Aos que esperam, alento.
Aos que aguardam, coragem.
Aos que antecipam, calma.
Aos que se mortificam, lógica.
Aos que trazem, retribuição.
Aos que ficam, uma mão aberta.
Aos que tocam, reacção.
Aos que fogem, razões.
Aos que insistem, visão.
Aos que são melhores, aplauso.
Aos que se tornam piores, marasmo.
Aos que são especiais, reconhecimento.
Aos que me fazem falta, uma imagem.
Aos que admiro, o céu.
Aos que gosto, só eu.
ESTAÇÕES DIFERENTES
"The most important things are the hardest things to say. They are the things you get ashamed of, because words diminish them - words shrink things that seemed limitless when they were in your head to no more than living size when they're brought out. But it's more than that, isn't it? The most important things lie too close to wherever your secret heart is buried, like landmarks to a treasure your enemies would love to steal away. And you may make revelations that cost you dearly only to have people look at you in a funny way, not understanding what you've said at all, or why you thought it was so important that you almost cried while you were saying it. That's the worst, I think. When the secret stays locked within not for want of a teller, but for want of an understanding ear."
Stephen King - "Different Seasons"
Partilhar informação @ estacoesdiferentes@gmail.com
Stephen King - "Different Seasons"
Partilhar informação @ estacoesdiferentes@gmail.com
terça-feira, junho 27, 2006
segunda-feira, junho 26, 2006
As pessoas valem sempre a pena.
Não sempre, não todas em todos os momentos, mas não fazer nada por ninguém é algo que não conceptualizo sequer.
As pessoas, aquelas que ajudámos, aquelas que nos deram a mão, as que precisam, as que oferecem, as que marcam porque estão marcadas, as que surpreendem pelo puro gozo de dar.
O esclarecimento pode ser uma faca fria, mas as pessoas valem sempre a pena. Algumas. Em alguns momentos, que se pretendem que sejam muitos.
As pessoas podem ser a pior coisa que nos acontece. Mas também são a identificação daquilo que é inamovível, a parcela de dignidade interna que nos faz amar o melhor da humanidade individual. Das trocas de ideias parcelares, dos mundos que só conhecemos pela troca do aparentemente impensável, mas que afinal é feito do individual, único e diferenciável.
As melhores coisas que fiz, e as melhores que vivenciei, tiveram em conta o contributo de alguém. Sempre.
É na presença e companhia de outros que sempre evolui. Foi na aprendizagem dialéctica que conheci as melhores e piores realidades. Foi querendo por vezes rejeitar todo o contributo de qualquer calor que aprendi a ver a sua importância.
Por vezes fazemos o que podemos, guiados por algo que não se destorce. É um enamoramento intelectual pela rectidão de algumas ideias, impulsos e junção das parcelas de realidade. E ao fazermos isso, chegamos ao mais intrinseco de poucos, para ver a imensidão aparente de muitos.
Sem os outros não sou nada.
E tenho essa convicção perfeitamente instalada. Em paz.
Quando os amo ou detesto, sei sempre que será assim.
domingo, junho 25, 2006
Physical pleasure is a sensual experience no different from pure seeing or the pure sensation with which a fine fruit fills the tongue; it is a great unending experience, which is given us, a knowing of the world, the fullness and the glory of all knowing. And not our acceptance of it is bad; the bad thing is that most people misuse and squander this experience and apply it as a stimulant at the tired spots of their lives and as distraction instead of a rallying toward exalted moments.
Rainer Maria Rilke

Jack Vetriano - The Singing Butler
"From a pool of ink I am born. I open my eyes only to see the hollow darkness I’ve developed in and quickly close them again for they have no utility whatsoever. There is an awkward being embracing my body, doing everything I don’t, spreading everywhere I am not every time a suffocated gesture of mine empties a spot. What is this substance I cannot breathe, which overtakes my vital territory in slow motion, shaping me as I shape it? An uncontrollable (yet rather inspired) contraction of my limbs provides me with the necessary impulse to fly towards the surface. My black deformed enemy immediately fills the vacuum of my former prison (rejoicing with glory, hollower than ever). I realise now how fortunate I have been to escape.
Cold. So cold. Lungs pitifully soaked; arms, legs, everything. In face of such a thermic chaos there doesn’t seem to be a need for that gloomy umbrella you insist on painting. Who will hold it for you when it’s finished, anyway?
From the desolated canvas a strip of sand arises at my feet. Two or three rain deposits run through it (as fresh streams through a wasteland), although I am not quite able to recognise their movement. A few brushes ahead I am caught by the glimpse of a distant sea – some timid, but nevertheless imposing resemblance of a sea, brought to my private environment by a burst of pale, intense blue. Another umbrella. Dear Jack has chosen me for his much-adored toy. He has confined me to what seems to be his idea of a playground, and is now hermetically sealing it with sky-crowding umbrellas. How clever of him to use servants as umbrella-holders (or is it rather umbrellas as servant-holders?). You see, a lower-class member will hardly ever drop the burden and escape when in presence of his all-mighty boss. Therefore, risks minimised, this lost gentleman is to remain under strict and permanent surveillance.
I sense someone approaching. My numb limbs are finally receiving the warm tenderness of some cornered sun’s rising rays. Again, a shivering presence among us. The distinctive scent of a lady’s perfume, the indescribable glow of a silk dress. Oh, painter, make her beautiful! Let her fill with radiance this smoke-sheltered desert! Make her shy and gracious, so that I may take her by the hand and lift her in a dance with all the gentle passion of these sand-covered shoes."
Uma visão da qual gostei muito, de uma pessoa que me é querida e que se inspirou no quadro acima apresentado. R., para quando a tal narrativa prometida, se quiseres, cheia destes delírios?
quinta-feira, junho 22, 2006

"A amizade é um acto de vontade. Pode fazer-se alguma coisa por ela. Podem fazer-se muito mais esforços. Controlar mais fenómenos de comportamento. Uma amizade pode querer-se na totalidade, e aceitar-se nesse outro tanto. Uma amizade satisfaz mais do que dói, e por momentos, pode quase enganar ao ponto de se pensar que nada mais que ela é necessário para que a imensa fome de alma que por vezes temos fique queda e saciada.
Mas somente quase... é uma ilusão quase perfeita. Quase...
Porque de uma certa forma, nunca sabemos até que ponto podemos ser ultrapassados por nós mesmos. Os nossos desejos brincam connosco, fazem-nos voar ou enterram-nos em escuridão opaca. Dançamos a sua musica como se nada mais pudéssemos ouvir.
E nessa redoma de encantamento, nessa parcela de mundo que pode realmente isolar-nos, talvez só a amizade possa entrar. Porque será ela que acabará por nos vingar sempre, quando a ilusão termina e deixa aquela voraz insaciedade. Aquela que muitos dizem que o tempo cura, mas que bem vistas as coisas, só piora, até que apodrece e se esquece, porque a substância sonhada deixa de ter o formato pelo qual foi amada.
No fundo, é um processo de substituição, nunca de esquecimento. Porque esse momento deixa-nos sempre de alguma forma perdidos nem que seja pela reiterada memória que dele possamos ter.
E aí, como em tantas outras coisas, a amizade pode ser a única coisa que possa fazer algo semelhante a um salvamento. Entendo que um amigo real faz com que a necessidade solitária que criou um Deus imaterial e sempre companheiro, produtor de esperança, seja desnecessária. Um amigo real, o milésimo homem ou mulher é quem preenche esse vazio. É quem cá está, mesmo quando não damos por isso, é quem vê, mesmo quando não mostramos, é a palavra certa acerca daquilo que nunca confessámos ou partilhámos. É quem atura as nossas merdas, mas sem com elas concordar. Bem sei que é algo sobejamente conhecido e batido, mas nem por isso deixa de ser verdade, penso eu.
Assim sendo, seja feita a justiça a quem o disse de forma superior, a amizade é a incondicionalidade de um estado de afeição. É a renuncia nunca esperada, alguém que vê em nós uma missão sem qualquer objectivo imediato. São aquelas pessoas que nada temem relativamente a nós, nem quando estão connosco, e fazem-nos sentir exactamente o mesmo."
Já o proferi em tempos, mas hoje torna a fazer-me falta dizê-lo.
quarta-feira, junho 21, 2006
Quando encontramos uma pessoa complicada e dificil de conhecer, tendemos a pensar que há alguma má vontade, ou um necessário desiquilibrio entre custo e benefício.
E no entanto, é a génese que deixa sempre a dúvida, tão deliciosa como qualquer espécie de descoberta sequencial. O porquê, que em certa medida obriga a revelações que nos colocam logo em aparente desvantagem, é sempre o mote.
E deixa de existir um porquê quando essa relutância é instrumental e afectada. Porque se há uma vontade, o porquê explica-se, e com ele desvanece-se o prazer de algo especial, exclusivo, que se consegue muitas vezes sem se saber bem porquê, mas que encerra aquilo que considero a real empatia.
As pessoas que são dificeis de conhecer, não sabem que o são.
E encantam em parte porque a sua resistência é inocente, real, honesta, fazendo adivinhar que o que escondem, também o será.
É por isso que o desafio se torna tão irresistível.
Julgo...
Experimentem parar um bocado.
Deixar que o barulho exterior simplesmente vos assoberbe, que o som entre na vossa cabeça e percebam até que ponto tudo parece pronto a explodir. Os sons dos carros, o matraquear dos passos, os prantos dos petizes e o estalar do verniz triste nos rostos rasgados pelo cansaço.
É ensurdecedor. Se abrirmos a porta da mente e tentarmos apenas prestar atenção a tudo o que nos rodeia pelo rugido urbano, pergunto-me a que distância ficamos de um cansaço extremo pendente para uma semi-demência.
Fecho a janela do carro e o silêncio parcelar é apenas recordação da habituação a isolamento por camadas. Ouve-se demasiadamente a voz interior e os seus ecos.
Porra, no ensurdecimento, venha então o diabo e escolha.
