos os dias que se arranja um(a) stalker...

Há gente triste e pequenita realmente...

terça-feira, fevereiro 14, 2006

Há uma perplexidade que tenho de confessar relativamente a este post da Isabela.
O discurso tende um pouco para a generalização, mas tenho por provável que se trata da experiência de quem escreve, e como tal, o universo que mais lhe parece correcto.
No entanto pergunto... que raio de homens se têm cruzado com a querida Isabela? Que raio de carapuça é esta que tanto nos querem enfiar, e que a mim nem sequer entra na cabeça?
Mas alguém tem dúvida de a realidade sexual tem tantas nuances quantas as práticas e entendimentos que se possa ter do outro? Alguém resume a prática sexual ao coito, deixando de parte tudo o que se pode fazer com a pele, com as imagens, com os jogos? Alguém tem a noção de se sem procurar o prazer alheio, o nosso de pouco vale ou compensa?
Se a mulher tem bem mais que uma vintena de pontos erógenos que nós, e tendo em conta que o clitóris não tem outra função naturalistica que não a produção de prazer, há alguma dúvida que o toque é a melhor forma de levá-la onde ela e nós queremos ir? Que o corpo feminino é um veiculo construido para o (seu próprio) prazer? Há alguém que ache algo mais assombroso e erótico que a linguagem corporal de uma mulher a quem se faz sexo oral?
Sinceramente, há aqui elementos que me fazem ter medo da pretensa realidade do meu género, ou simplesmente olhar para uma realidade que parece anacrócina ou demasiado datada, e sobretudo inflamada por uma percepção apenas parcial do fenómeno.
Deixem-me que vos diga que muitas mulheres também são insatisfeitas por sua responsabilidade, porque tem elementos da sua personalidade que nao a deixam libertar-se de um certo condicionalismo cultural, muitas vezes auto-imposto. Por isso, não me revejo neste cenário, nem o conheço.
Não o entendo como generalizável, e julgo sinceramente que na lógica de conhecer o outro ou outros, há um principio geral abstracto que serve para tudo. Observar, inquirir, descobrir, para depois se poder ser o melhor que for possível. Seremos sempre bons? Não. Mas se tentarmos, se a imaginação não for só um conceito vago e indeterminado, então ao tentarmos, talvez consigamos.
E quanto ás mulheres que são más na cama?
Porque não se fala nelas? Nas suas falhas?
No que não arriscam, não fazem, não se permitem?
Porque elas existem. E de que maneira!
Há más atitudes dos dois lados da barricada, definidas pelas pessoas, enão necessariamente pelo seu género. E não se trata de politicamente correcto aqui, mas sim de uma lógica atinente ao que aqui se pretende retratar, e que não reconheço como aplicável a mim ou como entendo o meu género.
Pela primeira vez em mais de dez anos, escrevo neste dia fora do requisito essencial para fazer parte dele. E devo dizer-vos que, por um lado, é curioso ver o fenómeno de fora, especialmente quando já há muito que a zanga de tempos dificílimos se diluiu numa realidade que tem tanto de complicada como de interessante.
Os relacionamentos estão a mudar, dizem alguns. Talvez. Ou talvez as pessoas tenham perdido a pachorra para a inércia que ataca alguns dos relacionamentos "estáveis", devido a tantos ataques dos chamados pragmatismos. As contas, os putos, as chatices, e o diabo a quatro destroem o tecido relacional como qualquer falta de movimento pode atrofiar e rasgar um músculo.
E o mais curioso é que a grande maioria destas coisas são criadas por vontade dos próprios intervenientes no relacionamento. É um pouco como um ladrão que tem oportunidade de encher os bolsos e a sacola com tudo o que puder sacar da câmara do tesouro, apenas para morrer afogado no fosso, devido ao peso que carrega consigo.
E depois surgem as queixas. Os olhos cansados, a rotina pragmática que assassina o erotismo e o simples gozo de estar com alguém porque afinal de contas, as responsabilidades tornaram-se o motivo para viver, e não um acessório que permite essa mesma vida.
Sei que muitos me largarão um tijolo na cabeça, mas quando começam os processos de substituição, os problemas da criança-rei (substituto), parece que um esforço hercúleo acabará por limpar todos os pequenos crimes que os dois relacionados vão cometendo entre si.
Bem sei que isto não é genérico, mas são muitas as pessoas que colocaram a sua vida em piloto automático, e que julgam que essa modorra será suficiente.
O problema é que o amor é como um bonsai daqueles que são do caraças para manter vivos. É um filho da puta caprichoso e retorcido, mas cuja beleza inerente o deixa perfeitamente imune às supostas tentativas que tenhamos de o ignorar, pelo menos enquanto conceito.
O dia dos namorados ( desgraçado do Valentim perdeu a cabeça literalmente por causa de uma mulher) não deve obviamente substituir um elemento de continuidade ao longo de todo o ano. Desgraçado do(a) idiota que só oferece prendas neste dia, e que compra alguma coisa cheia de coraçõezinhos que dão mau nome à piroseira. Mas também não julgo que este dia seja algo de negativo. Tomara que muitos dias aparecessem como uma justificação para se fazer algo de bom perante alguém de quem se gosta, e consigo pensar em efemérides muito piores.
Mas a verdade é que uma rosa mal enjorcada ou um livro comprado nos saldos do Carrefour não ajuda em nada a conseguir provar uma preocupação sincera e emocional.
Sem imaginação e vontade de rir, sem a preogressão e a evolução do corpo e da mente, tudo recai numa sensação de falsa segurança, mas sem o elemento que motivou tudo. E o cansaço vive da permissão dos seus portadores.
Por isso, feliz dia de São Valentim a quem o aproveite da melhor forma, como mais um jantar e sessão de sexo desenfreado numa lógica onde estes dois se repetem amiude e com gosto. Sim, apimentado pela ocasião pode levar a uma loucura extra. E esses sim, são os verdadeiros viajantes do dia de São Valentim. Os restantes não passam de consciências culpadas com uma má receita no bolso.
Mas o Amor ainda tem que se lhe diga...