A urbanite é por vezes aguda e dolorosa.
Mas Lisboa é uma mulher, e por isso...
Hoje é o solstício de Verão...
E como hoje não poderei estar dentro de água às dez horas da noite, deixo-vos a impressão que esta data trouxe há um ano atrás.
Poderão vê-la aqui.
Mais um daqueles instantes em que a Natureza que não se sabe bela, transcende e sublima ainda assim todo esse conceito.
E como hoje não poderei estar dentro de água às dez horas da noite, deixo-vos a impressão que esta data trouxe há um ano atrás.
Poderão vê-la aqui.
Mais um daqueles instantes em que a Natureza que não se sabe bela, transcende e sublima ainda assim todo esse conceito.
segunda-feira, junho 19, 2006
O Amor, por ser multifacetado, tem sempre em si mesmo a amaldiçoada dualidade do conceito que sofre de descrença lúcida e desejo mal disfarçado de materialidade.
É algo infinitamente mais perigoso do que se imagina, deambulando a sua inegável beleza por profundezas do ser que não roçam só a pureza dos estados incondicionais e maravilhosamente raros de racionalidade. Anda igualmente perto da nossa animalidade, e cria um senso de urgência na vida de todos os dias que nenhum outro objectivo consegue igualar.
A Amor é mal reputado por uns e endeusado por outros, como conceito escorreito e puro na sua materialidade. E no entanto mostra a perfeição da sua adaptabilidade nos pequenos estados de loucura, ou a ilusão magnífica de um olhar que não pisca, um estado de graça natural que não se transmuta.
O Amor, quanto muito, é sorte. É a resistência às experiências, feita da capacidade de reinventar a coisa mais visceral que a vida nos traz, e o laço com o mundo, embora ele nos ensanguente.
Não tenho opinião clara sobre o Amor nos dias de hoje. Como todos os mentirosos que maravilham quando finalmente dizem a verdade, é indissociável de toda a motivação de vida, e é, afinal, a procura que todos têm, mesmo que não admitam. Ou não sejam capazes.
É por isso que nunca se pode ser totalmente cínico relativamente ao Amor.
É vox populi.
Tomara qualquer deus ter o poder e efeitos do seu marketing...

Esta é para mim, ainda hoje, a melhor história. A quela que mais me tocou, que mudou curso de vida, que fez pensar, que fez tomar decisões, que me fez lê-la vezes e vezes sem conta pelo puro gozo da beleza e pontaria que via nas palavras e situações.
Não é com certeza a melhor história, (para mim é, mas as paixões profundas também têm destas coisas - ainda bem digo eu), mas foi escrita como um mapa interno, uma lógica tão profunda e óssea que ainda hoje me arrepio com dois parágrafos específicos.
Os personagens, as linhas de histórias, os respectivos destinos, a tristeza suave mas tão tocante no decorrer e demonstrar de todas as coisas que podem envolver a forma mais simples de amor que existe.
A amizade retratada nas páginas em causa é feita de coisas que arrepiam a pele de muita gente, especialmente o género a que pertenço. O amor fraternal oriundo da amizade profunda entre homens é ainda algo que trava muitas palavras na garganta, e sai em gestos atabalhoados. O asneiredo, as piadas, a palhaçada, tão necessária para que nós, artolas dos gestos contidos, possamos dizer a uma outra pessoa que ela é importante para nós.
Acho que é por isso que a morte de um dos personagem arranca sempre algo profundamente amargo e belo cada vez que o leio. Como se fosse sempre apanhado de surpresa.
Que privilégio é poder encontrar em algo inanimado, a fonte de uma paixão tão tremenda, que acompanha no tempo, e salva em tantas ocasiões.
a minha história pode não ser a melhor de sempre ... mas para mim, não há nada igual.

A simplicidade das mensagens da natureza, um pouco como a música, deixa-nos mudos. São criações de células perecíveis, mas encerram em si uma mensagem de simplicidade, numa natureza que deveria, no seu curso mecanicista, desconhecer o conceito de belo.
Mas estão lá. Em cores, formatos, ideias simplificadas de algo que o é mesmo desconhecendo de todo essa condição.
Está a chegar o Verão, e o sol arrasta esta multidão amarelada, e outra, na peugada dos seus raios. Os comportamentos começam a alterar-se, as ideias a surgir, e algo se transforma.
Como estas flores, algumas pessoas aparecem, sem saberem até que ponto são como são, e o quão parte de uma beleza simples mas fundamental podem ser.
Essas pessoas são um pouco como girassóis.
Belas porque sim, movem-se por reflexo próprio da sua natureza, e trazem a cor necessária a uma lucidez que desmonta matizes em vez de se preocupar com a luminosidade dos tons.
O Van Gogh lá sabia...
quinta-feira, junho 08, 2006

Férias:
Período de retiro para fazer o reboot ao sistema, reavaliar os percursos, sentir e criar as necessárias saudades dos presentes, dos companheiros de quotidiano.
Espaço cronológico no qual a leitura cresce consideravelmente, bem como os sms, e a ingestão de coisas menos próprias à linha.
Tempo de prazer, de descoberta, de algo que não seja o pragmatismo de todos os dias, e no meu caso actual, de reencontro com um silencio pessoal muito necessário.
Calor e cultura, mar e cobiça.
Bem hajam todos.
Até muito breve ( dia 20 mais ou menos)

Foto - David Mendelsonh
All the Right Friends
I know you say
Maybe some day
I need never be alone
I know I say
It's the right way
But you'll never be the one
I've been so alone now
For a long long, long time
I don't wanna hang out now
With the folks that just stopped by
While you party
You've been looking
But your searching never ends
You've been going
With the wrong crowd
You've got all the right friends
I've been walking alone now
For a long, long time
I don't want to spend now
With the folks...that just aren't mine
I don't wanna be with you anymore
I just don't want you anymore
I don't wanna be with you anymore
I just don't want you anymore
Rave on!Fall to...fall to...fall to...fall too
Fall to...fall to...fall to...fall too
I don't wanna be with you anymore
I just don't want you anymore
I don't wanna be with you anymore
I just don't want you anymore
I know you sayMaybe some day
I need never be aloneI know
I say it's the right way,
But you'll never be alone
I 've been walking alone now
For a long long time
I don't gotta hang out
With the folks that just aren't mine
I don't wanna be with you anymore
I just don't want you anymore
I don't wanna be with you anymore
I just don't want you anymore
REM
Some people just deserve to hear this from time to time, i guess. Perhaps we all do.
quarta-feira, junho 07, 2006
"Electrolite" do REM tornou-se esta manhã o recriar de um reencontro com uma paixão violenta que nunca passa. É uma faixa absolutamente linda, da qual já não me recordava não porque não a tivesse na memória, mas porque nos tinhamos acidentalmente desencontrado. Exactamente como paixões que nunca esmorecem, nos caminhos que se desencontram, sem culpa.
Os trilhos de uma vida cheia são por vezes desprovidos de compaixão.
E depois há isto.
"Your eyes are burning holes through me
I'm not scared
I'm outta here"
terça-feira, junho 06, 2006
Nos sorrisos sinceros de todos os dias, está o minimalismo feito de antídoto para um desespero rotineiro.
Nas atitudes e nas ausência de silêncio decorrentes, está toda a fundamentação metafísica (se quiserem), para tudo o que vale a pena perseguir.
Tentar ser melhor não é uma escolha. É um dever auto-imposto com todo o gozo da paixão insubstanciada, potencial, e sobretudo, motivadora.
É querer em abstracto, para dar e receber em concreto.
sexta-feira, junho 02, 2006
"Vicarious"
Eye on the TV'cause tragedy thrills me
Whatever flavourIt happens to be like;
Killed by the husband
Drowned by the ocean
Shot by his own son
She used the poison in his tea
And kissed him goodbye
That's my kinda story
It's no fun 'til someone dies
Don't look at me likeI am a monster
Frown out your one face
But with the other
Stare like a junkie
Into the tv
Stare like a zombie
While the mother
Holds her child
Watches him die
Hands to the sky crying
Why, oh why?'cause i need to watch things die
From a distance
Vicariously i, live while the whole world dies
You all need it too, don't lie
Why can't we just admit it?
Why can't we just admit it?
We won't give pause until the blood is flowing
Neither the brave nor bold
The writers of stories sold
We won't give pause until the blood is flowing
I need to watch things die
From a good safe distance
Vicariously i, live while the whole world dies
You all feel the same so
Why can't we just admit it?
Blood like rain come down
Drawn on grave and ground
Part vampire
Part warrior
Carnivore and voyeur
Stare at the transmitter
Sing to the death rattleLa, la, la, la, la, la, la-lie
Incredulous at best your desire to believe in
Angels in the hearts of men
Pull your head on out
Your head believes it give a listen
Shouldn't have to say it all again
The universe is hostile
So impersonal
Devour to survive, so it is
So it's always been
We all feed on tragedy
It's like bood to a vampire
Vicariously i, live while the whole world dies
Much better you than I
Tool - 10 000 Days
O concerto foi o que se esperava. Excelente.
Maynnard, continua pá!
Mas acabar com os Perfect Circle é que me parece muito mal!
Eye on the TV'cause tragedy thrills me
Whatever flavourIt happens to be like;
Killed by the husband
Drowned by the ocean
Shot by his own son
She used the poison in his tea
And kissed him goodbye
That's my kinda story
It's no fun 'til someone dies
Don't look at me likeI am a monster
Frown out your one face
But with the other
Stare like a junkie
Into the tv
Stare like a zombie
While the mother
Holds her child
Watches him die
Hands to the sky crying
Why, oh why?'cause i need to watch things die
From a distance
Vicariously i, live while the whole world dies
You all need it too, don't lie
Why can't we just admit it?
Why can't we just admit it?
We won't give pause until the blood is flowing
Neither the brave nor bold
The writers of stories sold
We won't give pause until the blood is flowing
I need to watch things die
From a good safe distance
Vicariously i, live while the whole world dies
You all feel the same so
Why can't we just admit it?
Blood like rain come down
Drawn on grave and ground
Part vampire
Part warrior
Carnivore and voyeur
Stare at the transmitter
Sing to the death rattleLa, la, la, la, la, la, la-lie
Incredulous at best your desire to believe in
Angels in the hearts of men
Pull your head on out
Your head believes it give a listen
Shouldn't have to say it all again
The universe is hostile
So impersonal
Devour to survive, so it is
So it's always been
We all feed on tragedy
It's like bood to a vampire
Vicariously i, live while the whole world dies
Much better you than I
Tool - 10 000 Days
O concerto foi o que se esperava. Excelente.
Maynnard, continua pá!
Mas acabar com os Perfect Circle é que me parece muito mal!

A perda de uma certa forma de inocência emocional pode ser um conceito dicotómico.
Fará parte de um processo de crescimento, como bem dizem os que por lá andaram e sobreviveram, mas também importa danos, alguns deles ainda à espera da carta da seguradora a confirmar ou desmentir a perda total.
Existe uma teoria muito popular que assenta uma certa ontologia perfeccionista do ser na progressão conturbada do seu caminho pessoal. Pensa-se que tudo ocorre por uma razão e que se emerge com a perfeita noção de que as provas só nos deixaram na melhor estação possível, ainda que o comboio quase tenha descarrilado.
Essa teoria merece alguns reparos, embora o esforço de alguns, quase instintivo e sem cariz volitivo, inspire aqueles que julgam estar sob o peso insustentável de uma reviravolta para a qual nunca contribuíram.
Há uma auto-responsabilização quando se aspira a algo melhor, e no que diz respeito às pessoas, esse processo assenta nas lógicas de exigência que se espera que quebrem uma cortina unilateral. Aquela que deixa passar a espaços, que dificilmente deixa sair, e se torna uma protecção lentamente envenenadora, se bem que prazenteira pelas descobertas que proporciona.
A inocência emocional, fonte da maior e mais intensa forma de estupidez e realização pessoal, é, passo o cliché, muito mais frágil do que pensamos. Eternizamo-la em meio ao inferno sensorial e cerebral em que ela nos lança no seu período mais intenso, mas esse pensamento torna-se a fonte de uma terrível saudade conceptual quando damos pela sua real falta.
Sendo que as pessoas acabam por ser capazes do absoluto insuportável e hediondo, mas também a fonte de toda a razão para deambular por aqui, resta pensar que o recriar de uma capacidade de crença emocional sem a mão conciliadora da racionalidade em todo o seu espectro, acaba por significar um verdadeiro milagre de resistência.
O melhor ainda acabam por ser as pessoas que nos apanham na curva, nos arrancam sorrisos sem licença, e fazem das nossas paredes uma adaptabilidade generosa onde nos acolhem. Como não recriam a ilusão da tal inocência, mas dão uma verdade talvez mais completa, melhor, mais humana e fiável. O melhor, no fundo.
E num dia de sol, como posso não agradecer-lhes?
quarta-feira, maio 31, 2006
É na normalidade dos nossos passos, dados todos os dias, e na observação dos detalhes, que encontramos as pequenas magias, os melhores truques, as mais inventivas desculpas para estarmos vivos. Para observar, para ver um pouco mais além, para esperar que os eventos nos deixem prontos a ter expectativa, para que a viagem seja tudo o que fazemos, precisamente porque é esperando a chegada que se procuram novas partidas.
Mas sempre sem abandonar a noção de que por vezes a tendência se altera, os fenómenos são colocados numa luz quente de Verão, e a serotonina acaba por convencer-nos que afinal, inventamos grande parte das cores com que pintamos as tendências da vida possível.
Por vezes é bom sentir um vento de bem estar, sem saber exactamente de onde sopra...
terça-feira, maio 30, 2006
sexta-feira, maio 26, 2006
PONTO G (?)
Esse renomado local onde parece que para as mulheres se torna possível passar da terra à lua em dois segundos, é para mim mais uma metáfora da dicotomia entre o desejo de compreender e a ausência de pedagogia.
Perguntar, inquirir, perceber, saber por interposta pessoa parecem pecados incongruentes com a lógica do amante competente e hábil. Há uma certa forma de paternalismo em alguns sectores da classe feminina, onde se diz à boca cheia que tudo deve ser intuido e percebido, mesmo que por vezes um pouco de comunicação pudesse fazer maravilhas pelos resultados finais.
O ponto G, que não duvido que exista, (espero que exista e que qualquer dia até possa tropeçar nele para que alguém desfrute ao máximo) é em muitas perspectivas, uma arma diferida de arremesso. É uma espécie de minimização que algumas concretizaram num conceito para justificar uma qualquer falta de habilidade na prática sexual.
Que diabo, se existe, e de alguma forma puder ser encontrado, porque não revelar? Porque não dar pistas quanto à sua localização para que posteriormente isso se possa repercutir de forma ainda mais satisfatoria entre os parceiros sexuais. Não será até uma forma de incrementar a afectividade porque se apoia na busca do maior e melhor prazer do outro? A mim parece-me que perguntar ou explicar não ofende, e por vezes dar uma ou outra indicação não é sinal nem de condescendência de quem a fornece, nem de inépcia de quem a recebe. São apenas uma forma de aproximação, e logo, parece-me, de melhoria.
O designado ponto G e a sua dificuldade de localização parece apenas mais uma forma de reforçar um certo mistério do eterno feminino, ao qual os homens só ascendem após aturada aprendizagem. Algumas mulheres, infelizmente, partilham um certo paternalismo que assenta na lógica de que a sexualidade masculina é evidente, ou seja, aquilo ou está de pé ou não, e pronto. E esse ponto G acaba por ser uma espécie de contributo para a separação conceptual entre a sexualidade feminina/complexa e a masculina/básica. Ora esta dicotomia não é falaciosa como é um perigo na manutenção da sexualidade saudável e exploratória. Por vezes não basta esperar. Por vezes podemos explicar, dar uma ajuda, e perceber a qualidade do parceiro com base no desempenho que faz de acordo com a sua vontade imaginação, e alguma indicação valiosa.
Existem muitos meninos do frango assado, que devem aprender que ser missionário durante demasiado tempo dá sono e é pouco piedoso afinal de contas, e muitas meninas que guardam um suposto segredo da sexualidade num silêncio expectante e até mesmo egoísta.
Bolas, qual é a lógica?
Se eu tivesse um ponto G, acho que tatuava uma espécie de seta subtil na pele que indicasse o caminho. Fora de brincadeiras, será que ao conhecermos os nossos pontos de prazer, não será uma melhoria de qualquer espécie de realcionamento darmos essa chave a quem queremos que o explore, para que aumente o prazer, e tudo acabe por ser melhor?
No fundo a ideia é sempre a mesma.
Ponto G, localização e forma de estimulação clitoriana, zonas erógenas preferenciais? Sim, podem ser intuidas e percebidas conforme os corpos se descobrem, mas caraças, se por exemplo se gosta mais de umas dentadinhas ao invés de um esfregão vigoroso, porque não dizer?
Se o ponto G está lá, é publicitá-lo a quem interesse! Porque só se pode adivinhar até certo ponto, e ter pior quando pode ser melhor é no mínimo, estranho e uma teimosia de certas tendências viciadas do comportamento social adquirido e respectivas limitações.
Ponto G à ribalta, já!
quarta-feira, maio 24, 2006
Muitas pessoas queixam-se.
Dos encargos, da trabalheira com os filhos, das lógicas mornas e repetitivas do que já não são relações mas uma espécie de sociedade por quotas unicamente com sócios de industria em co-propriedade de um imóvel que leva uma vida a pagar, das gorduras, do calor, do frio, do diabo a quatro.
Queixam-se que pouco muda e que tudo são obrigações. Disfarçam em discursos politicamente correctos a dilaceração que o quotidiano lhes provoca em troca de uma qualquer satisfação por objectivo supostamente cumprido. Remoem em silêncio o que o tédio das supostas escolhas traduz em sonolência. Só me lembro do John Cougar quando dizia "Life goes on, even after the thrill of living is gone".
E depois pergunto-me o porquê dessa rendição e algumas pessoas falam em crescimento e responsabilidade. Aquelas que supostamente transformam as relações numa espécie de pacto siamês onde o hábito e não o amor justificam ciumes, onde as convicções são substituídas por um código subentendido dos relacionamentos de longo prazo. Essa maturidade passa a ser a desculpa para a ritualistica assassina do espírito, do desejo de evoluir, tresloucar ou viver. Para não se procurar nada com uma paixão mínima, para que a música, as letras, as imagens, os formatos sejam não algo que se procura com o desejo de amar algo criado, mas um acaso ao qual de quando em vez até se presta atenção. Uma espécie de vantangenzita que se encaixou nos rituais de todos os dias, porque reagir é uma espécie de pecado contra a modorra vivencial.
Aceitam os papéis que uma rotina auto-infligida lhes deu, e escudam-se nessa ideia como se isso as ilibasse dos crimes que cometem contra si mesmos.
Sinceramente, ao menos os tipos que se desforram no trabalho e nada mais têm que isso, acabam por ser mais honestos. Esses não têm tempo livre porque escolhem não tê-lo, mas não agarram no que lhes pertence e estatelam-no contra uma parede de facilidades e rituaizinhos repetitivos. Esse não julgam que o sol se ergue e se põe justificado pelas coisas que há a fazer. Pelo que são obrigações ao ponto de as comprimirem numa espécie de torno pragmático que aniquila aquilo que as individualizou a certa altura. Aquilo que talvez tenha justificado que um beijo fosse furtado, ou que uma palavra mais arriscada fosse proferida. Aquilo que as individualizava numa conversa ou tornava a compra de uma prenda algo de entusiasmante, só para ver um sorriso. ( ao contrário da pergunta "que queres tu no Natal, que tenho de despachar isto". )
Sinceramente, muitas pessoas queixam-se da própria modorra em que se enterram, e as justificações soam um pouco como o "beyond my control" do Visconde de Valmont, ou seja, uma treta auto-indulgente.