segunda-feira, fevereiro 13, 2006

Era o Hal Hartley que dizia que não existia nada além de desejo e os problemas que isso acarretava.
A falta de desejo é um problema em si mesmo bem maior, parece-me.
O desejo cria a racionalidade, porque esta só existe na evolução, e só evolui quem deseja.
Ao querer chegar a alguém, a lógica aplica-se.
Seja em que contexto for.
Só chegamos, evoluindo no que somos, para podermos aparecer como algo junto a alguém.
Só desejando chegar, podemos ter, porque querermos ser.
Parece-me...
Nunca mais olharei para uma bola de ténis da mesma maneira.
Ou para o corrimão de um passeio ribeirinho, junto ao Tamisa ou não.
Aumentou a minha ânsia de ver Londres.
Woody Allen assina um registo fantástico, visto por dentro. Por dentro da carne, do sangue, por dentro das convenções, da conflitualidade dos estados emocionais, das necessidades de sobrevivência confundidas com o conforto irrecusável e as premissas aceites numa barganha pelo que se julga indispensável na alma.
Match Point aborda de forma dura, mas magistralmente rica, o mais complexo e bem filmado enrolar de corda ao próprio pescoço que vi em anos.
Na minha modesta opinião, nunca vi um personagem devorar-se a si mesmo com tanta determinação, na linha clássica do caminho sem retorno característico de qualquer tragédia grega.
Fala-se da sorte. Fortuna imperatrix mundi. Da sorte como motor da vida, como construtor ou destrutor de existências, na lógica de um detalhe que forma mundos, acontecimentos e escolhas.
Allen filma um conjunto de personagens vivas, numa cidade que parece ainda mais viva que eles. Talvez seja um problema meu, mas não me ri uma única vez durante o filme inteiro. Estava demasiado tomado pelo destino terrível de todos os personagens para reconhecer o humor do Allen na emanação reiterada das suas neuroses.
O que posso dizer de Match Point, é que Allen não viu a sua bola bater na rede e cruz´-la para ganhar um ponto suave do outro lado. Este filme é um Ás, uma bola que não dá para responder, sem sorte, só com arte, só com saber, só com um olho para ver a realidade e enchê-la de uma beleza fria e uma dor credível.
Woody Allen - Game, Set and Match...