Aceita-se a verdadeira solidão da falta de encontro dos comuns, e a genérica paixão que daí deriva, para se encetar um caminho do pragmático, onde as alegrias são por vezes pequenos espaços de transgressão, carcomidos pelo medo da vida adulta, e do que julgam ser obrigados a fazer.
Não se fortalecem amizades, nem se criam novas. Não se fazem ou descobrem coisas.
E depois, quando os relacionamentos se estatelam, entra-se na mais profunda e densa das merdas, em busca do conforto e da interacção daqueles que se negligenciaram por causas mais fortes que afinal redundaram na treta que sempre foram.
É por isso que essas muitas queixas soam sempre a auto-comiseração. São uma falsa questão, porque afinal de contas, é uma espécie de promissória de manutenção da boa vontade e interesse alheios quando as pessoas já desistiram delas próprias.
Enfim...
segunda-feira, maio 22, 2006
Estou em falta com alguém.
Quero agradecer á Luna pela imensa gentileza e ajuda inestimável que permitiram que redecorasse aqui o estaminé, para o poder reabrir.
E já agora passem por lá porque ela tem sempre algo de interessante a dizer.
Obrigado, Luna :)
Quero agradecer á Luna pela imensa gentileza e ajuda inestimável que permitiram que redecorasse aqui o estaminé, para o poder reabrir.
E já agora passem por lá porque ela tem sempre algo de interessante a dizer.
Obrigado, Luna :)
Quando nos deixamos ir, e percebemos que o percurso de vida nos colocou numa determinada posição, são os detalhes que nos colocam em cheque. São os pequenos elementos, as pequenas coisas, os pequenos passos. Somos nós confrontados pela vergonha suave dos nossos passos que nos transformam. Pelas escolhas feitas em momentos de tentação impossível, peranto os quais o silêncio dá respostas de conforto frio.
Somos feitos da lógica do que conseguimos aguentar. É por isso que as pessoas que nos dão pedaços de mais do que podemos suportar fazem o nosso quotidiano. São lancinantes porque dão-nos o mundo em respostas ao que não perguntámos.
E adoramos as pessoas que entram, que ficam, e nos constroem sem pedir licença. Sorriem-nos fazendo pouco da nossa bazófia, e são feitos do paternalismo necessário que deveria dar-nos a nossa verdadeira dimensão.
E detestamos o ponto a que somos finitos, à entrada de todas as antecâmaras do que pode ser cruel por nossa responsabilidade.
Somos o mundo associado em pormenores, acabado nas escolhas do que sabemos ser certo, mas só, acabado e seco.
Mas olhamos e a beleza está lá. Num simples acorde que nos adormece quando tudo se torna demasiado insuportável, e por fora o mundo fica na mesma.
A diversificação no quotidiano não é complicada.
As pequenas reinvenções derivam do interesse que achamos nas coisas. Se deixamos o mundo simplesmente passar por nós em cada uma das suas, ainda que pequenas, manifestações, tornamo-nos um repositório da nossa própria tristeza monótona.
São os pequenos rituais, e a capacidade de brincar com a simplicidade que trazem os instantes que depois se recordam. A lucidez não é significado directo de ausência de pequenos gozos. É talvez uma forma de os tornar mais intensos, pela lógica da alternância.
Muitas pessoas condenam-se a uma multiplicação de rituais e previsibilidades porque o apelo do conforto abafa o desespero. Porque a segurança é uma amante enfadonha mas regular.
Mas depois lá surge a queixa. A questão. O que se coloca em causa, simplesmente porque as fórmulas se esgotam, e o amor a tudo nunca é imóvel.
é a falta de diversificação no querer que tudo apodrece, acho eu.
Fui ver o Código Da Vinci. (atenção spoilers... se não viu o filme ou leu o livro, passe adiante)
E não entendo o hype. Os actores, tirando Paul Bethany e Ian McKellen que se entregam e parecem ter tido uma missão específica no argumento, andam numa sonolência que faz confusão. Eu, fã confesso de Audrey Tautou, fiquei desconsolado com a dormência que lhe é emprestada pelo guião, ou pela falta de convicção no material. A Hanks só lhe falta bocejar.
Eu, ser enfiado numa gruta nos últimos 3 anos, não li o livro, e como tal tive ao menos a expectativa do desenlace. No entanto, a intriga policial em si é fraquinha, embora as questões levantadas sejam interessantes, e mereçam uma investigação quando o tempo for mais simpático comigo. A ideia que o Graal seja Maria Madalena é muito interessante e faz algum sentido. É-me pelo menos mais simpática, porque reflete a noção de humanidade em Cristo, conceito muito mais consentâneo com a ideia que eu poderia fazer de religião, não fosse agnóstico.
Mas a questão que me colocou esta obra divide-se em duas:
1º - Porque terá isto chateado tanta gente? Porque terá a Igreja e a Opus Dei solicitado um boicote à obra? Na mesma linha do que foi dito da obra de Scorcese, eu considero esta última um filme muito mais certeiro, acutilante e mesmo terno. Logo, muito mais susceptível de chatear a molécula aos sectores mais fundamentalistas.
E a Opus Dei e o Vaticano enxofram-se por serem mostrados como um centro de poder sobre as massas, de influência e não mais que isso? A verdade chateia assim tanto?
2ª - O final da obra aponta para a experiência subjectiva de fé como sendo a única forma de entender estes fenómenos. A liberdade de sentir a experiência transcendental, porque a fé é essencialmente liberdade em crer num ente ou estrutura superior através de um juízo de afeição e convicção. O dogmatismo é apenas uma forma de criar um clube, não de propalar fé. E será sempre esse o erro das religiões dominantes. A tentativa de controlar e não esclarecer, de impor medo, e não esclarecimento.
Sendo assim, como pode ser este filme ou obra ou ataque? Quando até o suposto detractor da posição oposta à religião tradicional é visto como um fanático para o qual os fins justificam os meios?
Parece-me mais um produto de consciência pesada, por actos e posições que cada vez mais afastam as pessoas das religiões organizadas precisamente porque estas preocupam-se mais em controlar do que em mostrar alternativas a uma experiência de afeição e inspiração como é a sorte de crer em algu superior que supostamente nos protege e ama.
Como agnóstico, prefiro questionar pela liberdade intelectual. Pode ser mais solitário, mas pelo menos verificamos as nossas histórias.
Eu prefiro ter fé no meu semelhante, como dizia a certa altura Tautou, porque até podemos ser bons, e ao sermos, essa bondade e humanidade nasce de um impulso interno que é, em meu ver, o verdadeiro milagre.
O milagre da escolha que nos faz livres na escolha de um Bem criterioso e equilibrado.
Sim, Kant outra vez. :)
Bom dia a todos.
sexta-feira, maio 19, 2006
MORANGOS COM AÇUCAR... MAS AQUELE COLOMBIANO...
"Francisco Adam (o ‘Dino’ da série ‘Morangos com Açúcar’, em exibição na TVI) consumiu cocaína pouco tempo antes do acidente de automóvel em que perdeu a vida, no Domingo de Páscoa, 16 de Abril – e conduziu ainda sob o efeito da droga. Segundo fontes médicas que tiveram acesso aos resultados dos exames toxicológicos ao cadáver, os especialistas do Instituto de Medicina Legal, em Lisboa, encontraram cristais de cocaína (erytbronxylon, o nome científico) em “quantidade relativamente significativa”.As análises revelaram ainda no corpo de ‘Dino’ vestígios de anfetaminas e cafeína – estimulantes que habitualmente são adicionados à cocaína para aumentar o volume e potenciar os efeitos."
É estranho que recomece as hostilidades com algo assim, mas sinceramente é uma oportunidade de dizer alguma coisa sobre este assunto. Sobre aquilo em que assenta o que é comunicado aos jovens, o que lá chega, o que eles entendem como sendo a selecção do que é relevante na sociedade contemporânea. Não que eu tenha qualquer ideia, mas algumas coisas lançam-me na perplexidade de quem observa os fenómenos com um juízo subjectivo e comparativo.
Eu vi a série em questão duas ou três vezes. A indigência das tramas, dos diálogos e das representações era de tal forma incomodativa que me via obrigado a mudar de canal constantemente, como se evitasse a confrontação com uma cena embaraçosa. Mas tentei apenas perceber um pouco o fenómeno que ao contrário do que se pensa não arrasta só pré-adolescentes, mas gente com já bem mais que duas décadas de vida.
As miúdas são giras, os miúdos têm pinta, e tudo se passa numa espécie de abordagem enfeitada onde o suposto glamour dos petizes é levado ao extremo. Dir-se-ia o baywatch dos pequeninos, ou uma pequena agência de modelos nos subúrbios. Os enredos assentam no lado mais soft das problemáticas que envolvem estes jovens, com a dose suficiente de sexo subentendido para deixar a malta na ponta do assento.
Há quem diga que é para os miúdos, mas se há coisa que me irrita é esta noção de que discurso para os mais jovens tem de assentar em abordagens primárias, porque são todos muito burros e não entendem senão coisas prontas a comer. Chiça, se isso não é subestimar as pessoas, não sei o que será. Existem séries para jovens com alguma qualidade, pelo menos com algum conteúdo, que diabo. The O.C., ou mesmo o mais juvenil Dawson's Creek pelo menos faziam os miúdos e mesmo muitos graúdos, pensar um bocadito. E não deixavam de ser também entretenimento.
Mas parece que afinal o ídolo tem pés de barro. Espetou-se a alta velocidade porque vinha pedrado até à quinta casa. Que é um direito que lhe assistia, como a qualquer ser livre. Mas a glorificação que se fez, com direito a capa na Visão, escapa-se-me. Era um ícone de juventude e boa disposição que se perdia, que morria de uma forma reservada às supostas lendas. Mas afinal é apenas um miúdo que cometeu erros, foi burro, imprudente e pagou por isso com a vida, como tantos neste país. Aqueles que anonimamente ficam esquecidos na lógica das estatísticas, e que talvez percam a vida em circunstâncias nas quais a responsabilidade nãos lhes é tão atribuível.
O ídolo dos miúdos e alguns graúdos mostrou a mortalidade de que somos todos feitos, a imperfeição, a sujeição a más escolhas e erros que nos fazem humanos. Talvez isso transforme e leve o séquito de seguidores a pensar na densidade subjectiva de que é feita a vida, e isso contamine um pouco a superficialidade com que é contada a história daquele que é o maior fenómeno de popularidade televisiva da actualidade. Talvez a morte do actor sirva para reflectir, ou talvez seja algo que se varre para debaixo do tapete, num cenário que se quer leve e mercantilista. Servirá com certeza como exemplo do tipo de escolhas que fazemos, como talvez a pior forma de pedagogia, demonstrada por uma vida de alguém que até poderia vir a ter futuro como actor, já que pelo que me dizem, era dos poucos com algum talento no meio de miúdos com capacidade para pouco mais que regurgitar textos pouco inspirados, e mostrar os corpos perfeitos de juventudes pouco complicadas.
É pena que certas coisas tenham de ser vistas assim.
Francisco Adam inspirou muitos e mostrou-lhes da pior forma o cuidado que devemos ter ao errar. Por vezes o azar bate-nos mesmo á porta, e vem completamente sem açúcar.
Talvez essa seja uma outra perspectiva a mostrar. O grão de areia no herói malogrado, que mostra que a vida não é feita apenas de uma óptica.
Mas adiante com o açúcar que é Verão.
De volta.
Até já.
quinta-feira, maio 11, 2006
quarta-feira, maio 03, 2006
segunda-feira, abril 10, 2006
Amigos.
Porque existem algumas almas caridosas que até dão um pulo aqui, e na sua infinita generosidade, lêem o que aqui é escrito, venho reiterar um pedido de desculpas, e dizer que apesar da Primavera ser um período onde as coisas iniciam o seu crescimento, esta é uma altura em que o blog irá parar durante algum tempo.
Chamei-lhe intervalo, mas devido a contingências variadas, não sei por quanto tempo será a paragem, ou se esta sera definitiva.
À semelhança do que me tem acontecido previamente, este intervalo pode acabar já na semana que vem. Ou pode levar dois meses, ou meio ano, ou o restante da minha vida adulta.
Seja como for, queria apenas dizer que aos que me leram e lêem, todos os agradecimentos não são suficientes, e que espero voltar assim que seja possível.
Este diário viciou-me.
E como tal, espero voltar a ele, quando muito do que o motivou retorne, e muito do que o sustenta, se revele.
Obrigado e até já.
Forte Abraço
SK
segunda-feira, abril 03, 2006
No outro dia encontrei um velho amigo. Falámos durante algum tempo, já que havia passado cerca de uma década desde que o vira pela ultima vez. E ele falou-me, ou melhor recordou-me de algo que se passou na vila onde vivemos durante a maior parte da nossa adolescência, e onde vivi até sair de casa dos meus pais.
Isto, foi inventado, mas é baseado em factos que são demasiado reais para o meu gosto.
Deve haver um Pita em todos os agrupamentos de miúdos, em todos os bairros ou vilas ou seja lá que espécie de unidade habitacional estejamos a pensar. Se não o conhecemos pessoalmente, ouvimos falar dele, ou daquilo que fez, e rezamos para que quando passe por nós escolha o passeio do lado contrário.
O Pita, ou “Cara-de-cavalo” tinha uma tendência irreprimível para fazer passar mal os outros, especialmente aqueles a quem conseguisse dominar. Foi o primeiro miúdo a ter uma Yamaha DTLC, e por vezes entretinha-se a empurrar os outros garotos das bicicletas abaixo, fugindo a grande velocidade na sua mota.
O “Pita” ganhara o cognome de cara de cavalo devido a uma conjugação de circunstâncias que não se podem designar como felizes, mas que lhe iam servindo alguns propósitos. Era um miúdo enorme e fortíssimo, que nem um cavalo, dissera alguém uma vez, e tinha o maxilar superior proeminente, ultrapassando sensivelmente o inferior. Estas duas características conjugadas com uma antipatia generalizada criaram um epíteto dotado de uma perenidade inquebrantável. No entanto essa designação só circulava no circuito alternativo, porque ninguém se atrevia a proferir essa alcunha na presença do seu dono.
O Pita reinava soberano, seguido de perto pelo seu pequeno séquito de rémoras que ansiavam gulosamente pelas sobras do dinheiro que ele tinha e do poder que impunha. A alcunha nunca era proferida junto na sua presença ou de algum dos seus sequazes. Esse séquito era composto pelas raparigas que se haviam cansado das bicicletas de mudanças e babavam para cima da motorizada, e os “amigos” que o temiam mas que de alguma forma lhe davam cobertura nas asneiradas que faziam, para além de irem aproveitando as sobras femininas que ele descartava. Normalmente as rejeitadas continuavam no grupo, como uma espécie de despojo ambulante, um factor de prestígio para a corte e consideradas disponíveis para os seguidores masculinos. A maioria iludira-se simplesmente com uma ideia de popularidade visível, e mesmo que arrependidas, consideravam a alternativa como algo cem vezes pior. Era a velha história tantas vezes vista e repetida. Antes visível a todo o custo, que invisível a nenhum. A noção de ter para onde ir todos os dias junto a algumas pessoas era preferível a uma espécie de caminhada orgulhosamente só em meio aqueles que nunca entenderiam essa independência. Em certa medida, tudo fariam para a destruir, como de resto já haviam feito.
Rei na corte da rua e em casa, o Pita teve uma infância e principalmente uma adolescência invulgar. Num período no qual era comum passar maus bocados, perdidos entre a sensação de impotência e a ausência de capacidade gestora dos mais variados sentimentos, ele tinha acesso a tudo aquilo pelo qual os miúdos lutam fervorosamente.
Como todos os monarcas absolutos, o exercício do poder quotidiano começou a enfadá-lo. Era um miúdo inteligente, e apesar da tendência para os distúrbios, era um aluno razoável, e só não era brilhante porque simplesmente não queria. Mas essa inteligência depressa o levava a demonstrar os esquemas simples, e o que acontecia de alguma forma não o satisfazia. A tortura aos mais fracos era uma actividade que raramente o cansava, mas ainda assim não chegava.
O passo seguinte para a batalha contra o tédio surgia na forma do não convencional. À parte do espancamento ocasional aos opositores, a erva e o haxixe surgiram rapidamente. O consumo era de tal forma astronómico que os momentos sóbrios eram cada vez mais raros. Caiu duas vezes de mota, mas a sorte impediu-o de sofrer mais que arranhões profundos.
Após dois anos de tanta actividade, surgiu a cocaína, que coincidiu com a maioridade. O pai ofereceu-lhe um jipe preto, cheio de cavalos no motor e rodas altas, enchidas a jantes de raios brilhantes. A mota, que entretanto se tornara uma Honda 900 RR ( Fireblade) deu lugar ao carro, e as coisas tomaram mais ou menos o mesmo caminho. Acho que no fundo se tratava de uma evolução natural no percurso do Pita.
Durante este período surgiram algumas das piores histórias acerca dele. Coisas escabrosas, que alguns qualificaram como inveja ou má vontade, mas que muitos apontavam como previsível dado o historial. Como mais tarde se viria a saber, havia pelo menos um tom de verdade a tudo isto.
Falava-se no caso do Estádio Nacional, onde ele supostamente teria violado uma rapariga de vinte anos com quem saíra, deixando-a no meio da mata do Jamor às três e meia da manhã. Ela aparentemente não fizera queixa, e ninguém sabe muito bem porquê. Para mim era óbvio.
Comentavam-se as rixas constantes e o caso da queimadura de cigarro na testa. Falava-se no incêndio da sala de teatro da vila. E o nome dele aparecia sempre relacionado, como um murmúrio do vento frio em meio a qualquer cenário de desolação.
No vigésimo sétimo aniversário, já cidadão da Republica Federal dos Speeds e anfetaminas, o Pita resolveu experimentar o novo jipe que lhe fora oferecido de uma forma diferente. Após cerca de quatro horas numa discoteca de Cascais, saiu para a Marginal e com o pé pesado e vista toldada começou a conduzir numa das faixas destinadas ao transito que circulava no sentido contrário. No fundo era uma espécie de brincadeira que lembrava aqueles filmes em que os ladrões fogem pelas ruas em contra mão, para despistar os polícias. Normalmente é muita chapa partida mas nunca ninguém se aleija, pelo menos não de forma permanente.
Mas filmes à parte, a sorte, ou perícia, já nem sei, durou cerca de vinte minutos. Às cinco e dez da manhã o jipe bateu de frente com uma carrinha que circulava na sua faixa de rodagem. Ao contrário dos filmes, o resultado foi bastante mais grotesco.
Uma das raparigas do banco de trás foi projectada com uma tal violência que atravessou o vidro frontal do jipe e, já morta, acabou por esmagar a cabeça do condutor do outro carro. Os bombeiros encontraram pedaços de ambas as cabeças por todo o carro. Ambos tiveram morte imediata, num exercício doentio de compaixão que a realidade acabaria por ter com eles.
A outra foi cuspida pela janela aberta do lado direito, voando cerca de vinte metros e espetando-se no asfalto com uma tal violência que não havia um osso do corpo que não estivesse partido. Calculo que tenha morrido numa agonia lenta, mas há certas coisas que talvez seja melhor nem imaginar.
O rapaz sentado no lugar do morto fora minimamente diligente e apertara o cinto. No entanto fora tal a violência do impacto, ( mais no lado direito do jipe), que o metal invadiu o habitáculo, esmagando tudo quase até à bacia. O rapaz morreria por perda de sangue, já que uma das artérias se abrira como uma vagem madura atacada por um cutelo.