Há uma espécie de estratégia subreptícia de alguns sectores da opinião pública no sentido de acusarem os detractores da Igreja Católica de brandura com os recentes acontecimentos relativos às caricaturas dinamarquesas e a onda de violência islâmica que terá acarretado.
Qualquer insinuação nesse sentido é claramente despropositada, e vou dar a minha visão das coisas, na medida em que me seja possivel.
Qualquer regime ou organização teocrática/dogmática é para mim uma violência contra as minhas noções de racionalidade, de valor da psique humana, da sua natureza e capacidade. Mas isso são opiniões. No entanto, quando estes regimes ou actos começam a interferir na esfera dos direitos humanos, daquilo que considero ser a dignidade mínima da pessoa humana, então a coisa muda de figura.
A atitude de alguns sectores do Islão face a este assunto é absolutamente inaceitável, e própria de uma certa cultura de fanatismo que isola esses mesmos sectores na pior forma de terceiro mundismo imaginável. A verdade é que a violência e retaliação verbal ou física isola os seus praticantes numa insustentabilidade de posições, e por isso mesmo, fazendo perder a mensagem de (justa?) indignação.
Agora relativamente a esses sectores da opinião pública que esfregam as mãos porque o Islão está a pintar-se da pior cor possível nos dias que correm, e porque os supostos defensores da nação islâmica aos seus direitos estão cair em contradição, só digo isto.
Disparates.
Não há qualquer desculpa para os actos perpetrados nas embaixadas, ou a suposta morte do padre italiano à porta da sua igreja. Não há qualquer justificação em qualquer forma de relativismo cultural para as repetidas violações de direitos humanos básicos, especialmente no que concerne às mulheres. A teocracia ferrenha de alguns sectores importantes dos estados islâmicos, combinados com a miséria sem fim à vista que assola o povo, isola os seu discurso numa espiral de violência que inquina os esforços de outros sectores dessa sociedade em atingir a moderação, o diálogo, a abertura e integração no mundo moderno.
No entanto, esses sectores que acusam os críticos ( como eu orgulhosamente me confesso) da Igreja Católica, e conservadorismos afins, de serem brandos com esta questão, analisam na medida em que lhes é conveniente.
(E atenção que criticar a Igreja CAtólica ou os Radicais islâmicos não significa criticar os católicos ou os muçulmanos. Apenas os seus extremismos levados a cabo por quem supostamente os representa oficialmente.)
A verdade é que não ouvi este brado em uníssono quando os padres norte americanos foram acusados e culpados da prática de pedofilia em dezenas de crianças, e a Igreja simplesmente realocou os padres prevaricadores, sendo que muitos nem sequer chegaram a ser expulsos ou excomungados. E isto só para citar um exemplo.
Que fiquem bem assente que ninguém é condescendente com a morte, a violência e a violação dos direitos humanos e que, quando alguém se identifica como agnóstico ferrenho ( e a espaços anti-clericalista),é-o genericamente, seja o criticado católico, muçulmano, hindu, ou budista.
Não há brandura selectiva.
Pelo menos não aqui.
Porque a pessoa humana não pode ser sujeita a determinados relativismos supostamente culturais ou religiosos. A liberdade digna e em respeito ainda é o bem insubstancial mais precioso da humanidade. Se a religião organizada o entendesse, talvez a sua mensagem não parecesse tão desfasada da natureza humana.
P.S. Se querem que vos diga, dos casos que mais me impressionou em sociedades rígidas e que se escudam num falso relativismo cultural, aconteceu na India.
Um casal de jovens, de castas diferentes, apaixonaram-se e foram decapitados pelas respectivas famílias. Sim, leram bem, decapitados. As estruturas rígidas, e as supostas regras contra a natureza humana, ainda por cima no que ela tem de melhor. O Amor. E imaginem aquele par de pessoas que teve a cabeça cortada por se manter fiel a algo que uma sociedade se recusou a entender, substituindo por assassinato a sangue frio.
Bem, a minha querida amiga LISA lançou-me este repto que, ao que parece, anda a fazer furor por tudo quanto é blog. E antes de responder, queria apenas deixar uma ideia. De que as manias são, por vezes, a pura manifestação da nossa originalidade. Uma pessoa sem manias deve ser uma seca desmarcada, e uma pessoa só constituída por manias, uma insanidade sem nada de divertido e tudo de stressante.
Ter "manias" parece-me algo relacionado com o ter uma originalidade, paixão ou fraqueza imensas por um par de coisas ou mais. No meu caso, vai muito para além das 5, lamento confessar...

Assim sendo, cá vai.

Regulamento: "Cada bloguista participante tem de elencar cinco manias suas, hábitos muito pessoais que os diferenciem do comum dos mortais. E além de dar ao público conhecimento dessas particularidades, tem de escolher cinco outros bloguistas para entrarem, igualmente, no jogo, não se esquecendo de deixar nos respectivos blogues aviso do "recrutamento". Ademais, cada participante deve reproduzir este "regulamento" no seu blogue."

1 - Barulho no cinema - fico positivamente doente com qualquer espécie de ruído parasita no cinema. Conversadores, pipoqueiros, atendedores de telemóvel, todos estes energúmenos me dão cada vez mais vontade de me empenhar até às orelhas, arranjar um plasma ou um lcd e ficar em casa a curtir cinema como deve de ser. Claro que nada se compara ao grande ecrã, mas pelo menos não tenho de levar com a malta que pensa que civismo deve ser o novo modelo da Honda...

2 - Roer as unhas - Não, nunca até ao sabugo, nem ao ponto de ficar com os dedos feitos em gelatina disforme, mas vou alisando os bordos com os dentes, num acto contínuo. Se estiver stressado ou concentrado, pior ainda.

3 - Querer saber tudo/ curiosidade - Péssima mania de querer dissecar, entender, perceber todos os mecanismos de causa efeito. Especialmente no que diga respeito às pessoas e suas atitudes, aos fundamentos do amor, da irritação, etc. A curiosidade leva-me sempre a querer ver, a querer perceber, entender, descobrir, por a nu. Por vezes pode ser desagradável para os interlocutores, mas ocasionalmente, nem isso me faz parar... não sei porquê - já viram o contra-senso?

4 - Casas de banho – esqueçam. Se não for a de minha casa, de casa dos meus pais, só um cataclísmico desarranjo intestinal me fará usar outra casa de banho que não a minha.
5 - Livros, musica e cinema - Mais do que manias, levam-me o dinheiro todo, e tenho pilhas de coisas que ainda tenho de ver ou ler, mas isso nunca me impede de aumentar o espólio sempre que tenho oportunidade. Só tocar em livros, DVDs ou bilhetes de cinema e CDs chega a ser motivo para os adquirir. Ir para casa com aquele peso dentro da mochila, ou de um saco de plástico, tocar-lhes, examinar e arrumar na prateleira. Fico a olhar para eles um tempo e durante os dias seguintes vou às prateleiras só para contemplar o crescimento do espólio, além de ver , ouvir ou ler o que lá está.
No espírito da passagem de testemunho, cá vai... passo o desafio à
Ana, à Ametista , ao Inconformado , e à Isabela

Bonne chance!!!!

sexta-feira, fevereiro 10, 2006

Aos amigos que sem tretas resolvem sorrir-nos sempre que é possível.
Que nos isolam numa imagem que se torna mágica não por nós, mas pelo seu talento vertido na fotografia.
Pela simpatia do trato, e a sinceridade nas partilhas das coisas simples que a amizade descomplexada traz.
Por uma lembrança para uma noite de música com ícones de 25 anos que mais parecem putos energéticos e pejados pelo talento de mil vidas. Por aquela sala enorme a cantar em uníssono.
Pela busca que faz do âmago dos outros sem afectações do glicodoce desnecessário.
Pelo Personal Jesus de há duas noite, obrigado....