A pendura da carrinha fora submetida a várias fracturas nas pernas e algumas vértebras da coluna, mas sobrevivera.
O Pita só não saiu do automóvel porque o impacto lhe partiu o fémur esquerdo. Tinha a cara cortada devido aos cacos, mas tirando isso, nem sequer a consciência perdera. O que no fundo seria o pior para ele, e imagino eu que para qualquer pessoa. Ficara preso no carro, vendo a morte à sua frente e ao lado, ao mesmo tempo que a dor lhe comia a perna esquerda, a zona pélvica e a cara cortada pelos cacos.
O resto é história contada nos jornais. Foi acusado da prática de três crimes de homicídio simples e dois de ofensas à integridade física agravadas. A panóplia de substâncias que lhe encontraram no corpo, juntamente com a lenga-lenga que balbuciava entre dentes e choro convulsivo, pedindo desculpa a toda a gente, repetindo constantemente tratar-se de um acidente, não ajudaram muito à festa. Mas o que o lixou completamente acabou por ser o testemunho temeroso de dois amigos, também eles autores de acidentes na mesma estrada naquela mesma noite. O que fora admitido como um rumor, veio a confirmar-se testemunhalmente, voltando a fazer manchetes meses depois.
Ao que parece, o Pita tinha uns amigos tão ou mais truculentos do que ele próprio, e que se entediavam com a mesma facilidade. Entre conversas em frente a copos cheios e as drageias de várias cores que saltitavam das algibeiras para a boca, criou-se uma espécie de bolsa de apostas, que consistia em coisas terrivelmente simples, das quais alguns pormenores parecem demencialmente fantasiosos, para dizer o mínimo.
Uma das mais simples consistia precisamente na condução em sentido contrário em qualquer estrada, sendo que a parada subia sempre que a dificuldade do percurso ou a velocidade dos outros veículos fosse maior. Sim, esta alimária frequentava desde caminhos de cabras a auto-estradas, fazendo uma espécie de deslizamento serpenteante até que a aposta se considerasse ganha ou alguém levasse com um deles em cima. Ao que parece, o choque seguido de sobrevivência tinha um bónus extra, isto obviamente se a aposta fosse cumprida. Gente com queda para a diversão original, diria eu.
Outra das habilidades do grupo de apostadores, e devo dizer, esta é a minha preferida, tinha duas modalidades. A modalidade estática e a dinâmica. Eram igualmente estúpidas e perigosas, embora a segunda o fosse ainda mais. Para mim era o equivalente a fazer malabarismo com três secadores de cabelos ligados, enquanto se toma banho de espuma.
A primeira, vulgo estática, como deveriam estar os neurónios destes meninos, consistia em colocar o automóvel na passagem de nível, perpendicular aos carris. O objectivo era tirar o da frente do comboio o mais tarde possível, evitando o choque mortal de centenas de toneladas de aço em movimento. Quem conseguisse sair em último lugar ganharia o dinheiro e o que mais estivesse envolvido no esquema da aposta. Normalmente vinha em forma de pó, e o resto são redundâncias às quais me esquivarei.
A segunda consistia no mesmo principio, mas era, como já disse, ainda mais perigosa e imbecil. Os ditos apostadores iniciavam uma corrida com o comboio, normalmente na estrada adjacente que a certa altura se cruzaria com a linha na forma de uma passagem de nível. A ideia era atravessar a passagem de nível antes que o comboio lá chegasse, fazendo uma curva fechada à frente deste. Era necessário um cálculo impressionante, uma vez que a ideia era passar mesmo à frente do engenho ferroviário, descrevendo uma curva em U e conseguindo sair ileso.
Contam-se histórias de carros esmigalhados, de corpos cortados literalmente ao meio e lançados à distância e outros para além de qualquer reconhecimento senão pelo registo da arcada dentária. Mas nunca se falavam dos sobreviventes, que desapareciam sem deixar rastro, como fantasmas oriundos da própria morte causada pelo erro de cálculo. Se não existiam vítimas, tudo o que sobrava eram as histórias de maquinistas contadas no fim dos turnos de madrugada, e que eram tomadas em grande parte como a parcela de mito urbano reservado aos comboios.
Depois deste acidente e três outros na mesma noite, a investigação começou a fazer-se à séria. A Polícia Judiciária já perscrutara estes rumores durante cerca de um ano, mas o planeamento era muito bem feito e discreto, o que implicava uma reorganização de prioridades. No fundo, havia mais que fazer e supostamente mais premente.
Acontece que o pequeno surto de sustos e algumas mortes veio para os jornais, e quando a imprensa põe a boca no trombone, as coisas começam rapidamente a acontecer. Aqui não foi excepção, tendo o Procurador da altura dado um discurso vigoroso e ameaçador prometendo apanhar os culpados.
O “acidente” do Pita acabava por dar uma visibilidade macabra a um fenómeno que se começou a desdobrar como um boneco de “origami”. As investigações foram intensificadas, muitas pessoas interrogadas, algumas presas, e sobretudo começou a levantar-se o véu, ou deveria dizer a mortalha, que escondia uma história estranha e radicada numa espécie de desejo de fuga do convencional que chocou o país durante meia semana. Dois dias depois alguém enterrara uma miúda viva depois de a violar, e a atenção popular mudou rumo.
O procurador da República encarregado do caso não conseguiu provar a qualificação nos crimes de homicídio, embora se tivesse empenhado muito. O juiz não foi na conversa, embora eu cá desejasse que ele tivesse ido.
Do outro lado o defensor, um advogado de alta-roda com um defeito na pronúncia (vulgo sopinha de massa), demonstrou grande labor, mas também não conseguiu colar o dístico da negligência na prática dos factos.
A decisão acabou por ser achada no centro. Os vários testemunhos de ocupantes de veículos que seguiam na mesma faixa e assistiram a tudo, somados ao cocktail químico que lhe encontraram no sangue, e ao desvelar de toda a operação de apostas ilegais deixou pouco espaço para clemência na mente e na apreciação técnica e jurídica do colectivo de juízes da Boa-Hora.
O Pita foi condenado pela prática de crimes de homicídio simples e ofensa à integridade física grave. Assim, dito de chofre, deve ser como levar um murro no estômago dado por uma pá de escavadeira. A vida inteira vai ao ar, num instante, traduzida em algumas palavras e anos de arrependimento inútil. Pelo menos é essa a ideia que me fica.
Eu não estava lá para ver, mas o o meu amigo contou-me que alguém vira e lhe dissera que o Pita começou a chorar e soluçar como um catraio de cinco anos. Os pais, destroçados, limitavam-se a olhar enquanto ele era levado para o carro celular, provavelmente corroídos por algum senso de responsabilidade que só muito indirectamente tinham.
Gabriel contava esta história, como todas as outras, com um senso analítico muito próprio. E levantava questões, das quais eu memorizei a seguinte.
Existe um preceito no código penal que diz:
“Artigo 132º
Homicídio qualificado
1 - Se a morte for produzida em circunstâncias que revelem especial censurabilidade ou perversidade, o agente é punido com pena de prisão de 12 a 25 anos.
2 - É susceptível de revelar a especial censurabilidade ou perversidade a que se refere o número anterior, entre outras, a circunstância de o agente:
a) (…)
b)(…)
c) (…)
d) (…)Ser determinado por avidez, pelo prazer de matar ou de causar sofrimento, para excitação ou para satisfação do instinto sexual ou por qualquer motivo torpe ou fútil;”
(…)
Como vos disse acima, ele nunca chegou a ser condenado por homicídio qualificado. Mas pergunto-me a mim, em completa e até dolorosa confusão, o que significa aquilo que aconteceu naquela noite na marginal Lisboa-Cascais?
Olhando para o historial do Pita, e nós conhecíamo-lo bem, seria fácil chegar a uma conclusão. Um dos ferrolhos que segurava a porta mental do disparate maligno saltara, e assim se acha a justificação para uma clara vontade de provocar o que sucedeu. A expressão “causar sofrimento” parece-me perfeitamente adequada. Sinceramente eu preferiria pensar que tudo o que sucedera, tendo em conta a evolução dele, se deveria a qualquer problema de infância ou desregulação social ou mental. Uma vez obtida essa conclusão, tornar-se-ia mais fácil explicar algumas coisas.
Eu no entanto não sei bem o que pensar. Olhei directamente para a expressão dele durante anos e aquilo que mais me assustou não foi uma maldade qualquer a cabriolar nas íris coloridas. Não havia nada espelhado na expressão dita normal, e talvez se não fosse pelos actos sobejamente conhecidos, olhariam para ele como uma pessoa de semblante ausente, perdido.
Aquilo que mais me assustou é que não via nada naqueles olhos. A expressão não cintilava, não havia nada que pudesse definir o olhar senão uma espécie de desinteresse profundo e total misturado com um pequeno desdém. Como alguém que mata uma mosca que acaba de entrar na sala ou derruba um pacote de açúcar no chão limpo.
Ele estava lá, mas sinceramente parece que ao mesmo tempo já havia desaparecido haveria provavelmente muito tempo. As reacções violentas eram imensas, é verdade, mas era na dita normalidade que tudo isto se via. O que no fundo não me faz estranhar a imensa vontade que o levaria a procurar fazer sempre aquilo que não estava à mão, ou pelo menos não deveria.
Se era mal aquilo que eu via? Se é disso que falo? Sinceramente não sei. O meu amigo diz-me que sim. Que é uma modalidade. E reforça ainda que tem certeza porque já viu uma representação de mal puro bem de frente, e que o Pita era apenas uma pequena gradação.
Até hoje não sei o que ele quis dizer com aquilo, mas querem saber uma coisa? Acho que acredito nele. Quando o vi no banco dos arguidos, tive uma espécie de certeza empírica. E nem quero imaginar o que o meu amigo clama ter visto.