segunda-feira, fevereiro 06, 2006

A verdade é um pouco como uma vacina.
Deve ser administrada como precaução e prevenção, ainda que seja feita da pior das doenças em estado lantente.
A protecção que confere, permite a evolução perante outros riscos.
Considero-me uma pessoa até bastante imparcial no que toca à questão do médio oriente.
Acho que de alguma forma a noção de diálogo, seja entre estados ou pessoas, há muito que se perdeu numa apaixonada fogueira de ódios e lealdades, onde a teocracia ainda tem um peso imenso.
A ocupação dos territórios Árabes é, em meu ver, um escândalo que a comunidade internacional vê com um olhar meio filtrado, mas o recrudescimento do terrorismo mostra claramente que o fanatismo é uma excrescência da qual o mundo tem de se ver livre rapidamente.
Não partilho minimamente da visão securitária e saloia do palerma que rege os EUA, e dos que, surpreendentemente vêm a público dizer que nem sequer se importam que alguém ouça as suas chamdas telefónicas, desde que ninguém lance uma bomba suja em Times Square. Entristece-me ver a falta de memória de que os sistemas securitários, apenas a um passo dos totalitários e ditatoriais, parecem beneficiar. Gostaria de ver se esses amigos que assim falam também gostariam que lhes censurassem o conteúdo de internet, ou de filmes e livros, ou que lhes entrassem pela casa dentro porque um dos miúdos por acaso falou com um colega de uma famíia àrabe ao telefone. Bolas, porque não copiar um sistema politico como o chinês, onde toda a gente se porta bem e a segurança é mantida à lei da mais odiosa repressão e hipocrisia ditatorial? Ali dificilmente se lançam bombas, realmente...
Mas isto a propósito de quê?... Ah, sim, esta trapalhada das caricaturas.
Na lógica do que disse acima, a liberdade de expressão é-me muito cara. E sobretudo não há qualquer desculpa para aquilo que foi levado a cabo quase a eito em embaixadas europeias por parte de grupos fundamentalistas. E lamento se não vou ser politicamente correcto, mas se essas caricaturas foram destinadas a criticar a postura fundamentalista e belicista de uma certa facção do mundo árabe, como já outras foram feitas no sentido de criticar o cristianismo e quejandos, então ainda menos razão dou aos detractores e críticos da ditas imagens.
É precisamente com iniciativas destas, e vamos lá ver o que vai ser o governo do Hamas, que o algum do mundo árabe perde a legitimação do discurso denunciador de muitos dos abusos de que é vítima. Porque em algum do seu discurso teocrático e inflamado de críticas ao ocidente, falta a perspectiva da auto-análise, especialmente neste caso.
A liberdade religiosa é tão legítima como a liberdade de expressão. E neste caso, nem sequer há qualquer incitamento ao racismo, à violência, ao abuso sexual, ao genocídio. É um gozo com algo que admito ser sagrado para alguns, mas que em momento algum legitima o retorquir em violência, próprio de selvagens fanáticos que não merecem qualquer respeito ou crédito.

quarta-feira, fevereiro 01, 2006

"Brokeback Mountain," "Capote," "Crash," "Munich" and "Good Night and Good Luck"

O quinteto que me vai levar o dinheiro, embora o Crash já tenha feito a sua quota parte no impacto que me provocou.
Tenho muita curiosidade em ver "Capote", especialmente pela aparição da personagem da Harper Lee, que escreveu um dos livros que mais gosto.
"Munich" pôs a comunidade judaica de Hollywood em desassossego. Só por isso vale a pena ver.
"Good Night and Good Luck" - caça às bruxas, ou como era o Bushismo com outro nome. Clooney a mostrar argumentos que não os habitualmente referidos pelas moças.
Gostei muito do livro "Shipping News", o que me leva a ter curiosidade em ver como pegaram nesta história da Annie Proulx, mesmo antes de ler o livro.

Enfim, a noite do Óscar traz glória a pequenos filmes, sobre realidades complexas e uma reflexão geral sobre o estado das coisas.
Espero até lá ter visto os 5.

Oscar Night is happy insomnia night...
Ryan Adams and The Cardinals...

Excelente...