O Pita, ou “Cara-de-cavalo” tinha uma tendência irreprimível para fazer passar mal os outros, especialmente aqueles a quem conseguisse dominar. Foi o primeiro miúdo a ter uma Yamaha DTLC, e por vezes entretinha-se a empurrar os outros garotos das bicicletas abaixo, fugindo a grande velocidade na sua mota.
O “Pita” ganhara o cognome de cara de cavalo devido a uma conjugação de circunstâncias que não se podem designar como felizes, mas que lhe iam servindo alguns propósitos. Era um miúdo enorme e fortíssimo, que nem um cavalo, dissera alguém uma vez, e tinha o maxilar superior proeminente, ultrapassando sensivelmente o inferior. Estas duas características conjugadas com uma antipatia generalizada criaram um epíteto dotado de uma perenidade inquebrantável. No entanto essa designação só circulava no circuito alternativo, porque ninguém se atrevia a proferir essa alcunha na presença do seu dono.
O Pita reinava soberano, seguido de perto pelo seu pequeno séquito de rémoras que ansiavam gulosamente pelas sobras do dinheiro que ele tinha e do poder que impunha. A alcunha nunca era proferida junto na sua presença ou de algum dos seus sequazes. Esse séquito era composto pelas raparigas que se haviam cansado das bicicletas de mudanças e babavam para cima da motorizada, e os “amigos” que o temiam mas que de alguma forma lhe davam cobertura nas asneiradas que faziam, para além de irem aproveitando as sobras femininas que ele descartava. Normalmente as rejeitadas continuavam no grupo, como uma espécie de despojo ambulante, um factor de prestígio para a corte e consideradas disponíveis para os seguidores masculinos. A maioria iludira-se simplesmente com uma ideia de popularidade visível, e mesmo que arrependidas, consideravam a alternativa como algo cem vezes pior. Era a velha história tantas vezes vista e repetida. Antes visível a todo o custo, que invisível a nenhum. A noção de ter para onde ir todos os dias junto a algumas pessoas era preferível a uma espécie de caminhada orgulhosamente só em meio aqueles que nunca entenderiam essa independência. Em certa medida, tudo fariam para a destruir, como de resto já haviam feito.
Rei na corte da rua e em casa, o Pita teve uma infância e principalmente uma adolescência invulgar. Num período no qual era comum passar maus bocados, perdidos entre a sensação de impotência e a ausência de capacidade gestora dos mais variados sentimentos, ele tinha acesso a tudo aquilo pelo qual os miúdos lutam fervorosamente.
Como todos os monarcas absolutos, o exercício do poder quotidiano começou a enfadá-lo. Era um miúdo inteligente, e apesar da tendência para os distúrbios, era um aluno razoável, e só não era brilhante porque simplesmente não queria. Mas essa inteligência depressa o levava a demonstrar os esquemas simples, e o que acontecia de alguma forma não o satisfazia. A tortura aos mais fracos era uma actividade que raramente o cansava, mas ainda assim não chegava.
O passo seguinte para a batalha contra o tédio surgia na forma do não convencional. À parte do espancamento ocasional aos opositores, a erva e o haxixe surgiram rapidamente. O consumo era de tal forma astronómico que os momentos sóbrios eram cada vez mais raros. Caiu duas vezes de mota, mas a sorte impediu-o de sofrer mais que arranhões profundos.
Após dois anos de tanta actividade, surgiu a cocaína, que coincidiu com a maioridade. O pai ofereceu-lhe um jipe preto, cheio de cavalos no motor e rodas altas, enchidas a jantes de raios brilhantes. A mota, que entretanto se tornara uma Honda 900 RR ( Fireblade) deu lugar ao carro, e as coisas tomaram mais ou menos o mesmo caminho. Acho que no fundo se tratava de uma evolução natural no percurso do Pita.
Durante este período surgiram algumas das piores histórias acerca dele. Coisas escabrosas, que alguns qualificaram como inveja ou má vontade, mas que muitos apontavam como previsível dado o historial. Como mais tarde se viria a saber, havia pelo menos um tom de verdade a tudo isto.
Falava-se no caso do Estádio Nacional, onde ele supostamente teria violado uma rapariga de vinte anos com quem saíra, deixando-a no meio da mata do Jamor às três e meia da manhã. Ela aparentemente não fizera queixa, e ninguém sabe muito bem porquê. Para mim era óbvio.
Comentavam-se as rixas constantes e o caso da queimadura de cigarro na testa. Falava-se no incêndio da sala de teatro da vila. E o nome dele aparecia sempre relacionado, como um murmúrio do vento frio em meio a qualquer cenário de desolação.
No vigésimo sétimo aniversário, já cidadão da Republica Federal dos Speeds e anfetaminas, o Pita resolveu experimentar o novo jipe que lhe fora oferecido de uma forma diferente. Após cerca de quatro horas numa discoteca de Cascais, saiu para a Marginal e com o pé pesado e vista toldada começou a conduzir numa das faixas destinadas ao transito que circulava no sentido contrário. No fundo era uma espécie de brincadeira que lembrava aqueles filmes em que os ladrões fogem pelas ruas em contra mão, para despistar os polícias. Normalmente é muita chapa partida mas nunca ninguém se aleija, pelo menos não de forma permanente.
Mas filmes à parte, a sorte, ou perícia, já nem sei, durou cerca de vinte minutos. Às cinco e dez da manhã o jipe bateu de frente com uma carrinha que circulava na sua faixa de rodagem. Ao contrário dos filmes, o resultado foi bastante mais grotesco.
Uma das raparigas do banco de trás foi projectada com uma tal violência que atravessou o vidro frontal do jipe e, já morta, acabou por esmagar a cabeça do condutor do outro carro. Os bombeiros encontraram pedaços de ambas as cabeças por todo o carro. Ambos tiveram morte imediata, num exercício doentio de compaixão que a realidade acabaria por ter com eles.
A outra foi cuspida pela janela aberta do lado direito, voando cerca de vinte metros e espetando-se no asfalto com uma tal violência que não havia um osso do corpo que não estivesse partido. Calculo que tenha morrido numa agonia lenta, mas há certas coisas que talvez seja melhor nem imaginar.
O rapaz sentado no lugar do morto fora minimamente diligente e apertara o cinto. No entanto fora tal a violência do impacto, ( mais no lado direito do jipe), que o metal invadiu o habitáculo, esmagando tudo quase até à bacia. O rapaz morreria por perda de sangue, já que uma das artérias se abrira como uma vagem madura atacada por um cutelo.
A pendura da carrinha fora submetida a várias fracturas nas pernas e algumas vértebras da coluna, mas sobrevivera.
O Pita só não saiu do automóvel porque o impacto lhe partiu o fémur esquerdo. Tinha a cara cortada devido aos cacos, mas tirando isso, nem sequer a consciência perdera. O que no fundo seria o pior para ele, e imagino eu que para qualquer pessoa. Ficara preso no carro, vendo a morte à sua frente e ao lado, ao mesmo tempo que a dor lhe comia a perna esquerda, a zona pélvica e a cara cortada pelos cacos.
O resto é história contada nos jornais. Foi acusado da prática de três crimes de homicídio simples e dois de ofensas à integridade física agravadas. A panóplia de substâncias que lhe encontraram no corpo, juntamente com a lenga-lenga que balbuciava entre dentes e choro convulsivo, pedindo desculpa a toda a gente, repetindo constantemente tratar-se de um acidente, não ajudaram muito à festa. Mas o que o lixou completamente acabou por ser o testemunho temeroso de dois amigos, também eles autores de acidentes na mesma estrada naquela mesma noite. O que fora admitido como um rumor, veio a confirmar-se testemunhalmente, voltando a fazer manchetes meses depois.
Ao que parece, o Pita tinha uns amigos tão ou mais truculentos do que ele próprio, e que se entediavam com a mesma facilidade. Entre conversas em frente a copos cheios e as drageias de várias cores que saltitavam das algibeiras para a boca, criou-se uma espécie de bolsa de apostas, que consistia em coisas terrivelmente simples, das quais alguns pormenores parecem demencialmente fantasiosos, para dizer o mínimo.
Uma das mais simples consistia precisamente na condução em sentido contrário em qualquer estrada, sendo que a parada subia sempre que a dificuldade do percurso ou a velocidade dos outros veículos fosse maior. Sim, esta alimária frequentava desde caminhos de cabras a auto-estradas, fazendo uma espécie de deslizamento serpenteante até que a aposta se considerasse ganha ou alguém levasse com um deles em cima. Ao que parece, o choque seguido de sobrevivência tinha um bónus extra, isto obviamente se a aposta fosse cumprida. Gente com queda para a diversão original, diria eu.
Outra das habilidades do grupo de apostadores, e devo dizer, esta é a minha preferida, tinha duas modalidades. A modalidade estática e a dinâmica. Eram igualmente estúpidas e perigosas, embora a segunda o fosse ainda mais. Para mim era o equivalente a fazer malabarismo com três secadores de cabelos ligados, enquanto se toma banho de espuma.
A primeira, vulgo estática, como deveriam estar os neurónios destes meninos, consistia em colocar o automóvel na passagem de nível, perpendicular aos carris. O objectivo era tirar o da frente do comboio o mais tarde possível, evitando o choque mortal de centenas de toneladas de aço em movimento. Quem conseguisse sair em último lugar ganharia o dinheiro e o que mais estivesse envolvido no esquema da aposta. Normalmente vinha em forma de pó, e o resto são redundâncias às quais me esquivarei.
A segunda consistia no mesmo principio, mas era, como já disse, ainda mais perigosa e imbecil. Os ditos apostadores iniciavam uma corrida com o comboio, normalmente na estrada adjacente que a certa altura se cruzaria com a linha na forma de uma passagem de nível. A ideia era atravessar a passagem de nível antes que o comboio lá chegasse, fazendo uma curva fechada à frente deste. Era necessário um cálculo impressionante, uma vez que a ideia era passar mesmo à frente do engenho ferroviário, descrevendo uma curva em U e conseguindo sair ileso.
Contam-se histórias de carros esmigalhados, de corpos cortados literalmente ao meio e lançados à distância e outros para além de qualquer reconhecimento senão pelo registo da arcada dentária. Mas nunca se falavam dos sobreviventes, que desapareciam sem deixar rastro, como fantasmas oriundos da própria morte causada pelo erro de cálculo. Se não existiam vítimas, tudo o que sobrava eram as histórias de maquinistas contadas no fim dos turnos de madrugada, e que eram tomadas em grande parte como a parcela de mito urbano reservado aos comboios.
Depois deste acidente e três outros na mesma noite, a investigação começou a fazer-se à séria. A Polícia Judiciária já perscrutara estes rumores durante cerca de um ano, mas o planeamento era muito bem feito e discreto, o que implicava uma reorganização de prioridades. No fundo, havia mais que fazer e supostamente mais premente.
Acontece que o pequeno surto de sustos e algumas mortes veio para os jornais, e quando a imprensa põe a boca no trombone, as coisas começam rapidamente a acontecer. Aqui não foi excepção, tendo o Procurador da altura dado um discurso vigoroso e ameaçador prometendo apanhar os culpados.
O “acidente” do Pita acabava por dar uma visibilidade macabra a um fenómeno que se começou a desdobrar como um boneco de “origami”. As investigações foram intensificadas, muitas pessoas interrogadas, algumas presas, e sobretudo começou a levantar-se o véu, ou deveria dizer a mortalha, que escondia uma história estranha e radicada numa espécie de desejo de fuga do convencional que chocou o país durante meia semana. Dois dias depois alguém enterrara uma miúda viva depois de a violar, e a atenção popular mudou rumo.
O procurador da República encarregado do caso não conseguiu provar a qualificação nos crimes de homicídio, embora se tivesse empenhado muito. O juiz não foi na conversa, embora eu cá desejasse que ele tivesse ido.
Do outro lado o defensor, um advogado de alta-roda com um defeito na pronúncia (vulgo sopinha de massa), demonstrou grande labor, mas também não conseguiu colar o dístico da negligência na prática dos factos.
A decisão acabou por ser achada no centro. Os vários testemunhos de ocupantes de veículos que seguiam na mesma faixa e assistiram a tudo, somados ao cocktail químico que lhe encontraram no sangue, e ao desvelar de toda a operação de apostas ilegais deixou pouco espaço para clemência na mente e na apreciação técnica e jurídica do colectivo de juízes da Boa-Hora.
O Pita foi condenado pela prática de crimes de homicídio simples e ofensa à integridade física grave. Assim, dito de chofre, deve ser como levar um murro no estômago dado por uma pá de escavadeira. A vida inteira vai ao ar, num instante, traduzida em algumas palavras e anos de arrependimento inútil. Pelo menos é essa a ideia que me fica.
Eu não estava lá para ver, mas o o meu amigo contou-me que alguém vira e lhe dissera que o Pita começou a chorar e soluçar como um catraio de cinco anos. Os pais, destroçados, limitavam-se a olhar enquanto ele era levado para o carro celular, provavelmente corroídos por algum senso de responsabilidade que só muito indirectamente tinham.
Gabriel contava esta história, como todas as outras, com um senso analítico muito próprio. E levantava questões, das quais eu memorizei a seguinte.
Existe um preceito no código penal que diz:
“Artigo 132º
Homicídio qualificado
1 - Se a morte for produzida em circunstâncias que revelem especial censurabilidade ou perversidade, o agente é punido com pena de prisão de 12 a 25 anos.
2 - É susceptível de revelar a especial censurabilidade ou perversidade a que se refere o número anterior, entre outras, a circunstância de o agente:
a) (…)
b)(…)
c) (…)
d) (…)Ser determinado por avidez, pelo prazer de matar ou de causar sofrimento, para excitação ou para satisfação do instinto sexual ou por qualquer motivo torpe ou fútil;”
(…)
Como vos disse acima, ele nunca chegou a ser condenado por homicídio qualificado. Mas pergunto-me a mim, em completa e até dolorosa confusão, o que significa aquilo que aconteceu naquela noite na marginal Lisboa-Cascais?
Olhando para o historial do Pita, e nós conhecíamo-lo bem, seria fácil chegar a uma conclusão. Um dos ferrolhos que segurava a porta mental do disparate maligno saltara, e assim se acha a justificação para uma clara vontade de provocar o que sucedeu. A expressão “causar sofrimento” parece-me perfeitamente adequada. Sinceramente eu preferiria pensar que tudo o que sucedera, tendo em conta a evolução dele, se deveria a qualquer problema de infância ou desregulação social ou mental. Uma vez obtida essa conclusão, tornar-se-ia mais fácil explicar algumas coisas.
Eu no entanto não sei bem o que pensar. Olhei directamente para a expressão dele durante anos e aquilo que mais me assustou não foi uma maldade qualquer a cabriolar nas íris coloridas. Não havia nada espelhado na expressão dita normal, e talvez se não fosse pelos actos sobejamente conhecidos, olhariam para ele como uma pessoa de semblante ausente, perdido.
Aquilo que mais me assustou é que não via nada naqueles olhos. A expressão não cintilava, não havia nada que pudesse definir o olhar senão uma espécie de desinteresse profundo e total misturado com um pequeno desdém. Como alguém que mata uma mosca que acaba de entrar na sala ou derruba um pacote de açúcar no chão limpo.
Ele estava lá, mas sinceramente parece que ao mesmo tempo já havia desaparecido haveria provavelmente muito tempo. As reacções violentas eram imensas, é verdade, mas era na dita normalidade que tudo isto se via. O que no fundo não me faz estranhar a imensa vontade que o levaria a procurar fazer sempre aquilo que não estava à mão, ou pelo menos não deveria.
Se era mal aquilo que eu via? Se é disso que falo? Sinceramente não sei. O meu amigo diz-me que sim. Que é uma modalidade. E reforça ainda que tem certeza porque já viu uma representação de mal puro bem de frente, e que o Pita era apenas uma pequena gradação.
Até hoje não sei o que ele quis dizer com aquilo, mas querem saber uma coisa? Acho que acredito nele. Quando o vi no banco dos arguidos, tive uma espécie de certeza empírica. E nem quero imaginar o que o meu amigo clama ter visto.
Coincidências neste caso são assustadoras, e quando acabámos a conversa, ele afastou-se com um sorriso nostálgico e triste estampado no rosto. Isto aconteceu há um ano, e apesar de morarmos perto, nunca mais o encontrei. Fui à hemeroteca à procura deste caso nos jornais antigos, mas não tive sorte. Terá acontecido? Eu sei que sim. E pelos vistos não fui o único. Mas sempre me pareceu um mau sonho, ou um mito urbano. Outra voz trouxe-me apenas a comprovação de algo que incomoda tão mais em conceito que pela normalidade da ocorrência no nosso dia a dia. Sei que fui a tribunal. E vi aquele nada.
Espero encontrar o meu amigo novamente, para poder confirmar que estivemos realmente naquela sala.
Talvez os verdadeiros fantasmas sejam mesmos estes.
Os inesperada e tristemente reconhecidos.
Sinceramente.
Em todas as vidas existem perigos. Situações que se tornam melhor evitar. Uma espécie de local sagrado mas com o efeito contrário ao de um santuário. Uma zona a evitar de medo, sofrimento e dor.
Todos esses perigos desaconselham qualquer veleidade nos seus territórios. Coisas simples. Um supersticioso deve evitar escadas erguidas, ainda que julgue que não passará debaixo delas de forma alguma. Um ex-alcoólico deveria evitar sempre as feiras de vinhos e bebidas que ocasionalmente surgem nos hipermercados, mandando alguém às compras nessas alturas. Um vigarista não deverá jogar poker com cegos.
Todos esses perigos desaconselham qualquer veleidade nos seus territórios. Coisas simples. Um supersticioso deve evitar escadas erguidas, ainda que julgue que não passará debaixo delas de forma alguma. Um ex-alcoólico deveria evitar sempre as feiras de vinhos e bebidas que ocasionalmente surgem nos hipermercados, mandando alguém às compras nessas alturas. Um vigarista não deverá jogar poker com cegos.
E isto porque a escada pode cair. O golo para provar pode transformar-se na garrafa para recordar e nos litros para afogar. Um dos cegos pode ter marcado as cartas com relevos em Braille e ser irmão do dono do casino clandestino.
As coisas podem efectivamente correr mal.
Mas por vezes não há outra alternativa senão poder perder tudo.
Especialmente se nunca se ganhou nada...
Ia a passear no outro dia e olhei para a porta do complexo turístico, onde existiam uns quantos bares e restaurantes, e vi um casal de namorados em discussão. Ele esbracejava. Ela escondia o rosto por debaixo de uma pala feita pela mão e unia as mãos num simulacro de prece quando seria a sua vez de deitar argumentos. A discussão não parecia acintosa. Pelo menos não excessivamente. Não existiam aqueles olhares de surpresa perante algo que o outro nunca deveria ter dito. Nada de lágrimas, pelo menos até aquela altura. Os esgares eram de exasperação, mas não existia uma bastarda, filha da raiva e desprezo que emana da troca (falta) de ideias quando a discussão perde o sentido para ser apenas uma espécie de jogo do esqueleto no armário com as articulações inflamadas. Procura-se uma espécie de dor e vitória pequena na tentativa de magoar pela suposta exposição à incoerência. E a partir de uma certa altura perde-se toda a cautela e deferência, passando a ser esse o objectivo do jogo. Não leva muito tempo até que se perceba que não há resultado nenhum a atingir. Mas ainda assim avança-se, com arrependimentos surdos pelo meio, na constituição de pequenos crimes entre amantes e amores que quase sempre se tornam cicatrizes nodosas, feitas de sombra ou mesmo de ameaça, de sangue.
E depois recordei alguns casos que conheço.
E percebi quão terrível é a verdade da frequência.
De algo que acontece demasiadas vezes sob a capa de uma aparente normalidade...
Subscrever:
Mensagens (Atom)





